Nesta comunicação, a autora centra-se nas vicissitudes do processo psicológico subjacente à transição para a parentalidade nos casais estéreis e nas eventuais consequências psicológicas para o desenvolvimento psicológico dos filhos.
O diagnóstico de esterilidade vem interromper de forma abrupta, ou pelo menos dificultar, a continuidade na transmissão dos valores, das tradições e hábitos que dão coesão e asseguram a continuidade temporal da família e vem também actualizar a conflitualidade inerente à sexualidade infantil. São descritos três tempos da experiência parental durante o processo da procriação medicamente assistida (PMA) e as dificuldades que daí decorrem.
A PMA, quando tem êxito, pode ter um efeito reparador das falhas narcísicas sentidas pelos pais, mas também implica uma capacidade de adaptação a um grande número de tarefas que interferem com o processo normal de parentalização. Torna-se, por isso, importante, que, antes de um casal tomar uma decisão de se submeter à PMA, haja um tempo de elaboração das suas motivações, das suas dúvidas e do impacto que terá mais tarde no seu funcionamento, e tenha acesso a consultas de aconselhamento psicológico, se for considerado necessário.
Comunicação. Mesa-Redonda “Novos Processos de Reprodução, Novas Parentali-dades”. XX Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Lisboa, 2007.
Psicanalista. Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Num artigo recente de revisão crítica da literatura, Hélène Lazarouth(3) conclui que as crianças nascidas pelos vários métodos de procriação medicamente assistida (PMA), para além de serem saudáveis fisicamente, apresentam um desenvolvimento mental e emocional normal e nalguns estudos verificou-se que mantinham relações ricas, afectivas e de boa qualidade com os seus pais.
A maior parte das investigações citadas referem-se a estudos longitudinais que se prolongam até à idade escolar e mesmo à adolescência e que se realizaram em países tão diversos como Israel, Taiwan, E.U.A. e vários países europeus. Ficaram excluídas do estudo de revisão as mães portadoras e as crianças que crescem em famílias atípicas.
Embora se possa pôr em causa alguns aspectos metodológicos, como por exemplo, os pais poderem não revelar aos investigadores os aspectos negativos, a não existência, nestes casos, duma problemática específica emocional da criança ou da relação pais-criança não deixa de ser uma boa notícia. E porque é que é uma boa notícia, quando outra coisa não seria de esperar? Afinal de contas, estas crianças vieram realizar um desejo ardente dos pais e, em princípio, existem todas as razões para serem amadas e protegidas.
O que é que podia correr mal?
Embora sem uma expressão estatisticamente significativa, mas clinicamente relevante, o que podia correr mal, e por vezes corre, é o impacto do diagnóstico da esterilidade do casal, e, mais tarde, do tratamento subsequente, no processo de transição para a parentalidade e na qualidade do investimento parental. A não elaboração pelos pais da forma como os filhos foram concebidos mostra ter um papel decisivo no aparecimento de perturbações psicológicas neste grupo de crianças.
O desejo de ter um filho é um culminar de um longo percurso psicológico que se inicia na infância, no entrelaçar do amor ambivalente da criança pelos pais com a construção do desejo edipiano e que se concretiza na relação amorosa do adulto.
Sem falar nos aspectos instintuais da continuação da espécie, que estão para além do simbólico e do pensamento, ter um filho é simultaneamente um “reeditar” dos mitos da infância, com um final mais feliz, em que já não há renúncia ao desejo nem ameaça da castração, mas sim o cumprimento do mandato transgeracional de transmissão da continuidade genética e cultural da família e a concretização de um projecto de vida de um casal, num registo de reciprocidade e de amor. É: “ter um filho que poderei amar como fui amado pelo meu pai/mãe ou que poderei amar como amei o meu pai/mãe”.
Um filho, como novo objecto, responde simultaneamente às necessidades narcísicas e objectais dos pais.
Existe, portanto, uma ordem biológica, relacional e institucional que se cumpre quando um casal tem o projecto de ter um filho e o realiza. No entanto, esta ordem, que é estruturante e organizadora da matriz social, mas também de um percurso de vida individual, é completamente abalada quando sobre esse casal se abate a certeza da infertilidade.
Após um momento de incredulidade e desorientação, segue-se um período marcado pelo desânimo e pela depressão. O mandato transgeracional é interrompido, o novo objecto perdido e o fantasma da proibição e da castração é reactivado.
Esta é uma experiência traumática na vida dum casal e implica um longo processo de luto e adaptação.
As novas tecnologias de PMA vieram minorar muito o sofrimento destes casais, dando-lhes novas esperanças. Ainda assim, todo o processo é penoso e fortemente gerador de ansiedade.
No “Rei Édipo”, de Sófocles, que inspirou, como todos sabemos, Freud, Laio, marido de Jocasta e pai de Édipo, foi proibido de ter filhos pelo oráculo, por ter traído o seu protector Pelops, roubando-lhe o filho(2). A insistência de Laio em ter um filho, Édipo, e assim
transgredir a proibição divina, origina toda a tragédia que levará à sua própria morte, ao incesto, à peste que se abate sobre Tebas, à morte de Jocasta e à cegueira de Édipo.
Podemos usar esta tragédia como uma metáfora do que pode ser vivido por um casal que não pode ter filhos.
O médico-oráculo que proíbe, o sentimento latente de falta cometida e de culpabilidade, o médico-deus que contraria o vaticínio da proibição e a dúvida sobre o castigo que essa desobediência acarreta, sobre qual o preço a pagar. E o preço é objectivamente alto porque os tratamentos, mesmo quando bem sucedidos, são sempre uma via-sacra para o casal, que a eles se submete com grande dose de paciência e estoicismo.
Mas o preço também é alto subjectivamente.
Se, com a descoberta da pílula, passou a haver sexualidade sem procriação, com as novas tecnologias passou a haver procriação sem sexualidade e sem prazer(1). O acto sexual torna-se mecanizado, quando não externalizado, e quer o homem, quer a mulher se tornam figurantes de uma encenação orquestrada pela equipa médica.
Num estudo feito em Lausanne, por Ana Almeida & coll.(1), sobre as representações mentais dos pais de crianças concebidas por PMA e em que os autores analisam, passo a passo, as diferentes fases do processo, é afirmado que em cada um dos membros do casal se instala “uma alternância entre passividade e actividade, entre o masculino e o feminino que esbate as diferenças sexuais no processo da procriação”.
Consideram estes autores que existem três tempos diferentes na experiência vivida pelos pais: o primeiro tempo da espera, de expectativa ansiosa, de depressão e impotência vivido sob uma forma passiva. Segue-se o tempo da investigação e do diagnóstico da esterilidade que vai abalar o sentimento de confiança na identidade do casal e da sexualidade de cada um e actualizar a problemática edipiana infantil e da castração.
No entanto, o diagnóstico de esterilidade, quer seja masculina ou feminina, traz também em si a esperança do tratamento e a possibilidade
de vencer uma adversidade tão carregada de afecto e simbolismo. Inicia-se, então, um tempo em que o casal se torna activo na procura do tratamento, com o sentimento de agir sobre a natureza.
Durante o tratamento, as coisas voltam a complicar-se, com a confusão de sentimentos, a confusão de papéis que de novo se instala, como foi evidenciado nas entrevistas deste estudo realizadas a casais em que ambos os pais eram os pais biológicos, apesar das técnicas de inseminação artificial.
O(a) ginecologista, sem o qual não haverá fertilização, adquire um papel crucial e torna-se o agente activo de quem tudo vai depender, voltando a remeter o pai, mais do que a mãe, para um papel passivo. Esta inversão do papel do pai explica que muitos deles se sintam pouco motivados e mesmo constrangidos. Os tratamentos a que os homens são submetidos passam-se nas maternidades, local por excelência feminino, e o processo desenvolve-se de uma forma programada e mecanizada que não deixa qualquer iniciativa ao homem, feminizando-o e despindo-o da sua identidade masculina. O papel do ginecologista, junto da mulher, remete o marido para uma secundarização difícil de vivenciar e difícil de conciliar com a masculinidade e com a vivência da sexualidade do casal.
Este problema da procriação fora da sexualidade conduz-nos, mais uma vez, para a infância e para as teorias sexuais infantis de negação da sexualidade dos pais, sexualidade essa que é difícil de entender pelas crianças e que é da ordem do segredo e do mistério.
No imaginário infantil, à questão de como nascem os bebés, a resposta é a negação da sexualidade dos pais. As crianças pequenas excluem das explicações que se lhes dão, por mais fantasistas ou realistas que sejam, ou que elas encontram, a sexualidade tal como ela é entendida ou vivida pelos adultos, porque não se integram nas suas concepções da realidade. Mais tarde, quando a sexualidade integra a vida mental do adolescente e do adulto, esta fantasia inicial de negação da sexualidade dos pais é recalcada, mas não desaparece e mantém-se no inconsciente.
A PMA não deixa de ser uma actualização, na vida adulta, desta fantasia que invade de uma forma concreta a vida mental dos pais, remetendo-os abruptamente para um universo infantil, em que há uma impossibilidade de pensar a cena primitiva e uma proibição de viver a sexualidade.
Todos estes dilemas, conflitos, angústias passam para o esquecimento, se tudo corre bem e a criança nasce de acordo com o desejo dos pais. A própria realidade da criança, saudável, apelativa, capaz de se vincular, tem um efeito fortemente reparador do narcisismo parental, sendo que o investimento dos filhos tem uma forte componente narcísica.
Também a nova relação que os pais inauguram com o seu bebé e que tanto os preenche restabelece os laços positivos com os seus próprios pais, e torna-os continuadores da linhagem familiar. Assim, as relações pais-crianças constroem-se num clima favorável, em que existe um equilíbrio dos investimentos narcísicos e objectais, e a forma como a criança foi concebida torna-se irrelevante.
Mas, nem sempre as coisas correm tão bem.
Não só a esterilidade, mas também as dificuldades ou os insucessos repetidos dos tratamentos, tornam um filho num bem ainda mais precioso, que, nalguns casos, é preciso obter a todo o custo e proteger para além do razoável.
No caso dos casais férteis, os acidentes de percurso, durante a gravidez, com o feto, ou depois do nascimento, são vividos com desgosto e sentimentos de culpa, mas são atribuídos em parte aos aspectos não controláveis do processo.
Nos casos de PMA, todo o acidente de percurso, que pode ser a malformação da criança, o acidente obstétrico, ou, mais tarde, dificuldades do relacionamento pais-criança, é vivido pelos pais com uma enorme carga de culpabilidade que se torna paralisante, como se estivessem a transgredir as leis da natureza e o castigo dessa transgressão se abatesse sobre eles, tal como se abateu sobre Laio, na tragédia de Sófocles.
Existe, então, nestes casos, uma possibilidade real de que toda a conflitualidade inerente ao processo da PMA, na qual a culpabilidade tem um papel essencial, como vimos, mas também a decepção e a dúvida sobre a filiação biológica, que entretanto se instala, venham a interferir de forma gravosa no funcionamento do casal e na construção da relação pais-criança.
Se, nalguns casos, predomina a rejeição – do “talvez não devêssemos ter filhos” a “não devíamos ter tido este filho” é um passo, o que pode ser catastrófico –, noutros casos o que aparece como mais relevante é a incapacidade de viver a ambivalência.
A criança, mais do que nas situações de casais férteis, é um filho ideal, fonte de encantamento, em relação à qual não é permitido viver qualquer sentimento ambivalente. Por exemplo, a definição de limites, a imposição de regras tornam-se um problema e a mínima dificuldade constitui uma ocasião para os pais se sentirem censurados pelos próprios filhos, criando situações de bloqueio da função parental e o desenvolvimento, muitas vezes, na criança de sentimentos de omnipotência e de controlo e, como consequência, embates difíceis com a realidade e com as aprendizagens.
Outro dos pontos que parece importante e consistente é a dúvida sobre a paternidade.
De acordo com Almeida & coll.(1), a incerteza da paternidade adquire maior relevância nos casos de PMA, mesmo nos casos de injecção citoplasmática dos espermatócitos (ICSI). Este problema aparece como estando, de uma forma mais geral, ligado à função paterna e gera uma reflexão sobre o que é a paternidade. A mãe é certa na procriação, o pai é incerto.
Vou citá-los: “…O que parece ensinar-nos a clínica da ICSI é que a função paterna precisa da incerteza quanto ao pai para se desenvolver e operar”. Ou ainda, de acordo com Lacan, citado por estes autores(1): “…A função de pai realiza-se na ordem do simbólico, qualquer que seja a realidade biológica que procedeu à concepção. A função paterna não pode confundir-se com a da fecundidade, da concepção,
da procriação” realidades que só por si “…Nunca chegarão a constituir a noção do que é ser pai”.
Se pensarmos no caso “Esmeralda”, vemos bem como a certeza “certa” do pai biológico, introduziu o caos na vida da criança.
A PMA permite a realização de um desígnio universal de continuação da espécie que, no caso da espécie humana, tem contornos psíquicos complexos que implicam a noção de desejo, de amor, de identidade e de pensamento.
No entanto, a aplicação desses variados métodos implica uma reelaboração da identidade pessoal e do casal e o desenvolvimento de estratégias psicológicas de “coping” para que nem todos os casais estão preparados.
E se não é justo arrastar inutilmente estas situações(5), também deve ser tido em linha de conta que há um “tempo” que é preciso respeitar, um tempo de elaboração, necessário para tomar uma “boa” decisão.
Não é uma decisão simples e linear, mas uma decisão que implica afectos contraditórios, como tentei demonstrar, e em que toda a vida futura do casal e da criança está implicada.
Torna-se, por isso, importante que um casal que toma a decisão de se submeter a um processo de PMA tenha oportunidade de abordar as suas motivações profundas, as suas dúvidas e as dificuldades que poderá vir a encontrar, como casal e na sua função de pais.
Nas palavras de M. Soulé(4), trata-se de avaliar a solidez da relação do casal e as razões profundas do seu desejo de ter um filho. Um casal não se esgota na problemática da sua fertilidade versus infertilidade.
O prazer ligado a outros aspectos do seu funcionamento, como o amor, o trabalho e a amizade, parafraseando Freud, são aspectos fundamentais que nos permitem avaliar como o problema da procriação, ou das dificuldades que lhe são inerentes, pode vir a ser ou não ultrapassado e equacionar a necessidade de acompanhamento psicológico.
SUMMARY: The author focuses on the vicissitudes of the sterile couples' psychological process underlying transition to parenthood, as well as the possible consequences on their children's psychological development.
The diagnosis of sterility interrupts, in an abrupt way, the possibility of transmitting the values, traditions and habitudes, which assure the temporal continuity of the familial culture. The conflicts of infantile sexuality undermine the entire future parent's subjective experience. Three phases along the medical assisted procreation (PMA) process are described.
The successful PMA has a rewarding effect on the couple's narcissistic failure, but it is always a complex process, requiring a capacity of coping with a great deal of different tasks, which interfere with the normal parenthood. So, the couple needs time for the elaboration of their motivations, their doubts and the impact on their functioning, as a couple and as parents, and if necessary, for psychological counselling.
KEYWORDS: Parenthood; Sterility; Medical assisted procreation; Psychic conflict.