A autora evoca a Teoria das Transformações de W. Bion (1959 e 1965), que define “mudança catastrófica” como uma possível configuração da Transformação em O. É uma situação de ruptura que pode ocorrer extravasando os limites do quadro analítico. Implica a conjunção constante de factos caracterizados por subversão do sistema, violência e invariância.
A autora realça a importância da Integração e da Invariância no processo de mudança, tendo em vista a sua contenção dentro do quadro analítico. O analista terá de ter em conta a capacidade de tolerância à frustração do paciente e de respeitar um “quantum de invariância” que mantenha o sentimento de identidade
Tal como na Natureza, na vida psíquica, nada se perde, tudo se transforma!
A título demonstrativo, apresenta dois casos clínicos, um mais grave, borderline, em que a situação de “mudança catastrófica” extravasou e rompeu o quadro, e outro, neurótico, em que uma tenaz resistência conduziu a “mudança catastrófica” que foi elaborada e contida no quadro analítico.
Conferência apresentada no “XX Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: Psicanálise e Mudança”. Lisboa, 11 e 12 de Maio de 2007.
Pedopsiquiatra. Professora Jubilada do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto. Membro Didacta e da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e do Instituto de Psicanálise do Porto.
No essencial, a vida psíquica é transformação. Constitui, se assim lhe quisermos chamar, um aparelho que está permanentemente a transformar uma impressão sensorial ou cinestésica, uma experiência emocional, numa representação.
Cedo, no desenvolvimento humano, e a partir da relação privilegiada com o psiquismo da mãe (função alfa), surge uma capacidade mais elaborada de transformação, à qual Bion chamou “aparelho de pensar os pensamentos”.
A vida psíquica é, com frequência, agitada por episódios de turbulência emocional que propiciam transformações das quais umas vezes só o próprio toma consciência e outras se tornam aparentes sob a forma de mudanças do comportamento ou, por exemplo, de criações artísticas.
O encontro com o outro é, por si só, um momento de turbulência emocional que pode gerar transformações.
Bion propõe uma Teoria das Transformações que se reporta à observação psicanalítica e nos permite apreciar e sistematizar as transformações que se operam no encontro do par analítico, dentro do setting preestabelecido e gerando um campo dinâmico propício à mudança.
Desse ponto de vista há a considerar o encontro inicial, as transformações que se operam no paciente e no analista pela intersubjectividade, e o produto final da transformação. Algo se mantém invariável em ambos – invariância –, o que permite reconhecer o original transformado e avaliar o grau de mudança.
Sendo um processo dinâmico, toda a transformação gera nova transformação, toda a integração gera nova dispersão (PS □ D), todo o conceito saturado abre caminho a uma nova preconcepção, num movimento expansivo de mudança, que Bion designa por crescimento mental, objectivo da cura analítica.
A análise será, pois, este processo de indagação, de procura da Verdade sobre si mesmo (O) promovida pela curiosidade, pelo desejo de conhecer (vínculo K), mas as transformações que acrescentam conhecimento acerca de O, embora importantes, ficam aquém desse objectivo.
Será, então, a Transformação em O, ou seja, a aproximação à Verdade última (inatingível) que promove o crescimento mental.
A transformação em O, traduzido em linguagem comum, é “ser o que se é”, é aproximar-se “do que sabe sobre si mesmo”, ou seja, ultrapassar resistências, defesas, mentiras, e sabemos quanto é angustiante e doloroso este processo de mudança. Tão difícil que só num clima de compreensão e tolerância, de íntima comunicação no par analítico é possível. Ou seja, não basta a curiosidade (K), é necessário que os vínculos afectivos (L e H) estejam activos e flexíveis.
Chegámos assim ao conceito de Mudança Catastrófica que desejamos abordar nesta comunicação.
Bion já havia introduzido esta noção quando estudou os Grupos (1959), e referia-se ao potencial disruptivo de uma ideia nova; o seu aparecimento subverte o sistema e violenta sempre, em maior ou menor grau, a estrutura do campo em que se manifesta. É um conteúdo que vai perturbar o continente em que surge, seja ele o grupo, a sociedade, ou a mente na sessão de análise.
A transformação em O configura uma situação de mudança catastrófica (1965), pois, como vimos, implica que pensamentos e emoções, que estavam afastados da consciência, sejam contactados; exige renúncia a idealizações e tolerância à frustração, pois será esse confronto com a realidade interna e externa que vai permitir a aproximação à sua verdade.
Essa situação de ruptura implica, segundo Bion, uma conjunção constante de factos caracterizados por violência, subversão e invariância, na relação continente/conteúdo.
A invariância corresponde ao que fica inalterado após a transformação, quer dizer, na relação analítica, cada um dos intervenientes tem a sua forma de ser, a sua identidade.
A subversão refere-se ao impacte causado pelo insight e às transformações que, a partir dele, se originam. É, muitas vezes, o resultado da interpretação do analista, mas pode ser uma revelação, uma criação do par analítico.
A violência é a vivência da desorganização, a angústia ameaçadora da perda de sentido, a angústia sem nome da dor mental. Pode traduzir-se num ataque ao vínculo e ao continente e põe à prova a contratransferência e a própria tolerância do analista à dor mental.
Ainda segundo Bion, as Teorias Psicanalíticas pertencem à categoria do grupo de Transformações, ou seja, cada teoria tem a sua compreensão e as suas técnicas de induzir transformações, mas todas pretendem transformar uma experiência emocional vivida na sessão de análise numa interpretação, isto é, numa representação.
Os conceitos freudianos de transferência, de resistência, de recalcamento da Psicanálise clássica, centrada sobre o Complexo de Édipo, servem melhor para induzir transformações nas Organizações Neuróticas. São as Transformações de Movimento Rígido, mais previsíveis, mais compreensíveis no contexto da vivência transferencial.
Os conceitos introduzidos pela teorias kleinianas, tais como a identificação projectiva, a clivagem, as fantasias inconscientes, a relação de objecto parcial, as angústias psicóticas decorrentes da oscilação das posições PS □ D, permitiram uma nova compreensão e abordagem das Psicoses e das Personalidades Borderline e Narcísicas. Nestes casos, a comunicação dentro do par analítico é mais distorcida porque a diferenciação self-objecto é menos clara.
Tal classificação proposta por Bion, embora útil, peca talvez por demasiado rígida, pois cada analista, depois de esquecer as Teorias, sempre encontra um estilo próprio de as utilizar ao sabor da intuição, da rêverie e do clima emocional que se cria no par analítico.
De qualquer modo, a cura analítica gera sempre algum sofrimento e a tolerância à frustração é um indicador sensível do modo como as transformações se vão integrando. Quer dizer que sempre estarão em jogo os fenómenos da Mudança Catastrófica, ou seja, a interpretação
e o insight têm sempre um potencial disruptivo, podem ser sentidos como uma violência e gerar violência; toda a transformação, para ser mutativa, ocasiona alguma turbulência emocional (descontinuidade, ameaça de perda de sentido, vazio, revelação de um novo significado, etc.). A questão é que essa turbulência seja contida no quadro analítico.
A Mudança Catastrófica, com a dimensão dramática que Bion lhe atribui, tem mais probabilidade de ocorrer na cura de patologias graves, até porque a pouca coesão do self e a frágil delimitação self-objecto as coloca sempre num equilíbrio precário, à beira da fragmentação e da morte psíquica. A subversão causada pelo insight e interpretação coloca o paciente face à dor mental que, não podendo ser pensada, é um “terror sem nome”, intolerável. Explode, então, em violência que extravasa os limites do setting, em actings e comportamentos insólitos. O alvo escolhido é de preferência o analista, há um ataque feroz ao vínculo e ao continente, e admite-se que as forças destrutivas da inveja e do ódio obscureçam K e impeçam a Transformação em O. Não se pode excluir, todavia, deste acontecimento alguma falência do analista na sua capacidade de contenção e tolerância à dor mental.
Nas patologias neuróticas, embora menos frequente, a ocorrência de uma ruptura com algumas destas características não se deve ignorar porque a Transformação em O é sempre potencialmente disruptiva.
Neste processo de mudança há que salientar o lugar da invariância, ou seja, o respeito que é preciso ter pela necessidade do paciente em manter um determinado equilíbrio conseguido (jogo de defesas e expectativas, ou seja, jogo Supereu/Ideal do Eu, equilíbrio objectal/narcísico). A mudança psíquica só se opera se o paciente se assegura de que não vai ficar exposto a perdas insuportáveis, se mantiver o fundamental do sentimento subjectivo de identidade. O analista tem de modelar a interpretação à capacidade do paciente em tolerar a frustração e zelar por manter, no analisando, um certo grau de investimento narcísico e de curiosidade que venham a constituir uma reserva de esperança.
Ainda lembrando o “quantum de invariância” há que estar atento às expectativas de mudança do par analítico, pois nem sempre são concordantes. Podem constituir obstáculo à evolução do processo analítico tanto o desejo de curar do analista como o desejo, por parte do paciente, de realizar o Ideal do Eu megalómano. Jogando com as palavras, diríamos que a resistência à mudança constitui em ambos, analista e paciente, uma fantasia omnipotente de “desejo de mudança”.
Teria de voltar a algum pessimismo do próprio Freud, expresso nos textos de 1937. A invariância diz-nos que se mantém um substrato inato de sobrevivência psíquica que se opõe à pulsão de morte. Com efeito, há personalidades que muito precocemente se organizam de forma distorcida para colmatar falhas profundas, a fim de evitar “o terror sem nome” da ameaça da morte psíquica. Os frágeis equilíbrios em que se fixam apenas servem para manter uma sobrevivência pobre e vazia. Esperam-nos, aí, análises intermináveis.
Um outro agente de mudança é a integração, ou seja, a recuperação para o self de partes clivadas e projectadas. A análise não visa eliminar o que foi clivado ou projectado, mas integrar e colocar sob a luz da consciência o que até aí era inconsciente. O sonho oferece, através da condensação, um veículo privilegiado de transformação. Então, a mudança psíquica que se vai originar não será a descoberta de uma verdade que torna falso o que existia anteriormente, mas será a abertura a outro ponto de vista, e ambos podem coexistir agora integrados e móveis. Não parece necessário dar prevalência a um sobre o outro (bom/mau, adulto/infantil, presente/passado, etc.), mas tornar a mente flexível, integrada com opostos dialécticos, em que consciente/inconsciente, racional/emocional se interpenetram e activam.
Um aspecto importante do Processo Analítico que engloba invariância e integração consiste em permitir que a nova ideia, fruto do insight,
possa coabitar com algo de valioso que se conserva do passado, a fim de originar transformação, ou seja, integrando a temporalidade.
Recordar é preciso, mas recordar não é repetir, é transformar o passado através da reconstrução que se faz no “aqui e agora”. Aceitar as perdas é preciso, mas o trabalho de luto do processo analítico é, afinal, prospectivo, pois promove o desenvolvimento.
Ainda neste conceito de invariância poderíamos incluir uma maior estabilização das oscilações PS □ D. O analista tentará que o paciente não se sinta avassalado por angústias persecutórias face ao desconhecido da mudança, nem se sinta esvaziado pela perda de vínculos com objectos do passado. Grinberg falava numa unidade do self que permanece constante. Esse sentimento de identidade é sustentado pela dimensão da temporalidade.
Claro que a capacidade de transformação vai depender da flexibilidade dos vínculos porque se é através dos vínculos (L, H, K) que se ligam as descontinuidades, e se a transformação cria descontinuidades, o vínculo rígido passa do amor (L) ao ódio (H) e o conhecimento (K) continua a dar uma perspectiva falsa ou mentirosa. Ou seja, em PS os vínculos estão sempre a ser atacados, as emoções e os significados dispersos e torna-se impossível estabelecer uma relação que contenha a mudança catastrófica. A posição D permite descobrir e estabilizar os vínculos, confiar no objecto, dar significado à relação analítica, conter a transformação, operar mudança.
Mesmo quando fazemos a apologia da mudança através do estabelecimento de uma Nova Relação estamos apenas a referir-nos ao veículo transformacional privilegiado que esse par analítico criou. Estabeleceu-se uma boa relação continente/conteúdo. A transformação incidiu na reparação e reconstrução das Imagos Parentais, criou-se um novo objecto interno e esperamos que o paciente fique mais apto a fazer escolhas objectais mais satisfatórias e que consiga afastar-se
de situações potencialmente traumáticas. Que deixe, enfim, de ceder à compulsão de repetição.
Para dar conteúdo a esta introdução teórica, pareceu-me interessante apresentar dois casos clínicos demonstrativos. São duas mulheres que ultrapassaram os 40, mais ou menos adaptadas à sua vida profissional, mas que viviam ainda em casa dos pais, inseridas numa família numerosa onde cresceram no meio de irmãos e que, num jogo de rivalidades e de identificações projectivas, acabaram por ficar com um sentimento de identidade difuso.
A senhora A é a filha mais velha e a única ainda a viver com os pais.
A senhora B é das mais novas e vive com a mãe idosa e dois irmãos inactivos e, de certa forma, limitados por perturbações mentais – a irmã esquizofrénica, irmão com alcoolismo crónico. O pai faleceu há cerca de 6 anos.
A – fixada em queixas hipocondríacas e crises agorafóbicas, anda de médico em médico e não reconhece a sua depressão. Controla a sua alimentação, vigia o seu corpo e recusa qualquer psicofármaco. Vive muito isolada e entregue a rituais compulsivos.
B – está deprimida, disfórica, sob medicação antidepressiva e procura-nos para se libertar da medicação, pois teme a dependência. A depressão surge após a morte de um irmão casado que acompanhou de perto na fase terminal.
Algo de comum, como expressão do seu sofrimento denota a força aprisionante de Imagos Parentais poderosas, recordando ambas uma infância em que se sentiram desvalorizadas e mal amadas.
A – data o início da sua doença com o terror causado pela fobia de impulso de poder matar os pais enquanto dormiam.
B – vive ainda dominada pelo sentimento de culpa de ter contribuído para a morte do pai (acusação explícita da irmã esquizofrénica), por manter uma relação amorosa que o pai não aprovava. Dez anos passados ainda não decidira casar, sob pretexto de vigiar e apoiar a mãe e os dois irmãos.
O desejo de autonomia em ambas era pouco convincente. Talvez a relativa independência económica conseguida as satisfizesse.
A – dizia-se ela própria bastante autónoma, pois, no seu quarto e nos seus hábitos, fazia uma vida isolada, excêntrica (comia só, por exemplo), com grande tolerância por parte dos pais.
B – mais do que o desejo de casar, expressava o propósito de se libertar dos antidepressivos, ou seja, de controlar, por si, descompensações emocionais (choro ou agressividade) que a humilhavam.
Qual foi o impacte emocional que nos primeiros contactos elas me provocaram?
Em A – cedo me apercebi do vazio e desamparo escondido atrás de rituais compulsivos, mas em breve se denunciou um apelo veemente de afecto que, de alguma forma, me inquietou.
Em B – percebi uma barreira defensiva instalada, egossintónica, que marcava distância, mas senti uma sensibilidade inteligente que nos aproximava.
Antecipadamente sabíamos que a angústia de separação seria o obstáculo fundamental a ultrapassar numa e noutra, vivida na relação transferencial, tudo dependendo, em tempo e sofrimento, das vicissitudes do tipo de relação de objecto que se viesse a instalar. E assim foi:
Em A – o tempo foi longo (acho que ela o esperava infinito), e grande o sofrimento de parte a parte, e o desfecho foi de mudança catastrófica e ruptura violenta.
Em B – tudo se cumpriu no tempo necessário (talvez mais longo do que ela desejaria), dentro do quadro analítico, com respeito pelo equilíbrio narcísico sustentado e progressiva libertação do sentimento de culpa aprisionante.
Ao longo do processo analítico foram-se dando algumas mudanças, fruto de microtransformações no dia-a-dia da relação, mas, enquanto em A a oscilação PS □ D era permanente e não conferia
estabilidade às transformações, em B a evolução era lenta e consistente, ainda que oferecendo sempre alguma resistência à mudança.
Sem entrar em pormenores que a confidencialidade me impede de expor, traçarei em linhas gerais os pontos altos destas psicanálises.
Como seria de prever, em A, as transformações projectivas funcionaram, pois, desde o início, se desenvolveu uma transferência massiva, instalada numa relação de objecto de tipo parasitário em que dominava a identificação projectiva e a idealização. Era enorme a intolerância às separações, e levou anos a ir de férias e a aceitar as minhas ausências. As oscilações PS □ D eram constantes e estavam muito dependentes da presença/ausência do objecto real. Quer dizer que nunca se estabilizou a posição depressiva.
Conseguiu-se progressivamente a diferenciação self-objecto, houve mesmo períodos de franca melhoria, mas insidiosamente acabou por se instalar uma RTN porque a mudança era ameaçadora.
A subversão foi o insight de que era um ser separado, de que um dia os pais morreriam e de que a análise teria um fim (entretanto, o pai adoecera com gravidade). Vai-se apercebendo do quanto a sua vida é vazia e esboça-se uma vaga Transformação em O. Não se deprime, não sonha, mas aproxima-se uma ameaça que não sabe descrever. Uma dor sem nome.
Tal como descreve Bion, pude acompanhar uma fase pré-catastrófica, com acentuação da hipocondria que se havia atenuado nos anos anteriores. Hemorragias rectais abundantes e fantasias masturbatórias de sodomia, em que a analista era sentida como uma personagem sádica que a martirizava durante a noite. O clima emocional de violência vai num crescendo e torna-se evidente o ataque ao vínculo. Não quer pensar, está confusa. Entretanto, nega a doença do pai.
Seguiu-se um estado pós-catastrófico em que toda essa violência extravasa do quadro analítico e perturba a família com actings e ameaças de suicídio. O alvo dos ataques é a analista. Suspende a análise. O pai vem a falecer pouco depois.
A Senhora B, muito defensiva, marca, desde o início, a distância de que necessita para retardar a mudança.
Durante o primeiro ano faz longos silêncios, tem dificuldade em associar, quase não sonha e tem um discurso elaborado em que visita o passado, fruto de permanente auto-análise, mas não raro comenta, com ironia, que aquela situação, ali, lhe parece forçada e ridícula.
Sempre receosa da avaliação que eu possa fazer, é ela própria que avança o que eu possa estar a pensar, e recrimina-se por não avançar mais depressa.
Embora dominante a transferência paterna/super-egóica, a interpretação reconhecida não é mutativa.
Decorrem meses e algumas microtransformações, num clima emocional que se vai tornando menos tenso.
Durante a primeira fase desta análise, a sua depressão e as dificuldades com o noivo, com o qual diz ser muito agressiva, ocupam as sessões como se trouxesse para ali o principal motivo consciente das suas preocupações, o seu problema.
Corria uma cortina sobre as relações familiares, vividas no dia-a-dia, “por respeito à privacidade de cada um!”, dizia, pois quem estava a fazer Psicanálise era ela, e não eles.
Surge, então, um sonho que a deixa surpreendida e nos abre caminho a outra forma de comunicação: “a analista está em sua casa, numa festa familiar e fala naturalmente com toda a gente, num ambiente descontraído”.
A partir daí, começa a mostrar o jogo enredado dos seus objectos internos e das clivagens e identificações projectivas em que se move.
Continua a apoiar e acompanhar de perto os irmãos e a mãe idosa – teme descompensações, teme o suicídio, a qualquer momento prevê a morte da mãe.
Nessa altura, o trabalho analítico incide sobre a reintegração de partes do self projectadas; estava a cuidar de aspectos depressivos/destrutivos seus através dos irmãos, junto da mãe confirmava um reconhecimento que não tivera. Entretanto, impede-se de dar força e realização
a projectos de vida própria. “Eles não merecem!”, diz, e eu pergunto: “E você merece?”
Recorda dolorosamente a morte do irmão, atingido por cancro na pujança da vida. Rivaliza com a cunhada, agora viúva, que acabou por se envolver noutra relação “talvez demasiado cedo, não parecendo respeitar a memória do marido”. Aliás, na sua vinda à análise, receia encontrar a cunhada, que mora perto do meu gabinete. “Ela não pode saber que eu ando aqui!”
Sonha que a “a cunhada tem um cancro e que ela fica indiferente, até se sente mais livre!” e comenta “talvez uma forma de me ver livre dela, e vir mais descontraída para a análise!” e eu interpreto: “Ver-se livre da culpa, como ela, e resolver o seu casamento!”
Tem dificuldade em aceitar a culpa edipiana que está na origem do conflito. Apela a valores morais que foram incutidos na família, sobretudo pelo pai. Receia que a análise a torne demasiado egoísta.
A subversão mais inquietante é o insight da culpa por desejo de morte relativamente às Imagos Parentais. Chega a afirmar que a culpa só foi paralisante quando da morte do pai, mas agora está ultrapassada. Os sonhos que se seguem desmentem-na:
“A mãe apareceu morta na banheira. Eu estava de luvas e tentava tirá-las, mas não conseguia. Não tinha nada a ver com aquilo, mas parece que estava com receio de ser acusada”.
O outro: “Via carros da polícia que andavam a investigar algo, a nosso pedido. Eu procurava nódoas negras no corpo por ter sido violentada, mas já não havia marcas”. Interpreto: “A culpa é profunda, não se sente, não se vê! Você sentiu-se ou talvez ainda se sinta violentada e há mágoas profundas que você tenta ocultar, procurando mostrar-se forte e eficaz!”
Responde: “Isso é verdade, não gosto de dar parte de fraca. Faço tudo o que posso antes de pedir ajuda. Não é por culpa, faço o que devo fazer!”
“Compreendo que é um valor, e se sente apreciada por isso. O seu pai apreciá-la-ia pela sua abnegação! Receia que aqui, na relação comigo, esses valores se subvertam.”
“Agora não espero reconhecimento dos outros, sou eu própria que o exijo!”
Reconhece a grande dificuldade em mudar, e quanto isso a obrigaria a prescindir do papel de salvadora da família, de guardiã dos valores que o pai lhe transmitiu. Na transferência paterna que faz sobre a analista, nega a oposição e agressividade contida e diz ter esquecido os “sonhos macabros”, que voltam a ser “olhados” e elaborados. Nova turbulência emocional faz avançar o processo.
B – Neste puzzle familiar e por identificação projectiva dos seus objectos internos, mantém o conflito neurótico, gere a culpabilidade edipiana e preserva o narcisismo. Havia que respeitar esta necessidade pelo tempo que ela precisasse para não se sentir despojada dos seus valores e abalada na sua própria identidade. Protegendo a mãe, repara a culpa, cuidando os irmãos trata as suas próprias feridas e o lado destrutivo que a sua depressão comporta, evitando a cunhada resiste à análise, e mantendo o noivo à espera, alvo da sua agressividade, confirma ser amada e cumpre o interdito edipiano.
A desmontagem deste puzzle levaria a “mudança catastrófica” elaborada e contida na relação analítica.
SUMMARY: The author evokes Bion's Theory of Transformation (1959, 1965) and defines “catastrophic change” as a situation of turbulence that may leads to a break and overtakes the limits of the setting. Bion describes “catastrophic change” as the conjugation of facts characterized by subversion of the system, violence and invariance. Psychoanalysis promotes changes, but the analyst has to estimate the patient's capacity to tolerate frustration and also has to respect the “quantum of invariance” as to maintain the feeling of identity. In psychic life, as in Nature, nothing is lost, all is transformed! The author presents two clinical situations, one, borderline, where catastrophic change leads to rupture of setting, and another, neurotic, where hard resistance comes to catastrophic change which is elaborated and contained along the analytical process.
KEYWORDS: Catastrophic change; Lost of sense; Psychic change; Violence; Invariance; Analytical setting.