Neste trabalho, começamos por apresentar alguns dados da literatura referentes à prevalência e que mostram a importância da problemática da depressão na actualidade. Reflectimos depois sobre o que é a depressão e sobre as diferentes formas como se expressa a depressão e a dor mental, começando pela depressão clínica propriamente dita, mencionamos as personalidade hipomaníacas e narcísicas, passamos pelos equivalentes depressivos e as depressões mascaradas e, finalmente, tecemos algumas considerações sobre o acting out como forma de negar o sofrimento mental e a depressão. Salientamos também a ideia de que o social apenas reforça, cristaliza, repete e dá expressão às vulnerabilidades precocemente estruturadas no contexto de relações de objecto disfuncionais.
A depressão é talvez uma das formas mais frequentes de psicopatologia. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde [OMS] (s/ data),
Este trabalho foi, com ligeiras alterações, apresentado como comunicação no evento: “VI Semana da Psicologia da Universidade de Évora”. Évora, 19 a 22 de Março de 2007.
Psicólogo. Professor Auxiliar do Departamento de Psicologia da Universidade de Évora.
Recebido para publicação em 14 de Janeiro de 2008. Revisão recebida em 16 de Janeiro de 2008. Aceite para publicação em 22 de Janeiro de 2008.
actualmente, no mundo inteiro, mais de 120 milhões de pessoas sofrem de depressão. É, pois, uma psicopatologia com uma elevada prevalência. A depressão “constitui uma das formas clínicas psiquiátricas mais comuns e, hoje, a de mais larga difusão em todos os povos e etnias” (Fernandes da Fonseca, 1985, p. 337). A OMS refere que se espera que, no ano de 2020, a depressão seja a doença mais grave na população geral (Murray & Lopez, citados por McKendree-Smith, Floyd & Scogin, 2003).
Estima-se que, em Portugal, 650 mil adultos tomem antidepressivos . Segundo o censo psiquiátrico de 2001 da Direcção-Geral de Saúde (Bento, Carreira & Heitor, 2001), a depressão foi a segunda patologia psiquiátrica mais frequente, a seguir à esquizofrenia, com 14,9% dos casos, numa amostra de 66 instituições de saúde. Relativamente às consultas externas, foi mesmo a mais frequente, com 21,5% dos casos.
Os prejuízos associados à depressão são evidentes (McKendree-Smith et al., 2003), nomeadamente os sociais, e não falamos apenas das formas mais graves de depressão. Segundo ainda informações da OMS (s/ data), a depressão é, actualmente, uma das causas mais importantes de incapacidade. É responsável pela maioria dos suicídios (e. g. Wetzel, citado por Gilbert, 1992), e, em muitos países desenvolvidos, o suicídio é uma das dez causas de morte mais frequentes, sendo, nos jovens adultos do sexo masculino, uma das três mais frequentes (Gilbert, 1992). Mais uma vez segundo a OMS (s/ data), cerca de 850 mil pessoas suicidam-se todos os anos. Além disso, a depressão parece afectar o sistema imunológico e, por consequência, a capacidade de combater as doenças somáticas (Farrant & Perez, citados por Gilbert, 1992),
Apesar da importância do problema da depressão, nem sempre é evidente do que se está a falar quando se utiliza o termo depressão. A delimitação do conceito é difícil. Segundo Wilson (1988), a palavra depressão, dependendo da preferência do clínico, pode ser usada, alternadamente, para designar um sintoma, um tipo de afecto, um tipo de humor, uma síndroma ou um estilo de carácter.
Enquanto síndroma, num modelo estritamente médico, a depressão corresponde a um conjunto de sintomas mais ou menos duradouros: perturbações do sono, lentificação motora, perda de energia, diminuição ou aumento de apetite, ideação suicida, sentimentos de desvalorização, dificuldades cognitivas e sobretudo anedonia, ou seja, dificuldade em experienciar prazer em actividades que o sujeito habitualmente apreciava, e, ainda, humor depressivo.
Mas numa outra lógica de conceptualizar a depressão, numa visão psicodinâmica, muito bem representada, por exemplo, por Coimbra de Matos, depressão significa baixa de pressão anímica, pelo que o sentimento central, o sintoma patognomónico na depressão seria o abatimento, a queda da energia psíquica, ou energia vital, a anergia e não a tristeza (Coimbra de Matos, 2002a, p. 442-443). Este abatimento seria o marcador do processo (mórbido) depressivo (p. 443). A alteração do humor não é um sintoma central na depressão, uma vez que “há depressões sem tristeza, mas não existem depressões sem abatimento” (Coimbra de Matos, 2002a, p. 443). No luto é que a característica central é a tristeza.
Segundo a Escola Psicanalítica, toda e qualquer depressão teria a marca de três características essenciais que definiriam, pois, a estrutura desta patologia: a dependência anaclítica, a baixa auto-estima e a culpabilidade. Consoante o peso relativo destas dimensões, seria possível distinguir dois modelos clínicos de depressão: uma depressão anaclítica, onde predomina a dependência, e uma depressão introjectiva, onde predomina a baixa auto-estima e a culpabilidade. Mas note-se que, de acordo com uma lógica unicista e dimensional, as depressões nunca são anaclíticas ou introjectivas puras, têm sempre mais ou menos de ambos os aspectos. São estas características estruturais que são responsáveis por todas as vicissitudes relacionais e comportamentais do depressivo. Assim se percebe, por exemplo, o masoquismo, como característica do depressivo, na sua expressão máxima, o masoquismo sexual ou, noutro contexto, o próprio suicídio, que resulta, em grande parte, do sentimento de culpabilidade e
da necessidade de expiar esse mesmo sentimento. Também se entende o sentimento de desespero e de desamparo do sujeito com depressão anaclítica, na ausência da figura de apoio. É precisamente porque o sujeito é muito dependente dessa figura que não pode suportar a sua ausência, o que acarreta uma forte angústia de separação. Ou ainda se pode entender a grande necessidade de realização pessoal de alguns sujeitos para compensar um profundo sentimento de menos valia.
Do ponto de vista psicodinâmico, o fenómeno central na origem da patologia depressiva é a perda afectiva na infância, perda do amor do objecto, e o sofrimento que essa perda acarreta. Entenda-se objecto, na linguagem psicanalítica, o outro significativo, a mãe, por exemplo, por oposição ao sujeito ou próprio. Quer isto dizer que as relações afectivas, objectais, que o sujeito depressivo teve na sua infância ficaram aquém daquilo que desejou e precisava. Foram relações interpessoais com as figuras significativas que, por diversos motivos, foram disfuncionais e não permitiram um desenvolvimento harmonioso. Como resultado deste disfuncionamento relacional, o sujeito estrutura uma personalidade dita depressiva, vulnerável a depressão clínica.
O depressivo tem sempre a sensação de que lhe falta algo, embora não saiba muito bem o que é. Como dizem alguns pacientes: “Sabe? Parece que me falta uma coisa, mas não sei explicar o que é”. Poderíamos responder, “foi o afecto da sua mãe”. O sujeito pode ter tudo, mas isso não teve, pelo menos como desejou, não se sentiu amado, de que resulta o afecto doloroso da falta de afecto – é o verdadeiro sofrimento depressivo (Coimbra de Matos, 2001).
Por outro lado, a relação do depressivo com o outro é sempre uma relação “assimétrica”, porque a depressão acontece sempre, segundo Coimbra de Matos (2002b), quando “estamos numa situação em que damos mais afecto do que recebemos… [é o que este autor chama] economia depressiva” (p. 242).
Cronologicamente, do ponto de vista do desenvolvimento, ser gostado, gostar de si e só depois é possível gostar de alguém, contrariando as perspectivas moralistas, do bom cidadão, do bom samaritano,
do voluntariado e do falso altruísmo. Não tenhamos dúvidas, só se pode amar alguém, quando se foi amado, quando se foi olhado e admirado, quando o narcisismo se pôde construir no reflexo do olhar materno, objecto capaz de conter nos braços e no espírito, de conter as angústias primitivas, de preencher o vazio e de pensar os pensamentos, fomentando a fantasia e a criatividade do sujeito.
As crianças privadas precocemente de afecto tornam-se incapazes de amar e de ser amadas (Racamier, citado por Matos, 1996).
E é a raiva narcísica de não ter sido amado que fundamentalmente gera o comportamento agressivo, que não se previne com falsas doutrinas centradas no ensino dos valores, mas com relações entre as pessoas que promovam a proximidade, que sejam capazes de dar ao animal Homem aquilo de que ele mais precisa – o alimento afecto.
Mas o que acontece ao sujeito que estrutura uma personalidade depressiva na infância? Acontece que esta estrutura se vai consolidando, reforçada pelas consequentes experiências de frustração que se vão acumulando ao longo da vida, experiências de frustração, por outro lado, que a estrutura inicial condiciona e favorece. As relações que o sujeito entretanto estabelece com colegas, amigos, outros adultos que não os pais vão ter a marca da relação precoce e vão funcionar como um amplificador das dificuldades dessa relação inicial. É preciso ter presente que as nossas relações interpessoais decorrem de acordo com um modelo interno, tendem a ter semelhanças, sejam elas familiares, amorosas, profissionais, de amizade, etc. É por isso que faz sentido falar de um estilo de relação objectal.
Na idade adulta, o indivíduo depressivo vai reagir às perdas afectivas que sempre e necessariamente têm de ocorrer ao longo da vida de todos nós, deprimindo-se. E não é só a perda afectiva que pode desencadear depressão. A perda narcísica, resultante do insucesso e a perda de poder, de empossamento e dos direitos próprios também (Coimbra de Matos, comunicação pessoal). Se o sujeito não estruturou uma personalidade depressiva, reage apenas com o que Coimbra de Matos (1985) chama uma depressão normal, pela qual todos nós
já passámos, mas se é um depressivo, reage com uma depressão sintomática, clínica. O que distinguiria a depressão propriamente dita, clínica, da depressão normal seriam critérios dimensionais: a primeira seria mais intensa, mais duradoura e mais invasiva, isto é, mais perturbadora do funcionamento mental.
Mas não tenhamos ilusões, o que distingue uma depressão clínica dos sintomas depressivos ditos normais, que podem ocorrer em todos nós em momentos de maior dificuldade, não são aspectos qualitativos, mas de grau. Não podemos dizer, pois, que ali estão os depressivos, e aqui nós, e que há, portanto, uma fronteira bem delimitada entre a depressão e a não depressão, entre a psicopatologia e a personalidade dita normal.
Mas de que forma é que os factores sociais podem contribuir, e ao mesmo tempo ser um reflexo, e penso que cada vez mais, para um aumento dos casos de depressão? A depressão é uma reacção à perda, como penso que já ficou claro, ou pelo menos àquilo que é sentido como sendo uma perda.
E nas sociedades actuais tem-se registado um empobrecimento afectivo na vida relacional das pessoas (Coimbra de Matos, 2002a).
Empobrecimento afectivo compatível com uma sociedade das tecnologias, da eficácia, dos computadores, da informação e do seu excesso, não da sua falta, como é frequente afirmar como explicação para as falhas na prevenção dos comportamentos de risco; uma sociedade do pronto a pensar e a consumir em que os pais oferecem objectos/brinquedos, para compensar e justificar as suas ausências. Há uma redução da comunicação entre os membros das famílias e da sociedade.
Por outro lado, as sociedades encaram mal a tristeza, pelo que talvez por isso tenham aumentado muito os casos de lutos patológicos (Coimbra de Matos, 2002a).
É a impossibilidade de chorar os mortos que mantém as pessoas presas a lutos inacabados, e por isso lutos para sempre lutos. É também a impossibilidade de pensar a morte, o envelhecimento, o mito da juventude, a fantasia que se pode ser sempre jovem e bonito.
Mas nem sempre o sujeito reage à perda com uma depressão, ou pelo menos com uma depressão sintomática, com sintomas característicos evidentes. Muitas vezes surgem os chamados equivalentes depressivos, apresentações clínicas que se fazem representar ou colorir com outros sintomas, mas que têm na sua essência um marcado núcleo depressivo da personalidade, que não pode, no entanto, ser vivenciado. E porque é que nem sempre o sujeito reage à perda com uma depressão sintomática? Porque todo e qualquer fenómeno psíquico e psicopatológico tem uma causalidade múltipla e complexa, pelo que é impossível encontrar duas realidades psíquicas iguais. É também por isto que os modelos teóricos que elaboramos servem um propósito explicativo e organizativo e não podem nunca dar conta da totalidade do ser humano.
Mas dizia eu que nem sempre o sujeito reage à perda com uma depressão, ou pelo menos com sintomas depressivos evidentes. São disto exemplo as chamadas depressões mascaradas, em que o afecto depressivo é quase ou mesmo completamente encoberto por sintomas somáticos como dor, sintomas conversivos ou queixas gastrointestinais. Por vezes surgem aquilo que Fernandes da Fonseca (1985) denomina de formas clínicas atípicas de depressão, quando outros tipos de sintomas atingem por vezes uma intensidade tão marcada que podem mascarar o próprio humor depressivo, surgindo, assim, formas ansioso-agitadas, inibidas, equivalentes ou mascaradas de depressão.
É nesta lógica que se pode pensar, por exemplo, o alcoolismo, como uma expressão camuflada de um profunda melancolia, alcoolismo aliás muito prevalente no nosso país e que depende também, certamente, claro está, de factores sociais. E é também nesta lógica que se pode pensar as visitas frequentes ao médico de algumas pessoas, todo um rol de queixas e dores, por vezes mesmo as cirurgias desnecessárias, porque o sujeito não é capaz de consciencializar a verdadeira origem da sua dor maior; que não é física, é mental.
Mas mesmo quando as depressões são expressas por sintomas, digamos assim, típicos, nem sempre isso é acompanhado da possibilidade do sujeito, por ausência de recursos internos, de insight, de
elaborar a sua depressão. É neste contexto que se assiste a uma centração obsessiva nos sintomas depressivos manifestos, não só por parte de alguns técnicos, mas também por parte dos próprios doentes, na ânsia de obterem um diagnóstico para não terem de pensar muito na sua depressão.
É também neste contexto que se assiste a uma verdadeira poluição medicamentosa (Coimbra de Matos, 2002a), a uma proliferação de psicofármacos, cada vez mais especializados e com menos efeitos secundários.
É mais fácil ao técnico de saúde prescrever um antidepressivo do que aceitar a complexidade da realidade psicopatológica do doente e, por conseguinte, recomendar uma intervenção psicoterapêutica. E é mais fácil ao doente acreditar que tem uma doença de origem biológica, que a depressão é meramente o resultado de uma alteração neuroquímica, e que, portanto, pode ser tratada com medicamentos.
Devo dizer que não sou contra os psicofármacos. Considero que podem ser utilizados, desde que nunca seja esquecido aquilo que considero uma verdadeira máxima – os psicofármacos reduzem sintomas, e podem ser muito úteis, mas não curam doenças, não restituem a saúde mental a ninguém.
Noutros casos, os pacientes não acreditam que a sua depressão seja meramente o resultado de alterações biológicas, mas antes o resultado directo e imediato de uma qualquer circunstância de vida negativa actual, pelo que a solução passa por algo de exterior, inacessível à psicoterapia, esquecendo o paciente ou procurando não ter consciência que o sofrimento vem sempre de dentro, não vem de fora e que precisa procurar a causa da sua depressão sempre, e repito, sempre, na sua história passada. Só assim é possível modificar a estrutura de personalidade, só assim, revivendo com o psicoterapeuta a emoção traumática da perda precoce, vivendo a experiência emocional correctiva, é que é possível sair da condição básica de depressividade.
Importa também agora, a “talhe de foice”, fazer uma justa referência à perturbação maníaca. De acordo com um modelo médico da
psicopatologia, a mania é caracterizada por euforia, sentimentos de grandiosidade, pensamento acelerado e de certa forma desorganizado, perturbações dos impulsos, sociabilidade exagerada, actividade e energia aumentada, distractibilidade e pressão do discurso. Do ponto de vista psicodinâmico, a mania é o oposto da depressão; é uma defesa contra a depressão, é o seu reverso, é a tentativa, quase se podia dizer psicótica, “louca”, de negação do sofrimento psíquico depressivo, porque a mania implica sempre uma perda do contacto com a realidade. O mecanismo de defesa da negação implica isso mesmo, desde as formas mais ligeiras em que apenas uma porção delimitada da realidade é parcialmente “não vista”, às formas psicóticas em que a realidade é maciçamente distorcida. Por isso, a mania é mais grave que a depressão. Aliás, penso que é claro que negar o sofrimento, fazer de conta que nada se passa, que tudo está bem, ainda mais quando isso é feito de forma maciça, é sempre mais grave do que aceitar esse mesmo sofrimento, porque a depressão é esse espaço mental de sofrimento e de resposta à perda, mas também pode ser um tempo único de elaboração e crescimento psíquico.
Na sociedade actual não se assiste propriamente a muitos casos de perturbação maníaca, até porque, do ponto de vista estritamente fisiológico, é impossível manter-se o sujeito num estado maníaco durante muito tempo, mas sim ao proliferar de casos que podemos designar de personalidade hipomaníaca. São pessoas que falam depressa, sentem-se sempre bem consigo próprias e com tudo à sua volta, “tudo sempre para cima”, como alguém dizia, trabalham de manhã à noite, acabam por chatear os outros, dado o seu comportamento impulsivo, e a sua atitude eufórica, e conseguem ludibriar o vazio depressivo que lhes vai por dentro. Todos conhecemos certamente alguém com estas características.
Ainda uma referência para as personalidades narcísicas, que compensam o sentimento de profunda menos valia por um sentimento de omnipotência e de omnisciência, que tudo sabem e tudo podem ser, que exigem aos outros, que vivem para ser admirados e reconhecidos,
porque o objecto primário nunca o fez. Mas são verdadeiros “sacos rotos”, onde todo o afecto e dádivas que eventualmente recebem se escoa. Compras sempre cada vez mais caras, sempre mais admiração, sempre mais exigências e sempre a culpabilização do outro quando não dá, porque não pode dar, o que o sujeito precisa. Aquilo que o sujeito precisou só podia ter sido dado pelo objecto materno. Também todos nós conhecemos certamente alguém assim.
Mas voltando aos equivalentes depressivos, nas crianças e nos adolescentes paradigmáticos, são típicos, na medida em que as vicissitudes dos respectivos períodos de desenvolvimento não tornam possível ao sujeito expressar a depressão numa linguagem aberta, típica. E se não é possível expressar a depressão de forma, por assim dizer, directa, ela é expressa por uma forma equivalente, por uma manifestação que, em si mesma, não é, do ponto de vista fenomenológico, depressiva, mas que se equivale, e daí o termo clínico equivalente depressivo. Nestas faixas etárias, como é referido por alguns autores, as depressões exprimem-se fundamentalmente por equivalentes.
Na adolescência, na procura da vida adulta, passa-se por uma desintegração do sistema psicológico do próprio, em que o comportamento é o sintoma de uma insuficiência da capacidade de pensar e é por isso que muitas vezes adolescência e passagem ao acto se associam (Matos, 1996), como referirei mais à frente.
Quase ficamos com a impressão de que tudo é depressivo, e se calhar isso não estará muito longe da realidade. E porquê? Porque, e citando de memória Coimbra de Matos, não há patologia mental sem perda afectiva. A depressão funciona como um paradigma da psicopatologia; a sua compreensão serve para outras formas de patologia; é um modelo universal da perda e do sofrimento afectivo.
Para dar precisamente um exemplo de como “tudo é depressão” ou resulta dela, vejamos um caso nas crianças: como se pode, por exemplo, entender a enurese, as doenças físicas frequentes ou a hiperactividade, diagnóstico este último agora tão na moda, se não como
equivalentes depressivos? Sem outra forma de se expressar, a criança manifesta pelo corpo o seu sofrimento, numa “linguagem simbólica” que escapa muitas vezes aos educadores, aos pais e demais adultos que estão ao pé de si. Mais preocupados em obter um rótulo da parte dos técnicos ou em ir à internet procurar os critérios de diagnóstico, tornam-se, estes adultos, incapazes de ouvir a criança e de ler as suas emoções. A hiperactividade, por exemplo, é apenas um correlato comportamental, uma expressão, um pedido de ajuda simbólico, que mostra que algo não vai bem internamente com aquela criança.
E cabe ao psicólogo atento e competente saber dar sentido à realidade psíquica da criança. Não lhe cabe “prescrever” cafeína, para obter um efeito fisiológico paradoxal de tranquilizante, como aconteceu num caso que me confidenciaram recentemente. Cabe-lhe, se for capaz, de conter e dar significado, de estabelecer com a criança uma verdadeira relação sanígena e promotora de desenvolvimento. Porque não esqueçamos, como alguém dizia, é a relação que cura. O Homem, mais do que um ser racional, é um ser relacional, que precisa da relação, como “de pão para a boca”. Sem ela, é a psicose, “a loucura”, ou as suas formas menores, as restantes perturbações psíquicas, quando essa relação não esteve ausente, mas foi “apenas” precária, insuficiente, inconsistente, em maior ou menor grau.
No adolescente, por seu turno, também se podem citar diversos exemplos de equivalentes depressivos, referidos por diversos autores (veja-se Marcelli & Braconnier, 1984), como a agressividade, os problemas escolares e as dificuldades de concentração, igualmente a hiperactividade, a inactividade, as perturbações alimentares, diversos comportamentos de risco e as perturbações do comportamento ou de acting out (passagem ao acto), também denominadas patologias do agir.
Estas últimas formas de psicopatologia são especialmente preocupantes pelas consequências extremamente negativas que podem ter para o próprio e para os outros. Muitas vezes, as manifestações psicopatológicas associadas ao acting out não tomam, na nossa sociedade,
formas extremas, como na delinquência ou toxicodependência, mas apenas formas minor, expressas em comportamentos de risco, como a condução perigosa ou as relações sexuais desprotegidas.
O acting out é, frequentemente, uma forma de negar a depressão. Isto é sobretudo verdade na adolescência e nas depressões anaclíticas ou borderline que referi há pouco. Na depressão anaclítica, e vou resumir, utilizando uma linguagem psicanalítica, o trauma ocorreu antes dos 18 meses, pelo que não existe uma regular memória de evocação. O sujeito torna-se incapaz de tolerar a ausência física, real do objecto, precisamente porque não é capaz de o evocar, não o introjectou, pelo que predomina o medo da perda do objecto enquanto objecto de apoio, o medo do abandono, a angústia de separação. Na depressão anaclítica não se dá a interiorização permanente do bom objecto, e é por isso que a perda é insuportável, porque o sujeito ainda não o constituiu dentro do seu mundo interno. E isto aconteceu porque a relação precoce foi inconsistente, descontinuada, logo pouco securizante. Quando há uma separação, é o desespero, o desamparo e o sentimento de abandono. O acting out pode ser entendido no borderline como uma defesa contra a depressão borderline, uma depressão não vivida no plano da interioridade (Coimbra de Matos, 2002a; veja-se também Coimbra de Matos, 1997), uma depressão que é agida.
Na génese da delinquência, e voltamos a ela, forma major de perturbação do comportamento, encontramos as perdas afectivas e a falta de modelos de identificação capazes, a organização de um Supereu lacunar, pouco estruturado, portanto, encaminhando os jovens para uma autonomia precoce que engana a rejeição precoce (Matos, 1996). Uma metáfora é os pais que dizem à criança pequena “se já és capaz de ir até ao quintal, então vá pá, também já és capaz de ir até ao outro lado da rua”.
O acting out opõe-se ao pensamento, e é um vestígio certo do sofrimento resultante de falhas na interacção precoce com um objecto predominantemente sádico e contraditório (Coimbra de Matos, 1984).
Alivia o sofrimento depressivo, mas o acting out, como ocorre numa atitude projectiva, de evacuação, de culpabilização do exterior, impede a atitude reflexiva, tão necessária a este tipo de sujeitos, precisamente para tornar possível a compreensão daquilo que deu origem ao seu comportamento anti-social (Matos, 1996). Ao agredir e atacar, acusando sistematicamente o outro, o sujeito evita deprimir-se (Bergeret, 1976).
Mas a capacidade de pensar é absolutamente vital para a saúde mental e o seu comprometimento associa-se directamente ao adoecer psicológico. Citando de memória Pedro Luzes, a perturbação do pensamento caracteriza toda e qualquer forma de perturbação psíquica. Contrariamente, é preciso valorizar a existência de uma arma de construção massiva, citando também de memória o poeta Mia Couto quando falava a propósito das tão referidas armas de destruição massiva, arma de construção massiva que é precisamente a capacidade de pensar.
O delinquente, ao colocar-se na alçada da lei, apropriando-se de objectos que não lhe pertencem, tenta suprir o objecto de relação primária que sente que lhe faltou, não percebendo que o faz compulsiva e repetidamente. Vinga-se no exterior, no social, afastando a sua agressividade do objecto que realmente mereceria a sua retaliação. Numa linguagem psicanalítica, dir-se-ia que desloca o seu conflito do interior para o exterior, do objecto interno primário para a sociedade (Matos, 1996). O comportamento anti-social deve ser entendido como a procura do objecto perdido, resultante da privação, reflectindo a concepção do sujeito de que a causa do seu mal-estar reside numa falha exterior a si (Winnicott, citado por Matos, 1996).
Mas como disse há pouco, nem sempre o acting out está associado a comportamentos patológicos graves como a delinquência. Ele é frequente na cultura actual em que se assiste a uma necessidade incontrolável, compulsiva, de obtenção de um prazer imediato, a uma sociedade do ter e não tanto do ser, em que vale apenas as coisas que se conseguem, e menos a forma como se conseguem essas mesmas
coisas. Uma sociedade em que tudo deve ser oferecido, nada deve ser procurado, uma sociedade sem frustração, mas que assim é também, e necessariamente, uma sociedade sem desejo, em que esse desejo é agido, porque tem de ser imediatamente satisfeito. A sociedade das compras de Natal em catadupa, dos centros comerciais, dos programas, das modas, em que só se é se se for igual, em que o sujeito se dilui numa amálgama fusional, em que a sua identidade periga, ao sabor da homogeneização, da globalização, em que não há espaço para pensar, para desejar, para sonhar, para se ser único, ao mesmo tempo que se está com o outro. É uma visão pessimista da sociedade, talvez, bem sei, mas é a que eu tenho.
Uma sociedade em parte controlada pelo objecto materno, objecto caprichoso já se vê, e não pelo objecto paterno, diria um psicanalista lacaniano, mas então, diríamos nós, um mau objecto materno. Encaixaria aqui “como uma luva” a explicação para o facto de sermos uma sociedade preguiçosa, ao sabor da lei da mãe e pouco da lei do pai. Por isso os trabalhadores portugueses produziriam mais noutros países, como reflectia Maria Belo, psicanalista, numa comunicação a que assisti recentemente.
Aliás, vivemos num tempo em que a figura paterna é desvalorizada, apagada mesmo. Não é por acaso que encontramos sistematicamente na clínica famílias em que o pai está ausente ou é uma figura sem poder, fraca, ou em que essa fraqueza é substituída por brutalidade, sendo a mãe a detentora da autoridade.
As famílias dos toxicodependentes tipificam a situação em que a figura do pai não existe, não interfere na relação mãe-filho, em que o comportamento agido – a droga – substitui o afecto e a comunicação e em que o sintoma consumo de drogas permite o evitamento dos problemas reais nas relações. O toxicodependente funcionaria como o portador do sintoma da família (Dias Cordeiro, 1982), para utilizar uma linguagem das correntes sistémicas.
É uma sociedade, a nossa, do aumento do consumo de drogas. O consumo de drogas precisamente como forma de obtenção de prazer
imediato, como forma de negar a realidade e o sofrimento, mas também como uma forma de rejeitar o social, de se evadir desse mesmo social e como o resultado de um Eu fraco e da fraca capacidade de tolerar a frustração.
Mas é um prazer narcísico, em círculo fechado, o que é obtido com o consumo, que começa e acaba no próprio, num estado de regressão narcísica e de auto-erotismo, dada a incapacidade do sujeito de estabelecer vínculos significativos e de encontrar satisfação na genitalidade e na vida social. Faltou o vínculo primário, absolutamente fundamental, e por isso a droga funciona como uma espécie de objecto transicional, na linguagem de Winnicott, e como uma tentativa simbólica de recuperar a relação simbiótica, o contacto corpo-a-corpo com a mãe (Dias Cordeiro, 1982).
Pensemos na descrição que os heroinómanos fazem da experiência que se associa ao consumo intravenoso; uma espécie de experiência regressiva que faz lembrar a vivência intra-uterina. Sem o objecto transicional, a criança não é capaz de passar de um estado mental em que prevalece o Princípio do Prazer para outro em que prevalece o Princípio da Realidade.
No toxicodependente, a depressão que não pode ser vivida no plano psíquico conduz a uma compulsão ao consumo, que resulta numa elação toxicomaníaca, um mecanismo de defesa contra a depressão. Mas a elação não dura sempre, vem depois a culpa e o sujeito volta à posição depressiva, agravada cada vez mais pela perda da ilusão de felicidade e pela degradação progressiva da vida relacional e social (Dias Cordeiro, 1982).
Uma nota ainda antes de terminar para referir que as condutas agidas, sejam elas de que tipo forem, comportam sempre uma negação ou anulação da angústia de morte. Como o adolescente que faz cavalinhos na sua mota numa estrada infestada de carros e não é capaz “de perceber” que pode morrer. O mesmo acontece no toxicodependente, em que o dispor da vida serve precisamente para controlar a angústia de morte. Vivem “no fio da navalha”.
Termino este trabalho, concluindo que independentemente de como se expressa a psicopatologia e, por conseguinte, a dor mental, a sua origem está sempre na perturbação das relações do sujeito com as figuras significativas. A sociedade só amplia, só repete e só cristaliza as vulnerabilidades precocemente estruturadas, ou, pelo menos, “semeadas”. Assim se justifica o título deste trabalho. De facto, a dor mental, logo a patologia, existe quando o sujeito não foi amado. Muitos de facto diriam, se pudessem, se soubessem: “Porque nunca gostaram de mim…a minha dor não tem fim”.
SUMMARY: In this work, we begin by presenting some literature data concerning the prevalence of depression and that emphasize the importance of this problem in the actuality. Then we think about what is depression and about the different forms that depression and mental pain can be expressed, beginning by clinical depression itself, then mentioning hypomaniac and narcissistic personalities and depressive equivalents and masked depressions. Finally we mention the acting out as a form of denying depression and mental pain. We emphasize the idea that social factors only reinforce, repeat and express the vulnerabilities early structured in the context of dysfunctional object relationships.
KEYWORDS: Depression; Acting out; Psychopathology; Social factors; Object relationship.