O autor aborda o tema “Familiaridades Inquietantes”, sublinhando a ideia de que o chamado medo do estranho e do desconhecido contém muitas vezes, afinal, um medo do familiar e do já conhecido, pelo que defende a importância daquilo a que chama Representação Empática em Psicoterapia Psicanalítica, não só enquanto modelo compreensivo da transferência, mas sobretudo como fulcro da alavanca da “Nova Relação”.
Quando reflectimos sobre a noção de familiaridade segundo uma perspectiva psicanalítica, pensamos sobretudo em familiaridade inconsciente, o que encerra desde logo um paradoxo, pois familiaridade remete para aquilo que já é conhecido, enquanto inconsciente reenvia para aquilo que no próprio ainda é desconhecido. Temos então
Comunicação apresentada no Colóquio “Heranças Familiares: Perspectiva Psicanalítica”. Loulé, 14 e 15 de Março de 2008.
Psicólogo Clínico.
Recebido para publicação em 21 de Abril de 2008. Revisão recebida em 23 de Abril de 2008. Aceite para publicação em 10 de Maio de 2008.
que a noção de familiaridade só se define pela coexistência e oposição com aquilo que é da ordem do novo ou da novidade.
A questão de saber o que já é conhecido, por oposição àquilo que permanece por descobrir, estende-se à própria teoria e técnica psicanalíticas. A psicanálise inventada por Freud tornou-se tão familiar, visível e omnipresente que o seu brilho intenso parece ofuscar a resposta à pergunta: “Depois de Freud, o que há de novo na psicanálise?”.
A essa pergunta, André Green (1990), numa das suas conferências no Brasil, responderia “De novo na Psicanálise? Freud!”. Lendo na resposta de Green a ideia de que a obra de Freud é intemporal e dotada de uma fecundidade sempre renovável e refrescante, podemos ainda assim ter a humildade de concordar e ao mesmo tempo a irreverência de discordar do célebre psicanalista francês.
Muitas das ideias de Freud permanecem como referências incontornáveis da Psicanálise Contemporânea, independentemente de serem mais ou menos conhecidas, estudadas e aprofundadas. Outras ideias perderam valor científico, foram desmistificadas e caíram em desuso. É assim a marcha da ciência.
Outras ideias ainda, apesar do seu interesse teórico e fecundidade clínica, mantiveram-se mais na sombra. Talvez uma dessas ideias seja a que Freud desenvolve em “O Estranho”, de 1919, que será aqui abordada à luz da actual teoria das relações objectais internalizadas e contextualizada na relação terapêutica. Aliás, estranho seria – considerando o espírito evolucionista, para não dizer revolucionário, que Freud imprimiu na própria psicanálise – que a nossa reflexão não contemplasse alguns avanços teóricos e técnicos que entretanto foram realizados.
Por isso mesmo, entusiasmam as ideias de Daniel Stern (2006), sobre a importância do “momento presente”, e, entre nós, de Coimbra de Matos (2007), que insiste na “nova relação”, lado a lado com as ideias do francês André Green e, por cá, de Manuel Matos (2005), ambos reforçando a centralidade do conceito de representação em psicanálise.
Uma das ideias centrais desenvolvidas por Freud no seu texto “O Estranho” (1919) é a de que algumas situações ou contextos podem gerar uma sensação de estranheza, que é simultaneamente assustadora e misteriosa. “Estranho”, ou Unheimlich em alemão, é o oposto de heimlich, que significa familiar e agradável, mas também secreto e íntimo. Temos então que a palavra Unheimlich significa que: num primeiro tempo, algo agradável deixou de o ser e por isso foi tornado não familiar ao próprio; num segundo tempo, esse algo volta a tornar-se familiar mas para isso tem que o fazer sob a aparência do estranho.
Aquilo que está implícito neste texto de Freud é o conhecido mecanismo de recalcamento de uma representação mental que, apesar de remetida para o inconsciente e de lá permanecer inalterada, para retornar, tem que fingir3 alguma mudança – neste caso, a familiaridade finge-se, isto é, mascara-se ou transveste-se de novidade, o que produz necessariamente a sensação de estranheza e inquietação, já que não é novidade alguma! É, pelo contrário, algo há muito familiar, que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas que retornou à luz da consciência. O chamado medo associado ao estranho, ao desconhecido e à novidade, afinal, encontra a sua raiz num medo ligado à familiaridade e ao já conhecido 4.
Estamos agora em condições de considerar que existem (pelo menos) dois tipos de novidade em psicanálise: a novidade primária e a novidade secundária. A novidade secundária está em relação com o inconsciente secundário ou recalcado, termo que designa algo consciente, conhecido e familiar que, por via do recalcamento,
Para enganar o “recalcante”, ou a chamada “censura” no modelo topográfico – espécie de membrana selectiva entre os sistemas Inconsciente e Consciente/Pré-Consciente.
Sublinhe-se que o medo é um afecto que surge como reacção face ao perigo que se apresenta (no exterior) ou que se re-apresenta (no interior psíquico). Este último é o medo face à emergência da representação familiar que volta a apresentar-se, mas “vem de máscara”: a máscara do desconhecido.
foi secundariamente tornado inconsciente, desconhecido e estranho ao próprio.
Neste sentido, a novidade secundária corresponde ao retorno do recalcado, ou seja, ao retorno de algo que o sujeito já sabia mas não sentia e muito menos pensava. Algo que o sujeito não sentia de modo claro e não pensava de forma evidente; ou simplesmente “nunca tinha pensado nisso”, mas “sempre o soube”, como ouvimos após a interpretação que permite revelar o sempre contido no nunca, isto é, a marca da ausência do tempo que caracteriza o funcionamento inconsciente. Esta novidade secundária corresponde ao chamado aprés-coup de que falam os psicanalistas franceses: quando algo já percebido só toma significado retrospectivamente, ou, em sentido inverso, quando algo já contido e “armadilhado” na mente, só é activado e “deflagrado” posteriormente – uma espécie de bomba de acção retardada, no dizer de Laplanche (Birksted-Breen, 2003).
Isto é possível porque o inconsciente desconhece o tempo, mas também desconhece que desconhece o tempo (Green, 2001). Por isso, o tempo que realmente importa não é aquele em que a experiência ocorre, mas sim aquele em que a experiência é re-significada através da elaboração em retrospectiva: o estranho não é estranho por ter sido estranho, mas porque assim teve que ser re-significado para poder aceder à consciência.
E reparemos que a passagem da representação familiar do inconsciente para o consciente é possível, não apesar da sua deformação (sob a forma de estranho), mas precisamente por causa dessa deformação – tal como o trabalho do sonho deforma os conteúdos para a eles podermos aceder.
O “estranho” descrito por Freud em 1919 liga-se ao inconsciente secundário e a este tipo de novidade que não o é: a sensação de estranheza corresponde ao reconhecimento parcial, sob a forma de repetição, de que não é o novo, mas sim o antigo que inquietou, impressionou ou traumatizou; embora referindo-se explicitamente ao presente, é ao passado que implícita e verdadeiramente remete.
O “estranho” é verdadeiramente um afecto comemorativo (Coimbra de Matos, 2001), no sentido em que permite ao sujeito comemorar (sem no entanto recordar) uma data registada ou um episódio marcante do passado, que, fruto da elaboração psíquica inconsciente/pré-consciente, é revivida no presente com um estado afectivo diferente. Por exemplo, um acontecimento originariamente acompanhado de excitação pode ser revivido com angústia, culpabilidade ou simplesmente estranheza.
Numa outra linha de pensamento, a novidade primária está em relação com o inconsciente primário ou virtual, termo que designa algo que é inconsciente porque simplesmente nunca passou pela consciência. Este inconsciente é actualmente designado de implícito, não devendo ser confundido com a noção de inconsciente originário – que é aquele do qual derivam os chamados “fantasmas originários”, supostamente inscritos na espécie e cultura milenar e que transcendem o próprio indivíduo (como os fantasmas de sedução, castração, de pais combinados, etc., que não possuem hoje grande valor científico, sobretudo se entendidos como “originários”).
Este inconsciente primário liga-se ao que Daniel Stern (2006) denomina por conhecer relacional implícito, que não é inconsciente no sentido de recalcado, é simplesmente não consciente, porque nunca foi consciente e “pode nunca necessitar de o ser” (Stern, 2006, p. 234). Enquanto o inconsciente recalcado é retrospectivo, pois reenvia para o que já aconteceu, o inconsciente implícito é eminentemente prospectivo, referindo-se àquilo que ainda não aconteceu mas está a acontecer em cada momento presente da relação terapêutica – é o dinamismo psíquico presente, nascente e vigente, que vive o agora dos momentos de encontro entre paciente e terapeuta.
Embora sejam as neurociências e sobretudo as ciências cognitivas aquelas que mais se têm interessado por este processamento implícito
da experiência, sobretudo afectiva5, têm sido efectuados esforços para o integrar na teoria e prática psicanalíticas (Stern, 2006).
Mas esse esforço de integração pode parecer, pelo menos numa perspectiva mais clássica da psicanálise, um terreno sinuoso. Ainda assim, vale a pena voltar a perguntar: o que há de novo na psicanálise? Ou, simplesmente, o que é/em que consiste a Nova Relação?
É hoje amplamente reconhecida a importância da relação intersubjectiva na génese das representações mentais – na forma como o sujeito se concebe a si próprio na relação com os outros –, bem como o efeito etiopatogénico das distorções relacionais precoces. Por isso o enfoque da psicanálise e da psicoterapia psicanalítica incide hoje num duplo registo:
a [psico]análise ou desconstrução das representações mentais patogénicas, que foram remetidas para o inconsciente recalcado (saturado nos seus significantes e pensamentos já pensados), mas que permanecem vivas e actuantes, sendo por isso compulsivamente reactivadas: é a análise da transferência ou de como o presente reedita o passado;
e a [psico]síntese ou construção daquilo que nunca chegou a ser construído sob a forma de representação mental6 e que portanto permanece no inconsciente implícito, sob a forma de energia potencial livre e insaturada nos seus significantes, numa espera ávida de construção e sentido: é a construção da “nova relação” (Coimbra de Matos, 2007).
Que alterna paralela e ciclicamente com o processamento explícito da experiência, sobretudo cognitiva.
Em que aquilo que não aconteceu mas devia ter acontecido será tanto ou mais patogénico do que aquilo que aconteceu mal.
Assim, paralelamente à análise do passado familiar recalcado, que vai no sentido de tornar conscientes as representações inconscientes (é aqui que o estranho pode surgir), tem que existir e existe necessariamente também uma síntese de um novo presente, construído na base do estar com o outro que permanece implícito na constância e continuidade da relação terapêutica.
Sublinhamos aqui a importância da continuidade e constante renovação dos momentos de encontro – razão da importância da continuidade do setting em psicoterapia – que é o que permite verdadeiramente fundar ou refundar os alicerces da vida mental.
É claro que permanece essencial o afastamento que possibilita a construção da representação mental do objecto ausente, “que guarda em si mesma o poder de evocar o objecto original de onde se desprendeu” (Matos, 2005); e daí, também, a importância clínica de ansiedade da separação, ligada ao medo da perda do objecto e aos défices da capacidade mental de representar.
No entanto, sublinhe-se, aquilo que acende a chama vivificante da relação fundadora da vida mental não é a separação, mas sim o encontro e sobretudo a continuidade dos reencontros entre o sujeito e o seu objecto, naturalmente ponteados por momentos de separação. E é a continuidade e também a qualidade dos reencontros que vai determinar o modo de viver as separações. Na verdade, o sujeito só consegue uma verdadeira separação do seu objecto depois de ter a certeza que o(s) primeiríssimo(s) encontros foram marcantes e guardados, nomeadamente dentro do seu objecto – aí a separação é possível, o sujeito já pode perdê-lo para o guardar dentro de si mesmo, assegurado que está o reencontro.
Pensamos que o medo da separação, mais do que o medo de não possuir uma representação estável do outro, refere-se antes ao medo de não estar representado no interior do outro: “Antes de me lembrar [do meu objecto], lembro-me se ele se lembra de mim”. Ou simplesmente: “Posso esquecer tudo, menos que fui esquecido” – eis o ponto nevrálgico da doença mental de base relacional.
Talvez por isso ganhe alguma importância clínica a ansiedade do reencontro, quando se torna óbvio que as patologias mentais mais graves se fundaram no [des]encontro primordial da mãe com o seu bebé, inviabilizando desde logo qualquer hipótese de ligação segura e securizante.
Temos então que à psicanálise e psicoterapia psicanalítica actuais interessa a análise do passado, assente na interpretação da transferência. Esse é o domínio do que aconteceu e foi conhecido (passou pela consciência), mas que o paciente preferia que não tivesse acontecido e por isso arranjou forma de desconhecer (recalcou, clivou ou aboliu); é também o terreno das fantasias, dos sonhos e das representações – pois a transferência não se refere ao terapeuta mas àquilo que o terapeuta representa. E, na transferência, o terapeuta representa para o paciente um objecto do seu passado.
Mas hoje insiste-se também na importância de o terapeuta representar para o paciente não só um objecto do seu passado, mas também um “novo objecto de relação”. E o que é que significa ser um “novo objecto de relação”? Tentaremos dar uma resposta a esta pergunta, introduzindo, para isso, aquilo a que chamamos Representação Empática em Psicoterapia Psicanalítica.
De facto, é muito importante a forma como o paciente representa, dentro de si, o seu terapeuta; mas pensamos que aquilo que verdadeiramente caracteriza a nova relação é a importância atribuída, não tanto à forma como o paciente representa o terapeuta, mas sobretudo à forma como o terapeuta representa o paciente.
É o que chamamos a Síntese de um Novo Presente: o paciente revê-se hoje como foi visto ontem [pelo objecto do passado], mas vai rever-se amanhã como é visto hoje [pelo objecto do presente]. Este é o domínio do que não aconteceu 7 mas devia ter acontecido ao nível desenvolvimental e que por isso emperrou o processo de aquisições psicológicas. Entre essas aquisições destacamos o chamado imprinting
Por isso não passou pela consciência notativa nem pela consciência reflexiva – não foi recalcado nem deixou registo; simplesmente não aconteceu.
no objecto (ou seja, a marca/representação que o sujeito deixa no interior do seu objecto), que precede e enforma o imprinting do objecto (isto é, a marca/representação do objecto no interior do sujeito). As falhas ao nível da série desenvolvimental – 1) ser representado no interior do objecto, 2) representar-se a si próprio e representar o objecto, não podem ser procuradas nem recuperadas ao nível do inconsciente recalcado, pertencendo antes ao domínio emergente do acontecer e do conhecer relacional implícitos.
Porque não se trata, aí, do recalcamento de representações, mas antes da não aquisição da capacidade psíquica de representar, da proto-representação do elo da ligação, ou do estar com (weness), o que naturalmente dificulta o acesso à co-construção da narratividade intersubjectiva8.
Temos então que a análise da transferência se baseia na recuperação da novidade secundária, ou seja, das representações recalcadas que, afinal, já eram familiares ao paciente; de forma complementar, a base da nova relação é a construção da novidade primária, ou seja, a criação do afecto de vitalidade, real e no momento presente, que dá vida à representação do nascimento psicológico do paciente no útero representacional do seu terapeuta.
Porque, se após o nascimento biológico no útero da mãe, o desenvolvimento psicológico do sujeito no interior psíquico dos pais não foi bem sucedido, porque simplesmente abortou ou porque nasceu de parto precoce, então terá que nascer ou renascer psicologicamente no interior representacional do terapeuta. Tentaremos compreender o que isto significa.
Quando reflectimos acerca da genealogia do “medo perante o estranho”, que é um dos marcos desenvolvimentais da vida mental (Sptiz, 1965),
É o caso do paciente que nada tem a dizer sobre si nem sobre a sua ligação com os outros. Mas é um nada realmente vazio, de tão real que é (foi).
somos impelidos a questionar se o medo do estranho é realmente do estranho, ou se é o medo de algo ou alguém familiar que o infante não consciencializa, mas intui no olhar da mãe, porque já presente na mente dela: esse alguém é o outro que capta o olhar da mãe e o desvia do seu bebé; é o “mundo não-mãe” que virá a ser conhecido como pai. Também aqui, e tendo por base a distinção entre inconsciente recalcado e inconsciente implícito, a relação do infante com o pai vai ser moldada pela relação preexistente do pai com a mãe:
se é maligna (marcada pelo medo, desencanto e ameaça), a representação do pai tende a ser receada e recalcada pelo infante, o que restringe o seu encontro com o pai real: aí, surge o medo do “estranho [já familiar]”, por identificação projectiva, da mãe para o infante e deste para os objectos exteriores.
se é benigna (marcada pelo entusiasmo, encanto e segurança), a representação do pai tende a emergir na relação real com ele, o que expande a estrutura relacional do infante, já que possibilita a escolha e a alternativa ao nível do investimento afectivo e representacional.
O pai, ou o mundo não-Eu em sentido lato, permanece sempre implícito na relação do sujeito com os aspectos desconhecidos do mundo objectal, mas não é a qualidade de desconhecido que assusta; o que amedronta o sujeito é aquilo que já conhece e que desde cedo o paralisou e restringiu na sua liberdade pessoal. Mas como o mau objecto é precisamente aquele que o sujeito não consegue largar (porque dele permanece refém), inventa a mentira do medo do desconhecido ao projectar nos objectos neutros as qualidades negativas do objecto original. O que significa que o sujeito não tem medo do desconhecido por ele ser desconhecido mas por aquilo que o desconhecido lhe reapresenta, ou seja, por aquilo que ele tem de já familiar (via projecção ou simples associação simbólica). Não há propriamente um medo do pai enquanto desconhecido, mas sim um
medo da já conhecida representação do pai no interior da mãe, que será – ou não – reencontrada no pai real. Aí, tem a palavra o pai: objecto de transferência ou novo objecto de relação?
Existe um outro conceito que nos permite compreender as implicações que esta dialéctica familiar/estranho pode ter ao nível da técnica psicoterapêutica. Mais do que isso, esse conceito permite-nos compreender a razão pela qual a “nova relação” se caracteriza pela importância atribuída à forma como o terapeuta representa o seu paciente. É a ideia de holding, de Winnicott.
O significado mais conhecido de holding é aquele que evoca a imagem da mãe que segura firmemente o infante nos seus braços; mas esse significado não revela toda a pregnância do conceito. Holding ou To Hold significa não só segurar, mas também esperar – ou seja, remete para a capacidade da mãe para abandonar temporariamente as suas próprias necessidades pessoais, transformando-as numa continuação das necessidades do infante. O que significa criar com ele uma continuidade que será inevitavelmente interrompida quando o infante descobrir que existe, afinal, uma descontinuidade entre ele e a mãe, ou seja, entre o Eu e o não-Eu.
É esse tempo de espera, na incubadora psicológica providenciada pela mãe, que permite ao infante a espontaneidade de ser ele próprio a criar ou descobrir o seu verdadeiro Eu, antes de lhe ser apresentado o não-Eu. Quando a mãe apresenta precocemente o não-Eu ao infante – aquilo que Winnicott designa por impingements –, cria uma rotura na continuidade do ser e impõe a formação de um falso self (Winnicott, 1956).
Ora, ao nível da técnica em psicoterapia psicanalítica, existe uma certa analogia entre, por um lado, o holding e aquilo a que chamamos Representação Empática, que procura e sustém o verdadeiro self, e, por outro lado, a quebra momentânea ou extemporânea do holding através da Interpretação.
Porque o que acontece é que, muitas vezes, a interpretação formulada pelo terapeuta promove um reencontro do paciente consigo mesmo, nomeadamente com as representações recalcadas ou clivadas de si mesmo, que podem então ser integradas ao nível do Eu. Não obstante, este reencontro do paciente com as partes desconhecidas de si mesmo pode acontecer às custas de um momentâneo desencontro intersubjectivo entre o paciente e o próprio terapeuta. Convém não esquecer que a interpretação apresenta ao paciente as partes de si mesmo que este tanto se esforça por desconhecer, abolir ou esquecer (é como se a mãe apresentasse precocemente o não-Eu que assusta e paralisa o Eu da criança).
Representar significa a acção de tornar [de novo] presente algo ou alguém sob a forma de imagem mental (Foulquié, 1971). Não só a representação mental é um conceito absolutamente basilar da teoria psicanalítica , como a própria psicopatologia “funcional” é hoje conceptualizada em termos de distorções ao nível da génese desenvolvimental das representações mentais (Blatt, 2008).
Assim, assume renovada importância em Psicoterapia Psicanalítica o processo intersubjectivo através do qual o paciente é representado pelo seu terapeuta, antes de se representar a si próprio e de poder vir a representar os outros sem as “estranhas” distorções do seu passado familiar.
O termo “representação empática” pretende descrever um tipo específico de representação mental, emergente no contexto terapêutico, cuja génese e função se assemelha ou reproduz o estado afectivo do objecto materno com o seu bebé, que Winnicott designou como “estado de preocupação maternal primária” (Winnicott, 1956).
Tal como a mãe abandona temporariamente as suas próprias necessidades pessoais, transformando-as numa continuação das necessidades
do bebé, também o terapeuta abandona – ou melhor, suspende ou sustém [holds] – as suas preocupações terapêuticas (como a de ajudar o paciente a compreender isto ou aquilo, a reflectir acerca disto ou daquilo, etc.) e dedica-se a tornar presente dentro de si o seu paciente, criando-o sob a forma de representação. Tal como a mãe se dedica a criar uma continuidade com o ser do seu bebé, o terapeuta dedica-se a continuar as imagens criadas e as palavras verbalizadas pelo seu paciente.
A representação empática é uma representação ou criação do terapeuta porque é criada pelo ou emergente na mente do terapeuta; é empática porque é criada a partir do paciente e para o paciente (e em continuidade com o Eu do paciente); descreve a tentativa do terapeuta para fazer de, para se pôr no lugar sensível que é sempre o lugar do outro, neste caso o seu paciente. É aqui de importância óbvia a experiência do terapeuta ter sido ele próprio paciente, tal como na relação actual com o seu paciente permanece implícita a presença do terceiro ausente, que é o terapeuta do terapeuta – incluindo a forma de como o próprio terapeuta se sentiu presente e representado na mente desse terceiro ausente.
Temos então que a representação empática é uma representação gerada no contexto intersubjectivo real da relação terapêutica e que, nesse sentido, permanece no domínio do inconsciente implícito: ou seja, está implícito na sua atitude receptiva que o terapeuta pensa, sente e vive a relação com o paciente, construindo internamente um fluxo de afectos, representações, imagens, algumas delas susceptíveis de serem colocadas em palavras. É empática porque o terapeuta executa um movimento relacional de se colocar no lugar mental do paciente ou, por outras palavras, de o construir dentro do seu próprio espaço mental enquanto representação viva e animada pelo afecto subjacente ao discurso do paciente e ao curso da relação com ele. O seu sentido é eminentemente centrípeto, ou seja, de fora para dentro, pois é o que se passa na relação intersubjectiva que modela e enforma a representação interna do terapeuta.
O que foi dito até aqui descreve apenas o primeiro nível na génese da representação empática, correspondente ao domínio daquilo que emerge a partir do conhecer relacional implícito, que não é consciente e “pode nunca necessitar de o ser” (Stern, 2006, p. 234). Mas, na relação terapêutica, nem tudo o que de importante acontece permanece ou deve permanecer exclusivamente no domínio do implícito, sendo igualmente importante a explicitação do implícito que acompanha a consciencialização do inconsciente.
Este segundo nível – que, sublinhamos, não acontece sempre, aliás mal seria se assim fosse, pois o campo intersubjectivo ficaria saturado (Stern, 2006) – corresponde à passagem do movimento centrípeto para o movimento centrífugo, com a representação empática intrapsíquica a surgir no palco intersubjectivo da relação. Aqui, o terapeuta vai explicitar verbalmente, o que significa que confere vida e voz à própria representação empática que constrói do paciente dentro de si: por seu turno, aquilo que o paciente capta é a tentativa implícita de ser ou vir a ser representado, reencontrado e recriado pelo seu terapeuta (sob a forma de representação).
A representação empática é um instrumento para compreender e uma tentativa de apresentar ao paciente as partes de si próprio que permanecem mais próximas da consciência (mais próximas ou identificáveis com o Eu), antes de lhe poder apresentar, via interpretação, as outras partes que permanecem mais distantes da consciência – mais longínquas do Eu e mais identificáveis com o Id. Id que significa isto, isso ou aquilo; isso que é precisamente aquilo para o qual não temos nome – dizemos “Este sou eu, Isso não sei o que é”.
A representação empática dirige-se ao Eu do paciente, portanto corresponde a um nível representacional que está mais próximo do Eu, com o qual o paciente tem uma convivência mais fácil e de aceitação. A interpretação dirige-se ao Id, ao isso localizado no interior do paciente, portanto corresponde a um nível representacional que está mais distante do Eu, com o qual o paciente tem uma convivência
difícil e estranha; ou melhor, tem uma divergência assente na negação de que “isso” [o Id] lhe pertença.
Esta sequência na técnica terapêutica equivale à sequência desenvolvimental através da qual a mãe representa o Eu do infante, antes de ela mesma lhe apresentar o não-Eu. A representação empática dirige-se ao Eu antes de avançar para o “isso” [o Id ou o “não-Eu”, mas que é, na verdade, ainda e sempre, uma parte desconhecida do próprio paciente].
O exemplo clínico apresentado, sob a forma de sessão em discurso directo, pretende ilustrar a inquietação emergente com aquilo que na relação e setting terapêuticos aparenta ser da ordem da novidade, quando é, afinal, na familiaridade das representações internas evocadas que reside a raiz do medo e da inquietação. Para além disso, pretende-se clarificar o que é e de que forma a Representação Empática prepara o terreno intersubjectivo e abre caminho à Interpretação da familiaridade já contida no “estranho”.
A paciente é uma mulher, advogada, casada e com filhos. Começou a sua psicoterapia devido a queixas depressivas que aparentemente impediam o exercício da sua profissão. Na verdade, esta paciente tem uma estrutura de personalidade histerofóbica, assente num fundo de depressividade neurótica. O recalcamento da sexualidade é assistido ou protegido por uma subclivagem do Eu, que impõe alterações parciais no juízo da realidade, ao mesmo tempo que permite uma realização fantasmática quase-delirante dos impulsos infantis (de aparência incestuosa).
A sua infância é marcada pela falência da ligação afectiva com a mãe que, no plano interno, surge idealizada e desculpabilizada, em contraponto a um pai vivido e representado como agressivo e abandonante.
A relação dita agressiva com o pai encobre, não só impulsos incestuosos poderosamente recalcados, mas sobretudo a raiva inconsciente oriunda da relação primária.
É a insuficiente vivência edipiana com o pai que surge no primeiro tempo da relação terapêutica, mas desta vez para corrigir os erros anteriores de um percurso depressivo à procura de sentido: uma anterior transferência erótica, estimulada e rejeitada, no contexto de uma relação médica; e também uma história de passagens ao acto sexual que nada mais fizeram do que reforçar a culpabilidade, o masoquismo e a frigidez na relação com o marido. Esses acontecimentos puderam, enfim, ser compreendidos e elaborados.
Um dos aspectos centrais na análise da mascarada edipiana, que recobre o seu sofrimento depressivo, foi a reconstrução representacional do elo de ligação entre os pais: a paciente denegava em absoluto o prazer erótico da mãe com o pai, substituindo-o pela ideia de uma mãe submissa e sofredora (com a qual se identifica e procura reparar) às mãos de um pai sádico e assustador.
Observemos então o decorrer de uma sessão, focando o entrelaçamento do implícito e do explícito ao nível das representações mentais emergentes no campo intersubjectivo, bem como o movimento empático do terapeuta na tentativa de representar a paciente e para a paciente.
P – Como cheguei 15 minutos antes, fui dar uma volta… depois perdi-me, não conseguia encontrar o caminho para aqui… mas depois voltei um pouco atrás e consegui reencontrar a rua certa.
T – Representação Empática Explícita: “Também aqui, com o meu terapeuta, tive que voltar atrás na minha vida para me poder reencontrar”.
P – Vim para tratar dos meus problemas profissionais e acabei a tratar dos meus problemas afectivos… faz-me lembrar a minha infância,
lá no interior, havia umas valas e uma forma de deslocar a água de umas valas para as outras… acho que foi isso que você fez, levou a água para outras valas…
(T) Representação Empática Implícita: “Que era onde a água estava a faltar, nas valas psíquicas pouco irrigadas da minha infância”.
P – Ah, queria perguntar-lhe se trocou estes cadeirões… também não tenho a certeza de que este tapete tivesse estado sempre aqui… aquele relógio sei que sempre esteve ali… e esta almofada aqui por trás [vira-se, olha e toca na almofada], não sei se é a cor que é diferente ou então, estes olhos [referindo-se a pequenos desenhos circulares numa das faces da almofada, preenchidos com um material ligeiramente espelhado]… criam-me uma sensação estranha…
(T) Rep. Emp. Implícita: “Há olhos na minha almofada psíquica, quem me espia?”
P – …preciso de saber de certeza se trocou estes cadeirões, se trocou o tapete, estas almofadas…
(T) Rep. Emp. Implícita: “Preciso de saber se o meu terapeuta está presente de modo contínuo, constante, confiável…”
P – …porque penso que talvez, enfim, não acredito muito, mas talvez possa ter trocado para me fazer um teste.
(T) Rep. Emp. Implícita: “Quero confiar no meu terapeuta, mas ainda o confundo com as pessoas do meu passado que me trocaram as voltas”.
T – Interpretação: Com quem me confunde?
P – …não sei (emociona-se). Isto é muito estranho… porque às vezes parece que tenho umas percepções erradas, por vezes vejo coisas que não existem, outras vezes não vejo coisas que existem… lembro-me de quando tinha 6 anos… ia no autocarro com o meu pai, estava a olhar para o sol, era ainda muito de manhã mas o sol já estava levantado…
(T) Rep. Emp. Implícita: “Ainda na aurora do meu crescimento, mas já sentia coisas a levantar e a emergir dentro de mim… o que é que eu sentia?”
P – …e então vi bolas vermelhas, tipo bolas de sabão (que eu quando era pequena não sabia o que eram, pois nunca brinquei com bolas de sabão), que se soltavam do sol e se penduravam nas árvores.
(T) Rep. Emp. Implícita: “Em criança não sabia mas já sentia o que agora, em adulta, posso re-significar”.
P – Mais tarde, já estava a viver na França, havia um jardim normal, mas que se dizia que era muito perigoso… um dia fui lá dar um passeio com uma amiga e com o meu namorado, e depois vi o meu pai no santuário que havia no jardim…
(T) Rep. Emp. Implícita: “Pai divino. Escondes a mãe divina, tão omnipresente que não a consigo ver”.
P – …com um ar severo, as mãos nos bolsos do casaco… “cuidado, está ali o meu pai!”, disse para o meu namorado, “onde, onde?”, perguntou ele, mas depois voltei a olhar e já não estava… que estranho… bom, naquela escuridão, poderia ser outro homem.
(T) Rep. Emp. Implícita: “Estranho… ou demasiado familiar”.
T – Rep. Emp. Explícita: “Onde é que eu já vi este homem? É o homem da minha mãe, é claro… tão claro que me cega, como se olhasse de frente para o sol”.
P – … (silêncio)…
T – Interpretação: “Não foi a escuridão mas sim a claridade que me cegou, porque não podia olhar, não podia cobiçar o meu pai”.
P – … (emociona-se).
T – Rep. Emp. Explícita: “Não é o sol que chora, sou eu que choro, agora perante si, como chorei perante o sol-pai que não me aqueceu com o seu afecto”.
P – …Eu tenho que parar de chorar aqui, não quero que os meus afectos o perturbem, não quero considerá-lo como um balde de lágrimas.
T – Rep. Emp. Explícita: “Será que o meu terapeuta aguenta o meu sofrimento, as minhas lágrimas?”
P – E tenho muitas ainda para chorar, pode ter a certeza.
T – Rep. Emp. Explícita: “Será que choro em segurança, ou existem aqui olhos a vigiarem-me como nos jardins do meu passado?”
P – Sim, será que você me critica, será que existe algo aqui que me denuncie?
T – Percebo agora que os olhos na almofada não são outros que não os seus, tal como não era o seu pai mas sim você mesma que se vigiava… de facto, na escuridão, não sabemos quem olha para quem…
P – Sim, eu também sinto uma grande necessidade de me vigiar, de controlar os meus impulsos, embora saiba que há satisfações que tenho que deixar para trás… mas é como o cálice dos deuses, que tem um néctar que eu não posso beber, ou como uma flor que eu poderia colher mas ela murchava, ou não colho e não me posso satisfazer, mas ela vive para sempre.
T – Interpretação: É o pai-terapeuta, que deixaria de o ser, se houvesse satisfação: “posso desejar, mas não posso colher”.
P – O meu pai era um homem muito agressivo.
T – Rep. Emp. Explícita/Interpretação: “Ver o meu pai como agressivo impede-me de ver a ligação sexual que ele tinha com a minha mãe”.
P – Lembro-me de olhar para a minha mãe, tão carrancuda e lembro-me de pensar: “a primeira vez dela só pode ter sido má”. Agora que a minha vida familiar e amorosa melhorou, penso… é estranho, mesmo enquanto a minha sexualidade esteve bloqueada, havia sexo com o meu marido, apesar de eu não querer.
T – Interpretação: Reproduzia a relação sexual agressiva que fantasiava existir entre os seus pais.
P – Sinto que tenho andado a colher flores no jardim errado.
T – (silêncio).
P – E nunca saberei se você trocou as cadeiras… mas talvez isso não seja o mais importante.
No decorrer da sessão apresentada, as intervenções do terapeuta sob a forma de representações empáticas, implícitas e explícitas, permitem a co-construção de um campo intersubjectivo no seio do qual as representações familiares podem emergir – mesmo que deformadas
pela inquietante estranheza – para serem posteriormente interpretadas, elaboradas e integradas pela paciente.
Observamos ainda como a construção e partilha, no aqui e no agora, das representações empáticas abre o caminho para os momentos de interpretação de um passado para sempre perdido, impossível de recuperar ou rememorar enquanto verdade original. Podemos apenas captar as impressões deixadas pela inscrição da verdade original, perceber como se organizam as suas linhas de força, para a partir delas criar um sentido. É o sentido da novidade, essa sim original, do inconsciente implícito, co-construído pelo paciente no presente e na presença do seu terapeuta.
Aliás, sublinhamos que a centralidade do processo terapêutico não está nas interpretações do terapeuta, mas sim nas respostas do paciente às interpretações, bem como nas interpretações que o próprio paciente se torna capaz de realizar no percurso de se reinventar a si próprio (na presença do outro).
Para terminar, retornamos ao início da relação terapêutica com a paciente do exemplo clínico apresentado, que afirmava logo na primeira sessão: “A minha vida familiar também está mal, os meus filhos não estudam, e, para além da casa e do carro, eles sabem que eu não tenho absolutamente nada para lhes deixar de herança”.
Ao que respondemos: “Talvez lhes possa deixar de herança uma relação diferente daquela que os seus pais lhe deixaram a si”.
Porque talvez a melhor herança que o terapeuta deixa ao seu paciente seja, não só uma panóplia de novidades secundárias – o que significa deserdar o paciente da sua herança familiar patogénica –, mas também a co-criação de novidades originais e, sobretudo, a capacidade implícita mas emergente do próprio paciente as poder criar sozinho…
… sozinho, na presença do outro – outro que é alguém, como eu ou vocês. Muito Obrigado pela vossa atenção.
SUMMARY: The author discusses the theme “Disturbing Familiarities”, underlying the idea that the fear of the uncanny and of the unknown often hides a fear of the familiar and of the already known, therefore defending the importance of what he calls Empatic Representation in Psychoanalytic Psychotherapy, not just as a comprehensive model of the transference, but specially as the leverage of the “New Relationship”.
KEYWORDS: Familiarity; Uncanny; New relationship; Empatic representation.