O fenómeno da ocorrência de acidentes repetitivos é um processo com uma origem, um desenvolvimento e uma finalidade. Este trabalho aborda problemáticas inconscientes associadas à ocorrência repetitiva de acidentes. Estas repetições, diferentes das de carácter neurótico, ocorrem como efeito de um trauma pré-psíquico, não disponível para representação. O acidente é, assim, entendido como acto comunicante de aspectos não representáveis, numa procura de uma possível transformação.
Uma das descobertas mais impressionantes, que, do meu ponto de vista, é extraordinariamente desenvolvida no trabalho psicanalítico, é a do “agir da mente”. Não somente o pensamento, mas o fascínio e prazer que a acção mental com a sua vastidão e complexidade pode proporcionar.
Não deixa, contudo, de ser um pouco contraditório com o que habitualmente se encontra tão valorizado actualmente – o aspecto
Comunicação apresentada no “1.° Encontro do Centro de Estudos Psicanalíticos de Coimbra: Insatisfação, vazio mental e mal-estar”. Coimbra, 9 e 10 de Novembro de 2007.
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 4 de Janeiro de 2008. Revisão recebida em 8 de Janeiro de 2008. Aceite para publicação em 22 de Janeiro de 2008.
funcional, o que fazemos, o que ensinamos os outros a fazer, as competências a adquirir, independentemente do significado inerente. Ou o significado fica circunscrito somente às subidas e descidas de índices estatísticos: fazemos esta acção, muitas vezes, e a taxa ou índice sobe ou desce, e, conforme o caso ou o contexto histórico, isso é bom ou talvez possa ser mau.
Habitualmente também aquelas acções que são identificadas como patologias do agir, como forma de vida – como indica o título da Mesa –, são associadas às coisas más. São acções de consumo excessivo e repetitivo ou são acções de elevado risco para o sujeito e/ou para terceiros. Não são fáceis de alterar, e nem de compreender. Têm sido um problema grave de Saúde Pública sobre o qual a psicanálise tem procurado dar o seu contributo.
Será sobre as associações possíveis entre estes dois agires (comportamental e mental) e sobre o seu manejo clínico que procurarei dar um breve contributo.
Penso que é importante, num primeiro momento, diferenciar os critérios do acting, que não se podem restringir simplesmente à natureza do comportamento, ou mesmo à gravidade desse comportamento, nem mesmo se ele ocorre dentro ou fora do contexto analítico.
O acting out pode interferir com o processo psicanalítico, como resistência, como habitualmente é interpretado – resistência a recordar e comunicar, ou pode ser simplesmente um meio – o meio possível de o sujeito recordar e comunicar.
O agir de comportamento traduz um conflito interno insolúvel por vias psíquicas que, no contexto terapêutico – o qual denominamos acting out, exprime uma dificuldade na cura, mas cujo sentido mostra ser semelhante ao das palavras, imagens, afectos ou estados do próprio corpo: torna-se num modo de expressão, de exibição (D. Houzel, 2000), porém cegante.
Atribuímos esta opacidade à acção, quando a sua exibição é repetitiva, e em que o sujeito surge como totalmente ignorante da relação entre esses fragmentos repetitivos. As acções podem ser observadas
lado a lado sem a atribuição de qualquer associação – parece haver, como André Green nos propõe (2007), uma paralisação da comunicação que antecede o acto, deixando o processo de repetição incognoscível de um ponto de vista emocional, impróprio para o “aprender com a experiência”, como Bion colocou. E em que cada acção transmite apenas a impressão de que se trata de algo motivado somente no presente.
A investigação científica e a prática clínica têm-nos possibilitado o estudo aprofundado destas problemáticas em situações com consequências e vivências brutais, mas que talvez ainda não se encontrem sistematizadas e divulgadas nas referidas taxas e índices. É nas repetições consecutivas nos acidentes e na sua compreensão psicanalítica (Oliveira, 2005).
Geralmente, a causa dos acidentes é atribuída a factores externos e, de facto, muitas vezes será.
Mas a clínica psicanalítica permite propor várias significações para o acidente, na medida em que é grave, repetido, previsível e dependente do comportamento (Houzel, 2000, p. 14): “… Acto falhado, equivalente suicidário, desejo masoquista por vezes, relacionado com as pulsões sádicas (…)”. Podem ser evocados, para a sua explicação, a incapacidade de assegurar um bom objecto interno estável (M. Klein) ou um sentimento suficiente de continuidade de existência (D. Winnicott).
Estas condutas de verdadeiro risco são frequentemente acompanhadas por mecanismos de negação, associados a sentimentos de omnipotência, desencadeados pela frustração ou pela vergonha.
Podem ocorrer num sujeito uma série de circunstâncias internas, desconhecidas por ele, que se ordenam e encadeiam numa sequência convergente, não linear, que podem resultar numa série repetitiva de acidentes. Ainda assim, cada novo acidente aparece como um acontecimento súbito e inesperado.
Tratar o acidente apenas pela sua aparência parece ser, sim, uma expressão de uma resistência para enfrentar questões outras do mundo interno.
O destino, interpretação imediata do próprio, entendido como fatalidade inevitável, inscrito certamente no seu mundo inconsciente, continua a ser objecto predilecto do trabalho analítico. O emergir das memórias passadas, no melhor espírito policial, deve estar ao serviço da construção criativa, do diferente, do abrir de novas portas, onde o sujeito se possa sentir diferente e agir diferente.
Freud, com base na sua teoria do princípio da pulsão, teve inúmeras dificuldades para explicar esse traço do sofrimento. Desde o carácter neurótico, que escolhe repetidamente objectos de amor destinados ao fracasso e ao sofrimento, ao depressivo, que parece sofrer das privações do primeiro amor materno também repetidamente, ou ao esquizofrénico, cujos terrores primitivos da infância são repetidos continuamente até à idade adulta, todos esses casos pareciam desafiar alguns postulados básicos de Freud.
O que nos diz é que a repetição de uma experiência, mesmo que dolorosa e perigosa, é precisamente a procura de produção de angústia necessária para que seja possível uma elaboração psicológica do acontecimento e, assim, mobilizar defesas mais adaptadas para lidar com a situação (Dias, 2005).
São repetições bem diferenciadas das de carácter neurótico que vemos surgir habitualmente no processo transferencial, em que as vicissitudes edipianas são mais repetidas do que recordadas.
As repetições que aqui abordamos são as que ocorrem como efeito do que podemos designar trauma pré-psíquico, de traços mnésicos muito precoces, não disponíveis para representação. São traços ingovernáveis, nas palavras de Marucco (2003, p. 206): “…Onde a introdução da pulsão de morte, associada ao conceito de compulsão de repetição, explicaria a existência de uma zona do aparelho psíquico que comandaria a repetição desses traços mnésicos do tempo primordial, ingovernáveis, que seriam incapazes de uma ligação com o processo secundário”. Como repetições do irrepresentável (anterior e diferente do não representável), bloqueiam também o acesso ao pensamento no âmbito do trabalho analítico. Será, então, a contratransferência
no espaço terapêutico o lugar privilegiado para aceder à transformação de aspectos que não possuem ainda a representação por palavras (Marucco, 2007). Mas também a repetição de acidentes se torna num processo com uma origem, um desenvolvimento e uma finalidade.
Há certamente que ter em conta os elementos externos facilitadores. Contudo, não são condições necessárias, suficientes ou mesmo específicas, sendo que existem acidentes sem que estes elementos facilitadores estejam presentes. Por vezes, as instruções e as normas de segurança são claras, porém tal pode não ser realmente suficiente.
Ao mesmo tempo que a energia das respostas inatas e adquiridas que proporcionam reacções psicomotoras adequadas, como a atenção e acção sensório-motora oportuna para evitar o acidente, há uma simultânea activação das reacções destinadas à realização de um acto supostamente indevido e propenso à provocação de um acidente. Referimo-nos, neste caso, a um modelo inconsciente e arcaico através do qual se expressam determinados estados emocionais. Trata-se de um padrão onde se condensam os acidentes passados, ontogenéticos e filogenéticos, e que está directamente relacionado com o “arquivo” de memória referente a actos e respostas de violência e agressão.
Existe ainda uma terceira condição, esta sim necessária e determinante, que tem a ver com um número de circunstâncias vitais que jogam um papel importante no mundo interno do sujeito. Circunstâncias estas que determinam o momento do acidente. A “situação existencial” determinante do acidente é um estado de stress muito particular no qual o sujeito está perante um conflito interno. Conflito este que se prende com uma situação de mudança iminente, difícil e contraditória, que se transforma num dilema insuportável. A intensidade da excitação e da dor impede a representação psíquica que permitiria a sua contenção e expressão em palavras, reflexões, em sonhos ou fantasias (Granel, 1998).
Mudar implica abandonar identificações e incluir novas, provoca uma desestruturação parcial do Eu e obriga a uma abertura, no self, de novos espaços intrapsíquicos para as novas internalizações.
A mudança implica uma ruptura da homeostase do indivíduo, pelo que existe uma angústia perante a mudança. Constitui-se, assim, uma situação de risco sempre que a crise seja provocada por uma exagerada aspiração contra a mudança, ou quando a mudança se instala de maneira violenta e disruptiva, ameaçando arrasar com todas as estruturas existentes. O perigo reside em reprimir e dissociar esta crise e em tentar suprimir as ansiedades mobilizadas em vez de enfrentá-las e elaborá-las (Granel, 1998).
A excitação da acção pode, assim, antes que invada o organismo, ser descarregada pelo pólo motor sem passar pelo pré-consciente e sem adquirir a qualidade de palavra ou configuração significativa e adequada capaz de consciencialização. É precisamente neste contexto que se dá o acidente, mantendo parcialmente o funcionamento do processo secundário, conservando certas categorias espácio-temporais do pré-consciente e as configurações que lhe permitem encontrar o momento, o lugar e os objectos adequados para a realização do acidente. O sujeito pode, assim, efectuar os movimentos precisos, ficando oculta a sua intenção e o acidente remetido a causas externas.
Através do acidente, não só se expulsa, mas também se dá forma a uma situação até ao momento irrepresentável. A capacidade de figuração e simbolização da experiência emocional encontra-se perdida, mas esta é substituída por um acto que permite e proporciona uma representação concreta (Granel, 1998).
O acto é, assim, a ponte pela qual o quantitativo, trauma e pulsões desenfreadas e abundantes podem transformar-se em algo qualitativo, o que poderá, depois, dar lugar a representações e pensamentos (Loschi, 1990 cit. por Granel, 1998). A dor anímica, interna, até aí insuportável, poderá, desta forma, ser substituída pela dor física, palpável e mais compreensível, pois o seu conteúdo psíquico foi substituído.
A compreensão aprofundada dos acidentes, seja qual for o contexto em que ocorram, surge como essencial no planeamento de estratégias de prevenção. Poderemos, eventualmente, prevenir acidentes posteriores numa mesma pessoa, mas, no que diz respeito aos restantes casos, estamos, de certa forma, incapacitados de evitar o acidente.
Ao procurar actuar nesta zona psíquica, o desafio que se coloca ao analista é o de transformar o suposto destino, ou parte deste, numa “neurose” acessível e sobre a qual possa operar, recuperando o impulso transformador de que nos fala Green (2000).
É imprescindível lutar pela prevenção, mas a sua concretização será pouco provável enquanto persistir, como pano de fundo, uma cultura que escotomiza da consciência afectos e pensamentos originários de conflito e dor e que continua a interpretar as mensagens do inconsciente como meros acidentes provenientes do azar (Meyrialle, 2006).
SUMMARY: Repetitive accidents are a process with an origin, a development and a purpose. This paper is about unconscious processes related with repetitive accidents. These behaviours are different from neurotic repetition. They are due to a pre-psychic trauma, unable to mental representation. We understand these accidents as communication acts of primitive internal parts looking for a change and evolution.
KEYWORDS: Repetition; Accident; Destiny.