O humor na psicoterapia infantil surge espontaneamente e funciona como um útil aliado terapêutico para desbloquear certas situações de impasse. Com crianças muito pequenas chega a servir como uma forma de pôr limites. Na situação terapêutica, como na vida em geral, é um elemento narcisante do Eu e um animador ou reanimador saudável da relação entre as pessoas. Aborda-se também, neste contexto, o tema da interpretação na psicoterapia de crianças, sugerindo uma forma de interpretação pela acção. O artigo termina com uma reflexão acerca da relação terapêutica como auxiliar da maturação do sentido de humor.
Todo o animal jovem aprende as lições sérias da vida a brincar e o ser humano não é excepção. O humor é uma forma simpática de brincar, que implica, segundo Warren Poland (1990), uma capacidade
Comunicação apresentada no Congresso “Rir é o Melhor Remédio: Humor e Psicanálise”. Reitoria da Universidade de Coimbra, 24 e 25 de Maio de 2008.
Psicóloga Clínica.
Recebido para publicação em 19 de Junho de 2008. Revisão recebida em 22 de Setembro de 2008. Aceite para publicação em 30 de Setembro de 2008.
madura de entender o conflito interno e aceitá-lo, ainda que isso implique o entendimento das nossas limitações narcísicas.
A Enciclopédia Luso-Brasileira, na sua definição de humor, fala de “imaginação cómica que atinge os domínios da compreensão filosófica e de superioridade mental que separa o real do ideal; uma sensibilidade apurada, uma certa benevolência e compreensão que suavizam a crítica e excluem a censura”. Fala ainda das coisas sérias dissimuladas sob uma aparência lúdica e aqui voltamos às coisas sérias da vida que se aprendem a brincar.
O sentido de humor ilustra a relação que estabelecemos com as coisas da vida. Podemos ter uma relação pesada e maçadora com aquilo que nos rodeia e podemos estar rodeados de coisas pesadas e maçadoras, mas sabermos relacionar-nos com elas suavizando-as e relativizando-as, ou até fazendo um parêntesis temporário que nos permite rir delas e até transformá-las. Quando isto acontece, a transformação deixa as suas marcas.
Ao longo da minha prática clínica tenho-me relacionado com crianças com vidas difíceis e pesadas, com problemas sérios e com patologias graves, e também tenho acompanhado algumas que têm vidas mais fáceis, embora extremamente maçadoras e deprimentes.
A relação terapêutica que estabeleço com elas tropeça por vezes nalguns impasses que o humor ajuda a desbloquear. Nem sempre me ocorria recorrer a ele como aliado terapêutico e como elemento enriquecedor da relação terapêutica, como aliás de qualquer relação. As inseguranças dos primeiros anos de clínica são um verdadeiro atentado à nossa criatividade e respiro de alívio quando, hoje, me vou conseguindo sentir mais solta e mais à vontade para juntar a facilidade de relacionamento, que sempre tive, com as crianças e o meu trabalho clínico com elas.
Para isso, preciso de estar muito atenta ao meu, por vezes excessivo, controlo do material clínico, ao qual até posso estar a achar muita graça, e passar da estrita e egoísta compreensão analítica desse material para formas criativas de o trabalhar e que, com crianças,
nem sempre são as interpretações na sua forma mais clássica. Voltarei a este assunto mais adiante.
Freud falava do humor como “triunfo narcísico” sobre o Supereu e eu acrescentaria o humor como elemento narcisante do Eu, no sentido em que ele anima e reanima intelectual e emocionalmente cada um dos seus agentes e também a relação estabelecida entre eles. Estou a lembrar-me de uma menina que gostava muito de vir às sessões de psicoterapia, mas que estava sempre a inventar brincadeiras que me maçavam muito e julgo que a ela também. Estas brincadeiras maçadoras contrastavam com uma certa malandrice e uma grande esperteza, assim como um sentido de humor muito próprio que se traduzia numa espécie de provocação em usar expressões depreciativas para falar de uma coisa agradável. Era capaz, por exemplo, de dizer com um ar guloso: “Que horror! Bolo de chocolate!” Tinha graça e sabia-o. Tinha graça porque não era uma forma de humor usada sistematicamente, para “se fazer de engraçada”, surgia de forma inesperada e, no contexto, tinha graça. No entanto, esta menina parecia não saber brincar: saltitava de uma ideia para outra, como se não encontrasse uma brincadeira que a animasse.
Eu ia alinhando nas brincadeiras, mas sentia-me mal, porque elas serviam para preencher o tempo da sessão e eram bastante inférteis. Traduziam uma certa resistência que eu tinha de elaborar e pensar com a menina, mas não encontrava forma nenhuma, a não ser uma forma muito chata, de lho dizer.
Poderia interpretar, dizendo que me parecia que ela estava com dificuldade em comunicar comigo e que tentava arranjar uma forma de passar a sessão a brincar para preencher o tempo e passar um bom bocado, sem pensarmos em nada daquilo que realmente poderia estar a preocupá-la. Imagino que o resultado, no caso desta menina, seria o de continuar a brincar numa atitude que se poderia traduzir por: “O.K., e o que é isso quer dizer?” Até poderia compreender as minhas palavras mas… e daí? O que é isso de comunicar e pensar sobre aquilo que realmente nos preocupa? O que é isso de brincar para preencher
o tempo da sessão? O que é isso do brincar como resistência, para uma criança de 7 ou 8 anos?
Passei algumas sessões a pensar como poderia dizer-lhe isto e fazer algo que desbloqueasse aquela situação, até que um dia, a partir de um comentário que ela fez sobre a nossa selecção de futebol e depois de ter estado uns largos minutos a dizer que não sabia o que queria fazer naquela sessão, decidi explorar o tema do seu comentário. Falámos um pouco da selecção e do Europeu que se avizinhava, ela falou da bandeira de Portugal e perguntou-me se eu sabia desenhá-la. Aproveitei então para sugerir que, juntas, fizéssemos uma grande bandeira de Portugal, juntando várias folhas e, enquanto isso, podíamos ir conversando. A sessão foi animada pela tarefa artística do desenho da bandeira e por uma longa conversa sobre os pais e o seu divórcio, as suas guerras e as suas tentativas de manipulação dos filhos. Para além disto, a sessão foi marcada por um episódio de humor que reanimou a psicoterapia e que nos permitiu falar das resistências de uma forma muito menos maçadora e mais eficaz.
A dada altura, estávamos nós implicadíssimas no desenho da bandeira, quando a menina suspirou profundamente com um sorriso de satisfação… Eu tinha andado a pensar como havia de lhe interpretar as resistências que acima referi, mas a verdade é que, sem pensar, espontânea e quase impulsivamente, imitei o seu suspiro e, adoptando a sua forma de fazer humor, disse: “Ah! Que grande seca de sessão…” A menina olhou para mim com um ar muito malandro a sorrir e disse: “das mais secantes que temos tido, quem havia de dizer!”… E desatámos as duas a rir.
É evidente que a sessão não estava a ser “seca” nenhuma, que nos estávamos a divertir com a bandeira e que, ao mesmo tempo, estávamos a conversar de um assunto sério e doloroso, mas de uma forma serena e construtiva, ao ponto de a menina ter chegado a dizer, a certa altura, que era bom falar assim.
Este episódio permitiu-me abordar o tema das resistências, dizendo-lhe, ainda meio a rir, que tinha havido sessões mesmo “secantes” e
que eram aquelas em que ela, sem saber muito bem o que fazer, tentava preencher o tempo das sessões e aproveitar aqueles bons momentos para não pensar em mais nada e que, como podíamos constatar, até se pode falar das coisas menos boas enquanto nos entretemos e divertimos a pintar ou a brincar.
O desenho da bandeira e o entusiasmo partilhado desfizeram o impasse, culminando neste episódio de humor que surgiu espontânea e inesperadamente e que nos aproximou a ambas numa gargalhada cúmplice e narcisante, reconciliadora do valor e da importância da nossa psicoterapia. Encontrado um espaço facilitador da comunicação, com o desenho da bandeira, estava aberta a possibilidade para outros níveis de comunicação que, neste caso até com humor, facilitava, por sua vez, a própria interpretação.
Nas palavras de Antonino Ferro (1995), trata-se de aumentar a capacidade de pensamento e “dilatar a mente”. Para tal, é necessário criar as condições favorecedoras dessa comunicação. Diria até que o mais importante e fundamental é saber criar as condições. Sem elas, podemos brincar, podemos até pensar nalgumas coisas, chegar a determinadas conclusões, mas não estamos a “dilatar a mente”, não estamos a possibilitar uma mudança.
Agora que já tinham passado as sessões “secantes”, podíamos falar sobre isso com a distância necessária ao pensamento e à elaboração dos acontecimentos, mas também com a distância suficiente para a profundidade e perspectiva necessárias ao humor.
Isto levanta a questão dos tempos e das formas de interpretação das defesas e das resistências na psicoterapia de crianças. Da mesma forma que se adapta o setting à psicoterapia infantil, também se podem e devem adaptar as interpretações.
Uma adaptação óbvia é a dos termos simples e adequados à idade, mas tenho-me perguntado se essa adaptação é suficiente. Sugiro uma interpretação pela acção, à moda do psicodrama, em que os elementos do jogo, do desenho ou das histórias trazidos pelo terapeuta fazem parte da interpretação e são, em si mesmos, uma forma de interpretação.
É a rêverie do terapeuta acrescida de valor interpretativo. O humor pode ser uma forma de interpretação pela acção.
A interpretação comunica ao sujeito um saber que ele está preparado para aceitar, mas que dificilmente percebe sozinho (Didier Anzieu, 1994). No psicodrama, e julgo que na psicoterapia infantil também, o processo pode ser beneficiado quando a interpretação está incluída na acção. Didier Anzieu (1994) refere que “este tipo de interpretação promove, como as interpretações faladas, uma reorganização psíquica necessária à modificação das atitudes da criança”. Mesmo que depois se elabore e verbalize acerca das produções e do material, o que também é necessário, esta interpretação pela acção já teve algum efeito pela identificação que a criança faz ao material proposto pelo terapeuta. É como nos desenhos animados. A criança identifica-se com personagens da história e aí reconhece elementos que pertencem ao seu próprio mundo interno. Tudo se passa num “espaço transicional” (D.W. Winnicott, 1975) e a um nível pré-consciente, cuja linguagem é mais acessível à criança.
Estou a lembrar-me de um menino com sérios problemas de identidade de género e empenhado, por defesa obviamente, na construção de um “falso self”.
Estávamos no chão a brincar com os animais. Viviam todos numa quinta à excepção do crocodilo, que era mau. A dada altura, o crocodilo atacava os animais da quinta, que se mobilizavam para defender as suas crias. As fêmeas gritavam histericamente e escondiam as crias num frenesim teatralmente feminino. O menino projectava toda a sua feminilidade naquelas figuras agitadas. Não estava criada a possibilidade, na sua mente, nem parecia haver espaço para a expressão, naquele jogo, de elementos masculinos, a não ser o maléfico crocodilo! Voltando ao que acima referi, era necessário criar condições e espaço psíquico para a expressão de elementos masculinos e, depois, ver o que se podia fazer com isso e de que forma o menino os aproveitaria.
Foi assim que entrei na brincadeira, com voz firme, perguntando: “Mas onde é que estão os machos desta quinta? Onde estão os homens?
Vá, vamos lá, cavalo, boi, cão, porco, galo, toca a andar, tudo para a linha da frente… Mulheres e crianças para os seus abrigos… Machos para a linha da frente, todos contra o crocodilo!”
Numa sessão de formação em que expus este caso, fui delicadamente acusada pelo formador de estar a sugestionar o material da sessão e a introduzir material tóxico, manipulando o meu paciente. Ora, precisamente o que estava a fazer era voluntariamente criar uma possibilidade de expressão da masculinidade que parecia estar vedada a este rapaz. Não estava apenas a entrar na brincadeira, o que julgo ser importante – as crianças gostam que brinquemos com elas e solicitam-nos –, estava também, intencional e conscientemente, a “dilatar” a possibilidade de expressão de uma parte masculina, decididamente atrofiada na mente deste menino. Ele sorria à minha iniciativa e gostava dela, era visível. Brilhavam-lhe os olhos e mostrava entusiasmo com a possibilidade oferecida!
Pegava então nos machos e, repetindo a minha deixa: “Homens para a linha da frente, todos contra o crocodilo!”, dava uma sova ao crocodilo. Depois ficava pensativo, como que a elaborar a minha/nossa acção.
Este tipo de acção não só abre outras possibilidades, como também surte um efeito semelhante ao da interpretação sem, no entanto e naturalmente, a substituir. Surte um efeito semelhante ao da interpretação pela transformação e mudança que suscita. Contudo e a seu tempo – que nem sempre é um tempo próximo do tempo da acção –, a interpretação na sua forma mais clássica, pela palavra, acaba por encontrar expressão e remata a tela da transformação psíquica para ela não desfiar.
Passadas umas sessões, o crocodilo já era o leão e, depois, o leão afinal era um camelo disfarçado de leão e ainda outro crocodilo, mas que já não era o mesmo… Percebendo a confusão que estava a ser dramatizada naquela história (confusão de quem é quem), repeti o chamamento dos machos para a linha da frente e, improvisando uma cena trágico-cómica, agarrei numa gansa a quem o crocodilo (encenado
pelo menino) ameaçava tirar as crias e comecei a encenar o desespero da gansa perdida e confusa, atrapalhada sem saber de qual dos animais se devia defender e defender as suas crias:
“Ai! Ai!”
“O que foi gansa?”, alinhou imediatamente o menino, com um sorriso ao canto da boca.
“Ai! Ai!… Ai! Ai! Que estou tão confusa! Ai! Que já não sei quem é quem! Ai! Ai! O que é que eu faço à minha vida!” E abanava a gansa de um lado para o outro.
O menino desatou a rir às gargalhadas e eu, a sorrir, mas tentando manter o ar dramático na voz da gansa, continuava:
“Ai! Ai! Meus ricos meninos! Estou a ficar tonta! Era o crocodilo, mas depois afinal já era um leão! Ai! Ai! Que de repente afinal o leão já era um camelo!…”
E o menino ria tanto que eu desatei a rir também.
Esta sessão terminou com o menino a pedir-me para fazer aquilo outra vez… e ria à gargalhada… E mais uma vez, e outra… e outra… como as crianças pequenas fazem numa brincadeira cómica ou numa palhaçada ou quando querem que lhes contemos a mesma história vezes sem conta… Provavelmente enquanto vão elaborando ou perlaborando o conteúdo latente do material manifesto naquela acção ou naquela encenação.
Este menino estava mesmo no início da psicoterapia, pelo que não se justificava, a meu ver, interpretar com palavras aquela história posta em cena no jogo. Essas palavras, guardo-as para uma ocasião mais avançada e mais propícia a esse tipo de interpretação. Voltarei ao jogo e à história dos machos e do crocodilo/leão/camelo e da gansa, como na psicoterapia dos adultos se volta a um sonho de uma sessão remota. Naquele momento, optei por ficar pela deixa trágico-cómica da gansa e deixar que ela tivesse o seu efeito. Como já referi, o tempo da interpretação pela palavra é outro… e na psicoterapia, como na vida, há tempo para tudo. Há que saber esperar…
Voltando ao episódio de humor com a nossa menina, gostaria ainda de acrescentar algumas considerações. O comentário estimulado pelo suspiro de satisfação da menina e de imediato aproveitado por ela no mesmo registo humorístico permitiu-nos comparar uma sessão rica em vários níveis de comunicação e de relação com as outras sessões que nos estavam a levar a um impasse, ao mesmo tempo que me abriu uma via para pensar e elaborar com ela as resistências que travavam o nosso trabalho. Com isto, e sintonizadas através do humor, também a nossa relação ficou mais rica com a cumplicidade que podia agora alargar-se a outros aspectos da relação terapêutica.
Uns dias mais tarde, e depois de termos chegado à conclusão de que éramos adeptas de clubes rivais, a menina quis desenhar comigo uma bandeira vermelha e verde com um leão e uma águia. Juntas podíamos criar novas possibilidades.
O humor na psicoterapia pode funcionar como uma espécie de ordem de soltura, por acordo tácito e mútuo, das tensões e repressões num clima seguro, amigável e livre de quaisquer preconceitos ou reprimendas. Na ausência de um Supereu externo, mas com os saudáveis limites de um Supereu interno, que aceita e permite o triunfo do Eu.
Isto não quer dizer que não se possa também pôr limites com humor, mas isso aconteceu-me sobretudo com crianças muito pequenas ou muito perturbadas. Nalgumas sessões mais difíceis com esse tipo de crianças, que tentam por vezes fazer malandrices ou até asneiras que excedem os limites do razoável, sou capaz de simular um ar de zanga ou de espanto um pouco teatral, ao mesmo tempo que posso dizer: “Mas o que vem a ser isto?” ou “Ai! Ai! Mau Maria, que o gato mia!” Normalmente a criança pequena começa por abrir os olhos de espanto e depois solta uma gargalhada. Normalmente essa gargalhada é contagiosa e, depois de me rir com a criança, então digo que ali não se mexe ou que aquilo não se faz. Depois, a criança que procura desafiar os limites mais afincadamente tenta outra vez e eu repito a brincadeira,
até que a tensão baixa e tudo volta ao normal. Chego a sentir um grande alívio nas crianças mais difíceis porque a teimosia com que procuram romper os limites é proporcional à necessidade que têm deles.
O papel de terapeuta não é o de educador e, portanto, aqui, mais uma vez, julgo que não nos compete pôr os limites com autoritarismo, mas com a autoridade que a própria natureza da relação terapêutica e que o setting nos dão. Nem nos convém, a meu ver, pôr os limites com moralismo, porque esse também não é o nosso papel. A solução que, por vezes, encontro com as crianças é o humor. Não é nada de estudado; surge natural e espontaneamente. Mas a espontaneidade do humor na relação terapêutica está suficientemente balizada quando existe saúde mental e bom senso.
Já me aconteceu errar e arrepender-me por ter usado o humor de uma forma que, a posteriori, se revelou desadequada. Analisando o ocorrido, foram alturas em que me faltou o bom senso, perdendo de vista a vulnerabilidade narcísica da pessoa e a sua susceptibilidade. No entanto, até estes erros, desde que sempre claramente assumidos, podem facilitar a análise desses aspectos da personalidade que, noutras alturas, não aparecem tão claramente. Também provocam reacções terapêuticas negativas, impasses e desconfianças que complicam o nosso trabalho, mas que abrem janelas de oportunidade para avançar, partindo destes retrocessos.
Não quero dizer com isto que se deva usar e abusar do humor. O que pretendo comunicar é que, enquanto terapeutas, temos de nos aguentar narcisicamente com os erros que cometemos e sermos capazes de falar sobre eles, caso contrário, para além do bom senso, falha a saúde mental!
Não queria terminar sem abordar o tema da recuperação do humor pela psicoterapia. O sentido de humor é sinal de inteligência e de saúde mental. À medida que o processo terapêutico vai avançando, surgem formas de humor inesperadas, que antes estavam inibidas e que traduzem o progresso na liberdade de brincar com as emoções e
as ideias, as fantasias e a realidade. Um maior à-vontade connosco próprios e com o mundo.
Warren Poland escreveu em 1990 um artigo chamado “O Dom do Riso” e que trata deste assunto, afirmando que “as mudanças proporcionadas pela análise trazem consigo uma maturação do sentido de humor”. A natureza do funcionamento psíquico e da relação terapêutica contribuem ambas, segundo o autor, para este feliz desfecho.
Na psicoterapia infantil não é diferente. As inibições e o sofrimento de certas crianças roubaram-lhes o colorido do mundo e obrigaram-nas a edificar um sistema defensivo que petrifica o seu psiquismo. Aos poucos, a relação terapêutica abre um espaço de expressão, de diálogo interno e externo e de transformação que é o espaço também onde, quando aparece ou reaparece, o humor se manifesta.
SUMMARY: In child therapy, humour emerges spontaneously, often working as a useful therapeutic tool to release impasse situations. It may even help to set limits amidst the very young. In therapy, as in life in general, it can play a narcisant role of the ego and a healthy revival factor in relationships. In this context, child psychotherapy interpretation can be overviewed, suggesting a form of interpretation through the action. The article ends on a reflection about the therapeutic relation as auxiliary to the sense of humour's maturation.
KEYWORDS: Humour; Child psychotherapy; Limits; Narcissism; Impasse; Interpretation.