A autora situa o humor, como a capacidade de brincar ou o prazer de existir, no espaço transitivo definido por Winnicott. Distingue-o dos mecanismos de defesa maníaca, assim como das construções delirantes, ou mesmo do cómico, da mordacidade, do sarcasmo, da ironia e da sátira. Mostra, no entanto, que alguns destes processos – nomeadamente o cómico, a mordacidade, a ironia, o sarcasmo e a sátira – podem ser instrumentos possíveis à Relação Terapêutica, desde que se cumpram pelo menos duas condições que facilitam o aparecimento do gesto espontâneo.
Exemplifica a emergência e a utilização do humor com três pequenas vinhetas clínicas e vai concluindo que o humor nasce da Relação de intimidade, testemunhando a capacidade de estar só e assumindo, tal como o ódio ou o amor, a expressão do gesto espontâneo.
A capacidade de rir, ou de sorrir, é sempre a capacidade de rir ou de sorrir, em primeiro lugar de nós próprios – obviamente, com alguém
Comunicação apresentada no Congresso “Rir é o Melhor Remédio?”: Humor e Psicanálise. 24 e 25 de Maio de 2008, Coimbra.
Psicóloga Clínica, Membro Aderente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 14 de Julho de 2008. Revisão recebida em 15 de Setembro de 2008. Aceite para publicação em 30 de Setembro de 2008.
dentro de nós que nos aceite e reconheça, mesmo nas nossas fragilidades.
Mas, para percebermos melhor o que eu quero dizer, vejamos uma rápida passagem da vida do emblemático urso Winnie the Pooh:
Como todos sabem, trata-se de um urso com poucos miolos, que se aborrece com as palavras compridas, mas a quem tudo corre surpreendentemente e invejavelmente bem; ainda por cima, esforçando-se o mínimo possível!
Naquela manhã, estava o pacato urso a lamber o último pedaço de mel do fundo do pote, quando o inteligente coelho anuncia a chegada do correio.
…E, com um monte de papéis na mão, exclama com admiração: “Olha! Chegou uma coisa para ti!”
“Para mim?!” – Diz o urso, igualmente surpreendido e ainda lambendo o canto da boca.
“Sim, para ti! Diz aqui: Sr. Urso Pooh…”
“Senhor Urso Pooh!” – Repete o urso, fascinado – “Senhor Urso Pooh… Sou eu!… E o que é que diz?”
“É a anunciar uma venda de sapatos… Todos os estilos, todos os preços… Pooh! Tu não precisas disto…” – Adverte o coelho com bom senso.
“E o que é que está escrito em baixo?” – Insiste o Pooh, sem lhe dar grande importância.
“Café grátis. Mais uma razão para não irmos…”
“Deixa-me ver isso com mais atenção” – Diz ele, desaparecendo com o papel…
Uns dias depois, o coelho pergunta à coruja: “Tens visto o Pooh?”
“Por acaso vi. Acho que o vi pôr qualquer coisa no armário, mas não prestei muita atenção…”
“No armário? Deixa-me ver!…”
“O que é?” – Pergunta a coruja.
“Coruja, o que é que são estas caixas todas!?”
“Caixas!?” – Pergunta a coruja surpreendida.
Page 170“Sim, caixas… E todas cheias de… sapatos!…”
“Sapatos!?” – Volta a coruja a perguntar em eco.
“Sim, sapatos! Olha para isto! Chinelos 38,5, sandálias 40, sapatos de vela 42…”
“Todos os estilos e todos os números!” – Exclama a coruja, confusa.
“Coruja, não tenho a certeza, mas desconfio de uma coisa…”
“Parece que o Pooh é culpado.” – Afirma a coruja sabiamente.
“Quando o vires, diz-lhe que eu quero falar com ele, está bem coruja?”
“Com certeza!”
Umas horas mais tarde, o Pooh cruza-se com o coelho: “A coruja disse que querias falar comigo…”
Diálogo retirado, com pequenas adaptações, do livro “O Tao do Pooh”, de Benjamin Hoff (2000).
Este pequeno episódio revela o segredo da simplicidade, da descontracção e do bom humor de quem não se leva demasiado a sério, relativizando as figuras de autoridade (internas e externas) que pautam as regras do saber e do dever.
Pooh trata-se a si próprio com a ternura, o carinho e a flexibilidade que só um pai, uma mãe ou um psicanalista (empáticos e afectuosos) conseguiriam ter. Compreende e aceita, intuitivamente, o seu desejo de ser reconhecido e valorizado; o que lhe permite viver a situação sem se destruir com culpa e vergonha. Também não se deixa esmagar pela crítica e aceita com facilidade os limites da realidade, como se vê na decisão de devolver os sapatos.
Winnie the Pooh exala, assim, a confiança de quem está na presença de bons objectos internos (aceitantes e apoiantes do seu crescimento), e, talvez por isso, não precise de nenhum talento ou dom invulgar para ser quem é.
Portanto, como diria Benjamin Hoff, enquanto o Igor se arrelia, o leitão hesita, a coruja pontifica e o tigre balança, o Pooh simplesmente é; e é só isto que o torna tão especial… Também é só isto, penso eu, que determina a capacidade para o humor.
O humor situa-se, tal como a brincadeira ou o prazer de existir, no espaço onde a realidade e a fantasia se cruzam e interpenetram, como explica Winnicott (1975), na sua definição de Espaço Transitivo: Espaço do Eu Verdadeiro, onde o sujeito nasce e existe, e onde se enraíza a saúde mental. Espaço, portanto, de negociação colaborante entre o dentro e o fora e de coexistência, por excelência, do sujeito e do seu objecto – única forma, aliás, de afirmação do sujeito na sua dimensão verdadeiramente humana e sem a qual a existência pode ser um lugar vazio de sentido e significado.
A falha na construção deste espaço, seja pela impossibilidade de acesso à experiência primária de ilusão omnipotente, seja pela desilusão traumática que bloqueia o gesto espontâneo e compromete a passagem à fase do uso do objecto, ainda seguindo Winnicott (1975), na relação pais-filhos, como na relação analítica, conduz necessariamente
à falha no nascimento psicológico do sujeito, inviabilizando a organização do self como centro de iniciativa (evocando agora o pensamento de Kohut, 1989).
Ou seja, sem um meio emocional favorável à emergência e expressão do gesto espontâneo (voltando a Winnicott, 1975), o sujeito não poderá experimentar-se e experimentar o outro, ficando remetido à condição da não existência, ao falso self, à apatia do vazio, à dependência, à submissão, à pseudo-maturidade, à presença de estados confusionais e à utilização de mecanismos defensivos (como os processos maníacos) que servem a negação da realidade (interna e externa). Nestas condições, a verdadeira existência criativa, fundada no vínculo comunicante entre a realidade e a fantasia, fica comprometida.
Freud (1927) dizia que o humor constitui a expressão mais elevada dos mecanismos de adaptação, já que possibilita uma alternativa viável entre o mergulho infértil no sofrimento e a sua negação. Coloca-o na categoria dos mecanismos de sublimação (Freud, 1905) e pela primeira vez (como nota Strachey – Freud, 1927) confere ao Supereu uma qualidade benevolente. Esta capacidade de integração da ilusão pela instância responsável pelo sentido da realidade permite então (segundo Gabriele Pasquali, 1987) o estabelecimento de vínculos novos e inesperados (vínculos que se formam e rompem continuamente), possibilitando uma leitura positiva da realidade, ainda que em situações adversas. Para tal, acrescentaria eu, é necessário que os objectos externos fundadores desta instância sejam capazes de empatia, compreensão e aceitação da criança (ou, na análise, do Eu Infantil – o Eu Verdadeiro), não só nas suas qualidades, mas também nestas situações adversas, nomeadamente de medo, vergonha, culpa, aflição, desamparo ou inibição. Será então necessário que as experiências relacionais positivas, na infância, como na análise, suplantem e não sejam ensombradas pelas experiências relacionais negativas.
Só no vínculo positivo – na bondade vivida – que perdura para além dos desencontros inevitáveis [que conduzem à desidealização
progressiva, mas não traumática, dos pais da infância, ou, numa análise, do psicanalista – os fracassos favoráveis de que nos fala Kohut (1989)] – é possível, cada vez mais, a emergência do sujeito separado, capaz de brincar consigo próprio e com o outro, porque se sente seguro, amado, respeitado e reconhecido.
Neste sentido, o humor distingue-se da construção delirante, baseando-se na representação do positivo (do que existe, ou existiu como experiência), enquanto que o delírio se constrói no negativo e serve para substituir o que não existe .
Também vai para além da comicidade, uma vez que (como explica Gabriele Pasquali, 1987) no cómico nos rimos dos outros, ou do que acreditamos não ser, mesmo que já alguma vez tenhamos sido, enquanto no humor o que está em causa é a relação que conseguimos connosco próprios.
Mas penso que, mesmo no cómico, o humor pode, ou não, estar presente. A meu ver, tudo depende do interlocutor. E aqui, como sabemos, a variedade é muita!
Há os que observam de fora, preservando defensivamente uma posição de superioridade, frequentemente sem graça e sem acharem graça a coisa nenhuma, ou, na melhor das hipóteses, utilizando mecanismos de clivagem que lhes permitem rir do que julgam não lhes dizer respeito. É a falta de humor, ou o cómico a que se refere Pasquali (1987).
Há os que têm flexibilidade suficiente para se identificarem com o alvo do riso, revelando plasticidade mental e uma certa capacidade de rirem de si próprios – é o bom humor, ou o humor na sua verdadeira expressão.
Há os que, também pela via da identificação, se sentem inibidos ou moralmente bloqueados, revelando outras formas de falta de humor.
E há ainda os que, sadicamente, só conseguem achar graça aos que humilham ou infligem outro qualquer tipo de dor – é o chamado humor negro, ou o riso amarelo.
Por outro lado, o humor também se distingue da fuga maníaca, que substitui a verdadeira ligação entre o dentro e o fora (entre o Eu e o não-Eu), denunciando a falência dos processos de separação, diferenciação e simbolização. Ou seja, o humor situa-se na capacidade de criar símbolos e metáforas, aproximando-se do trabalho de sonho, e permitindo a correspondência e o cruzamento de categorias de significado, baseadas na experiência emocional.
Os mecanismos de defesa que utilizam o riso, pelo contrário, tendem a situar-se na comunicação metonímica (Calich, 2006), na qual o deslocamento do significado não produz o novo porque não envolve o espaço que inclui o terceiro elemento. Assemelham-se aos elementos beta de Bion, que são capazes de se aglomerar, mas não de se transformar em elementos alfa (Bion, 1963, 1991), delatando assim a falência da função de rêverie (Bion, 1994). Ou, dito doutro modo, são os afectos ligados ao falso self, que se agrupam, mas não permitem o espaço de transformação e crescimento da personalidade, porque se perdem na tentativa vã de tentar compensar as lacunas deixadas pelo objecto.
Não pretendo, desta forma, retirar o mérito merecido à anedota – até porque, como referi, penso que o humor desencadeado pelo cómico depende mais de quem ouve do que de quem diz. Não posso, contudo, deixar de notar a diferença entre a anedota contada em contexto social – que dificilmente tem outro valor que não seja o da excitação catártica, provocada pela descarga pulsional (como sugere Pereda, 1994, a propósito do efeito catártico da comédia, que poderá inclusivamente ir no sentido do fortalecimento da norma) – e a anedota contada em contexto de intimidade, como acontece, por exemplo, no contexto da relação terapêutica, sempre disruptiva e portadora de um significado particular.
O contacto com o profundo, também na análise, nem sempre envolve o riso, mas implica sempre, como sabemos, não perder, ou descobrir, a capacidade de brincar, no sentido que lhe deu Winnicott (Bion, 1994). Ou seja, tal como as crianças, também os adultos terão que
descobrir as suas próprias formas de brincar e de combinar criativamente os instrumentos de que dispõem (as palavras, as ideias, os pensamentos e, em comum com as crianças, os afectos) de forma a obterem prazer e novos significados.
O humor, como qualquer outra forma de pensar, só é possível, portanto, no contexto da relação. Na relação terapêutica, como em todas as outras, o humor surge como resultado do contacto íntimo e verdadeiro que decorre do ambiente facilitador da experiência emocional . Por sua vez, ser-lhe-á então possível oferecer-se como instrumento facilitador de novas conquistas de intimidade e de novas aberturas à descoberta e à novidade.
Portanto, antes de uma relação de intimidade estabelecida, o humor corre o risco de ficar empobrecido; reduzindo-se a um humor sem peso que, pelo efeito catártico que comporta, poderá até bloquear ou desviar o processo de mudança e de transformação – já que lhe falta o retículo de afecto que o preenche de significado –, perdendo-se, desta forma, como instrumento possível à principal função da psicanálise que é, como aprendi com Coimbra de Matos, facilitar a emergência do gesto espontâneo.
Talvez valha a pena, também, distinguir o humor da mordacidade, da ironia, do sarcasmo ou da sátira, já que estes (como refere Spilzinger, 2002) tendem a colocar o interlocutor em situações de inferioridade, o que pode desencadear sentimentos de humilhação e consequente necessidade de retaliação. Não que o sarcasmo, a mordacidade ou a ironia não possam também ser utilizados na relação terapêutica. É, no entanto, necessário, a meu ver, que se cumpram pelo menos duas condições: a primeira é a existência de uma relação de confiança que torne claro que a crítica é dirigida, não ao Eu Verdadeiro, mas sim aos sabotadores internos (Fairbairn, 2000) que estão na origem da doença; a segunda é que estejam criadas condições que facilitem a abertura da revolta contra os maus objectos interiorizados e recalcados – ou o humor não cumpriria a sua função, podendo mesmo
desencadear uma aliança secreta destes sabotadores internos contra a análise, o analista e o processo de mudança.
Claro que a emergência destas condições varia consoante as características de personalidade de cada pessoa – todos sabemos que aquilo que alguns podem ouvir, logo desde os primeiros tempos de análise, outros só o poderão ao fim de alguns anos. O termómetro terá sempre que se situar entre a forma e o conteúdo do que se diz (pois a sonoridade e o tom com que se diz revelam também o nível de empatia que se sente) e a intimidade, bem como o nível de abertura possível à relação naquele momento.
A seguir, apresentarei três pequenos exemplos de três pacientes em análise. No primeiro caso, terei oportunidade de exemplificar a utilização do sarcasmo e da anedota, como instrumentos possíveis ao trabalho terapêutico. No segundo caso, penso que o que fica mais em evidência é o humor como resultado do contacto íntimo, do qual surge a construção de algo de novo e a expansão da intimidade. Finalmente, no terceiro caso, o humor surge no fim da sessão e aparece como expressão possível da resolução de conflitos, atestando a capacidade de rir e de brincar consigo próprio.
O primeiro caso é um homem de 42 anos, com uma problemática narcísica, em análise há 6 anos e com história de relações homossexuais, nomeadamente a última (mais duradoura) que terminou há cerca de 4 anos. O fim desta relação tem permitido, na análise, uma melhor elaboração das angústias e dificuldades inerentes ao seu funcionamento.
À medida que o falso self vai cedendo, vai aparecendo a revolta, muitas vezes sentida sob a forma de desespero, como aconteceu há uns meses atrás, no extracto de sessão que seleccionei: “Passei a vida inteira a investir na minha imagem, e agora as consequências são estas…” – diz – “Estou completamente sozinho… Nem filhos consegui ter… Só! Estou completamente só! E neste momento, sinto-me completamente incapaz! Já nem maricas consigo ser! Para os que tiveram a sorte de nascer bem é tudo fácil! Para esses sim, a vida acontece! Nem
é preciso que façam nada! Basta estarem quietos que tudo lhes aparece de mão beijada! Agora para os desgraçados que nasceram mal, como eu; para esses é diferente! Costuma-se dizer que quem nasce torto tarde ou nunca se endireita, e é bem verdade! Agora se quiser ficar um bocadinho menos torto, tem que ser à martelada, não é? É! Pois é! É triste mas é verdade!” – E continua com uma série de queixas e acusações veladas à análise, que também não faz nada por ele, que se farta de lutar e não sai da cepa torta, e etc., etc., etc.
A dada altura, digo-lhe, com algum sarcasmo: “Pois é… São as consequências de quem passou a vida toda a tentar agradar à mãezinha, na esperança, quem sabe, um dia, de ser reconhecido, de ser digno da atenção dela…”
“Essa puta, também!” – Responde de imediato. E depois num tom mais triste e reflexivo: “…Quer eu queira quer não, ainda sou um maricas de merda! Continuo a interessar-me muito pela imagem, pelas roupas, pelo que parece bem – como fiz para agradar à minha mãe, é verdade; mas também como fazem as mulheres, porque também não tive um cabrão dum pai que me ensinasse a ser homem, a interessar-me pelas coisas dos homens, percebe? Agora tenho que andar prá'qui a fazer essas descobertas sozinho…” – E depois de um silêncio, acrescenta: “A merda é esta! É que, quer eu queira quer não, no fundo no fundo, ainda não me sinto homem… No fundo no fundo, ainda me sinto um rapazinho feio e com a pila mirrada, como sempre me senti…” – Mostrando-me que compreendeu bem o meu comentário, numa aliança clara comigo contra os maus objectos internos – os pais internalizados – que estão na origem da sua doença.
Mas estes momentos de lucidez sucumbem, por vezes, às racionalizações defensivas, na sequência do desejo erótico recentemente despertado para as mulheres. Nomeadamente, em torno de exigências obsessivas acerca de detalhes de beleza física que o afastam estrategicamente das mulheres, preservando assim a imagem inconsciente da mãe idealizada da infância e evitando as angústias narcísicas e as ansiedades ao nível das identificações masculinas.
Um dia, ouvindo-o neste discurso vazio sobre a perfeição das mulheres e dele próprio – que se resumia à preocupação de ser valorizado e reconhecido pelos outros homens –, ocorre-me uma anedota, e digo-lhe: “No outro dia lembrei-me de si… Contaram-me uma anedota e eu lembrei-me de si… Não me leve a mal, mas… A anedota era assim: Era um homem que estava sozinho numa ilha. Tinha sobrevivido a um naufrágio, e tinha ficado sozinho. E assim esteve durante algum tempo. Um dia, para seu grande espanto e alegria, cruza-se – nada mais, nada menos que – com a Claudia Shiffer! O homem ficou desvairado, claro! E escusado será dizer que, durante algum tempo, não quis mais nada que não fosse regalar-se com aquele presente, não é?
Um dia, já um bocado cansado de fazer sempre o mesmo, vira-se para ela e diz: Olha vou-te pedir uma coisa que tu podes achar um bocado estranha, mas é só para sairmos um bocado da rotina, está bem? É assim, faz de conta que tu agora és um homem, está bem? Pões este bigode e agora vamos fingir que nos perdemos e que nos voltamos a encontrar por acaso, ok? Vá! Começa agora. Tu vais por aqui e eu vou por aqui.
Passado algum tempo encontram-se e diz ele para ela: Eh pá! Tás bom?! Ó tempo que não te via! Já agora, sabes com quem é que eu tenho andado a dormir? Com a Claudia Shiffer!
Rimo-nos os dois e ele, de seguida, conta-me um sonho (vale a pena lembrar o efeito anti-intelectualizante do humor, referido por Alberto Eiguer, no seu artigo “El humor en la enunciación de la interpretación”).
O sonho passava-se numa casa onde ele vivia com duas mulheres: Uma era uma espécie de governanta da casa – austera, rígida, sempre séria e concentrada no dever. Outra era uma criada, nova, sedutora e bonita.
No sonho, ele estava numa sala a ler, e a criada vem servir-lhe qualquer coisa, mas ele repara que ela vem em cuecas. Sente uma excitação enorme. Repara que ela é realmente bonita; boa mesmo! Mas ao mesmo tempo é inibido pela proximidade da governanta.
À medida que ia seguindo o sonho, fui evocando o contexto da sessão anterior, no qual eu tinha usado uma mini-saia, que tinha desencadeado nele o seguinte comentário, assim que se deita no divã: “Hoje quando a vi, pensei que se calhar também é de um meio sexual… Oh! Desculpe! Social, elevado…” – Continuando com comentários depreciativos sobre um tal meio social (ou sexual) elevado, que, obviamente, aguça os seus sentimentos de inferioridade.
Ele próprio explica o lapso, dizendo que, quer um quer outro meio (social ou sexual, elevados), sempre desencadearam nele uma raiva fortíssima e uma inveja incontrolável.
Digo-lhe então, referindo-me ao sonho, que por vezes também me sente como sentiu a mãe: criada e governanta – simultaneamente sedutora e castradora/rejeitante. Foi assim, em tempos, que sentiu a mãe: a mãe toda-poderosa, na sua fantasia infantil, pertencente a um meio sexual elevado; enquanto que a ele, criança impotente, não lhe restou outra solução senão idolatrá-la, colocando-a num pedestal e comprometendo assim a possibilidade de descobrir as mulheres e a sua virilidade.
“Ontem viu-me as pernas e pensou que eu lhe estivesse a mostrar as cuecas.” – Continuo – “Inconscientemente, imaginou-me sedutora e indutora de excitação, como a sua mãe, que o provocava e depois o rejeitava, fazendo-o sentir-se inferior. Ficava com a impressão que ela o rejeitava porque não estava ao nível (sexual) dela, sem perceber que o que ela queria de si era que lhe servisse de espelho onde se pudesse enamorar de si própria. Portanto, ficou com raiva porque reviveu a raiva sentida e esquecida, por ela se ter servido de si, em vez de o servir e de o apoiar na conquista das meninas lá da escola, que ficavam sempre para o seu colega de carteira…”
Ele fica em silêncio por algum tempo, e depois associa sobre uma mulher, com quem mantém uma relação platónica, embora ela seja casada e não tencione deixar o marido. Ela, tal como a mãe no passado, passa a vida a seduzi-lo, para depois o rejeitar… Há qualquer coisa de perverso nesta relação, explica, como se tivessem um certo prazer em magoarem-se um ao outro…
Entretanto, retoma o sonho, interpretando a parte que eu deixei de fora: As mulheres também são ele próprio – a governanta sempre correcta, como ele, na sua parte racional que o defende dos afectos; e a criada submissa e ávida de atenção, como ele, na sua parte mais frágil e insegura – como se dissesse “Podes-me enrabar à vontade que eu não me importo!” – E termina num rasgo de humor: “O problema é que eu já não quero levar mais no cu! Já levei muito, é verdade; mas não quero mais, porra! A César o que é de César; e a mim, o meu traseiro!”
Talvez valha a pena dizer que este paciente, no início da análise, não tinha qualquer capacidade de humor, neste sentido que implica a possibilidade de brincar com as suas próprias dificuldades. A obediência cega às figuras ideais e superegóicas do passado – que caracterizava a rigidez do seu funcionamento psíquico – vai, progressivamente, dando lugar à expressão do Eu Verdadeiro que vai brotando e expandindo na Nova Relação encontrada na análise (no sentido que lhe dá Coimbra de Matos). O humor emerge, então, do espaço potencial criado entre nós , e, tal como o ódio ou o amor, assume a expressão do gesto espontâneo .
O segundo caso é uma mulher de estrutura depressiva; com 34 anos, solteira, e com todas as características que conhecemos num doente depressivo: Um défice de auto-estima que leva a percepções quase delirantes da realidade, a culpabilidade inconsciente, a agressividade inflectida sobre ela própria, escolhas amorosas de carácter sado-masoquista, etc., etc., etc.
Ao fim de 5 anos de análise, faz o seguinte sonho: sonha que está numa sessão comigo e que, a meio da sessão, o meu marido assoma à janela com outro homem. Vem feliz por chegar a casa e informa-me que tinha comprado vegetais (que nos mostra) para o jantar. Acorda numa angústia horrível.
Assim que acaba de me contar o sonho, sai-me um comentário espontâneo: “Simpáticos! Acho bem. Nós merecemos!” – Rimo-nos as duas.
Na altura, dado que o comentário foi completamente intuitivo, não percebi bem o efeito benéfico que produziu. Só mais tarde, ainda envolta no bem-estar vivido na sessão, me apercebo que este simples comentário terá sido talvez mais valioso do que a interpretação que lhe faço a seguir, e sem o qual, agora tenho a certeza, esta não teria tido o impacto que teve.
O sonho decorria numa antiga casa de uma avó dela e, após o momento de descontracção proporcionado pelo riso, ela pede-me que eu a ajude a perceber melhor o sonho. Digo-lhe, então, que finalmente decidiu substituir a avó sofredora (com quem em tempos tinha tido uma relação privilegiada) por mim e que isso significa que há, finalmente, possibilidade (no seu interior) de passar a fazer melhores escolhas nos seus relacionamentos amorosos.
Com ar de espanto, pergunta-me: “Então porquê a angústia que senti de manhã, quando acordei e me lembrei do sonho? É verdade que o sonho foi agradável… Tenho ideia que enquanto sonhava me estava a sentir muito bem, mas depois de manhã… Porquê aquela angústia toda?”
Respondo: “Ah, isso é por causa daquela parte sua meio delirante que acha que não tem valor suficiente para escolher um homem que valorize e que a valorize a si, de que você goste e que goste de si também”
Ela ri novamente e a sessão decorre num tom solto e bem-disposto. Ambas nos divertimos imenso: brincámos com palavras, pensamentos e emoções; e foi possível ter acesso a uma parte dela, tantas vezes inibida e escondida atrás deste sentimento profundo de desvalorização.
Agora, com alguma distância, penso que este momento rico e profícuo vivido entre nós só foi possível porque aquele primeiro comentário reflectia e revelava com espontaneidade a verdade do meu próprio interior: o meu afecto, apreço e consideração por ela. Ou seja, espontaneamente, aceito com prazer a identificação positiva entre nós e os nossos homens, permitindo, como Kohut (1988, 1989) postulava, a identificação especular e a fusão com o objecto do self idealizado;
tornando-me assim menos ideal e permitindo-lhe, a ela, sentir-se menos desvalorizada. Sem me dar conta, foi como se a tivesse autorizado a ser como eu (ou como ela me fantasia) e, portanto, a ter um homem como o meu (ou como ela imagina que eu tenho).
Portanto, o pequeno comentário sintetiza a interpretação que lhe sucede, com a vantagem de se furtar à intelectualização – via que, como sabemos, informa, mas por si só não promove a mudança. Esta, como sabemos, só é possível pela mão da empatia e do afecto que se sente, comunga e renova, transformando, como tantas vezes enfatiza Coimbra de Matos, a relação, o doente e o analista.
O último caso é um homem de 32 anos, com uma problemática narcísica, acompanhada de abusos sexuais por homens na infância, solteiro e com história de várias relações amorosas fracassadas; em análise há 5 anos.
No fim de uma sessão em que se mantém defensivamente a falar de aspectos factuais da sua vida, conta-me o seguinte sonho: sonha que ia na rua e se cruza com um rapaz bem-parecido. Sem saber como, entram os dois numa casa, mas a entrada principal estava vedada e têm que entrar pelas traseiras… Entram os dois e não se lembra de mais nada.” – Fica em silêncio.
Comento: “Às vezes ainda se sente condenado a não realizar o seu desejo, a ficar preso nos traumatismos da sua infância…”
Ele responde, com tristeza e até com um certo desânimo, que não me queria dizer mas que, de manhã, quando acordou e se lembrou do sonho, sentiu uma espécie de excitação no cu. Chora sentidamente e, em grande aflição, diz que tem medo de ser homossexual.
Eu digo-lhe que ainda confunde a vontade de cagar com excitação sexual – tem medo de não conseguir cagar para os agressores da sua infância, a começar pelos pais que o acusavam de ser porco e perverso, em vez de o tentarem compreender e ajudar a livrar-se de quem abusava dele – e então sente-se condenado à submissão a estes agressores e à excitação sexual que eles lhe impuseram e à qual não pôde resistir porque não teve alternativa.
Ele chora e ocupa algum tempo recordando e expressando, com dor, os traumas sexuais e as humilhações a que foi sujeito; e os pais, sempre raivosos, que o acusavam de anormalidade e perversão.
Reforço a ideia: “Quando você conseguir cagar para todos esses agressores, pode ter a certeza que lhe passam as impressões no cu!”
Ele fica em silêncio por algum tempo e a sessão vai chegando ao fim. Pergunta, então: “Já está na hora, não está?
Eu respondo afirmativamente e ele, rindo, diz: “Ainda bem… É que eu tenho mesmo que sair já… Pode não acreditar… Eu até tenho vergonha de dizer, mas a análise é para se dizer tudo, não é?… É que deu-me cá uma vontade de cagar!” – Ri-se – “E de facto, é curioso! Passou-me completamente a impressão no cu!”
Para terminar, e sintetizando um pouco o que me foi surgindo nestas linhas: O humor constrói-se na capacidade de estar só e surge na área neutra da experiência , que se assemelha a um momento de pausa repousante que liga e reconstrói os conteúdos da sessão.
“A música é o espaço entre as notas”, afirmava lucidamente Claude Debussy – e o mesmo se poderá dizer do ritmo compassado da análise e dos arranjos musicais (mais ou menos afinados) de cada sessão.
A análise, também ela, é o espaço entre os conteúdos: O afecto que os liga e lhes dá sentido no não dito ou no dito sem sentido. São as entrelinhas que se ouvem no silêncio, o afecto verdadeiro que rompe o disfarce do falso self, o sorriso esboçado mas não agido, a gargalhada franca e incontida, enfim, a comoção inesperada que nos fica presa na garganta…
SUMMARY: The author situates the humour as the ability to play or the pleasure of existing in the transitive space defined by Winnicott. Distinguishes it from the mechanisms of maniac defense, as well as from delusional constructions, or even of comic, of mordacity, of sarcasm, of irony and of satire. Shows, however, that some of these processes – nominated the comic, the mordacity, the irony, the sarcasm
and the satire – can be possible instruments to the Therapeutical Relation, since they fulfil at least two conditions which facilitate the appearance of the spontaneous gesture.
It exemplifies the emergence and the use of humour with three small vignette and goes concluding that humour borns from the relation of intimacy, witnessing the capacity of being alone and assuming, as the hate or the love, the expression of the spontaneous gesture.
KEYWORDS: Humour; Relation; Spontaneous Gesture.
“Não consegui resistir…” – Diz o Pooh humildemente.
“Então porquê?”
“Bem, primeiro havia aquele cartão para o Senhor Urso Pooh, lembras-te?… Depois, quando cheguei à loja… Só para ver…”
“Sim…” – Incentiva o coelho.
“O vendedor foi tão simpático comigo! “Senhor, posso ajudá-lo?” – disse-me ele… Fez-me sentir importante…”
“Pooh! Tu não precisas destes sapatos! E agora ficámos sem espaço no armário! E tu não precisas destes sapatos!…” – Insiste o coelho.
“Pois não. Vou devolvê-los!”
“Ah, isso parece-me bem.” – Concorda o coelho.
“Há muitas pessoas que também devolvem coisas, acho eu.” – Remata o Pooh.
“Sim, é possível” – Responde o coelho.
“Não fui só eu…” 3