Na sua ficção adivinhatória, Orwell antecipou um tempo em que a disseminação da mentira como verdade oficial serviria de suporte a uma estratégia de construção totalitária. Tudo assentaria na manipulação da linguagem e dos seus sentidos para contaminar, a partir das cúpulas do poder, a percepção das massas sobre a realidade.
Aqui, como em outros terrenos, a utopia negativa de Orwell revelou-se profética. A mentira e a manipulação da linguagem constituem hoje artes prioritárias a cultivar pelos detentores do poder (ou pelos aspirantes a isso), as mais das vezes em regime de subcontratação em editorialistas, opinion makers ou gabinetes de comunicação.
Há uma síndrome de “read my lips” que invadiu a política toda. E o terrível é que a inabilidade convencida do primeiro dos Bush, então confinada ao seu país natal, e expressa nessa tão memorável quanto falsa jura solene de não aumento dos impostos, se tornou em fatalidade no tempo do seu descendente, e agora difundida e replicada em escala global. De facto, em tempo de apagamento radical do velho credo democrático de controlo do poder económico pelo poder político e de controle longínquo dos dois por uma mão que de invisível só tem a fama, a mentira tornou-se o único engodo para a efectivação do rotativismo governativo. Entre a mobilização e a acção políticas gerou-se um fosso fundo que a mentira disfarça. Pinta-se um quadro
Comunicação apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e a(s) Mentira(s)”. Porto, 17 e 18 de Novembro de 2006.
Professor Universitário; Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
esperançoso para mobilizar eleitorado hesitante; uma vez consumada a vitória, logo se apressam os rostos fugazes do lado esquerdo ou do lado direito do mesmo centro a vir clamar surpresa com o tamanho da herança do outro, a substituir a esperança e a confiança por drama e a pôr em marcha, através do chamado “ímpeto reformador”, o avesso do que fora a base do contrato de mobilização.
O vídeo denunciador das mentiras deliberadas e confessadas pelo primeiro ministro húngaro Ferenc Gyurcsany é talvez o símbolo mais actual de como a mentira se tornou num instrumento político-mediático de primeira importância quer para efeitos de mobilização eleitoral quer para o exercício de pilotagem da governação.
A combinação entre mediatização da política e politização dos media potencia este retrocesso da política ao maquiavelismo mais cru, em que a conquista e a manutenção do poder, ainda que com um espectro de acção possível limitadíssimo (e até por isso), se tornaram fins em si mesmas, desligadas de genuínas intenções programáticas.
A mediatização da política traz no bojo o reino da desmemória. Tudo é simples, a preto e branco, e esgota-se em dois dias de prime time televisivo. É a política feita soundbyte, onde o fait divers vale incomensuravelmente mais que a substância da argumentação. É a agressão sem fim à Palestina reduzida à “retaliação” pelo rapto rocambolesco de um soldado israelita. É o pântano genocida no Darfur empacotado no choque de civilizações. Quando a História se serve como um amontoado informe de “flashes” sem sentido, a explicação mais fácil e a argumentação mais preguiçosa são as que valem. E o resto é tido por fundamentalismo ideológico.
Esse terreno da desmemória e da ignorância é fértil para a utilização dos media como suportes da manipulação do discurso e de representações enviesadas da realidade. A este respeito, a mentira mediatizada sobre as políticas públicas em escala nacional (fiscais, de segurança social ou de emprego) é apenas a versão doméstica da cultura de deturpação da História que tem na guerra e na sua justificação a expressão própria do tempo global.
A coisa não é de agora. Os títulos do “Washington Post” ou do “New York Times” de 5 de Agosto de 1964 anunciavam uma rearrancada dos Estados Unidos no Vietname como retaliação contra uma segunda vaga destruidora lançada pelas tropas vietcongue, no golfo de Tonkin, contra os destroyers americanos. A verdade é que esse segundo ataque vietnamita nunca acontecera e a retaliação foi, afinal, agressão. As histórias mais recentes de mentiras legitimadoras da guerra, como política global, são conhecidas e em grande quantidade. Kosovo, Bósnia, Sudão são nomes de outras tantas construções mediáticas da verdade, produzida em gabinetes militares e políticos de propaganda, à medida dos interesses estratégicos dos globalizadores de mercados. Como no Iraque, em que o mesmo grupo de comunicação (o Rendon Group) recebeu com uma mão um contrato de 100.000 dólares mensais para assessorar a Administração norte-americana no fornecimento de informação sobre a ocupação e a guerra ao mesmo tempo que, com a outra mão, recebia mais de 200 milhões de dólares da CIA e do Pentágono para difundir propaganda contra o regime de Saddam.
O Iraque é, realmente, a versão mais grotesca e extremada desta tendência para a construção e afirmação pública de uma verdade fabricada (uma mentira, portanto) como fundamento do fatalismo da guerra. E inscreve-se numa estratégia diversificada de subida do patamar da relação entre mentira, política e media. Essa estratégia assentou primordialmente na reconfiguração discursiva da realidade como pilar de primeira importância do projecto de transformação geopolítico global que a administração Bush II pôs em marcha depois dos atentados terroristas de 2001. O núcleo duro dessa reconfiguração foi a declaração de que os Estados Unidos estavam em guerra contra um inimigo difuso (“o mal”), cujo objectivo seria aniquilar a essência da civilização ocidental e os seus valores democráticos. Um discurso assim, com esta grandeza e este sentido redentor, devidamente difundido pelos media, legitimou todas as medidas extremas: a invasão de países, o ataque às instituições multilaterais (como a Organização das Nações Unidas ou o Tribunal Penal Internacional), o incumprimento
das regras básicas do Direito Internacional e a redefinição de inimigos e de aliados. Os três suportes fundamentais de disseminação deste discurso, e das políticas por ele visadas, foram o estrito controlo da informação oficial, a desqualificação dos adversários (tidos por “traidores” ou “antipatriotas”) e a contaminação dos fluxos de informação através da produção em larga escala de ruído mediático, de modo a tornar marginal a opinião divergente (Marthoz, 2004; González, 2004). Apoiada no matraquear do argumento de que os media constituiriam uma coutada dos inimigos da guerra contra o mal (em sucessivas aplicações locais da retórica de denúncia de alegados traidores adeptos da transigência, de cúmplices objectivos do terrorismo internacional, e de anti-americanos primários), esta estratégia escancarou a evidência de que a verdade que legitima uma guerra é uma construção duramente disputada, determinada pela ocupação do terreno opinativo dos media. A verdade que fundamenta a guerra é tão conflitualmente construída como a verdade que fica depois de uma noite eleitoral em Portugal, em que, como disse alguém que sabe do assunto, a vitória nas interpretações mediáticas dos resultados é tanto ou mais importante que a vitória nos resultados em si mesma.
Nesta disputa pela hegemonia na construção das narrativas da verdade, vale tudo, incluindo, à cabeça, ocultar factos, reduzir a complexidade em pacotes liofilizados de explicação da História e, acima de tudo, mentir bem. O episódio patético da intervenção de Colin Powell no Conselho de Segurança das Nações Unidas, demonstrando ao mundo, com fotografias de satélite (num remake da crise dos mísseis de Cuba), que o Iraque possuía armas de destruição em massa, é, porventura, o ícone dessa banalização da mentira na legitimação da guerra. Mas a força desse episódio não é tanto a dele próprio como História, mas sobretudo a que está evidenciada no estudo da “Columbia Journalism Review” sobre a cobertura feita pelos seis principais jornais norte-americanos no dia seguinte à intervenção de Powell: a verdade é que todos noticiaram que a argumentação de Powell era irrefutável e sem lugar para dúvidas sobre a consistência das provas.
Em nenhum dos seis se vislumbrou qualquer preocupação em ouvir Hans Blix, chefe da missão de inspecção das Nações Unidas no Iraque. Mais do que a confiança, é a dependência das fontes produtoras da verdade oficial que fica patente neste caso bizarro. A “Fair & Accuracy in Reporting”, em Março de 2003, clarificava ainda mais a fotografia desta realidade: 75% das fontes de informação dos noticiários da noite acerca do Iraque tinha tido ligações à Administração americana.
Mas convém sublinhar que a ratificação mediática do power point mentiroso de Colin Powell, sendo de gravidade extrema, é, porventura, um símbolo de uma cultura instalada, mais vasta, de relacionamento muito difícil entre os media e as narrativas justificadoras da guerra neste tempo de desordem global. Há uma confusão recorrente entre dois universos: conhecimento e informação. Saber que algo aconteceu não equivale a saber as razões por que isso aconteceu. Ora, é esse défice de conhecimento – acicatado por um proverbial senso comum preguiçoso – que canoniza abordagens superficiais (como aquela que contrapõe humanitarismo militarizado a colapso do Estado ou a Estado falhado), abordagens essas que não cuidam de saber da diversidade interna de cada um desses pólos da contraposição e da sua natureza dinâmica.
Não sendo necessariamente de mentira, o discurso mediático está cheio de estereótipos e de simplificações que funcionam como self-fulfilling profecies, como vaticínios que se auto-alimentam e que ganham, pouco a pouco, o estatuto de verdade.
Tudo isto nos coloca diante de um tempo novo. A objectividade jornalística, como lembra Mário Mesquita (2004: 208), não foi “o resultado de uma reflexão epistemológica acerca do jornalismo”, mas sim uma “construção resultante da nova estratégia comercial da imprensa”, apontada à extensão e diversificação dos públicos. Em tempo de império político, militar e mercantil, a objectividade (se alguma vez existiu) talvez esteja a ceder lugar à formatação de convicções. É na arena desse jornalismo formativo que a mentira e a manipulação da História encontram lugar de primeira fila.