O desejo primário de ter um bebé inscreve-se provavelmente no determinismo dos nossos abismos genéticos. Mas o determinismo genético não explica o facto de o desejo necessitar de um tempo certo para se expressar. Isto explicaria porque é que o desejo se encontra inibido ou controlado na adolescência ou antes de se atingir uma certa estabilidade económica e afectiva na vida do adulto jovem. Parece desabrochar, portanto, em fases mais tardias, muito associadas ao desenvolvimento de uma relação afectiva estável, ou, na sua ausência, quando antevemos mais próximo o fim da vida. O desejo do bebé parece, pois, advir de uma projecção, para além de nós próprios, do amor que cedemos ao outro com que vivemos, ou, na sua ausência, do amor que sentimos extravasar de nós mesmos.
É, pois, fácil de entender que, fora deste contexto, e apesar do sofrimento que causa, a interrupção voluntária da gravidez (IVG) seja tão usada como instrumento extremo de regulação da gravidez, ou, nos casos em que não é usada, que surja uma negação, com recusa de aceitação dos testes bioquímicos, das imagens ecográficas, dos sons cardíacos fetais e, até, de um parto prematuro.
Comunicação apresentada na “Mesa-Redonda: Novos Processos de Reprodução, Novas Parentalidades” no XX Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: “Psicanálise e Mudança”. Lisboa, 11 e 12 de Maio de 2007.
Laboratório de Biologia Celular do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (Director: Mário Sousa, Professor Catedrático do ICBAS-UP).
O desejo do bebé implica a relação sexual, a concepção, a gestação, o parto e a educação da criança. Tradicionalmente, alcançar a gravidez desejada é sentido pelos outros não como um direito, mas como uma dádiva, sorte ou benesse. Na tradição religiosa, seria uma dádiva de Deus, que assim recompensaria quem merecesse. Reciprocamente, a infertilidade seria uma punição ou um sofrimento imposto por uma lógica que se nos escaparia, mas que teria certamente uma razão expiatória ou de formação da personalidade pelo sofrimento. Como para a alcançar é necessária a relação sexual, a fertilidade também se inscreve no âmbito da sexualidade. É curioso notar que a mentalidade religiosa e moral se desenvolveu fazendo-nos juízes em causa alheia, ou seja, é-nos intuitivo, instintivo, fácil e dá-nos um intenso prazer ajuizar os outros, mas não a nós próprios. Esta lógica é, pois, indissociável da tendência natural da nossa espécie para a protecção do singular, de nós próprios. Por outras palavras, vivemos com um instinto de preservação ou de sobrevivência própria, mesmo quando isso implica a destruição dos outros.
Neste sentido, a sociedade tornou-se conservadora, culpabilizando a mulher por ser a depositária do feto. A ela se deveriam todos os defeitos e vícios, desde a sedução e a sexualidade pecaminosa, incluindo as situações de violação, até à maldição do pecado mortal quando optava pela IVG. Estaria assim explicado porque é que a mulher que recorre ao Serviço de Urgência após um abortamento é tão mal tratada. Sendo pecadora, deveria receber a nossa crítica e ser amaldiçoada e punida. Inscreve-se aqui recebê-la com maus-tratos, usando uma linguagem imprópria, por vezes obscena, criticando, ralhando e insultando, fazendo-a esperar desajustadamente, humilhando-a ao despi-la sem cuidados de protecção da intimidade, mutilando-a pela instrumentalização bruta do espéculo e efectuando a curetagem sem anestesia, abandonando-a ao evitar a visita médica diária na enfermaria e desprovendo-a de apoio social e psicológico, e, finalmente, denunciando-a aos serviços judiciais.
Sendo uma dádiva, todas as complicações da gravidez também seriam explicadas pela expiação. A morte da mãe durante a gravidez, no parto ou após um aborto provocado; o sofrimento dos abortos espontâneos; a perda dos fetos mal-formados; a dor das crianças prematuras, das crianças disformes, das crianças sujeitas aos cuidados intensivos e a cirurgias, das crianças com atraso mental, com défices psicomotores, com doenças graves, com doenças fatais, com doença oncológica, das crianças mutiladas ou falecidas em acidentes, das crianças desaparecidas. Um trajecto de dor cruel, intensa, sem fim, sem resolução, que obriga os pais à negação de si próprios, a enveredar por estratégias críticas de sobrevivência, e que às crianças lhes impõe uma ausência de imagem ideal, de autoconfiança, de normalidade, de segurança e prazer no desfrutar da vida. Ambos são olhados como estigmas, como marginais, numa sociedade inexistente como grupo amigável, solidário e coeso.
O estigma da doença, como o da fealdade ou do estatuto socioeconómico, afasta-nos da relação amorosa estável. Não é culpável em si mesmo, mas isola o outro dos afectos. Muito curiosamente, tenho encontrado inúmeros exemplos de entrega a uma relação à partida condenada a uma vida diferente, dada a doença de um dos membros, desde a infertilidade à esterilidade, a qualquer outra doença sistémica, até à paraplegia e paralisia cerebral. Contrastam muito com as outras situações, também frequentes, de abandono por ocorrência de doença numa família previamente saudável.
E o casal infértil? Existem duas classes de casais, os que já sabiam e os que são subitamente atingidos por ela, a infertilidade. Há pouco tempo atrás, os casais tinham no parceiro masculino o indivíduo com mais idade. Actualmente, são elas as mais velhas, 1 ano, 2 anos, 10 anos. Qual o significado desta mudança? A maioria dos casais vinha quase sempre com um factor adicional que era a idade do ovário ser já superior a 30 anos. Ao contrário do que se pensa e diz, esta situação nunca foi fruto do carreirismo feminista. Foi sempre fruto da fatalidade de tão-somente sermos atirados para uma sociedade
que não preza as ligações afectivas, a amizade e o bem. Numa sociedade individualista, impera o egoísmo. Os indivíduos com sucesso são os que sabem usar a esperteza, o carreirismo partidário, o poder das famílias, dos pactos, das sociedades semi-secretas e do poder económico. Ascendem, ludibriam, fingem, aparentam e escapam, manipulando a plêiade dos escravos tecnocratas e operários. O modelo social está tão bem montado que parece que todos anseiam pelo mesmo fim. Todos se lançam nesta corrida desenfreada do dinheiro e do parecer sem ser, sobretudo sem ser alguém com estrutura de fundo assente no bem. Daí cada vez mais experimentarmos nas coisas mais simples e correntes do dia-a-dia, nas situações dantes tão comezinhas, simples, humildes e essenciais, a agressividade, a indiferença e o snobismo dos outros. Sendo a maioria escrava, não resta tempo para a preguiça, para pensar e reflectir, para conviver saudavelmente, com a tranquilidade e o tempo lento das crianças, para se ser feliz. E mesmo assim, não se adquire o vil metal numa quantidade capaz de se fazer face às despesas correntes dos bens essenciais, e necessários hoje em dia para se tentar constituir uma família feliz. Somos então obrigados a adiar a gravidez. Porque se fazem 12 anos de escola pré-graduada, mais 4-6 anos de ensino superior, depois já é preciso um mestrado ou um doutoramento; depois temos de procurar um emprego, encontrar um emprego, manter o emprego. E, hoje em dia, para mantermos um emprego temos de jurar não ter filhos, não adoecer, não ter de fazer compras para comermos, para nos calçarmos, para nos vestirmos, para irmos ao dentista. Roubam-nos inclusive o tempo social. Somos da empresa, do gestor, mesmo sexualmente. Neste labirinto, atordoados e incapazes de reflectir, ou se reflectimos, incapazes de contrapor, vivemos a juntar para a entrada do empréstimo bancário para a casa, ficando dele reféns para toda a vida, temos depois de amealhar para a mobília, depois para a festa do casamento, de seguida para um minicarro, pois pelo menos um dos empregos implica um local afastado sem recurso a transportes públicos confortáveis, eficientes e compatíveis com uma vida saudável
Nesta euforia, o poder lembrou-se de atingir outras áreas que tinha perdido com a revolução. Necessitava agora de deter, para além da política, dos políticos, dos partidos, dos governos e das empresas, precisava de possuir o templo do saber e o refúgio da doença. Atacando lenta e obscuramente, actualmente desferindo argumentos prenhes de lógica empresarial, de manipulações retóricas e estatísticas, o ensino e a saúde tornaram-se as presas mais apetecíveis e sucumbiram. Os escravos têm então, e ainda, de pagar 4 novos impostos. Os descontos obrigatórios, retidos compulsivamente pelo Estado e destinados à reforma e à saúde, e que, mesmo assim, são, na actualidade, ameaçados de se perderem. Em pânico, na necessidade, pagamos por extras a escola e o médico privado. E como não chega, aturdidos, fazemos seguros de saúde e de reforma. E indo ao sector público, pagamos as taxas e as propinas. E o tempo passa, e esta é a causa primordial de infertilidade no ocidente industrializado.
A segunda causa de infertilidade é ainda um subproduto desta escravidão. Os senhores do mundo precisam de momentos de lazer, e então montaram um esquema perverso de indução de uma outra falsa necessidade, a do prazer físico egoísta, desprovido de afectos, onde tão-somente se vive de momentos existenciais para exaustão dos impulsos e dos devaneios, empobrecidos e esvaziados de conteúdo, que brotam da espontânea actividade cognitiva superior. O corpo. Tem tanto sucesso esta modalidade moderna do consumismo que desencadeia o mesmo furor de desejo de cópia e ascensão social nos servidores. Consumimo-nos, então, desde idades tenras e oferecemo-nos a eles. Como a probabilidade da relação púbere se eternizar é <5%, voltamos sempre a acreditar e a envolvermo-nos, acreditamos
e não nos protegemos, pois corta a saciedade do contacto da carne. Esta vida de parceiros múltiplos até nos enraizarmos provoca infertilidade, por vezes esterilidade, assintomática, até ao dia da revelação da causa da não-concepção. Na mulher, a obstrução tubar, a salpingite com salpingectomia, a doença inflamatória pélvica com as aderências e a lesão ovárica, a endometrite, as cicatrizes, os pólipos e a hiperplasia do endométrio, e a obstrução dos canais genitais excretores ou a orquite, com azoospermia, no homem. E como se não fosse suficiente, o consumo carnal do outro esvaziou-nos dos afectos e da responsabilidade, do amor, pelo que, perdendo essa noção dos tempos, preferimo-nos a nós próprios a sós, bem no nosso egoísmo, sem abdicarmos dos nossos gostos, preferências, hábitos e manias. Perdeu-se a vida a dois, por implicar a partilha do diferente e a nossa perda de identidade em favor de um terceiro elemento, que não é uma soma, mas é distinto de cada um dos dois, que obriga a negociações, cedências, pactos, desistências, mudanças, que possui o desconhecido, um risco permanente, e a obrigatoriedade de nos anularmos, de nos despojarmos, de nos darmos, de permanecermos fiéis, na doença, na fealdade, na velhice, na tristeza, na depressão, na dor, um terceiro que nos obriga a amar o outro constantemente, e a desistirmos de nós próprios até morrermos. Sós, quedámo-nos mais imaturos. Daí que as/os mais estáveis procurem um/uma parceiro/a mais idoso/a, que tenha atingido uma idade calma, segura, fiel, em que o que mais almeja é já a estabilidade do conforto de uma relação duradoura e, se possível, com filhos.
A sociedade esclavagista actual é ainda responsável pela terceira maior causa de infertilidade conjugal no ocidente. Nesta euforia do consumo e do esquecimento, o poder lembrou-se de vender a toxicodependência, e construiu templos de diversão, a moda, a dieta, os manequins, as actrizes e os actores, as telenovelas, os músicos, e atraiu finalmente os adolescentes e as crianças. Quanto mais cedo adultos consumistas, melhor. O álcool, o tabaco e as drogas causam lesões genéticas irreversíveis dos gâmetas, e, na mulher embaraçada,
retarda os fetos, cria doenças da gravidez, partos prematuros, crianças deficientes, síndromes de privação fetal e neonatal.
Actualmente, a quarta maior causa de infertilidade é ainda um subproduto desta sociedade e deve-se à vida familiar inexistente, ou seja, por palavras mais comuns, à exaustão no trabalho sem horários, que desencadeia um estado permanente de ansiedade (o stress).
Finalmente, a quinta maior causa de infertilidade na actualidade é também um subproduto desta sociedade e deve-se aos produtos químicos adicionados nos alimentos (endometriose, ovário poliquístico, criptorquidia), no ar respirado e aos químicos manipulados nas indústrias (OAT, azoospermia).
Os que já sabiam estão aparentemente mais preparados e sólidos na relação, bem como no que imaginam vir a surgir no horizonte da sua esperança. Pelo contrário, os que são subitamente confrontados com a incapacidade de alcançarem espontaneamente evoluem por todas as fases conhecidas do luto, mas, ao contrário do luto tradicional da perda, trata-se de um luto que irão vivenciar de modo cíclico. Dor, angústia, desespero, raiva, vontade de morrer, culpa e desvalorização. Trazem a fatalidade e o desespero, sonham com a permissão de poderem crer, de poderem ter uma última esperança. Sofrem em silêncio, confusos e atordoados, acreditando, desesperando e desistindo, numa espera em que a vida e a esperança são derrotadas, e o tempo se lhes escoa sem retorno. Tempos de vergonha, do esconder dos outros, da família, dos pais, dos amigos. Quando era essencial o envolvimento do círculo afectivo e do colo dos mesmos. Se ocultam, sofrem ainda o peso da ignorância carinhosa; para quando o bebé? Vamos lá, já é tempo! Sofrem com a súbita coincidência do mundo exterior anónimo; oh, tantas crianças, tantos carrinhos de bebé, tantas barrigas inchadas! Inveja, raiva, porquê eu, logo eu? E mantém-se a dor compulsiva de cada mês, quando o sangue da menstruação se revela. E mais uma vez a culpa é muito dela. E mesmo nos tratamentos existe a dor das decepções, a culpa de ser portadora dos embriões lá colocados, tão bonitos, e eles que não pegam. Surgem
frequentemente querelas, divórcios, culpabilizações. E na gravidez, sobe o temor do abortamento, dos gémeos, o medo da criança disforme, da vergonha, da desilusão, do fim do sonho e da alegria, da esperança e da vaidade.
Como se não bastasse, o casal infértil está mal visto. A moral da maioria, fértil, considera a infertilidade como uma fatalidade sem opções, um castigo expiatório, saiba-se lá de quê, mas que será de qualquer coisa que nos escapa e que terá alguma razão de ser. Atingido na sua intimidade, o casal infértil descobre que, afinal, os outros sentem, pensam e decidem por eles. Os férteis sentem-se muito seguros em decidir pelos inférteis, mesmo em relação à intimidade sexual. A maioria recusa, assim, reconhecer a infertilidade como uma falência dos órgãos reprodutores, ou seja, como uma doença, apesar de uma falência de qualquer outro órgão já lhes seja caro ser reconhecida como doença e para ela facilmente exigirem o devido tratamento. Esta noção desviada da maioria tem raízes tão profundas no misticismo, na moral e na religiosidade que impregnam a sexualidade e, portanto, a concepção, que os médicos se enredam nas mesmas teias. E o casal infértil, presa fácil, porque, doente, se entrega e confia, vê passar anos e anos em estudos ineficazes, em exames repetidos saiba-se lá para quê, em inúmeras tentativas de tratamento ainda sem diagnóstico e portanto erradas, em cirurgias inventadas para o lucro, e, desgraçadamente, no fim desse calvário, ainda e finalmente desembocam numa discursiva e impositiva negação da possibilidade de conceberem, ou então são colocados em filas de espera falsas, inventadas, porque a Medicina também se acomodou à frivolidade da indiferença do amor a terceiros.
Os casais inférteis trazem, por isso, enormes “dossiers” enfermos de frivolidade, de listas de espera criadas por quem responde com o tempo que não sabem dar. Todos contam histórias trágicas. Os médicos dos hospitais públicos e, não raras vezes, dos centros privados, que dizem não; não porque ainda é jovem, porque já está velha, porque não prestam os seus ovócitos, espermatozóides ou embriões; não,
porque são solteiras, porque já têm um filho, porque se esterilizaram, porque são oncológicos, porque são homossexuais, porque são seropositivos, porque não têm útero, porque não têm ovário, porque não têm testículo, porque desligaram o ventilador do parceiro. Mas o não tem uma verdade oculta. É não, porque os outros não querem e brandem a espada; dizem que aceitem, que adoptem, que se revele a doação, punição do adultério. Tudo é hipocrisia e mentira. A verdade é que a infertilidade está relegada para o fim das prioridades, sendo a primeira a receber os cortes orçamentais. Primeiro a oncologia, as cirurgias, as doenças reais.
Para fazer desistir os casais inférteis, luta-se pouco, e joga-se com o comodismo fácil que a burocracia protege e oculta. É, pois, normal chegar a um diagnóstico apenas ao fim de dois anos. O que é espantoso é ter assistido a palestras onde os colegas discursam com brio e orgulho esta façanha. Este tempo é fácil de explicar. Recebe-se na primeira consulta o casal e faz-se a história. Pedem-se alguns exames e a próxima consulta é daqui a 4 meses. Na nova consulta lêem-se os exames e conclui-se. Se o médico for tecnicamente muito bom, pede mais exames, e a nova consulta será daqui a 4 meses. Se for pouco consciente, tenta alguma modalidade de tratamento com baixo risco dada a ignorância factual das causas. E de consulta em consulta, de 4 em 4 meses, talvez se chegue a uma conclusão ao fim de 2 anos. É então a hora da verdade. Nalguns casos, diz-se ao casal, ao fim daqueles 2 anos de diagnóstico, que se lhes dá alta, porque entretanto a mulher atingiu os 38-39 anos de idade. Nos outros casos, decide-se iniciar os ciclos de tratamento. Aí, o casal entusiasma-se, mas apenas por breves segundos, pois são colocados numa lista de espera, 2 anos no Hospital de Santa Maria, 4 anos na Maternidade Alfredo da Costa, 1-2 anos nos outros hospitais. Recentemente ouvimos na TVI que os Hospitais da Universidade de Coimbra não tinham listas de espera porque a infertilidade se devia às mulheres, ou porque eram gordas ou porque se portavam mal. Mas o sofrimento dos casais inférteis não fica por aqui em termos de más práticas. Dizemlhes
que não há solução, porque são moralmente contra, quando existe solução para todas as situações. Dizem-lhes que só no estrangeiro existem os tratamentos necessários, porque não suportam referenciar o casal para outro colega, apesar de cá existirem todos os tipos de tratamentos.
Quero que saibam que um diagnóstico completo demora apenas 2 meses, ou 4 meses se for necessária alguma terapêutica, médica ou cirúrgica, e que os tratamentos só se devem efectuar quando a causa fica bem determinada. Os tratamentos devem contemplar, de acordo com a causa, 3-4 ciclos consecutivos de indução de ovulação, com uma frequência mensal, 3-4 ciclos consecutivos de IUI, com uma frequência bimensal, 2 ciclos consecutivos de IVF, espaçados de 3-4 meses, 2-4 ciclos consecutivos de ICSI ou TESE-ICSI, espaçados de 3-4 meses, com inclusão de eclosão assistida e cultura de blastocistos, e 2-4 ciclos consecutivos de ICSI-PGD, e que, desta forma, 80% de todos os casais inférteis obtêm com sucesso o seu bebé em 1-2 anos. Se a mulher estiver devidamente bem estudada, nos casos com trombofilias e doenças auto-imunes, ainda se acrescenta medicação adequada, bem como nos casos com défice ou excesso de proliferação endometrial. Os casos não solucionados por estes tratamentos sequenciais devem de imediato ser resolvidos com recurso a gâmetas ou embriões doados, ou mesmo com cedência benévola de útero.
A hipocrisia das figuras públicas é notória neste sector, que, pela visibilidade, por tocar na sexualidade, por permitir a invasão da intimidade dos vulneráveis, se tornou tema das celebridades portuguesas. Assim, é frequente todos saberem de reprodução, todos se permitem falar das técnicas, das indicações, e todos gostam de aparecer para dar a sua decisão moral. É uma mundaneidade que atinge políticos, investigadores e professores universitários. Atinge todos, e de tal modo que, na comissão técnica para a lei sobre Procriação Medicamente Assistida, a larga maioria são opinadores e seguidores políticos. É tão fácil comprar a alma, não é? A hipocrisia dos moralistas é tão desregrada que também se despenham em contradições. Afirmam,
solenemente, que as crianças abandonadas ou as que recebem maus-tratos devem ser protegidas, retiradas aos pais biológicos e entregues para adopção.
Brandem também a sevícia falsamente moralista, prenhe de retórica e religiosidade, lembrando a fatalidade da infertilidade como não-doença, que os casais inférteis devem aceitar a sua condição, ou seja, o desígnio de Deus, devendo antes optar pela adopção. Como se a obrigação de adoptar não fosse um dever cívico de todos, mas tão-somente dos inférteis. Gostava também que soubessem que uma larga maioria dos casais inférteis está inscrita na agência nacional de adopção e que dela não desistem, durante os tratamentos, mesmo quando alcançam a felicidade de terem o seu bebé. Mas as leis da adopção em Portugal são propositadamente imbricadas, pelo que a decisão final tem tempos que ultrapassam os limites do surrealismo e fica sujeita à reversibilidade da decisão dos pais biológicos. É assim um mercado de fabricação de crianças mais velhas, que todos nós sabemos o risco que irão calcorrear na sua inocência.
Hipocrisia, porque, ao mesmo tempo que desferem argumentos moralistas, sendo atingidos pela mesma fatalidade, abandonam discretamente Lisboa e vêm ao Porto, em horários não-convencionais, ou ao estrangeiro, para tratar dos seus familiares.
Hipocrisia, porque aceitam legislar a doação de gâmetas, mas proíbem o banco público; porque não obrigam as seguradoras a contemplar a infertilidade, mas permitem que as seguradoras estabeleçam as suas próprias clínicas de infertilidade onde em exclusividade os casais se deverão dirigir; porque não remodelam o sector público, mas permitem a proliferação do negócio dos hospitais privados.
familiar; continuamos ainda a juntar porque é preciso pagar a alimentação, a roupa e a mobília do bebé, bem como à ama, ao infantário e à escola, sim, porque as escolas falham na segurança e no saber e já se almeja o colégio; e temos também de juntar para que o bebé tenha o que não tivemos, na esperança de que amanhã não seja mais um escravo.