O ARTIGO PUBLICADO no último número da Revista Portuguesa de Psicanálise (vol. 28, n.° 1, 2008) da autoria de António Coimbra de Matos suscitou-me algumas reflexões sobre o conceito de transferência no âmbito da Psicanálise.
Neste artigo, o autor considera que, “no passado remoto”, o trabalho psicanalítico incidia na “rememoração da infância (…) na análise da transferência”. Na Psicanálise contemporânea, considera ainda o autor, do analista visto como objecto da transferência do analisando “passamos ao analista real e participante (…), desviamos o foco de escuta, análise e interpretação do passado para o presente (…), da transferência/contra-transferência para a nova relação”, ou seja, para uma “versão real da análise” e também realista, na medida em que os aspectos simbólicos da relação terapêutica parecem perder importância.
Desde os primórdios da Psicanálise (“Estudos sobre a Histeria”) que Freud dá grande importância à pessoa do analista e à sua personalidade como factor de cura e é também Freud que, quando descobre a transferência, a considera um obstáculo à cura. O próprio Freud foi revisitando as suas ideias, aprofundando-as, confrontando-as com a experiência dos psicanalistas seus contemporâneos e abandonando algumas. Desde então, as várias gerações de psicanalistas que se seguiram continuaram a reflectir sobre a teoria e a técnica psicanalítica. Assim, a transferência, bem como a contra-transferência, passaram a ser consideradas, não um obstáculo, ou, como afirma A.C. Matos, “malignas” potencialmente, mas sim valiosos instrumentos de trabalho
do psicanalista com o seu doente. E é neste campo/contra-campo da transferência/contra-transferência ou, para alguns, da contra-transferência/transferência que o material analítico vai surgir e tornar-se susceptível de ser elaborado.
Existem correntes diversas de abordagem da transferência: interpretar precocemente, numa perspectiva de inspiração kleiniana; interpretar apenas quando e se a transferência se torna um obstáculo à progressão do trabalho analítico ou quando a transferência assume aspectos negativos; ou deixar que o doente faça sozinho o trabalho analítico, como a Escola de Paris preconizava algum tempo atrás, no sentido de não perturbar o processo associativo e preservar a espontaneidade dos processos psíquicos do paciente.
Poderíamos ser levados a pensar que A. C. Matos se situaria nesta linha, quando afirma que “a boa análise é uma auto-análise psicanaliticamente assistida”. Ou quando fala de “dar uns toques interpretativos, explicita e implicitamente”, ou ainda de “pontuação interpretativa verbal insaturante”. Não parece ser assim. Desde logo, o autor nos confronta com a necessidade de fazer desaparecer a transferência. “A regra de ouro é: dissolver a transferência, construir a nova relação”.
O que me parece mais problemático e intrigante, nesta matéria, é a sugestão de desfazer “a transferência à martelada”, qual “abcesso de fixação”.
A minha experiência clínica e o diálogo científico com outros colegas levam-me a discordar desta posição.
Os movimentos transferenciais são considerados elementos fundamentais no estabelecimento das relações humanas, qualquer que seja a abordagem teórica que adoptemos.
Numa perspectiva freudiana, pulsional e objectal, transferimos constelações afectivas e conflituais precoces nas relações que estabelecemos ao longo da vida; numa perspectiva relacional, como a da vinculação, os modos de relação com os outros organizam-se a partir dos “modelos operantes internos”, que se constroem e internalizam, com base nos esquemas de vinculação precoce. Deste ponto de
vista, através das representações destes modelos relacionais operantes, transferimos os modelos de vinculação precoce para as relações posteriores.
Assim, podemos dizer que todas as relações contêm aspectos transferenciais.
Mas também podemos dizer que todas as relações são “novas relações”, na medida em que o “outro” introduz sempre a sua marca na relação que estabelecemos com ele, e concordar com C. Matos quando afirma que o psicanalista é o “novo objecto que facilita, catalisa e promove uma nova relação”.
A questão é saber o que distingue a relação psicanalítica das outras relações terapêuticas e das relações em geral. Os pressupostos da psicanálise implicam a instalação dum “quadro” específico (setting analítico), factor decisivo para a instalação do processo analítico; implicam também a pessoa e a competência, de escuta empática e capacidade interpretativa, do psicanalista e ainda, como dizia Freud, a confiança do doente no seu analista. Se a transferência é um fenómeno universal, o quadro analítico torna-a, pelas condições que cria, instrumental no processo terapêutico. A repetição transferencial terapêutica decorre, então, da situação analítica, na qual se inclui a pessoa do analista.
Portanto, em meu entender, não se passou da perspectiva transferencial para a perspectiva do “novo objecto” e da “nova relação”. As duas co-existem ao longo do processo psicanalítico e são complementares. O “background” do analista e a sua atitude para com o doente não podem deixar de influenciar o encontro analítico e torná-lo numa “nova relação”, mas, por outro lado, o analista não pode evitar que o doente transfira sobre si o que de mais significativo caracteriza as suas relações de objecto e o que de mais íntimo viveu no passado.
A relação analista-analisando é uma relação de pessoa a pessoa, sustentada por processos inconscientes que cabe ao analista identificar e ajudar o seu analisando a decifrar. O processo de transformação intrapsíquica assenta no trabalho psicanalítico que tem como base a transferência e a interpretação e que só acontece quando o quadro
psicanalítico (incluindo o número de sessões semanais) e a aliança analista-analisando, centrada nos processos psíquicos, se conjugam.
Assim, o “amor do analista” pelo seu doente não é suficiente para que haja verdadeira transformação. Considero mesmo que o amor incondicional do analista cria potencialmente situações reciprocamente narcisantes e idealizadas, que impedem não só a resolução da transferência, como criam impasses terapêuticos. Acrescente-se que o analisando não é mais o bebé de Balint, Brazelton, ou de Stern, cujos trabalhos têm dado corpo à teoria inter-pessoal da psicanálise.
Cito J.-L.Donnet (La Situation Analysante, PUF, 2005): “a minha experiência tornou-me particularmente sensível à ligação que os doentes, mesmo os mais difíceis, manifestam em relação à situação analítica, na sua especificidade, a sua lógica funcional, a sua ética” e que é distinta da ligação ao analista.
Nos casos em que o terapeuta, por muita competência psicanalítica que tenha, decida não considerar o quadro analítico e opte pela redução da frequência das sessões, a transferência terá seguramente um peso menor no processo terapêutico. Nesse caso, a transferência esbate-se por entre os meandros dos acontecimentos das realidades externas do analista e do analisando. O analista passa a ser um elemento externo de suporte, uma pessoa concreta, como diz C. Matos, eventualmente vivido como “bom” e “reparador”. A transferência fica em segundo plano. E, nesse caso, estamos no domínio da psicoterapia.
Para terminar, diria que o método psicanalítico se define pela instalação dum processo que assenta na relação transferencial. A “nova relação” e o psicanalista como “novo objecto” emergem na transferência, quando esta está estabelecida, identificada e é interpretada. Só assim, o analisando está em condições de diferenciar o “novo” do “antigo” e perspectivar no futuro as suas novas relações. Sem transferência, não há processo psicanalítico e, consequentemente, não há lugar para a Psicanálise.
Lisboa, 31 de Maio de 2008
Maria José Gonçalves