O COMENTÁRIO APAIXONADO, minudencioso e contundente de Maria José Gonçalves (MJG) revela o espírito de crença e militância que o informa, bem como a intencionalidade de ataque que o subentende. Vou responder com objectividade e lucidez, pese embora o tom harmonizado:
O tipo de relação de objecto ou de vinculação não é – ao contrário do que MJG afirma – imutável. Transforma-se, na sequência de novas e diferentes relações significativas. Uma delas, quando autêntica, afinada e responsiva, é a relação analítica. Nisto consiste o processo de mudança analítica; o seu resultado é o desenvolvimento da função analítica e o sequente crescimento mental.
A transferência é para analisar e interpretar (dissolução da transferência, pela interpretação da transferência); e não para cultivar e modelar (através da interpretação “na” transferência), como se deduz do arrazoado da sua “Carta ao Editor”.
Uma análise que corre bem é, de facto, uma auto-análise assistida. Como em qualquer investigação a dois, que a análise é: a melhor ideia, hipótese ou argumento define o fio condutor da pesquisa; não a hierarquia dos parceiros.
A humildade intelectual é apanágio do espírito científico e imprescindível no psicanalista. O mentor de almas é omnipotente, apoiando-se na peremptoriedade dos dogmas e na imutabilidade dos ritos; não faz psicanálise nem psicoterapia, apenas doutrinação e catequese.
5. O lugar do analista é o de objecto real do self; e não o de objecto imaginário da pulsão – dito objecto transferencial, “como se”.
5.1. É como novo objecto que o analista transforma a relação; como objecto da transferência, só pode fazer modelagem (a escopro e martelo ou com os dedos, consoante a transferência for agressiva ou libidinal).
5.2. A psicanálise muda a estrutura; a pseudo-psicanálise, a forma de expressão – na melhor das hipóteses, transforma uma neurose sintomática num carácter neurótico, um ser eventualmente mais correcto e adaptado, mas, com certeza, mais pobre e limitado.
A ciência interroga a realidade; no caso da Psicanálise, a realidade subjectiva e intersubjectiva. A religião elude a realidade e vive uma ficção; é o que faz o psicanalismo.
Não se trata apenas de nos situarmos em paradigmas opostos: o pulsional/clássico, o relacional/contemporâneo. Mas, sobretudo, de usarmos propósitos e métodos diversos: a guerra e a polémica ou o debate e o diálogo.
É tudo, a resposta adequada perante o que não é controvérsia ou argumentação contraditória, mas tão-só repúdio do desenvolvimento e defesa do atavismo.
Lisboa, 8 de Junho de 2008
António Coimbra de Matos