ESCREVER sobre psicanálise é difícil, porque a experiência analítica não é em palavras. “Não podemos dizer ou escrever uma experiência analítica como não podemos dizer ou escrever o aroma do café ou o sabor do chocolate”. (Ogden, 2009). Desde sempre muitos psicanalistas disseram que, para conhecer a psicanálise, é preciso passar por ela!
Será, mas cremos que vale a pena escrever sobre a experiência analítica, ainda que para isso tenhamos que desenvolver o esforço de tentar pôr em palavras – escritas – o que experienciamos com um analisando que, por sua vez, procurou transmitir-nos em palavras – ditas – o que experienciou na situação analítica, connosco. E que foi, de facto, muito para além das palavras.
Aquele esforço será parte integrante do trabalho necessário à escrita em psicanálise, forma que, no espaço da Revista Portuguesa de Psicanálise, elegemos para comunicar com colegas e outros interessados.
Escrever sobre psicanálise é necessário, porque é uma forma de partilhar conhecimento, indispensável à evolução da teoria e da técnica, e porque é uma forma de reflexão, para cada analista, sobre a sua prática. Ao escrever, reanalisamos – internamente - os nossos analisandos, formulamos novas hipóteses de compreensão do fenómeno psíquico, revemos o nosso modo de relação, interrogamos as teorias que nos apoiam.
Aos Autores que hoje vos trazemos, agradecemos o trabalho de transformação em palavras, que tornou possível mais este número da Revista Portuguesa de Psicanálise.
Manuela Ferraz da Costa e Rui Coelho
(2009). On psychoanalytic writing. Int J Psychoanal, 86: 15-29.