A autora começa por traçar uma panorâmica histórica da evolução da Psicanálise e da Psicoterapia Psicanalítica. Aborda as controvérsias sobre critérios teórico-técnicos para a sua diferenciação e indicações clínicas, seguindo de perto Otto Kernberg. Debate as vantagens ou necessidade da inclusão de formação diferenciada nos actuais Institutos de Psicanálise.
Esta comunicação tem em vista propor a inclusão no Programa de Formação Psicanalítica da Sociedade Portuguesa de Psicanálise de dois Seminários Opcionais que incluem prática clínica supervisionada e venham dar acesso a uma Competência em Psicoterapia Psicanalítica e a uma Competência em Psicoterapia Psicanalítica da Criança e do Adolescente.
Quando escolhi este tema, foi claramente motivada para debater com os presentes uma questão actual e que está a preocupar todas as Sociedades Psicanalíticas componentes da IPA.
A IPA está, com certeza, atenta e interessada em colher impressões sobre o modo como as Sociedades vão respondendo aos desafios da modernidade. Ou seja, aos desafios sociopolíticos que se colocam à prática psicanalítica enquanto método terapêutico, à formação dos candidatos, procurando preservar a essência da teoria psicanalítica e a identidade do analista. As dificuldades parecem resultar da incompatibilidade que alguns encontram na conciliação de tal objectivo.
Conferência apresentada na Sessão Científica da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Lisboa, 6 de Junho de 2008.
Pedopsiquiatra. Professora Jubilada do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto. Membro Didacta e Presidente da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e do Instituto de Psicanálise do Porto.
A teoria psicanalítica nunca ficou imune às condições sociopolíticas que a rodearam, e ainda bem, porque não é nenhuma teoria esotérica. Freud sempre teve consciência da ameaça subversiva e virulenta que a sua teoria constituía, não apenas para a comunidade científica, mas também para a sociedade em geral.
Começou pela desconfiança e desvalorização da comunidade científica vienense no início do século XX, sobretudo entre neurologistas e psiquiatras universitários. Freud acabou por ficar isolado, mas nem por isso a Psicanálise deixou de ganhar adeptos; cresceu além fronteiras e foram-se organizando Sociedades por toda a Europa. Expandiu-se nos E.U.A, a partir da visita de Freud, Ferenczi e Jung à Universidade de Clark, em 1909. Nessa viagem, Freud, consciente da subversão inerente à Psicanálise, comentou que mal sabiam esses puritanos ianques que eles “lhes traziam a peste”!
Vieram, de seguida, as perseguições nazis e o exílio de Freud em Londres, já no fim da vida. Mas é justamente em Londres que a Psicanálise renasce e cresce, com os desenvolvimentos de Anna Freud e Melanie Klein, e é aí que surgem escolas psicanalíticas altamente criativas (Winnicott, Bion, por ex.) e hoje se situa o guardião mais defensor da pureza da prática psicanalítica.
Nos E.U.A., rapidamente se criaram mecanismos de imunidade contra a “peste” que Freud lhes deixara. Com a inclusão progressiva da teoria psicanalítica na Psiquiatria Social (Adolf Mayer, Sullivan e Menninger), em prol da saúde mental e, sobretudo, após a 2.a Guerra Mundial , com a necessidade crescente de apoio à população fragilizada, os conceitos psicanalíticos começaram a aplicar-se em psicoterapias chamadas dinâmicas. Em 1946, Menninger, antigo director psiquiátrico do exército americano, é eleito presidente da Associação Americana de Psicanálise. A Clínica Menninger é, ainda hoje, o bastião da formação em Psicoterapia dita Psicanalítica. Todavia, a Psicanálise perderia a sua independência e ficaria ao serviço da Psiquiatria.
É também em 1946 que Alexander e French publicam o livro Psychoanalytic Psychoterapy, livro que se tornou famoso pelo conceito da “experiência emocional correctiva”. Esta tentativa de flexibilizar a prática psicanalítica gerou grande polémica nos E.U.A. (Jones, Eissler, Hartmann, Greenacre, Lowenstein, etc.). Em 1954, Rangel propôs que se designasse por Psicoterapia Psicanalítica toda a terapia que utilizasse conceitos psicodinâmicos de base psicanalítica.
Alguns psicanalistas americanos emigrados (Kubie, Hendrich e Lewin), notando o abandono progressivo da pureza da teoria e da práxis psicanalíticas, voltaram à Europa e acabaram por recuperar, através da Ego Psychology, uma teoria psicanalítica com o cariz adaptativo que sempre pautou a cultura americana. O Instituto de Nova Iorque foi o centro em que se desenvolveu essa nova ortodoxia, em oposição à abertura às psicoterapias dinâmicas que Menninger preconizava.
Wallerstein, psiquiatra e conhecido psicanalista, que fez uma formação psicanalítica rigorosa em Chicago , relata com algum desânimo todo este percurso da Psicanálise nos E.U.A.
Talvez falte acrescentar a América Latina para, nesta rápida sinopse, abranger o panorama internacional da saga psicanalítica. Com efeito, e sobretudo na Argentina e no Brasil, desenvolveram-se escolas e Sociedades de Psicanálise em que proliferaram analistas criativos e inovadores, que souberam aproveitar conceitos vindos da Europa, nomeadamente de Lacan, Bion e Green.
Com as ditaduras militares e crises sociopolíticas da Argentina e Brasil (décadas de 60 e 70), também alguns desses psicanalistas qualificados emigraram para a Europa (Espanha, França e Itália) e ali contribuíram para o enriquecimento das Sociedades Psicanalíticas europeias.
Um destino ou uma circunstância? Uma perseguição ou sinais de vitalidade? A Psicanálise leva consigo o estigma judaico que a tornou vítima de perseguição e vocacionou os analistas para a diáspora.
Com certeza que esse estigma está presente, mas parece de má estratégia assumi-lo como traço paranóide que só pode conduzir ao isolamento. E foi de isolamento que sofremos e por causa dele que, possivelmente, entrámos em crise, pois a sociedade moderna, de fronteiras abertas e cada vez mais multicultural, não tolera nichos autísticos.
Foi muito interessante para mim, no último Congresso Internacional da IPA, em Berlim, assistir à conflitualidade que ainda hoje impregna os analistas alemães. A culpabilidade do Holocausto pesa sobre eles e nota-se um movimento de reparação em busca de uma Psicanálise que, precocemente reconhecida por instâncias governamentais , vai cedendo terreno à Psicoterapia Psicanalítica.
Chegámos, pois, ao tema que está na mesa e começa a ser debatido sem tabus. Com o aparecimento e expansão de inúmeras Psicoterapias, com intervenção que visa sobretudo atenuar os sintomas, com o direito generalizado à saúde, nomeadamente à saúde mental, e oferta de subvenções apoiadas por políticas de Segurança Social, as intervenções
psicanalíticas começaram a ter menos procura. Os Institutos de Psicanálise de quase toda a Europa reconhecem que, na formação psicanalítica, o número de candidatos tem diminuído. Esta situação prenuncia uma crise da Psicanálise com repercussão nas próprias Sociedades.
Crises que têm conduzido a diversas soluções. Nas Sociedades em que o debate interno foi mais aberto, encontraram-se soluções dentro da própria Sociedade. Nas Sociedades mais fechadas e hierarquizadas, em que as rivalidades eram ferozes e o grau de afiliação profundo, criaram-se cisões, as denúncias e os pedidos de socorro foram desviados para fora, ou seja, dirigidos à IPA. Foi o nosso caso, como todos sabem!
Em resumo, o que está a acontecer na nossa Sociedade, que conta já com 40 anos e que, até à data, se manteve coesa, não é inédito; tem acontecido noutras Sociedades, com maior ou menor gravidade, com maior ou menor protagonismo individual.
Mas não é desse assunto que me proponho falar hoje.
O tema que escolhi, Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, tem, claramente, implicações históricas e sociopolíticas e, por isso, fui obrigada a abordá-lo. O Homem, mesmo quando é estudado na sua intimidade, nunca é alheio à sua circunstância.
Mesmo que a Psicanálise tenha como objectivo último favorecer o autoconhecimento e a procura da verdade sobre si mesmo, não pode descurar o sofrimento psíquico e oferecer o apoio fundamental que a escuta representa.
É certo que a Psicanálise é, na essência da teoria e da práxis, portadora de um paradoxo, pois, se visa a indagação sobre si mesmo, põe a nu ou torna conscientes os obstáculos a essa mesma procura e resiste-lhe.
Mas será esse um paradoxo da Psicanálise ou será o paradoxo da própria existência? Não será que todos querem saber e não querem saber do seu destino? Tal como Édipo, cada um de nós terá de enfrentar a Esfinge!
Porque consideram alguns teóricos que essa contradição constitui um óbice do método psicanalítico? Talvez porque enfatizam, ora um, ora outro, estes dois objectivos: investigar e curar. Os que a advogam a investigação da mente admitem que o alívio do sofrimento decorre naturalmente do método, ou seja, vencer as resistências e aumentar o insight. A outra perspectiva, que valoriza o alívio dos sintomas, procura cuidar ou curar, e a mudança vai no sentido de obter bem-estar e capacidade de viver no mundo dos homens.
Na minha opinião, se me permitem, nenhum destes objectivos é atingido. Atingem-se equilíbrios possíveis, que variam de indivíduo para indivíduo e variam com a qualidade da relação analítica que foi conseguida.
Mudanças estruturais como objectivo da Psicanálise? Talvez, por vezes, nos aproximemos delas, mas nunca as atingimos. Aliás, não falamos em estruturas, mas em funcionamentos, se queremos que algo mude.
De um modo redutor, poderíamos dizer que a Psicanálise investiga e tem em vista uma mudança estrutural. A Psicoterapia Psicanalítica alivia sintomas e procura novos equilíbrios.
A teoria psicanalítica edificou-se contra os métodos psicoterapêuticos vigentes na época, tais como a sugestão com expressão visível na hipnose, a “técnica activa” de Ferenczi e, como foi, mais tarde, a reacção à “experiência emocional correctiva” de Alexander e French.
Ficou célebre a metáfora de Freud, proferida em 1918, na Conferência de Budapeste: “tudo leva a crer que, dada a aplicação massiva da nossa terapêutica, sejamos obrigados a juntar ao ouro puro da análise uma quantidade considerável de cobre da sugestão directa (…). Mas qualquer que seja a forma dessa psicoterapia popular e dos seus elementos, as partes mais importantes, as mais activas, manter-se-ão aquelas que foram retiradas da estrita Psicanálise isenta de qualquer parti-pris”.
Com efeito, a Psicanálise teve que se depurar da influência de factores externos para investigar e propor um quadro e uma atitude científica experimental, para ir ao encontro dessa entidade, talvez abstracta, que será a realidade psíquica; daí a abstinência, o rigor do setting, a neutralidade do analista, a contratransferência como obstáculo. Um positivismo bem ao sabor da época.
Foi muito útil, é mesmo incontornável, admitir, nessa fase, esse método de exploração da mente. Mais, esse método de curar. O setting é uma criação genial de Freud.
Mas a visão hoje, com o evoluir da Ciência, é mais abrangente, mais simétrica, mais relacional, o observador faz parte da situação observada. O analista deixou de ser o observador neutro e aparentemente objectivo, o espelho onde o analisando se reflectia, para ser apenas um, na relação intersubjectiva do par analítico.
Então a essa nova visão continua a chamar-se Psicanálise? A análise clássica de Freud e a Teoria Psicanalítica estarão ameaçadas?
Como disse Wallerstein , “não há uma Psicanálise, mas várias Psicanálises”. Não há uma teoria, mas várias teorias que vieram inovar e acrescentar conhecimento. Daí o pluralismo actual em que nos movemos
e em que, às vezes, tememos perder-nos. Os critérios de analisabilidade esfumaram-se e, hoje, preferimos admitir que há relações analíticas possíveis e dinâmicas e outras que não funcionam.
Claro que esta perspectiva põe questões epistemológicas.
Recentemente, a FEP organizou grupos de investigação (working parties) que têm trabalhado no sentido de encontrar alguma convergência entre as várias práticas clínicas, as várias teorias, a experiência de formação nos vários Institutos, a articulação da Psicanálise com outras instituições e movimentos sociais. O pluralismo vigente leva simultaneamente a um esforço no sentido de preservar a essência da teoria e da práxis psicanalíticas e a interrogarmo-nos: o que há ainda de comum entre nós?
Interessantes são as reflexões do grupo que estudou os aspectos teóricos, publicadas no livro editado por Jorge Canestri em 2006, sob o título “Psychoanalysis – From Practice to Theory”. Em termos gerais, concluem os autores que as teorias psicanalíticas (oficiais ou explícitas) não condicionam, de forma lógica e consequente, a nossa prática, que resulta, antes, da assimilação e utilização pré-consciente pelo analista das mesmas, ou seja, da leitura implícita que faz da subjectividade. Surge na relação intersubjectiva, em cada momento e para cada análise, um componente implícito fundamental que se desenvolve pela intuição e criatividade do par analítico – é uma “teoria vivida”, conforme lhe chamam.
Como explica Fonagy, a prática clínica é que induz a teoria, muitas vezes por tentativa e erro, colocando hipóteses significativas do comportamento em termos de estados mentais, que podem ou não ser comunicados ao paciente; mas essas hipóteses não são obrigatoriamente deduzidas da teoria explícita.
O novo significado é criado na relação intersubjectiva, mas é o como, mais do que o porquê desse processo interpessoal, que aumenta o nosso conhecimento acerca do paciente e da terapia.
O objectivo da terapia é estimular no paciente a capacidade de pensar sobre os processos mentais – sejam eles sentimentos, pensamentos ou comportamentos, e ajudá-lo a reflectir sobre as suas formas de interacção desadaptadas ou que lhes causam sofrimento (Fonagy).
A distinção entre Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica continua a estimular um debate infindável quase só de interesse académico. As fronteiras têm-se esfumado progressivamente, em grande parte devido ao
alargamento das indicações da Psicanálise e à experiência clínica com novas patologias que valorizaram o efeito transformador da relação analítica na sua dimensão intersubjectiva.
As mudanças ao nível da técnica estimularam hipóteses inovadoras, sem perder o fundamento da teoria psicanalítica. Ou seja, a técnica psicanalítica clássica, que assentava na neutralidade do analista, na regressão e na interpretação da transferência e se centrava na resolução do conflito edipiano, passou a ser mais activa, a valorizar mais a contratransferência na comunicação intersubjectiva. Houve, de certo modo, uma aproximação à psicoterapia, valorizando o apoio e a oferta de um continente, propiciando o crescimento mental e o estabelecimento de uma nova relação.
Estes são também objectivos da Psicanálise, mas, geralmente, só organizações mais integradas (neuróticas) podem responder melhor aos seus parâmetros processuais.
A experiência clínica vai-nos dando também o follow-up e afinação dos critérios de melhoria e cura, mas nem assim foi possível estabelecer uma clara diferenciação dos resultados e indicações da Psicanálise e da Psicoterapia Psicanalítica. Há longas psicanálises sem grandes mudanças e há psicoterapias psicanalíticas que atingem níveis de profundidade e transformação com sessões mais espaçadas e num mais curto espaço de tempo. A frequência das sessões como critério invocado, por ser o mais concreto, acaba por ser falível. Está muito em causa a qualidade da relação analítica.
Nesse esforço de sistematização das diferenças entre Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, e na perspectiva sempre pragmática da cultura norte-americana, Otto Kernberg merece destaque. Com efeito, desde 1984, vem estudando e aprofundando a patologia borderline e sua abordagem psicoterapêutica (o seu livro de 1991 é já um clássico). Em 1999, em trabalho publicado no International Journal of Psychoanalysis, Otto Kernberg propôs uma classificação baseada em referências teórico-técnicas e objectivos terapêuticos, que resumiremos:
Objectivo: Procura uma mudança estrutural; integrar o reprimido ou dissociado do conflito inconsciente no consciente; procura, por regressão, a neurose de transferência, que tenta resolver pela interpretação, considerando central o conflito edipiano; o conflito entre pulsão-defesa pode ser apreciado pela distorção que origina na relação de objecto internalizado; valoriza os conceitos freudianos e kleinianos na interpretação.
Técnica: Divã, 3-4 sessões por semana; associação livre; neutralidade do analista; atenção flutuante; interpretação sistemática da transferência, ao longo do processo – “lá e dantes” como “aqui e agora”.
Indicações: Organizações neuróticas; perturbações graves da personalidade; personalidades narcísicas; personalidades com aspectos histéricos, paranóides, esquizóides, sadomasoquistas.
Factores favoráveis: força do Eu, motivação, capacidade de insight, inteligência, ganhos secundários pouco valorizados; idade entre os 25-40 anos.
Objectivo: Procura alívio dos sintomas através de uma reorganização parcial da estrutura psíquica; evita a regressão e não favorece a neurose de transferência; valoriza conceitos da Psicologia do Self e da Relação Interpessoal e a comunicação intersubjectiva paciente-analista; valoriza sobretudo a contratransferência; se possível, procura uma “nova relação”.
Técnica: Face a face, 2 sessões por semana; comunicação intersubjectiva e relação interpessoal; o analista é mais activo e controla, de certo modo, as previsíveis passagens ao acto; atenção aos acontecimentos da vida real do paciente e à sua tendência para atacar o setting, cujos limites devem ser preservados e restaurados; interpretação no “aqui e agora”; intervenções do tipo da clarificação e confrontação; a interpretação sistemática usa-se nos casos mais graves.
Indicações: Perturbações da personalidade; comportamentos autodestrutivos (tendência suicida, perturbações graves do comportamento alimentar, toxicodependência, comportamentos anti-sociais, alcoolismo); patologia borderline; neuroses graves.
Factores favoráveis: importância dos ganhos secundários, capacidade relativa de controlo dos acontecimentos da vida e da passagem ao acto, inteligência, comportamentos anti-sociais não demasiado graves.
Objectivo: Procura reforçar compromissos adaptativos entre pulsão-defesa através de informação cognitiva, tais como persuasão e conselho; suporte afectivo-emocional, incluindo sugestão, tranquilização, encorajamento e elogio.
Técnica: Face a face, frequência flexível das sessões; o terapeuta é activo, tomando o lugar do Eu, Supereu ou Id e da realidade externa, de acordo com as necessidades do paciente; utiliza as fases preliminares da
técnica interpretativa como a clarificação e confrontação, mas não usa a interpretação per se; dá suporte emocional e cognitivo; utiliza intervenção no meio circundante, podendo incluir outros terapeutas ou profissionais de saúde; a transferência não é interpretada, mas não deve ser ignorada, pode ser analisada com tacto quando assume formas inapropriadas, com pessoas significativas ou em transferências colaterais, deve então ser clarificada no “aqui e agora”.
Indicações: Perturbações graves da personalidade, quando a Psicoterapia Psicanalítica não pode ser feita, ou está contra-indicada.
Factores favoráveis: Suficiente capacidade de manter o contrato terapêutico, ausência de comportamentos anti-sociais graves.
No grupo das Psicoterapias Psicanalíticas, Kernberg inclui orientações teóricas que se apoiam na Psicologia do Self (Fairbairn, Kohut, Guntrip, etc.) ou em conceitos que procuram conciliar a Psicologia do Eu com a Relação de Objecto (de M. Klein, Winnicott, a Sandler, Erickson, Mahler, Jacobson, etc.). Estas leituras são, com efeito, as que melhor respondem as patologias graves da personalidade.
A terapia que se inspira na Psicologia do Self procura maior coesão do self através da oferta de um bom self-objecto que permita a transformação do mau objecto precocemente internalizado e a criação, a dois, de uma nova relação. Nesta abordagem, a contratransferência é fundamental, a transferência é pouco utilizada e a interpretação faz-se no “aqui e agora”, através de uma comunicação empática intersubjectiva.
Se o self é frágil, se dominam a clivagem e identificação projectiva como defesas primárias e se a passagem ao acto e impulsos autodestrutivos constituem ameaças permanentes (patologia borderline, por ex.), dá preferência a conceitos kleinianos, mas valoriza igualmente as distorções da relação de objecto primário. O analista não pode ficar indiferente aos acontecimentos da vida real do paciente e tem de inclui-los na vivência interpessoal, dando-lhes significado no “aqui e agora”, para, a dois, conseguirem uma progressiva integração das partes clivadas, projectadas ou agidas. Só alcançada a posição depressiva, sempre pouco consistente, se podem elaborar fantasias edipianas. Uma das tarefas difíceis, nestes pacientes, é preservar o setting e restaurá-lo logo que passe a tempestade da passagem ao acto, depois de significada e integrada. Em linhas gerais, é a técnica de Kernberg para a patologia borderline.
Em síntese:
Psicoterapia Expressiva da Patologia Borderline (Kernberg)
Objectivo: Procura-se a integração das partes clivadas e obter maior coesão do self.
Na patologia borderline, há um predomínio de conflitos pré-edipianos primitivos que causam distorções fantasmáticas das relações triangulares, assumindo, não raro, colorido agressivo. Os conflitos não estão totalmente reprimidos e surgem clivados. É frequente a activação de relações de objecto arcaicas. Na transferência, manifestam-se como estados caóticos, ou seja, representações primitivas de self e do objecto, ligados por angústias paranóides, que antecedem a constância do objecto, ou seja, as angústias depressivas, nos conceitos de M. Klein, ou numa perspectiva desenvolvimental de separação-individuação de M. Mahler.
Técnica: A interpretação da transferência é muito valorizada, no “aqui e agora”, tanto a transferência positiva como a transferência negativa. Começa por haver representações parciais do self e do objecto alternadamente projectadas no terapeuta, o que pode tornar a relação interpessoal confusa, donde a necessidade da clarificação, confrontação e interpretação da transferência no “aqui e agora”. O analista deve ser hábil a identificar a sua contratransferência, confiar nela como fonte crucial de compreensão do paciente.
Esta é uma classificação de referência. Todavia, numa perspectiva menos pedagógica, talvez pudéssemos admitir que a Psicoterapia Psicanalítica assim descrita também poderia chamar-se a Nova Psicanálise, à qual as novas patologias melhor respondem. Deste modo, as diferenças entre Psicanálise clássica e Psicoterapia Psicanalítica tendem a esbater-se, formam um continuum, e as variantes de atitude do analista e da técnica têm mais a ver com o paciente ao qual se aplicam.
Eu teria tendência a diferenciá-las do ponto de vista do funcionamento mental do paciente e dos resultados obtidos: a Psicanálise permite atingir uma maior autonomia da vida mental, uma mais clara e eficaz elaboração da posição depressiva, a aquisição de uma maior responsabilidade pelos comportamentos cuja motivação passa a ser consciente. A Psicoterapia Psicanalítica tem sempre um carácter protético, isto é, o terapeuta funcionará sempre como um Eu-auxiliar, um suporte organizativo como objecto real, dada a pouca coesão do self, a instabilidade da oscilação PS ↔ D, a dificuldade de integração.
A formação psicanalítica é igualmente exigente, mas admitimos que, do ponto de vista técnico, a Psicoterapia Psicanalítica exija maior flexibilidade do analista.
É possível que Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica sejam os extremos de um continuum, cujas diferenças ao nível técnico e das indicações clínicas deveriam ser salientadas na formação psicanalítica. Isto porque, na Psicoterapia, o analista está mais sujeito a contra-atitudes e contra-identificações projectivas. Nesta técnica, o analista é mais activo, age sobretudo pela contratransferência, que é inconsciente, e é colocado perante factos da vida real e do agir do paciente de forma muito mais directa do que na Psicanálise. A contratransferência coloca mais desafios ao analista do que a transferência: e assim, por exemplo, a disponibilidade e tolerância podem ser chamadas de “Amor!”, o apoio pode infantilizar e manipular o paciente; o propósito de estabelecer uma boa relação pode iludir, de modo sugestivo, “uma nova relação”; o evitar da transferência negativa pode amolecer no idílio da relação dual!
A contratransferência coloca-nos armadilhas que só em supervisões atentas podem ser reconhecidas e ultrapassadas.
A técnica da Psicoterapia Psicanalítica é complexa e exige, na minha opinião, uma abordagem específica, complementar à formação psicanalítica. É esse, aliás, o objectivo desta minha palestra.
Factores externos de natureza socioeconómica, mudanças culturais, aparecimento de novas técnicas psicoterapêuticas, novas patologias levaram a um incremento da procura das psicoterapias em relação à Psicanálise. A preferência pela Psicoterapia Psicanalítica, com menos sessões e de mais curta duração, é hoje comum. O menor número de sessões nem sempre encurta a duração do tratamento – torna-o, sim, mais propício ao tal objectivo protético que anteriormente atribuíamos à psicoterapia. Todavia, há casos em que um analista experiente pode passar de uma psicoterapia para uma Psicanálise, em função da receptividade e mobilização da vida psíquica do paciente, no sentido de uma elaboração mais profunda.
Naturalmente que a interferência de factores externos de natureza socioeconómica colidem com valores essenciais da Psicanálise, que defendem a privacidade, a realidade psíquica, a independência e neutralidade, a identidade do analista que, durante anos, não admitiu sequer a sua actividade como uma profissão. Como aceitar adaptações, quando as evitamos no decurso do processo analítico?
A questão que gostaria de colocar aos presentes era se justificaria fazer uma formação diferenciada em Psicoterapia Psicanalítica nos nossos Institutos. Para responder às novas patologias? Para responder à concorrência? Para resolver a crise da Psicanálise? São perguntas provocatórias!
Otto Kernberg (1999) e outros analistas não americanos consideram de toda a pertinência incluir no currículo de formação dos Institutos a prática e conceitos teórico-técnicos em Psicoterapia Psicanalítica, tornando os analistas mais aptos a dar resposta mais abrangente à patologia mental. Por outro lado, esta iniciativa conduz a uma maior abertura da Instituição Psicanalítica e é estímulo para a investigação.
Estamos numa encruzilhada – nós, portugueses, como de costume, chegámos atrasados – em que a sobrevivência da Psicanálise enquanto prática clínica exige mudanças, não digo estruturais, mas adaptativas.
Que quero dizer com isto? O fundamento da práxis e da formação psicanalíticas mantém-se, visto que está provado que esta formação assegura a melhor performance, mas há que introduzir a competência em Psicoterapia Psicanalítica porque permite conhecer melhor as nuances da técnica e dá maior flexibilidade na escolha a oferecer ao paciente.
Na Europa, pelas razões que acabámos de expor e em contextos sociopolíticos próprios de cada país, essa formação diferenciada em Psicoterapia Psicanalítica já se está a fazer nos Institutos das respectivas Sociedades. E assim, na Alemanha (DPV), faz-se desde 1991, na Itália (SPI), desde 2000, na Áustria, em Israel e na Hungria, também desde há uns anos.
Em França, na Bélgica e em Espanha, que adoptam o modelo de 3 sessões por semana, não existe essa formação complementar e a formação analítica vigente é considerada suficiente. A Sociedade Britânica de Psicanálise continua intransigente e só admite que se designe por Psicanálise um processo que decorre em 4-5 sessões por semana. O mesmo já não acontece com a Tavistock Clinic, que até tem subvenções com o NHS.
De qualquer modo, em todas estas Sociedades europeias, a formação e supervisão dos psicoterapeutas psicanalíticos é feita por analistas qualificados
De um modo geral, a formação psicanalítica é considerada aquela que melhor prepara para realizar e supervisionar psicoterapias psicanalíticas.
A minha proposta seria no sentido de introduzir no currículo vigente, cuja duração e conteúdo se mantêm, 2 Seminários de Psicoterapia Psicanalítica e o seguimento de um caso a 2 sessões por semana, em face a face, supervisionado durante um ano. Era, assim, atribuída a Competência em Psicoterapia Psicanalítica.
A preocupação é não aumentar demasiado a carga horária e, por outro lado, não criar duas carreiras paralelas. O mesmo se poderia fazer para a Competência em Psicoterapias Psicanalíticas da Criança e do Adolescente, com 2 seminários especializados e supervisão de um caso durante um ano. Essas formações seriam opcionais.
SUMMARY: The author begins drawing an historical panorama of Psychoanalysis and Psychoanalytic Psychotherapy. She explores the controversies involving psychoanalytic psychotherapy from conceptual, clinical and educational perspectives. The contribution of Otto Kernberg in this matter is emphasized.
The objective of this paper is to propose the introduction in the Psychoanalytic Training Program of the Portuguese Psychoanalytical Society of two optional seminars to access the Competence in Psychoanalytic Psychotherapy and to access the Competence in Child and Adolescent Psychoanalytic Psychotherapy.
KEYWORDS: Psychoanalysis; Psychoanalytic Psychotherapy.