O autor discute questões sobre o uso de signos, símbolos, metáforas e da concretude, na clínica psicanalítica e na comunicação humana, em situações além da representabilidade, e situa, dentro desse panorama, a condição da metáfora.
Uma das coisas que sempre me encantaram no estudo dos fenómenos psicossomáticos foi o desafio representado pela intangível continuidade entre mente e corpo. A sua unidade, indissociável, requer aproximação por vias complementares e leva a Psicanálise a tactear suas bordas. Aliás, do ponto de vista psicanalítico, cativaram-me, desde o início, os fenómenos que vão além da neurose clássica – e suas diversas possibilidades. Por que vias a angústia deriva para o fenómeno psicótico ou para o psicossomático? É palpável a alternância psicossomática, vislumbrada por Freud? Se alguns aspectos fenomenológicos, com implicações metapsicológicas, são similares entre os fenómenos psicossomáticos e os borderline (a não-representabilidade, por exemplo), como traduzir, por outro lado, as semiologias tão escancaradamente diversas entre eles? Estas são indagações que surgem ao cuidarmos de pessoas propensas a somatizações, bem como daquelas com características limítrofes.
A perspectiva de integração entre esses mundos, metodologicamente apartados, corpo e mente, mas que, no mundo real, só se apartam mesmo na doença, como dizia Winnicott, soa como um maravilhoso desafio que representa, na terapêutica, o ponto de chegada de múltiplas possibilidades
Psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e actual Director Científico da Instituição.
Recebido para publicação em 8 de Abril de 2008. Revisão recebida em 11 de Abril de 2008. Aceite para publicação em 28 de Abril de 2008.
psicanalíticas. A mim parece-me que, quando a Psicanálise toca um ponto sensível na esfera do somático, ou da mente localizada no soma, é como se ela se superasse, se suplantasse a si mesma, num momento de êxito. O mesmo vale para qualquer esfera além da representação, na medida em que, a partir daí, há que se postar além da chamada análise clássica do mundo neurótico. Nesse além encontra-se a área do irrepresentável, do inconsciente vivido não pensado, da representação da coisa, etc. É esse o campo de discussão, por excelência, da Psicanálise contemporânea, seu escopo, e maior desafio. É nesse sentido que o campo dos fenómenos da interface psique-soma e seu estudo podem adquirir, hoje, aspectos paradigmáticos dentro da discussão mais ampla de nossa disciplina.
Pertenço ao grupo de psicanalistas que pensa a Psicanálise como indissociável de seu compromisso terapêutico – sem desconsiderar, de maneira alguma, a complexidade da experiência psicanalítica em sua tarefa de engendrar autoconhecimento. Ambos estão inextrincavelmente vinculados entre si (Montagna, 1996). A experiência emocional no presente da sessão parece-me, como a muitos, seu elemento princeps. Prefiro, por razões que aqui não cabe discutir, chamá-la de vivência emocional – elemento transformador, por excelência, das relações no mundo interior e deste com o exterior.
Os fenómenos psicossomáticos são quase demonstrativos por si só da necessidade fundamental do vértice terapêutico na Psicanálise. Lidar com pacientes com questões dessa natureza, na prática, não permite hesitação a esse respeito, ao menos do ângulo da teleologia. Porquê? Porque não resta dúvida de que esses fenómenos, assim como as doenças de modo geral, se referem a alterações regulatórias do organismo, palpáveis e sensíveis, como já bem havia descrito Cannon .2 Esse monumental fisiologista dedicou sua vida a compreender os fenómenos de auto-regulação do organismo, seu equilíbrio e desequilíbrio. Sua influência na Medicina foi enorme. Por outro lado, uma das coisas que se aprendem com os pacientes é que convém, e sobretudo convém ao desenvolvimento da ajuda ao paciente, atermo-nos estritamente ao vértice psicanalítico e àquilo que a ele diz respeito.
Quando leio, de Grotstein,3 que “toda a psicopatologia tem fundamento em perturbações do vínculo e se manifesta por alterações de auto
Citado por (1996). Pesquisas sobre stress no Brasil (p. 18). Campinas: Papirus.
Citado por (2001). Auto-regulação dos sistemas naturais. Revista Portuguesa de Psicossomática, 3(2), p. 39-96.
e hetero-regulação“, reforço minha convicção da unidade mente-corpo e da importância de não subestimarmos, jamais, em nossa prática, questões relacionadas à homeostase do organismo, seja no âmbito psíquico, seja no físico. Configurada a partir da intersubjectividade, a fronteira identitária básica está no corpo. Além dele, situa-se a dissolução dessa.
Frequentemente entusiasma a todos nós, psicanalistas, buscar, na clínica, um código que permita a aproximação entre situações aparentemente sem conexão. Esse nosso fazer básico refere-se também às situações, diametralmente opostas embora, da mesma forma instigantes, que são os estados corporais comunicados através de uma expressão mental, metafórica, ou, ao contrário, estados mentais trazidos a partir de suas manifestações sígnicas corporais. Quanto a estas, nós podemos chamá-las de somatizações, sendo a definição de Lipowski (1988) inclusiva e concisa: trata-se de uma tendência transitória ou persistente de comunicar distress psicológico sob a forma de sintomas somáticos. As somatizações, já que exprimem muitas vezes conteúdos a serem decifrados, representam metáforas aprisionadas no nível do signo, não do símbolo. A ampliação do nível somático, em vez da mentalização, demonstra a subtracção da metáfora, o apagamento da representação, e a consequente instalação do corpo como biológico e de nenhum modo erógeno, de maneira que aqui a metáfora não mais se encontra. Foi tornada concreta, ou então, subtraída, raptada.
Para exemplificar o que quero dizer, tomo o exemplo directo e esclarecedor de Zusman (1994), no seguinte fragmento: numa sessão em que predominava conversa ao redor de situações mortíferas, ou seja, relacionadas com a morte, o analista nota que o dedo polegar da paciente vai-se tornando totalmente cianótico, facto que, com efeito, desponta como central à atenção dele. A conversa, de início em âmbito metafórico, vai-se transformando em acting por meio do signo. O analista, percebendo o movimento, diz que ela concretamente já iniciara um processo de morte ela mesma, a julgar pelo que ele podia observar. A intervenção do analista permite resgatar a conversação no nível do símbolo.
Embora saibamos que expressar verbalmente emoções negativas relacionadas com experiências traumatizantes, diante de alguém significativo, é altamente favorável na direcção da Saúde – e cada tradução de um evento em linguagem verbal afecta o modo pelo qual a
experiência é organizada e disposta na mente (Berry & Penebaker, 1998), o que tem também a ver com a célebre “limpeza de chaminé” (Freud, 1895/1955) –, existe um pulo-do-gato nessa transição, dentro de um contexto transferencial, que muitas vezes nos foge à compreensão.
Ainda que a verbalização, ou mais, uma interpretação, ou todo o processo psicanalítico ajudem muito um paciente, isso não desvenda, em inúmeras ocasiões, alguns mistérios propostos pela situação transferencial. Por mais que tenhamos boas teorias sobre mudança psíquica e factores que a favorecem, existe algo mais, além, que é relativo ao corpo. Um pequeno exemplo: uma paciente, há dois anos em análise, pôde, desde o quarto mês, ver-se livre de uma dor crónica que a atormentou por anos, obrigando-a a tomar analgésicos potentes de diversas naturezas, com dependência física de consequências desastrosas, estando até então inutilizada para o trabalho. Não tenho clareza sobre o que se terá passado, detalhadamente, na situação. Mesmo porque qualquer tentativa de saber a respeito de um processo mutativo circunscreve-se a uma conjectura teórica, uma hipótese que pode ser mais bem ou mais mal formulada, mas que necessariamente se refere mais a conexões de sentido do que efectivamente causais. Mas posso dizer, sem medo de errar, que ela pôde sentir seu mundo reverberando dentro de mim, e ver-se reconhecida dessa forma com certeza facilitou um processo de verbalização eficaz. A função continência, assim, talvez tenha sido primordial. Propus-me a conversar com ela, várias vezes, sobre sua versão acerca de sua melhoria. Como é de uso comum ocorrer em casos assim, embora desconheça o que se passou, ela atribui também à análise uma acção restauradora. Aponta-me que se sente mais centrada. De certa maneira, a dor do viver tem sido paulatinamente mitigada pelo nosso caminho psicanalítico. Quando isso acontece, costumamos dizer que nos sentimos “dentro de nossa própria pele”. Esta é uma das expressões felizes, aliás, para exprimir uma ocupação apropriada de nossa unidade mente-corpo e que supõe, não tanto o aprisionamento aristotélico da mente no corpo, mas a ocupação, a conquista de um espaço corpo-mente que verdadeiramente nos pertence.
Vários de nós têm insistido na compreensão da Psicanálise como essencialmente encarnada, ao contrário do que alguns parecem adoptar, não como ficção da cibercultura, mas como fruto de uma dualidade real. Corporificação, embodiment são termos que consubstanciam essa perspectiva. É interessante contrapormos, por outro lado, essas analogias pós-modernas que se agregam à proposição do “fim da história”. Hoje
em dia, e é indiscutível a propriedade de também podermos entrar num clima ficcional, alguns falam de “o fim do corpo”. E não é que alguns crêem nisso como uma viabilidade plausível?
Se você for capaz de fazer uma máquina que contenha o seu espírito, então a máquina será você mesmo. Que o diabo carregue o corpo físico não interessa. Uma máquina pode durar eternamente. Mesmo que ela pare, você ainda pode transferir-se para uma disquete e ser transportado para outra máquina. Todos gostaríamos de ser imortais. Temo, infelizmente, que seremos a última geração a morrer (Le Breton, 2001, p. 125).
Sua lógica é de que o acoplamento a um computador nos tornaria imortais, ou seja, se conseguirmos transmitir para outro cérebro humano, através de um chip, todo o nosso repertório de experiências vividas, seremos imortais. Poderemos prescindir do corpo?
Uma das belezas do ofício analítico é que podemos também brincar com fantasias, nós e nossos pacientes, nossas e deles próprios, na esperança de uma ampliação do simbólico. Nós estamos ocupados, de facto, com a realidade psíquica, esta concepção essencial que Freud nos legou. Se o indivíduo se comporta como se ela fosse inexistente, é disso que precisamos tratar. É exactamente isso que, amiúde, verificamos diante de um paciente psicossomático. Nessa circunstância, repetimos, a metáfora encontra-se sequestrada. Raptada. E se isso ocorre, seja pelo rompimento do tecido conectivo, o afecto, que dá sustentação à representação, seja pela inexistência mesmo de conexões, a experiência subjectiva encontra-se, de todo modo, prejudicada. A subjectivação mostra-se obliterada, empobrecida. É o que também ocorre no trauma, quando faltam a representação e a capacidade de associar, de conectar ideias a emoções, e ideias a outras ideias.
É útil diferenciar, de toda forma, como faz Ohki (2002), somatização de doença psicossomática. Ambos compreendem fenómenos psicossomáticos, ou seja, referem-se a um sintoma físico ligado a um estado emocional do paciente. Característica desses fenómenos é sua inserção num universo pré-simbólico. Na somatização, aquilo que se fez simbólico, à guisa de evasão do conflito, ou de sobrecarga do afecto, regride ao não-simbólico, por vezes levando consigo elementos fragmentados do que se explicitou um dia como representação em nível mental. É isso que
denominamos rapto da metáfora, enquistada como componente virtual numa corporeidade que engloba o Eu primitivo. Resulta na coarctação da subjectividade, no aprisionamento daquilo que se mantém potencial, sem comunicação, sem transporte (metáfora em grego significa “transporte”), do corpo para a mente. Se não for o caso da regressão para o corpo, podem-se dar também a não-criação, o não-desenvolvimento da protomente. Aqui se dá, como no exemplo acima, a opção sígnica. Acrescente-se que, no caso de o componente psicossomático referir-se fundamentalmente a uma descarga nos moldes de uma neurose traumática, a metáfora nem ainda se terá formado.
Em trabalho anterior (Montagna, 2001), mostro como um paciente que será submetido a transplante de córnea vive, dramaticamente, em seu corpo, as ansiedades persecutórias diversas que a situação lhe enseja: rejeita o analista como rejeitou a córnea, o que depois vai relacionar-se com seus sentimentos de culpa, com sua impossibilidade de aceitar o transplante vindo de um morto. A ressignificação, digo, a verbalização do sentido da experiência, num nível simbólico, modifica a relação mente-corpo, facilitando a perspectiva de integração do tecido transplantado no seu Eu psicossomático.
Simplifico, para fins explanatórios: meu paciente acima vivia no corpo, organizado na concretude, algo que não podia dizer, algo como: “Tenho medo de morrer se tiver o pedaço de um morto dentro de mim; isso lembra-me de minha mãe morta, fui culpado pela morte dela, este pedaço estará lá, perseguindo-me”. E dramatiza tudo isso na relação transferencial.
Assim como o psicótico vive concretamente uma perseguição, Dom Quixote dá corpo e vida aos moinhos de vento e luta contra eles – eles são os inimigos. Esse tipo de fenómeno psicossomático equivale a uma psicose, vivida no corpo. É preciso descodificar a lógica que rege o acto de Dom Quixote tanto como do fenómeno psicossomático. Numa situação ainda mais primitiva, é a própria célula corporal que irá “enlouquecer”.
Já as doenças psicossomáticas pertenceriam ao estado de não-integração de Winnicott, do Eu corporal, num nível em que não há representação desses estados corporais.
As metáforas – etimologicamente “meta”, “mudança”, “alteração”, e phora, “transporte” – parecem surgir da inefabilidade da experiência,
de outro modo intraduzível. O uso figurado de uma palavra implica a eventual não-existência de uma possibilidade outra, capaz de ser utilizada com vantagens. Ela permite-nos acesso ao vislumbre de experiências intangíveis. Fora o sentido poético, existe a presença da informação que não pode ser directa. Dito de outra maneira, apropriamo-nos da metáfora na medida em que não podemos chegar à coisa em si, no âmbito da experiência. O linguajar quotidiano está repleto delas.
Ainda sobre a corporificação: Rizzuto (2001) observa que a linguagem consiste numa função da mente totalmente corporificada, ou seja, depende, para sua existência, do corpo físico. Por outro lado, a acumulação ontogénica de experiências sensoriais e de processos afectivos percebidos pelo sujeito excede em muito aquilo que pode ser posto em palavras. A autora demonstra que a pesquisa em psicologia cognitiva “funciona de tal modo que as percepções posteriores são organizadas por meio das anteriores”, o mundo e o self, tais como os conhecemos, são construídos com a mediação de nosso corpo, e o que percebemos e sentimos, inclusive as palavras, depende de nossas experiências prévias, que passaram por uma avaliação afectiva, que se referem à activação imediata do sistema límbico em todo processamento de experiência. Uma analogia que costumo apresentar, a título de exemplo, sobre o insight, oferece-nos uma clara exposição disso. Sabemos que a vivência de insight modifica o campo existencial tal qual a experiência com um novo odor modifica todo o circuito olfactório do indivíduo. A organização dos circuitos olfactivos, com o novo estímulo, vai reorganizar de tal maneira o sistema que uma nova experiência olfactiva incluirá esse facto, a aproximação a um novo odor vai dar-se levando em conta a incorporação do anteriormente novo.
Tomemos o vértice neurobiológico para ampliar nossa base. Os chilenos Maturana e Varela (1987/2002), utilizando dados neurobiológicos para o estudo da cognição, descreveram que a linguagem “gera condutas consensuais em seres estruturalmente acoplados”. Dito de outra forma, a conduta de uma pessoa incita uma resposta do outro, o que resulta numa tentativa de manter a interacção estável. Assim entendida, a linguagem pode ser compreendida como qualquer conduta provida de comunicação. Esta perspectiva ultrapassa a dicotomia mente-corpo, pois entende a linguagem e a comunicação, enquanto relacionadas ao organismo, como um todo. Dessa óptica, “a metáfora pode ser vista como uma unidade linguística de estados corporais coordenados entre membros
de um grupo social: um só passo de dança, em linguagem, que compromete os participantes a interagir“ (Griffith & Griffith, 1996, p. 63). Nesse sentido, continuam os autores, metáfora e histórias existem dentro das interacções corporais entre pessoas, e não como entidades contidas na mente da pessoa ou palavras escritas num papel.
Na perspectiva das relações entre as pessoas, tomemos a sessão psicanalítica e a posição de Meltzer (1986). Ele indaga: “Como podemos diferenciar aqueles itens do comportamento que são manifestações significativas da personalidade pensante daqueles que são manobras adaptativas socialmente aprendidas ou instintivas?”. Ou, de outra forma: “Como podemos distinguir os fenómenos, em nossos pacientes e em nós mesmos, que são consequências de experiências emocionais que estiveram sujeitas à formação de símbolos, pensamento, julgamento, decisão e, possivelmente, transformação em linguagem, de outros que são hábitos, automáticos, não intencionais?” (p. 21). Ele separa esses comportamentos em duas famílias: a) pensamento, personalidade, experiência emocional, formação de símbolo, julgamento, decisão, transformação, linguagem; b) comportamento, instinto, resposta social aprendida, hábito, resposta automática, comportamento não intencional.
Uma questão subsequente a essa articulação pode ser: onde se inicia a linguagem, e onde estamos diante de automatismos não relevantes do ponto de vista discursivo, o que vale dizer – onde se inicia a comunicação interpessoal significativa? Faz parte de nosso dia-a-dia psicanalítico tentar estabelecer essa diferenciação, em cada momento, na prática.
Em nossa cultura, a descrição da realidade física tem como agente fundamental a ciência. Desta, espera-se uma linguagem precisa e sem ambiguidades, literal (Ortony, 1993). Mas, sabemos, a percepção do mundo externo faz-se por meio de uma construção mental activa e o conhecimento da realidade é matizado pela subjectividade humana, e surge através da interacção de uma informação, num dado contexto, com todo o ser anterior do sujeito. A percepção-representação aí surgida serve de pólo condensado para inúmeras experiências emocionais que nela se podem assentar. E essas experiências emocionais estão possibilitadas num dado esquema corporal, do mesmo modo como a experiência do sonhar se assesta num estado neurofisiopsicológico determinado, do estado de sono.
Quando insistimos na corporificação da linguagem, pensamos também que a identificação de emoções básicas humanas através da observação
da mímica facial tem origem biológica e é independente de factores culturais (alegria, tristeza, ira, medo, surpresa, desprezo, nojo) (Ekerman, 2005); outro elemento são os gestos, que, na comunicação, não só acompanham, como precedem as palavras, e têm origem cerebral, assim como a comunicação verbal. Demonstra-se isso porque, na afasia, a comunicação gestual é também prejudicada. Percebe-se aqui a própria comunicação gestual humana podendo corresponder à metáfora, por exemplo, “colocar de lado um tema”, gestualmente colocando algo de lado como se fora concreto, mas trata-se de uma abstracção. A linguagem passa por uma etapa conceptual, outra pré-verbal (gestual), e aí se articula o aparelho fonador. Nenhuma palavra pronunciada por uma pessoa pode “atravessar”, por mais abstracta que seja, a fonte somática de seu referente, ou a história somática e da aquisição afectiva de seu som, como aponta Rizzuto. A referência das expressões linguísticas não é o mundo real, e sim o mundo como construído por aquele que fala. É claro que estas observações são fundamentais para a Psicanálise, e o trabalho mais conhecido relacionado ao envelope sonoro do Eu é aquele desenvolvido por Didier Anzieu (1995/2000).
Lakoff e Johnson 4 relacionam fundamentalmente a linguagem metafórica à experiência, que se dá em termos corporais, mentais e intersubjectivos. Do ponto de vista da teoria clássica da metáfora, sua essência está em experimentar um tipo de coisa no lugar de outra. A sua essência. Além disso, a metáfora é mais ampla do que uma questão específica da linguagem: trata de pensamento. Por isso, conceitos quotidianos, tais como tempo, estados, mudança, causa, propósito, também se tornam metafóricos. Contudo, se tomarmos um ponto de vista correspondente à teoria contemporânea da metáfora, como o faz Lakoff em trabalho posterior (1993), a asserção acima é de difícil sustentação. A distinção entre o literal e o figurativo vai-se opacificando ao afastarmo-nos da concretude. Quando lidamos com quaisquer abstracções ou emoções, a expressão já se dá em nível metafórico. A meu ver, se tomamos o conhecimento psicanalítico, a questão tem, a partir daí, um novo complicador, uma mostra de sua complexidade. Por exemplo, os verbos que costumam qualificar uma discussão são estruturados, compreendidos, falados, em termos de guerra – ataque, defesa, posição, trincheira, míssil, disparo, etc. Por outro lado, sabemos, psicanaliticamente, que aquela agressão pode
& (1980). Metaphors we live. Chicago: University of Chicago Press (Citado por Rizzuto, A. M.).
concretamente ser, e não apenas representar, a guerra para o indivíduo. A existência de uma instância de “como se”, intermediária, é que dará a medida. A diferença entre uma teoria contemporânea e uma anterior, de metáfora, dificilmente sustentará uma distinção tão nítida entre literal e figurativo. No campo psíquico, a meu ver, tudo aquilo que for transformação, no sentido de Bion, será metafórico. No entanto, essa metáfora pode ser vivida a um nível concreto. Qualquer experiência será, portanto, metafórica, já que é transformação do original, mas, paradoxalmente, pode voltar a vestir-se da literalidade. Clinicamente, o que não é metafórico é a não-experiência emocional, e aqui se enquistará a metáfora raptada.
De todo modo, se é um sistema de metáforas que constrói e estrutura nosso sistema conceptual quotidiano, isso destrói a ideia da distinção clássica literal-figurativo, já que o termo “literal” assumiria falsas assunções. O que se pode dizer é o que não é metafórico: “os conceitos que não são apreendidos, via metáfora conceptual, são literais”. O balão subiu, é literal, porém, assim que falamos da experiência emocional, estamos no campo das metáforas. Igualmente, o não-metafórico, aqui, é mais fácil de se determinar.
Na Psicanálise, assim, as metáforas não se referem somente à esfera da representação, das ideias, mas, evidentemente, assentam sobre um fundo afectivo-emocional. De certa forma, basta estarmos no campo das experiências emocionais para estarmos no campo da metáfora. A subtracção desse campo, bem como do campo das fantasias, em manifestações a que nós chamamos de somatização, presta-se exactamente à questão do rapto da metáfora. Talvez possamos localizá-las bem próximo ao centro das experiências emocionais, já que, pelo que descrevemos acima, posso entender que toda experiência emocional é metafórica. E se isso é verdade, elas configuram-se como um continente à experiência emocional. A metáfora contida faz-se continente para uma experiência emocional que a transforma em contido, e assim por diante. Também é útil notarmos que a metáfora implica a primeira abertura à polissemia da comunicação humana.
Como aponta Rizzuto, a palavra-chave aqui é experiência – a compreensão dá-se no domínio inteiro da experiência, e não somente no plano conceptual. O todo estruturado da experiência conceptualiza-se como a Gestalt experiencial. No caso, é evidente que a transformação da vivência das nuances, dos verbos acima, demarca o limite entre psicose e não-psicose. Segundo Cassola, “de um vértice bioniano, a metáfora
tem relevância como pensamento pictórico e imaginativo, que agrega elementos heterogéneos e aparentemente inconciliáveis numa cicatrização conceptual e emotiva produtora de sentido que pode ser comunicado e apreendido“ (Cassola, 2001, p. 17).
Enfim, se a metáfora é uma expressão de todo o organismo, se pode ser parte fundamental da comunicação não verbal, se está inscrita na corporalidade e suas expressões, se ela é uma experiência emocional, uma expressão que se instala após a experiência emocional e que é central a essa, seu sequestro na condição da somatização é o elemento fundamental que irá ditar a constrição do espaço vivencial do indivíduo nessa condição, pela “eclipsação” da representação e pela coarctação do afecto. O pensamento operatório, protótipo da condição psicossomática para tantos, refere-se exactamente ao pensamento não metafórico, pela pobreza da vida de fantasia.
Nesse sentido, não se trata, ao lidarmos na clínica com essas questões, de interpretar aquilo que não foi interpretado, mas sim de emprestar ao paciente nossa capacidade de sonhar, para criarmos uma liberdade onde ela não existe. Para libertarmos a metáfora.
SUMMARY: The author discusses the uses of symbols, signs, metaphors, and concreteness in clinical psychoanalysis and in human communication, in states beyond representability, and, within that, circumscribes the condition of the metaphor.
KEYWORDS: Borderline; Body; Emotional experience; Language; Metaphor; Representation; Symbolization; Somatization.