Ampliados os conhecimentos, cada vez mais o bebé vem sendo considerado pessoa, seja qual for o ângulo em que se observe.
Esta é, certamente, uma das maiores conquistas da cultura humanista e humanizante do nosso tempo.
As investigações contemporâneas perspectivaram inúmeras competências e aberturas ao bebé, além de acrescentarem novas possibilidades de intervenção. Biologia, psicologia, organização, desenvolvimento, afectividade, comportamento, fantasia, simbologia, clínica, etc., largamente se aprofundaram.
Sob o ponto de vista psicológico, lembraria as teorias da vinculação, as perspectivas da fenomenologia, as competências da mãe, as dinâmicas relacionais, a teoria das pulsões, as relações de objecto, as disputas e conflitos a propósito da intersubjectividade, até chegarmos ao que alguns apelidam de Psicanálise do bebé. Há longos caminhos, em contínua mobilização.
Sustentando tudo isto, ou melhor, para além de tudo isto, queria lembrar a capacidade da mãe para se envolver na representação mental do filho (a beleza atribuída, a não permissão de terceiros, o afago antecipado, o mundo especial, os fantasmas que projecta, os sonhos no horizonte) e o clima marcadamente emocional que entre os dois se estabelece. Lembro essa condição para salientar um misto de perplexidade,
Conferência apresentada no “XIX Simpósio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: O bebé e a psicanálise”. Lisboa, 14 e 15 de Dezembro de 2007.
Psiquiatra. Psicanalista Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental, do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e do Instituto de Psicanálise do Porto. Actual Presidente do Instituto de Psicanálise do Porto.
encanto e incerteza que compõem o “sentimento de mistério” que nessa relação subjaz, querendo com isso dizer que o bebé será sempre, para a mãe, um misterioso bebé. E para o pai igualmente o será, em formato diferenciado.
Adiciono este sentimento de mistério às leituras que habitualmente se fazem porque julgo que a sua especificidade merece interesse analítico e porque as “ciências do bebé”, orgânicas e psicológicas, por norma o esquecem. Ao contrário das pessoas, as ciências não falam nele, mas também não o ausentam, por uma simples razão: não o podem ausentar.
Nenhum laboratório pode retirar o misterioso encanto que envolve o bebé, nem anular a particularíssima sensibilidade que a mãe a seu propósito manifesta. Nunca o fará, mesmo que as teorias das “evidências” o pretendam, porque se trata dum patamar onde o paradigma da cientificidade não participa nem se pode comprometer. Apenas lhe frequenta os limiares e semanticamente o utiliza para justificar eventuais improficuidades (“é um mistério, isto não confirma o que a biologia ou a psicologia nos tinham assegurado”). Dão por ele mas desembaraçam-no como se um parasita fosse, embora a pessoa do investigador também nele se aconchegue, chegada a ocasião.
Mesmo transformado em parceiro científico, o bebé contém esse registo de natureza emocional onde a “misteriosidade” se contempla. Será sempre uma especialíssima parcela da mãe porque a mãe primacial que toda a mulher transporta dentro de si (em princípio) só existe porque ele existe e porque ele continua a crescer na sua identidade psicossomática mesmo depois do parto, ao contrário do que qualquer ciência diria. Como produto único da “libido maternal”, enlaçado na mais íntima afectividade, o bebé é mesmo de tal forma “único”, por vezes, que se transforma no único parceiro dalgumas mães. Converte-as então em “mães solteiras”, como costumo dizer, portadoras duma “sexualidade alimentar”, donde o erotismo completamente se limpou.
Mas, porquê será tão misterioso o bebé, quer na mais afectiva, quer na mais racional das mães?
Numa pequeníssima partícula de resposta (antes de apresentar o que entendo por “arqueologia dos sentimentos de mistério”), lembraria que as reflexões sobre este tema acontecem muito mais nos avós do que nos pais. Quanto mais próximos do fim, melhor os humanos olham o princípio e nele reflectem, não apenas por disponibilidades acrescidas ou por conhecimentos mais proporcionados. Fazem-no por uma íntima necessidade, pela razoável e compreensiva necessidade de concretizarem
o “sentimento de percurso” que sempre tiveram mas nessa altura se protagoniza. As origens, as relações, as histórias, as vicissitudes de cada um adquiriram silêncios mais ruidosos e ganharam volume. Desembrulharam, nesse período da vida, visibilidades até então ofuscadas ou pouco permitidas.
Quero com isto dizer que o sentimento de mistério se avoluma quando a vida já não tem mistério nenhum. E que quem se dá a pensar (todos são convidados, pela natureza elementar das coisas) descobre curiosidades e medos que, racionalmente, não fazem sentido. Que nem deveriam existir. Elementos que se introduzem na reflexão sem que ninguém os chame, às vezes mesmo numa insuportável contra maré.
Esta pista torna óbvio, só por si, que a “misteriosidade” dos humanos se associa às ideias de vida e de morte e que uma parcela do lado misterioso do bebé nesse contexto se edifica. Relaciona-se com o lado de lá, com questões de apagamento e continuidade, sendo o bebé um excelente veículo para fazer transitar tais propósitos no adulto. É nisso que a mãe pensa (tal como os avós, mesmo que o não digam), quando se encanta com o seu bebé-pessoa cuja vida, partida de si, vai começar. Pensa na outra face, no sentimento de percurso, nos sucedâneos, na intransponível e misteriosa equação que os sustenta. Quando a “mãe comum” pensa no “mistério” do “bebé comum”, não foca apenas, portanto, eventuais narcisismos fragilizados ou posicionamentos de risco. Muito menos foca tempos lindos, em vias de depressão, por receio de o perder. Compulsivamente faz, em minha opinião, um “levantamento” de fantasmas essenciais da espécie. Fantasmas onde os humanos baseiam todas as suas perspectivas e onde todos os seus mitos, religiões e obscurantismos organizam dados e semeiam conteúdos. Observação que nos leva ao conceito de “desejo”, obviamente implícito nesse movimento, e ao excelente factor que Lacan acrescentou à formulação inicial de Freud quando dividiu esse “desejo” em “necessidade” e “pedido”, considerando que este último será sempre um pedido de amor, sem determinantes prévios. Ou seja, fará parte da estrutura dos humanos, anteriormente aos objectos porventura escolhidos.
“O desejo de ser o objecto do desejo do outro” será sempre uma essencialidade, diz Lacan. Mas esse “pedido” envolverá sempre um “sentimento de mistério”, acrescento eu, mais visível em momentos especiais do percurso, nomeadamente na compacta relação mãe-bebé. De forma privilegiada, ambos particularmente o exercitam nessa altura, mesmo que uma das partes não disponha ainda de palavras para o exprimir e
que muitas partículas do seu conjunto só no crescimento encontrem oportunidades de organização, como abaixo terei ocasião de referir.
Acentuaria ainda que não estou a falar de angústias de época, nem de representações culturais. Falo de condições íntimas, inconscientes, completamente significativas da espécie em minha opinião. Tão significativas que me atrevo a acrescentá-las aos “fantasmas originários” de Freud e a considerar que quando este autor fala de sedução, cena primitiva e complexo de Édipo, estará também a falar, sem o dizer, dos sentimentos de mistério onde implicitamente se argamassam todos esses elementos. Será do bebé, da mãe, da continuidade, do desejo, da vida, da morte, da outra face, dos mistérios de tudo isso que no fundo Freud se ocupa, na leitura que disto faço. Ele pensará nos inultrapassáveis degraus da sexualidade, mas, igualmente, pensará na sua misteriosa transformação no sagrado que a eterniza. Enlaçará o secreto, o sagrado e o sexual na tríade que a todos os humanos orienta e onde todos se procuram orientar, mesmo que nem nisso pensem.
Nesse sentido, fantasmas originários não serão angústias: serão resoluções de angústias. E deles resultarão encontros propulsivos por parte da mãe e protagonizados no bebé, por completo independentes das condições orgânicas ou psicológicas que porventura existam.
A gravidez é um excelente ponto de encontro dalgumas destas questões. Será fácil observar como sobre o bebé recaem intensas “misteriosidades” desde o início, ou até já antes, no projecto que dentro da mãe se perspectiva. Sempre misterioso e encantador (abortos são pessoalidades de circunstância), o bebé pode mesmo tornar-se numa verdadeira “iluminação” contra os buracos negros daquela mulher. Contra vazios, contra desertos, contra angústias, pode preencher-lhe todas as “sexualidades” e todas as necessidades inconscientes, mesmo as mais estranhas, substituindo planos físicos por planos mentais. No mistério do bebé, mais do que no próprio bebé, essas mulheres reorganizam afectos em desassossego e podem fazer vislumbres de “eternidades” compensatórias, quanto a si mesmas e quanto ao homem a quem se ligam. Por seu intermédio, chegam a recompor interiores arruinados e a resolver continuidades de risco.
Num brevíssimo exemplo, lembro uma orofóbica grave, anoréctica, que deixou de o ser quando engravidou. Tudo passou a correr bem, nesse intervalo: alimentava-se como toda a gente, na maior das naturalidades.
Mas ela não se alimentava a si mesma, nesse gesto, nem alimentava o bebé. Os corpos dum e doutro pouco lhe interessavam, como acabei por perceber. “Alimentava” apenas o mistério que o bebé lhe fazia renascer e que mentalmente a fascinava e recompunha. Nascido o filho (por cesariana obviamente: não queria separar-se dele, não lhe permitia a saída pelas vias naturais), voltou ao estado anterior. Deixou imediatamente de se alimentar.
Com o bebé à vista, ou seja, perante o bebé sem mistério, passou de novo a recusar todas as externalidades que lhe avassalassem espaços imaginários ou simbólicos. Comida, pessoas, sexo, sol, objectos de vida, uma vez mais se tornaram corporeidades sem interesse para ela. Não fariam qualquer sentido. Só o mistério do bebé tivera a virtude de lhe diferir a interioridade, à semelhança dum heroinómano que apenas se move pela droga que o certifica. Estas forças estranhas da gravidez, que até conseguem mobilizar vazios cicatrizados (anorexia mental é uma cicatrização do vazio), associam-se ao bebé propriamente dito, como não podia deixar de ser, mas associam-se sobretudo à “misteriosa” condição que o acompanha, como este caso acentua.
Mulheres deprimidas, condicionadas pelo muro das lamentações das mães que tiveram, angustiadas pelo mal de viver e pelas relações que na infância sofreram, incapazes de se pensarem sexuadas pelas culpas que transportam, necessitam mais do bebé do que outras quaisquer. É uma observação corrente. São elas quem melhor indicia o que numa pequena frase resumo: o mistério do bebé retoma-lhes a vida, no sentido geral da palavra vida. Mas, mesmo em circunstâncias comuns, o mistério do bebé funciona sempre com grande investimento e não pode suspender-se, tal como nunca poderão suspender-se os sentimentos, emoções, pensamentos, desejos e fantasias no espaço potencial interno que em todos existe (Winnicott) e onde o temor do vazio sempre espreita.
Repetidamente tenho observado isso em grávidas no divã. Interpretando, diria que, num dinamismo de fugas e movimentos, de insuportabilidades e preenchimentos, todas as mães temem a angustiante situação que costumo designar por “agorafobia de si” (medo de encontrar o seu próprio vazio, a sua própria praça interior despida, sem nenhuma misteriosa mãe que as acompanhe), contexto esse onde a misteriosidade se esgotou e onde a escuridão não permite que a própria se ilumine, menos ainda se auto-observe. Em circunstâncias normais, a capacidade de rêverie, a voz interior, a musicalidade organizam o bebé e aprovisionam-no de futuro e de presente, enquanto, na mãe, também reconstituem o
passado. Possibilitam-lhe distinguir o desejo de ser mãe e o desejo de ter um bebé dentro de si, numa vivência que transporta mistérios encantatórios. Mas tristezas, medos, ansiedades, pânicos, despersonalizações também podem acontecer, num leque de dinâmicas individualizadas que fazem da gravidez uma espécie de “crise”, semelhante às crises da adolescência e da menopausa, embora num ritmo mais acelerado e num cenário onde a misteriosidade estará sempre presente.
Depressa a mulher fica mais adulta depois de ter sido mãe e de ter vivido essa condição. Investe o self, dinamiza processos, individualiza modelagens. Mais coesa, cresce na crise e completa linhas identitárias. “O melhor período da minha vida foi quando estive grávida”, já todos ouvimos repetidamente dizer.
Mas esta “crise” da gravidez pode enquadrar trajectos menos habituais, como no caso da anoréctica que referi. O bebé transforma-se então num objecto narcísico e reparador, apenas remotamente ligado à verdadeira estrutura da maternalidade. O desejo de ser mãe, a identificação à função maternal, a identificação à mãe que tiveram, a próprio libido maternal, quase nem existem, numa espécie de clivagem funcional. A gravidez unifica a mãe e o bebé, como se a grávida se recolocasse no corpo da mãe que teve. O bebé passa a bebé-objecto e torna-se alvo de angústias e ambivalências, sobre as quais a mulher pode retomar, apesar de tudo, uma capacidade que a anoréctica havia perdido: a capacidade de reintroduzir sentimentos de mistério no seu dinamismo vital e de, através deles, reparar a sua própria existência.
Foi isso que temporariamente se verificou. Essa grávida anoréctica não retomou a capacidade de fantasiar, nessa altura, porque sempre a manteve: apenas pôde reinserir a misteriosidade que se havia ausentado. Através do bebé que no seu corpo se sustentava, ela igualmente se “sustentou” e reparou o intenso temor do desconhecido que à morte a conduzia.
Foi a misteriosidade restituída que durante alguns meses a ressuscitou, pondo à vista o enorme valor desta função no processo íntimo de cada um.
Os “sentimentos de mistério” frequentam o sapiens desde sempre, numa dinâmica mais ou menos ansiosa, mais ou menos criativa. Universais, tal como muitos outros sentimentos com os quais convivemos sem alarmes, gozam duma notável particularidade: podem desenvolver despropósitos
e disforias sem espaço possível nos demais. Isso revela a sua importância, uma vez que a desproporção não significa ignorância ou falta de cultura, embora isso muito possa contribuir.
Trata-se de sentimentos alimentados pelo temor do “desconhecido” e pelo condicionalismo extremado que o “não palpável” em todos emite. Muitas das suas perspectivas esse registo percorrem, tal como muitas culturas concretas ou abstractas nele são percorridas. Desde as magníficas liturgias de certas religiões aos mais opacos obscurantismos, desde as mais variadas histórias de paz e guerra a todas as suas campanhas e deformações, muito do que os humanos fazem nesses temores se baseiam. Objectivados numa ideia, num símbolo, num futuro, a textura psicológica do “misterioso” funciona continuamente e em processo automático, porque todas as pessoas transportam problemáticas jamais compensadas e porque a evolução lhes concedeu capacidades de pensamento prospectivo muito superiores às suas possibilidades de execução. Mergulhou-as na irónica contradição de poderem pensar a infinitude sem possibilidade nenhuma de lá chegar e de poderem acreditar em caminhos para angústias irresolúveis na certeza de os não poder atingir.
Poderíamos sorrir e considerar que teria havido um erro de programação, mas, mesmo assim, a curiosidade, o medo e o mistério nunca se dissolvem, porque igualmente transportam atractivos “infinitos”. Nunca os dispensaremos, nem nunca suficientemente os apreenderemos.
Mesmo motorizados por essa componente atractiva, os sapiens têm imensas dificuldades em com eles lidar. A evolução não lhes concedeu livro de instruções, nem isenções que os favoreçam. Fazem o seu melhor, em acção ou reacção, no círculo onde se rodeiam e na tradição onde se cultivam, sempre cercados de insatisfações e de atitudes defensivas. Compelidos nessas suas inquietudes, defendem-se tentando lançar os problemas para fora de si. Projectam esses sentimentos de mistério, evacuam-nos antes que outras insuportáveis exigências eles lhes possam conferir. Sempre assim procederam e sempre assim precariamente se tranquilizaram, reduzindo os riscos e as angústias de tempo e de espaço sem contornos que o desconhecido tendencialmente proporciona.
Nesse movimento projectivo, de rendimento assegurado na bolsa psicológica, atribuem “sentido” à sua misteriosidade. Adquirem “seguranças” sobre quem são e sobre o que andam por aqui a fazer, reconstruindo-os externamente. Empurram-nos para continentes onde a capacidade de simbolização, que os distingue dos primos da savana, lhes avaliza metas e alcances. Chegam a acreditar que formatam o seu “destino”
nesses movimentos, às vezes mesmo o dos outros, quer no plano individual, quer no plano colectivo.
Ganham tais “certezas” e “eternidades” que nem se importam de omitir partes de si. Quando se agregam, para melhor se produzirem e melhor se suportarem, edificam culturas que nessas mesmas projecções se baseiam. Será muito difícil fugir-lhe, tais os labirintos e muralhas com que as guarnecem e tais as cruzadas que a seu respeito desenvolvem.
Na minha função de “arqueólogo” da mente, procuro analisar estes sentimentos de mistério, no sentido de os reconstituir. Conglomerando partículas, tenho observado que o seu edifício assenta em três pilares fundamentais.
O primeiro situa-se na infância precoce, ligado à “estranheza ou angústia do 8.° mês” (Spitz). Nessa altura, o bebé esbarra com o “desconhecido” e, através dum entrelaçado dinamismo, absorve-o na relação. Todos os humanos chocaram com esse “outro” que desconhecem, diferente da mãe que os sustenta e protege. Sem excepção o temeram e o fixaram em ansiedades e conflitos. Jamais restabelecidos, todos lhe suportam íntimas subjectividades. Será fácil perceber os medos e estranhezas do bebé perante o desconhecido, em observação directa. Mas também não será difícil reconhecer quanto nos adultos disso resta.
Na relação infantil emergem sentimentos vários: amor, dependência, desconfiança, medo, angústia, raiva, inveja, sexualidade, agressividade, etc., de difíceis contornos muitas vezes. O mistério do desconhecido será uma parcela desse conjunto, parcela que se complica no trajecto e que acaba por enroupar-se na tentação totalitária a que as irresolubilidades se prestam. Ao contrário dos sentimentos que se vivem e se trocam, que se dão e se recebem, nunca é possível trocar mistérios. Por definição, apenas se podem viver emoções pessoalizadas e pouco transmissíveis a seu respeito, dificilmente transformáveis em palavras e nunca susceptíveis de comunhão. Daí, por vezes, chamarem-lhe transcendência. Daí, também, a sua tendência à totalização e ao desaguar na chamada fé, facto duma tal dimensão psicológica que, ao contrário de tudo o que caracteriza o ser humano inteligente, não admite discussão e, apesar disso, o mantém satisfeito de si e distraído do assalto que tal convicção significa.
Enquanto noutros temas o ser humano rebate, duvida e discute, na fé abdica de tudo isso e tomba na mais completa irrazoabilidade, porque acredita que ela lhe nega a morte que o angustia. Pela fé sobrevive, apesar
da “sem razão”, e agradecido se mostra. A capacidade de imaginar e de mentir, outra exclusividade do sapiens, muito favorece estes cometimentos contra o temor do desconhecido.
Lembraria que o “desconhecido” não impõe apenas medos e ansiedades. Também suscita encantos e procuras no desenvolvimento infantil, como atrás dizia, pelo que parcelarmente encaminha em sentido positivo os mistérios que desencadeia. Movimenta a curiosidade, alimenta processos criativos, promove descobertas, libertando excelentes engenhos. Isto é de tal forma significativo que até as ciências e as artes repetem a “estranheza do 8.° mês” no seu quotidiano, como será fácil de observar.
O segundo pilar acontece no processo de “identificação” que caracteriza o sapiens e que, em grande parte, o edifica como pessoa.
Já portador da impossibilidade de desvendar o desconhecido, o ser humano cresce na absoluta necessidade de se reconhecer a si mesmo, diferente do vizinho. Desenvolve autonomias e processamentos de identificação e de identidade, que acrescenta ao longo da vida mas se encontram sensivelmente definidos no fim da adolescência. Este processo consolida o misterioso, em si e nos outros, em minha opinião.
Explicando melhor: todo o crescimento é uma identificação ao “outro” exemplar e significativo, ou seja, aos pais, professores, amigos, ídolos, etc., que se admiram. O indivíduo “rouba-lhes”, total ou parcelarmente, aquilo que neles aprecia e para si deseja. Pretende ser como eles, capta (assimila, introjecta, interioriza) o que lhes pertence, sentindo-o como seu. Em todos os humanos isso se passou, doutra forma não adquiririam o banal sentido da sua própria existência.
Nesse movimento, o mistério adquire forma de estado, porque o “roubado”, estranhamente, permanece como era antes do “roubo”. Apesar do elevadíssimo significado desta operação psicológica, o outro continua o mesmo, sem a mínima alteração do que anteriormente dispunha. As suas características de pensamento e desejo, as suas possibilidades de tarefa e satisfação intactas se conservam, num mistério que o “ladrão identificante” nunca poderá compreender.
Exemplificando: o ladrão de automóveis identifica-se ao respectivo dono quando no bólide roubado se passeia pelas avenidas. Mas nessa identificação não há mistério nenhum: tudo se passa no mundo exterior, na realidade externa. O ladrão pensa-se como o “outro” por lhe dispor do objecto, mas este não lhe propicia a qualidade de senhor rico que só ao
dono pertence. Anda no carro, parece rico, mas não lhe possui a subjectividade. Em caso de reposição ficará excluído, enquanto na identificação eternamente persiste o mistério de serem os dois a possuir.
Só conhecendo as tábuas da criação alguém poderia decifrar este “ser eu” e “ser o outro” ao mesmo tempo. Sem explicação plausível, este absurdo:
“…ser eu e o outro…”
torna-se inconsciente e determinante.
Este processo de identificação confere aos humanos a espantosa condição de não poderem existir sem os outros dentro de si (objectos internos), com todos os significantes populares que se fazem adivinhar e com todas as depurações científicas que se queiram erigir. Aprofundamentos racionais, emocionais ou religiosos tentam esclarecer esta situação, mas ninguém vive sem essa particularíssima condição de se obrigar a reconhecer o outro para a si próprio se reconhecer.
Aliás, seria perigoso fazê-lo. Equivaleria à perda da identidade. Acarretaria o desmoronamento que acontece no esquizofrénico quando ele vive as maiores angústias que a espécie pode sofrer: as angústias da desagregação.
O misterioso torna-se “definitivo” quando se lhe adiciona o terceiro pilar: o sentimento de intemporalidade que, evolutivamente, na condição humana se instalou.
Quando o cio deixou de ser fruta de época e nos humanos se espalhou pelo ano inteiro, eles passaram a beneficiar deste patamar exclusivo: a capacidade de adiar, de reter o desejo sem o anular. Essa conquista, associada ao caminhar de pé que morfologicamente lhes escondeu ou “recalcou” fisicamente o sexo, sobretudo o feminino (ainda não foi suficientemente estudado todo o alcance desta condição), propiciou-lhes imensas potencialidades. Temporizar o desejo, adiá-lo, passou a constituir uma característica essencial. A intemporalidade inconsciente tornou-se uma inevitabilidade e uma dinamização, da qual totalmente dependem.
Adiar o desejo significa mantê-lo fora do tempo: significa a misteriosa possibilidade de o eternizar, apesar de não sermos eternos e de termos consciência disso. Curiosamente, todos comemoramos esse facto a dormir: todos os sonhos conjugam presente, passado e futuro, num desejo
assumido. E todos gostamos dos sonhos porque eles revelam essa capacidade de lidar sem tempo (e sem relógio, na actual civilização), realçando as suas misteriosas possibilidades.
Os sentimentos de mistérios fazem parte a organização mental do sapiens, em quantitativo maior ou menor, sejam quais forem as projecções e as utilizações que deles se façam. As suas origens e consequências serão intrínsecas, em toda a gente.
Aliás, sem os sentimentos de “mistério” pouco restaria para encantar a vizinhança: todas as paixões, afectos e curiosidades neles se motorizam. São eles que estimulam fantasias, simbolizações e sonhos, correndo até onde a imaginação lhes propuser.
Nunca poderemos libertar-nos da sua condição, mesmo que por absurdo o quiséssemos. Apesar dos seus múltiplos equívocos e angústias que se lhes associam, os seus passos propiciam-nos consistências. Na medida certa, ajustam pessoas, ambientes e mentalidades. Se ficássemos por aí, tudo seria tranquilo. O problema reside nas chamadas grandes questões.
Os “mistérios” alongam-se e cimentam-se nas questões irrespondíveis por natureza, filosóficas, teológicas ou afins. Elas fazem do mistério o seu privilégio e a sua delícia, metodicamente complicando a vida dos pobres humanos. Em busca dum Paraíso Perdido, religiões, ideologias, utopias, fantasias, delírios constituem excelentes “locais” para as virtudes e para os infernos da misteriosidade, eternizando confusões e omnipotências nem sempre fáceis de desculpar.
Há sempre mistérios por decifrar.
Todas as pessoas saudáveis dispõem de mistérios pela inerência de existir, encaminhando-os para onde o desejo e a circunstância os favorecer. Um misterioso bebé sempre permanece dentro de nós.
Os sentimentos de mistério resultam dum conjunto estruturalmente insolúvel, por isso se mantêm. Resultam do “desconhecido”, processado na “identificação”, assente na “intemporalidade”. Conjunto encimado, na prática, pela mentira da ocasião ou da época em que se situam.
Nenhuma ciência os resolverá. Serão sempre um temor e um encanto, para todos nós. E sempre preencherão assembleias onde os participantes, certos de os não poder decifrar, gostosamente se entregam às suas
vicissitudes porque isso, ilusoriamente, lhes propicia uma pequena partícula de eternidade. O tema é infinito, ocuparem-se do infinito será como se lhe pertencessem. Mas essas assembleias nada resolverão, tal como todas as tecnologias e ciências, porque o seu pano de fundo não é científico nem escolar.
Tal como os sentimentos de amor/ódio, ligação/raiva, dependência/autonomia e outros, que não admitem modificações estruturais, não será possível exterminá-los. Como não será possível exterminar o facto de termos dois olhos e apenas um coração. Assumir este conhecimento trará pedagogia e, sobretudo, poderá remeter para planos mais compreensíveis algumas das crenças, ilusões e poderes que incendiaram a História e que, constantemente, tentam infiltrar novos entorpecimentos nos indivíduos, nos grupos e nas sociedades.
Em toda a parte, no Ocidente e no Oriente, os humanos “anunciam” projectos e soluções para o misterioso bebé das suas fantasias. Mas, se em vez de violências a seu respeito houvesse esclarecimentos em mutualidade, enormes ganhos civilizacionais por certo aconteceriam.