Trata-se de responder à questão concreta: Como é que as representações mentais possibilitam encontrar o sentido íntimo na vida relacional? Estes processos, de base infraverbal e infrasimbólica são in-carnados desde a mais tenra idade, pelo que o encontro psicanalítico para operar uma mudança profunda, se centra no detalhe implícito e intencional das pequenas acções vividas no quotidiano. Subjacente, surge neste artigo uma visão e uma práxis psicanalíticas da psicossomática, a partir do envolvimento emocional e da vinculação precoces.
“Acção e começo são essencialmente a mesma coisa.”
“A análise é inimiga do mito. Agir é preciso.”
Sabemos hoje em dia que as palavras não limitam, não substituem, nem alternam com as acções, elas são parte do repertório das acções. Na clínica psicanalítica, vista com um olhar novo, há trocas coloridas entre duas pessoas, em que o modo como falam e o quando falam é tão ou mais importante do que aquilo que dizem, o que significa que privilegiamos tanto o acto (falamos com um certo tom de voz enquanto nos mexemos de determinada maneira…) como o que está implicitamente por detrás do acto (partilhamos sentimentos de bem-estar, de raiva, de alegria…).
Professor Associado de Psicologia no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Sócio candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Director do Centro Kairos – Psicologia, Psicossomática e Filosofia.
Recebido para publicação em 9 de Setembro de 2008. Revisão recebida em 16 de Setembro de 2008. Aceite para publicação em 20 de Setembro de 2008.
Outro é o ponto de vista em que nos acostumámos a considerar o pensamento como secundário à actividade pulsional e a concebê-lo como derivado de uma inibição da acção. Como aprendemos – no caso do bebé com fome que não pode comer/chupar por indisponibilidade da sua mãe –, a energia psíquica dirigida às funções motoras e sensoriais da boca é desviada para a criação de uma imagem alucinatória. Seria assim que a energia psíquica inibida de acção se transformaria em fenómeno mental.
Desvalorizando ou mesmo restringindo a acção, a técnica psicanalítica clássica visa conter e redireccionar os agidos para as trocas verbais entre paciente e analista, de modo a que em vez da acção surja a mentalização e a compreensão reflexiva.
Na investigação clínica sobre as relações precoces pais/bebés, o que observamos são formas particulares de interacções no aqui e no agora. A mãe que, enfática, proclama um grande amor pelo seu bebé, mas que simultaneamente o coloca numa postura muito desadequada, não o olha quando este procura o seu olhar e lhe fala num tom agressivo, está a evidenciar no processo interactivo duas acções contraditórias: uma com representação reflexiva explícita (que o ama) e outra com representação infra-verbal implícita (que o rejeita).
Vemos, assim, que a mente e a acção não são entidades independentes, uma incorporal e a outra simples comportamento. Como demonstrou António Damásio, tudo o que se passa no corpo (no seu interior como na interface das acções deste com o ambiente) está continuamente a ser representado em mapas cerebrais, e o que existe na mente está a ser difundido instantaneamente no corpo (e nas acções deste com o ambiente), ainda que isso não seja percepcionável nem consciente.
O acto de pensar requer sentimentos, emoções provindas do corpo, depende de movimentos corporais e de acções concretas. Os encontros intersubjectivos dão-se entre pessoas em que mente e corpo são um, entre sujeitos que actuam e reagem entre si através de pensamentos em acção2.
Tanto o grego como latim dispõem de dois verbos para designar aquilo que chamamos agir. Em grego arcein significa começar, conduzir; prattein governar. Em latim, agere quer dizer “pôr algo em movimento” e gerere significa “a continuidade duradoura desse movimento”. Há assim duas fases no decorrer da acção. A primeira é o começo pelo qual algo novo é trazido à existência. A outra designa a qualidade do ser governante e que é a liberdade experimentada na espontaneidade.
Decorre desta reflexão, em continuidade com o novo paradigma da psicanálise relacional (Serge Lebovici, Grupo de Boston, Coimbra de Matos, etc.) e das descobertas recentes das Neurociências (unidade mente-corpo, capacidade de participar centrada no reconhecimento do outro, neurónios-espelho), a emergência de duas novas hipóteses científicas, uma relativa à própria representação mental e a outra à intencionalidade das acções:
1. A representação não pode continuar a ser compreendida como redutível a formas simbólicas, ou mesmo a imagens armazenadas. Ela envolve as representações de coisas, como sejam as imagens visuais e as representações de palavras, símbolos e conceitos, como foi adquirido por Freud, mas também a representação de acontecimentos em forma de sequências, como propõe Stern, e ainda, pelo menos como hoje sabemos, as representações de afectos e a representação da motivação e da finalidade. Não será, pois, a representação mental um processo em grande parte não baseado na linguagem verbal, nem mesmo em palavras, um conhecimento implícito marcadamente infra-verbal e infra-simbólico, que se desenvolve desde o nascimento, baseado em acções e emoções?
É porque já elaborou representações mentais muito complexas, que podemos entender como é que um bebé de 12 meses mostra estratégias relacionais de resposta como as que foram observadas no famoso procedimento experimental da “situação estranha” estudada por Mary Ainsworth e consistentemente replicado. A criança insegura evita olhar para a mãe/pai e não se dirige a esta(e) quando ela(e) vem ao seu reencontro, como se a sua separação e o seu regresso não tivessem importância, mas, no entanto, apresenta, ao mesmo tempo, altos índices fisiológicos de stress. Esta criança aprendeu a ser evitante porque, quando antes procurava ir ao encontro da sua mãe/pai, esta(e) reagia com aversão ao contacto.
Assim, por causa das suas capacidades únicas para as trocas intersubjectivas com os outros, desde o início, e através de verdadeiras representações implícitas que nascem das interacções, a criança incorpora as maneiras de agir dos seus pais e reage a estes desenvolvendo acções concretas que indiciam a autoconfiança, quando a mãe/pai ou cuidador é responsivo, ou então a retirada da relação, quando estes são demasiado intensos ou controladores. Também a criança deprimida, em resultado das relações maternas insatisfatoriamente responsivas na regulação da activação
das emoções, aprendeu a suprimir a raiva porque os seus pais, em vez de se interrogarem a si próprios sobre o seu envolvimento emocional negativo/neutro, manifestam-se antes surpreendidos e mostram desdém e menosprezo perante as acções revoltadas do seu/sua filho(a).
Deste modo, as representações simbólicas estão enraizadas nas representações implícitas criadas pela acção e pela interacção significativa. Aliás, o sentido das próprias acções não é necessariamente acessível ao pensamento simbólico, mas é sobretudo revelado de modo não verbal e nas entrelinhas dos conteúdos verbais.
2. Em particular desde os 2 ou 3 meses de idade, o bebé começa a aprender os afectos e as acções como intenções, tem capacidade para descobrir o sentido das acções humanas. Este princípio da partilha explícita dos estados intencionais de si e do outro, de origem inata, permite ao bebé encontrar o sentido relacional implícito que as coisas têm para ele, e é uma força poderosa no seu desenvolvimento. Um bebé procura sempre a intencionalidade dos comportamentos prestados pelos seus cuidadores, apreendendo-os, não como pensavam os Kleinianos em termos de conteúdos, mas como acções em forma de objectivos e motivações (continente protonarrativo). É porque há um contexto de tensão dramática, um desejo emocional que tende para um fim, um meio para o atingir e um agente que o executa (nas mesmas bases em que antes pensávamos a pulsão) que as interacções são ressentidas pelo bebé como tendo uma orientação, um sentido, uma finalidade3. O que não podendo deixar de afectar as teorias da vinculação, move o centro da relação, de onde antes se destacavam os comportamentos visíveis a Bowlby, para os processos intersubjectivos da partilha de pistas afectivas.
Parece, pois, falsa a crença de que não há sentido fora do simbólico. Como as micro-análises das interacções precoces revelam, os bebés não reflectem sobre significados, agem a partir dos significados que são gerados dentro de si pelas acções da mãe/pai/cuidador. Assim, sem qualquer pensamento auto-reflexivo, com base na sua capacidade, que só os humanos possuem para a intersubjectividade, a criança em interacção dedica-se a tentar perceber a coerência e o significado das acções dos outros para consigo. A intencionalidade, o sentido, constitui pois a
A descoberta do sentido íntimo das coisas na vida relacional é muito diferente, mesmo oposto, à atribuição de sentido arbitrário que é praticado pelas religiões, pelas escolas de pensamento único e pelos sistemas políticos autoritários.
unidade básica da própria acção, como confirmam as experiências sobre as imagens cerebrais que identificam a existência de centros de intenção activados no cérebro. Quando um sujeito observa o comportamento do outro, é levado a inferir que esse outro tem esta ou aquela intenção quando age desta ou daquela maneira, porque é próprio de todos os humanos a capacidade de descobrir nos outros uma vida mental semelhante à sua própria.
Em particular, a descoberta sobre os neurónios-espelho veio demonstrar como, a nível neurobiológico, participamos nos estados emocionais das pessoas com quem estamos a interagir. No cérebro, são activados em espelho os inter-neurónios pré-motores, quando observamos as acções intencionais dos outros, sem necessidade de realizarmos as suas acções, nem de pensarmos ou raciocinarmos sobre elas. Deste modo se processa a compreensão das acções que têm significado, emoção e objectivos intencionais. A compreensão do comportamento humano em termos de intenção é, pois, uma propriedade fundamental da unidade mente-corpo e os níveis mais autênticos do sentido são revelados sobretudo através de representações não simbólicas.
Isto interessa a todas as relações em que a acção e o afecto estão intrincados, à relação amorosa, ao encontro psicanalítico, às relações precoces, à amizade…
De modo que na própria experiência insólita da empatia – a qual está no coração das referidas situações –, ao bionianamente nos esvaziarmos das teorias e de ideias preconcebidas, para nos podermos colocar verdadeiramente no lugar do outro, o mais fascinante talvez seja ainda o segundo momento deste processo, a enacção. Referimo-nos às reacções que, em certos momentos sagrados da relação, por vezes em momentos de crise, as pessoas empáticas, de modo espontâneo e relativamente involuntário, são levadas a co-ressentir e a reajustar-se, a criar respostas cúmplices, por vezes com humor, feitas de acções e de metáforas nascidas do vivido corporal.
Tomemos um exemplo clínico paradigmático vindo da psicossomática do bebé. É o caso de Hélène – de 5 meses, hospitalizada já há 10 dias em pediatria por gastroenterite aguda, com palidez, suores e hipotonia, a ponto de se invocar um risco de morte súbita – e o da sua mãe, jovem mulher deprimida com história de vários abortos involuntários.
A consulta terapêutica da díade, motivada pelo facto de a mãe muito ansiosa visitar a filha de modo tão irregular, foi registada em vídeo e analisada por E. Fivaz, M. Maury, M. Bydlowski, e D. Stern, no estudo “Uma Consulta Mãe/Bebé – Entrevista Clínica, Microanálise e Métodos Interpretativos”, com base principalmente no material não verbal com vista à compreensão das representações da mãe e das representações da bebé.
O que a seguir se apresenta é uma releitura pessoal, inspirada no trabalho daqueles 4 especialistas, sobre os 18 primeiros minutos desta consulta, a partir da hipótese de que a tríade (mãe/bebé/psicanalista) cria e concebe uma aliança a três na qual é possível à díade deslizar entre um mundo em que estão sozinhas, e um mundo em que estão juntas com uma terceira pessoa. As interacções foram avaliadas au ralenti nas seguintes variáveis:
Deslocamentos do terapeuta e da mãe, que podem estar relacionadas com a regulação da proximidade relacional.
Modo de pegar no bebé, com vista a avaliar a adequação das interacções.
Orientações faciais da mãe, do bebé e do terapeuta.
Iniciativas com as palavras e o tom de voz.
A mãe entra na sala da consulta de biberão na mão com a bebé ao colo, dizendo o seu medo de perder a sua filha e começa logo a dar-lhe a comida. Por um breve momento, mãe e filha ficam envolvidas e ligadas por um mútuo olhar (face tie – posição típica do primeiro trimestre), a mãe tendo a menina com o braço levantado, a psicanalista na posição de terceiro participante, constituindo-se assim um primeiro padrão relacional.
Após a psicanalista dirigir algumas palavras à mãe, esta passa a olhar alternadamente para aquela e para a sua bebé, acabando por baixar o braço que sustém a filha Hélène e deixando-a com o corpo na horizontal. (Em geral, com uma criança desta idade, a mãe tende a manter a bebé de forma perpendicular ao seu corpo, nem demasiado voltada para ela nem para o exterior, de modo a que o bebé possa explorar o ambiente e também dirigir breves olhares para a sua mãe, que está lá nessa altura com o seu olhar posto no seu bebé, segundo o princípio do framing). Aqui o que acontece neste novo padrão relacional é que, enquanto a mãe a
espera com o olhar, o contacto restabelece-se, mas, quando interrompe o framing, a pequena Hélène deixa de olhar a sua mãe voltada para a psicanalista, e que quando a mãe o reorienta para a sua filha, esta já lá não está para ela, pois que a bebé também reorientou o olhar para a psicanalista, até que deixou cair as duas e orienta agora o seu olhar completamente para fora da tríade. Configuração esta que se mantém até ao final da refeição.
A psicoterapeuta afasta-se fisicamente da díade para facilitar o contacto entre a mãe e a filha, mas a mãe permanece passiva, incapaz de tomar qualquer iniciativa para restabelecer a troca de olhares ou qualquer outra forma de ligação, já que mantém a posição postural de braço baixado. Hélène fica numa posição que lembra a de um recém-nascido e isto constitui um terceiro padrão em que deixa de haver qualquer possibilidade de framing entre elas.
A situação prolonga-se na configuração em que a mãe inicia uma interacção directa com a psicanalista, ficando esta no lugar do bebé e a bebé na posição de terceiro excluído. Com efeito, a mãe deixa completamente de esperar o olhar da filha e orienta o seu exclusivamente para a psicoterapeuta, deixando a bebé desmobilizada e fora da aliança a três. A mãe faz uma longa narração das vicissitudes da sua maternidade a partir da descrição de vários insucessos amorosos, incluindo um divórcio e vários abortos espontâneos. Quando desta vez ficou grávida, o progenitor foi-se embora, vivendo muito isolada, e habituada a ficar sozinha com a filha. Durante esta fase, enquanto ouve a mãe, a terapeuta aproxima-se e olha de vez em quando a bebé com breves intervenções verbais, o que constitui um quarto padrão, no qual a bebé permanece numa posição próxima do que se passa até aos três meses de idade.
Então Hélène põe-se a olhar intensamente a psicanalista, que lhe fala mais longamente dizendo-lhe que ela é uma “bebé muito séria”, ao que a mãe responde, num tom de voz alterado e olhando de soslaio para a sua filha, que esta nunca lhe ri!
Constitui-se, assim, um novo padrão relacional. Então desejosa de se sentar, a bebé começa a fazer movimentos com os pés e a cabeça, o que
a mãe finalmente capta, repondo a filha na posição sentada (na realidade, esta iniciativa postural corresponde melhor à idade dos seus 5 meses), o que favorece o quadro de uma ligação a três. Esta evolução é bem mais favorável que a do final da refeição porque marca a passagem de uma díade em que a bebé está desligada para uma díade em que a bebé é participante. Hélène contempla agora as mãos de sua mãe e dirige o seu olhar novamente para a psicanalista. Esta pede autorização à mãe para pegar na filha e sentá-la nos joelhos, o que a mãe aceita de boa vontade. A bebé sorri então longamente para a psicoterapeuta, que pede então à mãe para se aproximar também, provavelmente para não gerar ciúmes. E é assim que por alguns instantes se estabelece uma troca de olhares e sorrisos a três, o que constitui o sétimo padrão numa sequência relacional dos primeiros 18 minutos duma consulta de hora e meia.
Sabemos que as acções de uma mãe e de uma filha não são simétricas porque pressupõem a anterioridade do envolvimento emocional dos pais. Aqui ele é de tonalidade mais negativa (tristeza, ressentimento, desilusão, rejeição), e acompanhado de emoções não relacionadas directamente com a vinculação (medo, neutralidade, possessão).
O que mais chama a atenção nas interacções desta díade é a diversidade não fluida dos padrões relacionais, que surgem e desaparecem bruscos e imprecisos, sem transições nítidas, quanto ao estarem uma com a outra e ao estarem juntas na presença de um terceiro. Assim, a bebé, quando um acontecimento se repete, não pode construir padrões relacionais associados a regularidades de estar com a sua mãe, isto é, não pode construir invariantes que são “percepções que não mudam cada vez que há uma repetição de um acontecimento” (Stern, 1995) e não pode aceder à previsibilidade, o que causa grande insegurança.
Em princípio, uma mãe está verdadeiramente com o seu bebé sempre que o bebé a quer, numa comunicação intersubjectiva contínua, tal como um fundo musical. A partir da descrição das acções e das interacções, esta bebé é levada a desenvolver quatro esquemas diferentes de conhecimento relacional implícito:
A bebé está por vezes com a sua mãe fisicamente disponível, mas com investimento disperso, de modo que, quando olha a sua bebé, esta não pode descobrir se a sua mãe se identifica consigo.
A bebé está por vezes com a sua mãe, que está com a cabeça noutro sítio, na psicanalista, por exemplo. A mãe só está com a bebé através do rosto e de tempos a tempos.
A bebé está com a sua mãe demasiado intensa e intrusiva, quando aflora a representação da rejeição, na forma de identificação projectiva de que nunca rindo para si, a sua filha a rejeita, como ela mãe foi antes rejeitada pelos homens e, em filigrana, pela sua própria mãe.
A bebé está com a sua mãe, que está verdadeiramente lá quando a bebé a quer, o que a mãe só consegue de modo fugaz e periférico, com base em olhares e posições de orientação de natureza inata, ou então com base no apoio da psicanalista, que aceita a mãe como se ela fora a bebé.
Poderá assim Hélène aprender os critérios da qualidade de um contacto humano íntimo? A intersubjectividade, por natureza, não pode ser ligada e desligada com activações intermitentes, ainda que teorias do comportamento vinculativo e teorias da mãe presente/ausente o possam pressupor. Não havendo um clima de sons e gestos harmoniosos, segundo a segundo, em resposta às pistas emocionais da bebé, como é que esta pode corresponder criando com entusiasmo o seu ritmo próprio?
Na experiência desta bebé, os sinais enviados pela sua mãe deprimida sob a forma de padrões relacionais tão instáveis e inconstantes são, pois, contraditórios porque às vezes ela aterra na sua filha, mas noutras não está com ela. Do ponto de vista externo, isto pode ser normal para a bebé que não conhece outro modo de estar com a mãe, mas ainda assim implica uma microdepressão. Mas pode Hélène aprender regulações e previsões emocionais se não sabe e não sente as transições entre os padrões, se não pode situar-se e saber quanto dura um momento em que a sua mãe está consigo, e quanto dura um momento em que a mãe está consigo estando com outra pessoa? Do ponto de vista interno, a situação também para o bebé se torna contraditória e paradoxal, já que, no fundo, não pode saber com clareza quando a sua mãe está lá para ela ou quando não está.
Sabemos que um bebé aprende os afectos com base na sua própria experiência sobre as formas do desenrolar da temporalidade das acções e dos acontecimentos partilhados implicitamente com os seus cuidadores (Kairos). Então, esta bebé, frágil mas normal, está a criar um estilo relacional com base em representações de estar com a sua mãe que são
contraditórias e que só parecem susceptíveis de estabilizar com previsibilidade na forma simplificada de uma representação de relação superficial, aquela em que a mãe e a filha se tornam toleráveis, por exemplo, quando se ocupam simultaneamente de outras coisas. Este padrão de conhecimento relacional implícito permite antever que, no futuro, Hélène tenderá a estabelecer relações precárias e superficiais com os outros na sua vida amorosa, como na sua vida quotidiana. Ela tenderá a funcionar com depressividade, e sem verdadeiros projectos de vida, mas, se surgirem crises desencadeadoras de stress, com manifestações somáticas.
Entretanto, agora a partir da sua descoberta do sentido intencional implícito das acções não verbalizadas da sua mãe para com ela, podemos pôr a hipótese de que esta criança é levada a reagir com outras acções em que por vezes se desliga da relação em resultado da incorporação da representação de rejeição. Mas não será que, muitas outras vezes, ela será levada a ajustar-se às acções e afectos da mãe através da manutenção de um estado de alerta constante para tentar apanhar a sua mãe num bom momento, já que, se fica demasiado tempo sem ela, arrisca-se a perdê-la?
Esta estratégia de resposta defensiva local, de hipervigilância na regulação da activação do medo, implica grande desgaste, e não pode deixar de ter repercussões somáticas, fisiológicas e biológicas, e é o que acontece com Hélène. De resto, como mostram as investigações actuais, quando os seus cuidadores não mantêm e desenvolvem um envolvimento de tonalidade positiva (protecção, afectuosidade, alegria) com os seus bebés na partilha intencional, estes aumentam a reactividade fisiológica e biológica ao medo, do que resulta elevação significativa do cortisol, alteração na regulação da expressão de uma grande variedade de genes na função da neurotransmissão e na construção das características de fundo do sistema de resposta ao stress, as quais podem ser transmitidas às sucessivas gerações.
Se introduzirmos o sistema motivacional da intersubjectividade nos processos da vinculação, somos, pois, levados à hipótese de que a expressão somática surge próxima da vinculação insegura do evitamento no qual se recebe mais fazendo menos, mas não é redutível a esta.
Através do caso “Hélène” parece questionável a perspectiva tradicional em psicossomática que descreve o papel das mães/pais deprimidos como sendo o de impedir as capacidades de representar dos seus bebés, em razão dos seus conflitos intrapsíquicos ditos profundos (sejam as falhas do pré-consciente), das suas defesas rígidas (recalcamento do imaginário) ou das suas dificuldades em fantasiar (alexitimia).
Ao observarmos, em detalhe e de forma cuidada, o nível local das trocas e das acções intersubjectivas, a partir das formas implícitas do conhecer na mais tenra idade, não podemos deixar de concluir que os processos interactivos são complexos, e envolvem sempre respostas afectivas, expectativas e pensamentos, isto é, representações e intenções implícitas. Aqui, a nível local, o fluxo interactivo da díade aparece caracterizado por padrões sem invariantes, o qual é progressivamente interiorizado pela criança e codificado em representações de transacções relacionais contraditórias, obrigando a criança na procura do sentido a ajustamentos que envolvem stress constante para captar o reconhecimento da sua mãe/pai. Não será, pois, que os conceitos clássicos abstractos e generalizantes da psicossomática, embora talvez úteis, escondem o essencial, isto é, que as transacções relacionais a nível local constituem o nível mais profundo da experiência e que são eles que estruturam os conflitos e as defesas?
Esta centralidade dos processos implícitos está no coração do trabalho transformador a que se propõe a psicanálise intersubjectiva, implicando um novo olhar muito mais centrado no que está a acontecer ao nível local implícito, vivido e partilhado a cada momento pelo par analítico, através de pequenas acções, pequenos acontecimentos, pequenos movimentos corporais, pequenos pensamentos, pequenos detalhes sem importância aparente, mas que, na realidade, são fundacionais da vida psíquica e da unidade mente-corpo.
As trocas de acções e de afectos vitais, com a forma de um fluxo temporal de gestos, vocalizações, silêncios e ritmos vividos intersubjectivamente, permitem a emergência de uma verdadeira experiência de encontro em que duas pessoas se reúnem equidistantes, reduzidas à sua condição essencial de seres humanos, levando-as a ajustar-se continuamente, conduzindo à mudança profunda nos estados corporais internos e depois à mudança no estilo relacional. Estes processos, em que se expressam as vivências e os afectos, ganham a forma de regularidades feitas de padrões relacionais previsíveis em que predomina, como numa música constante, o envolvimento emocional positivo do analista tal qual um chefe de orquestra, e levam à incorporação progressiva de novas representações implícitas do contacto humano íntimo, nas quais se descobre o sentido de estar com os outros, que surpreende e fascina. As formas das transacções relacionais que a pessoa em “auto-análise
assistida“ tece no presente e no seu dia-a-dia com o seu par amoroso, com os seus filhos ou pais, com amigos particulares ou outras figuras de referência na vida pessoal ou profissional, etc., vão sendo progressiva e constantemente retomadas enquanto pequenas interacções concretas e locais, para serem desconstruídas afectiva e verbalmente. Mas é o impacto ressentido da Nova Relação, feita de acções e interacções implícitas e intencionais, pelo par analítico, que conduz às grandes mudanças na vida.
E é assim que o próprio sentido das narrativas que se vão construindo na relação psicanalítica não pode deixar de depender das intenções implícitas representadas em acções, palavras e histórias de nível local. Elas conduzem à reflexão mútua sobre as vivências e sobre utilização de defesas e distorções na relação, por parte de ambas as pessoas.
Com as pequenas acções e a enacção empática no centro da acção analítica, o inconsciente dinâmico alarga-se a uma zona não reprimida, que inclui as relações do conhecimento implícito (“O inconsciente implica o conhecimento implícito relacional” – Grupo de Boston, 2007), bem como às relações precoces, que são implicitamente trazidas para o presente, na experiência assim vivida no aqui e no agora. Assim, o centro de gravidade do processo analítico é movido do conflito entre as instâncias intrapsíquicas para o das relações intersubjectivas entre a intencionalidade do self e a intencionalidade das figuras de referência.
Na perspectiva relacional da unidade mente-corpo, a psicanálise assim pensada e vivida pode tornar-se capaz de tocar e de transformar aspectos que têm a ver com o âmago do ser humano, ali naqueles momentos em que, sendo ser para o outro, o sujeito se subjectiviza e aprende no mais fundo de si mesmo a ser senhor de si próprio.
Uma corrente intelectual da psicanálise privilegia a narrativa nas relações do objecto, mais do que os actos. Na perspectiva da psicanálise relacional acentuam-se as acções e as relações locais vividas no presente, porque o que na verdade vivemos não são complexos, fantasmas e defesas, mas formas particulares da relação com os outros que se movem no aqui e no agora. É na medida em que esta experiência é vivida e partilhada afectivamente que se torna possível a interpretação psicanalítica com sentido relacional, aquele que dissolve os padrões relacionais e as representações patológicas incorporadas, bem como os sentidos atribuídos e as faltas de sentido provindas do passado, muitas vezes das próprias interacções precoces, à medida que novas formas de estar em relação vão sendo ressentidas como significativas.
O psicanalista, tal como os pais com o seu bebé acabado de nascer, que trabalha desde o primeiro momento a partir da atitude de fundo da Nova Relação, actua e “enactua”, pois, através da interpretação e através das acções implícitas vividas.
ABSTRACT: We intend to provide an answer to a definitive question: How do mental representations contribute to discover the inner meaning of a relational life? These processes, having an infra-verbal and infra-symbolical basis are embodied since early childhood, hence the psychoanalytical encounter, in its effort to operate a deep change, must focus on the implicit and intentional detail of the trivial actions carried out in everyday life.
This essay conveys an underlying psychoanalytical view and praxis of the psychosomatic approach, built upon emotional bonding and early attachment.
KEYWORDS: Implicit representation; Intentionality; Relational patterns; Everyday encounters; New relationship.