O rosto tem algo de oriental, terno, ligeiramente acidulado, mas o que nos detém a atenção é o seu olhar penetrante de “estrangeira”, como lhe chamou Roland Barthes3. O sorriso espreita, discreto, à flor da pele. E, depois, há a voz justa, impiedosa no rigor, suave e controlada, adequada à enunciação das palavras nas quais sobrou algum sotaque, insituável.
Nascida em 1941, na Bulgária, e residente em Paris, a psicanalista, linguista, semióloga, romancista e ensaísta Julia Kristeva enriqueceu, no seu domínio de actuação, com acutilância e vigor, as aproximações técnicas ao texto literário, ao propor uma nova articulação entre linguagem e experiência que contorna os problemas tradicionais da representação.
Na verdade, desde Platão, os filósofos têm vindo a interrogar-se sobre o sentido da relação entre a linguagem e o mundo. Dois mil e quatrocentos anos depois, continuam a perguntar-se de que modo (e se) as palavras se referem às coisas, de que forma o silêncio é condição da palavra, na realidade sua virtude secreta. A dificuldade é a da viagem – a da vida afinal – por entre as trevas de um antes-futuro, o chaos dos gregos, que se apresenta, em seus atalhos, como antecipação de uma inteligibilidade da ruptura. A psicanálise, no seu diálogo com a filosofia, território explorado pela investigadora, é pergunta e auto-compreensão de uma nossa presença na terra, por isso, um pensar activo e actuante.
Numa época em que abunda o cepticismo dos teóricos quanto às possibilidades do sentido e da verdade, o pensamento de Kristeva brota da
Comunicação apresentada na Mesa-Redonda : “História, psicanálise e expressão artística” no “XXI Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: Psicanálise e História”. Lisboa, 16 e 17 de Maio de 2008.
Escritora, jornalista cultural, advogada, crítica literária, adjunta de direcção da revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste Gulbenkian.
, Oeuvres complètes III, Livres, textes, entretiens, Paris, Seuil, 2002, p. 477-80.
intersecção entre filosofia, psicanálise, linguística, teoria literária, filosofia da cultura e ciência das religiões. “Por que falamos nós?”, pergunta, de que mundos arcaicos vêm as palavras?,4 reflectindo sobre o possível entrelaçamento entre existência e verbo. Talvez por isso se considere a si própria “polivalente” e entenda a psicanálise como “uma espécie de alquimia da criação literária”, emergindo esta de um fogo desconhecido, porque, a seu ver, há uma parte de escrita sublimatória na palavra analítica: o texto concebido enquanto lugar soberano, que desperta da confusão e do pesadelo ao tomar contacto com o real.
Por meio da análise (e no seu decurso), “o analisando é alguém que nunca saberá o bastante, mas que sabe provisoriamente, alguém que assume, em determinados momentos, essa verdade instável”, sendo o divã do analista “o único lugar onde o contrato social autoriza explicitamente uma pesquisa – mais privada – do amor.”5. O caminho surge, pois, numa alternância entre nascimentos e mortes num lugar possível entre beleza e sabedoria interiores. Não há, segundo Julia Kristeva, passagem do pulsional ao simbólico, da pulsão ao sentido, que não seja feita por meio da experiência estética – esta entendida enquanto forma de enfrentar a abjecção –, e da acumulação cultural. Não que a ensaísta se esteja a referir aos aspectos técnicos e formais da literatura, tão sobrevalorizados nos últimos anos, mas à sua integração na vida social, psíquica. Interessa-lhe, pois, a revelação do aspecto “experiência” no sentido psicanalítico, filosófico e até religioso do termo.
No divã, a literatura é, portanto, uma teoria impossível do amor impossível, sendo que o discurso romântico, mas não ilusório, vai substituindo o clínico; o amor, não numa acepção narcísica, demencial ou dependente, o transfert. Para Julia Kristeva, “o psiquismo, se vive, é amoroso, se não, está morto”. Pergunta-se Mélanie Gleize6 se o discurso religioso ou literário são, na sua ensaística, pontos de referência ou de análise, questão pertinente a ajuizar pelo leitor, mas talvez seja essa a singularidade controversa – a de uma visão do invisível – desta obra de encruzilhada desenhada a tinta púrpura, densa e poética, imponente e sábia, que nos resiste e seduz enquanto percorre os labirintos do ser humano no equilíbrio entre razão e sentimento.
, Au risque de la pensée, préf. de , Paris, Éditions de l'Aube, 2001, p. 53.
, Histoires d'Amour, Paris, Denoël, “Coll. Folio/Essais”, 1983, p. 15.
, Julia Kristeva au Carrefour du littéraire et du théorique/modernité, autoréflexivité et hibridité, Paris, L'Harmatan, 2005.
Não são, afinal, a falta ou o desajustamento no amor e a dificuldade de representação (das ideias, dos projectos) as principais causas do repetitivo “lamento” dos analisandos? No entendimento da escritora, a análise ajuda à representação, percorrendo um caminho comum ao da experiência estética e artística. Freud já havia assinalado que a literatura terá, muitas vezes, ultrapassado a psicanálise na exploração da vida psíquica, mas a Julia Kristeva não lhe chega a sublimação simbólica, procura aquilo que considera ser o aprofundamento dos limites da linguagem, não na acepção da retórica do obscuro de Lacan (de que recorda a oralidade paradoxal e os ecos de uma performance quase literária), mas tendo com ele aprendido a beber no saber filosófico, de Kant a Heidegger.
Não somos nós estrangeiros de nós próprios, seres do medo e da palavra, vampiros vampirizados, sobreviventes hipotéticos de uma água funérea, folhas que se agitam entre rejeição e apropriação, ardendo, frágeis, entre crime e desejo? Não nos confrontamos diariamente com uma “noite do sentido”7 ou com uma experiência cultural singular na floresta do indizível, na deslocação e no risco que qualquer discurso intersubjectivo comporta?
Julia Kristeva detém-se, erudita e fulgurante, tantas vezes hermética, naquele flash de aparição no discurso de algo que não havia sido notado até àquele momento – seja no divã real, seja naquele que o inconsciente transporta para o lado de cá da mente, durante ou após um processo psicanalítico –, enraizado que estava numa lógica pré-linguística ou na memória arcaica. Interessa à semióloga essa forma de êxtase doloroso/luminoso (ou cintilação) que é necessário isolar e canalizar a partir de um veio de água iniciático para uma vivência quotidiana. Escritor e libertino, analisando e analista são, portanto, figuras que apelida de revolucionárias, entendendo a literatura não como objecto exterior e acessório ao qual se junta a psicanálise, mas experiência constitutiva da vida psíquica. Psicanálise e literatura, na sua opinião, cotejam-se e entrecruzam-se no território da metáfora, enquanto transporte do sentido, que não existe senão no interior das fronteiras da metafísica, como postula Heidegger.
Não sendo os escritores construtores de teorias, dão, na sua perspectiva, sentido a estados de insustentabilidade psíquica, reorganizando o impasse e a impossibilidade, a sua mundividência. Talvez por isso quando pratica ou escreve sobre psicanálise, Julia Kristeva cite, com frequência,
, Étrangers à nous-même, Paris, Fayard, 1988.
obras de arte ou autores de vibração interna como Proust, Céline ou Colette. Questões como a depressão, a melancolia ou o narcisismo podem trazer à colação abordagens várias da história literária, mítica ou religiosa, num mesmo fio de reconstrução narrativa.
Para Kristeva, o analista deveria ler muito para se inteirar da experiência do escritor autêntico que é, ao mesmo tempo, sensorial, erótica, passional, mas também linguística, retórica e interpretativa, não podendo contentar-se em diagnosticar uma crise do sentido ou em tentar preencher o vazio deixado na civilização pela revolução científica que, de algum modo, destronou a autoridade da religião, não se tendo imposto entretanto a simbiose possível entre ambas. De Sèméiotiké, Recherches pour une sémanalyse8 ao último volume da trilogia sobre o génio feminino9, a escritora quer demonstrar como a matéria-corpo se torna palavra de modo a que a vida possa triunfar sobre a morte por intermédio da sublimação. Trata-se de prevenir o leitor – recorrendo a exemplos da história da cultura – dos riscos da eventual privação da capacidade de representação ou da impossibilidade de transformação do ódio em arte, das lágrimas em imaginação, da idealização em reflexão auto-erótica, do narcisismo (“o que eu vejo é a sombra da minha imagem”) em amor objectivável.
A realidade, sublinha Kristeva, construtora de uma máquina de pensamento recheada de contradições e de júbilos, é cada vez mais espectáculo. Estamos a perder a faculdade de distinguir a representação da violência da violência real, que analisa na sua obra, porque, a seu ver, confundimos a imagem com o ser – é longa a reflexão dispersa sobre o espelho a partir de Plotino, dos Evangelhos apócrifos ou de Dante. Violência, criminalidade, o sofrimento psicossomático, aquilo a que Max Scheler chamou de “frivolidade metafísica”, as “novas doenças da alma”, diagnosticadas pela escritora, são, segundo defende, patologias da imaginação para as quais contribuem uma cultura da distracção promovida pelos media, o que traz consigo, salienta, a incapacidade de interrogação, de revolta, de questionamento.
Poderia ter dito: «Tomamos Prozac®, vemos televisão, vamos ao shopping, as mulheres e os homens modernos perderam o espírito e não o sabem, incapazes de representar a sua experiência», algo sustentado
, Sèméiotiké, recherches pour une sémanalyse, Paris, Seuil, “Coll. Points/Essais”, 1978.
Le Génie féminin, Paris, Fayard (tome I – Hannah Arendt, ; tome II – Melanie Klein, ; tome III – Colette, ).
naquilo que a clínica psicanalítica tem demonstrado: o ser humano tem a alma em queda, esmagado pelo peso do stress, da competitividade, pelo consumo excessivo e até pelo desejo de morte que vai combatendo pela fantasia ou pela ilusão de si e dos outros. A realidade psíquica dos novos doentes vacila, de acordo com Kristeva, entre os sintomas somáticos e a objectualização visual dos desejos.
Que é a vida? Que sentido tem? Que significa amá-la? Perguntas que preocupam a ensaísta, na esteira dos grandes pensadores. Na sua opinião, a lógica de consumo dialoga bem com a alienação e o desespero, podendo perguntar-se, parafraseando-a, se a reflexão e a interpretação não estão a tornar-se luxos. Segundo Kristeva, vivemos hoje a aventura nefasta do não significado e do vazio, um tempo do zapping audiovisual e electrónico: as crianças padecem de problemas graves de atenção que ocultam, nos adultos a desconstrução do aparelho psíquico não se dá bem com a velocidade, acelera-a, a cultura é a do supérfluo. A lógica da psicanalista, aparentemente céptica e pessimista, dir-se-ia, todavia, paradoxalmente esperançada porque inserida no conceito de partilha, essencial na obra kristeviana, tanto na ensaística10 como na criação romanesca11.
O trabalho de Kristeva é uma mensagem de amor que contém em si os silêncios, as dores, o júbilo entrecortado da alma humana e da história contemporânea, seja ela intelectual, política, pública ou privada, quer se trate dos direitos das mulheres, dos deficientes, da emigração, condição que é a sua, das dificuldades psíquicas, ou da palavra como dom de si. O que falta aos que sofrem das “novas doenças da alma”12 dir-se-ia o tempo da palavra. Não será por acaso que no romance Le Vieil Homme et les loups13 (repare-se na intertextualidade do título, já não com Simone de Beauvoir e Os Mandarins, como era evidente no caso de Les Samoura$ius, mas com Freud em O Homem dos Lobos), a autora cria uma personagem alheada do mundo no pequeno ecrã, alguém que não ama, mas que, ausente, se deixa fundir, qual borboleta cega de encontro do vidro de uma janela, com imagens falsas.
, Histoires d'amour, Paris, Denoël, 1983; Au commencement était l'amour; Psychanalyse et foi, Paris, Hachette, 1985; L'Amour de soi et ses avatars; démesure et limites de la sublimation, Paris, Plein Feux, 2005, entre outros.
, Les Samoura$ius. Paris, Fayard, 1991; Possessions. Paris, , ;
, cf. Les Nouvelles Maladies de l'Âme. Paris, “Coll. Le Livre de Poche”, Fayard, 1993.
, Le Vieil Homme et les loups. Paris, Fayard, 1991.
Os policiais, que surpreendentemente escreve, emanam do luto pelo pai, maneira que encontrou, tal como confessa, para prosseguir a análise14. O romance Possessions15, centrado no mal-estar feminino a partir de uma mulher decapitada (relembre-se o horror de Medusa a que se referiu Melanie Klein), é iluminado pelo génio daqueles que criam linguagens, compositores ou intérpretes. Meurtre à Byzance16, romance iniciado com um crime, dir-se-ia, por outro lado, uma obra do tempo, que Bernard-Henry Lévy entendeu como fábula metafísica, auto-retrato críptico, meditação sobre o mal, regresso à estranheza de si.
O amor, que em si contém sempre um desejo de poder, nem simples, nem ingénuo, pede um “sagrado culto do tempo” – tal como Julia Kristeva salienta em Les Samoura$ius17 –, exige paciência, dir-se-ia uma construção, um edifício com algo de sacrificial como a literatura, que elucida sobre as histórias dos afectos e dos ódios, dos desencontros e das separações, reflectindo sobre o escândalo da morte ou sobre essa viagem de reimplantação da realidade de que Freud falava. Talvez por isso a sua obra poliédrica (consciente de uma dinâmica amorosa na confusão real-imaginário-simbólico) pode definir-se como uma tentativa de recusa narrativa da primeira frase do seu primeiro romance: “Il n'y a pas d'histoires d'amour.”
A arte e a literatura são, para a romancista, uma deriva do flirt perpétuo com a pulsão da morte. Talvez por isso haja uma permanente referência à ressurreição enquanto desafio da melancolia e do desespero. Essas modalidades secretas de sublimação podem ser consideradas, de acordo com os estudos kristevianos, as novas formas do sagrado18. Escritor e analista/analisando vão fazendo, portanto, a partilha do impartilhável num lugar outro onde sempre se recomeça, ou quase sempre, como numa demanda espiritual. Ficamos, então, perante um humanismo atento ao ser falante que, por isso, se torna mais livre e singular ao determo-nos numa impressionante travessia de toda a cultura ocidental realizada por Kristeva, passando por Platão, Plotino, pelo mito de Narciso, pelo judaísmo e pelo cristianismo, por Tristão e Isolda e Romeu e Julieta, pelo amor cortês, Baudelaire, Stendhal, Bataille, Sade, a pornografia…
, L'Infini, 37, Primavera de 1992, “Roman noir et temps présent (entretien avec Bernard Sichère)”, p. 83.
, Possessions. Paris, Fayard, 1996.
, Meurtre à Bizance. Pari, Fayard, 2004.
, Les Samouraïs. Paris, Fayard, 1990.
, Soleil noir. Dépression et mélancolie, Paris, Denoël, “Coll. Folio/Essais”, 1989.
Nessa erudição, centra a psicanálise enquanto delimitadora do reino do possível.
Não chega, para a autora, dizer que a paixão amorosa é uma neurose. Tal como Foucault, também Kristeva sustenta que a intensidade do relacionamento do ser humano consigo próprio enquanto objecto de conhecimento foi, ao longo dos tempos, um meio de superação dessas patologias, considerando-as o filósofo «formas constitutivas» e não desvios da sociedade. 19 Talvez por isso tenha sublinhado que a psicanálise não está livre da preguiça mental e da psicose integrista dos narcisistas, acreditando, porém, nos seus mecanismos de auto-vigilância.20 Para a psicanalista, arte e literatura, filosofia e ciência, cada uma à sua maneira, ajudam a radiografar e a desatar o nó amoroso sem o qual os seres humanos não fariam sentido, mas por meio do qual também cegam como Homero. É o amor que, na sua visão, preservará o riso até que possamos rir do próprio riso, lúcido, misterioso, salvador21, até que o excesso de dor ria, como escreveu, em Bodas do Céu e do Inferno, William Blake.22
Freud desejava uma civilização livre de ilusões. Kristeva gostaria de preservar uma, a do riso, dando a mão a Marcel Proust, quando este escreve: “As ideias são os sucedâneos dos desgostos”23. E podemos imaginá-la a sorrir, desfiando com os dedos a sua história de exilada e de mulher de jardins secretos, viajante enigmática pela noite de uma dor indizível, ela que foi e é uma testemunha do seu tempo, crente ainda hoje no eterno renascimento.
Talvez por isso, com ela possamos imaginar e dizer: «No princípio era o verbo, no recomeço a psicanálise». Entre fantasmas, fantasias e labirintos, a literatura não pode, para a autora, deixar de se deitar no divã como um corpo de antes do tempo. Não que a viagem não seja perigosa, mas, em Julia Kristeva, as metáforas são, ainda e sempre, as da ressurreição. Talvez porque ela resista ao poder do sofrimento com palavras-pérola que ajudam a ultrapassar a prova do eclipse do sentido e do luto.
, “La Folie, l'absense d'œuvre”, Dits et écrits I, 1954-1975, Paris, Gallimard, 1994, p. 440.
, La haine et le pardon. Paris, Fayard, 2005, p. 473.
, La haine et le pardon. Paris, Fayard, 2005, p. 471.
, Em Busca do Tempo Perdido, “Tempo Reencontrado” (volume VII). Lisboa, Relógio d'Água, trad. de , 2005, p. 228-29.