Considerei o tema proposto sobre as relações entre a teoria e a prática analíticas, problematizando o trabalho do psicanalista centrado na interpretação (mutativa) e na construção visando, no analisado, uma reeducação do desejo. A constelação conceptual entre teoria, técnica e práxis analíticas baseia-se angularmente nos contributos de W. Bion, J.-B. Pontalis, Paul Ricoeur, sendo ainda convocados escritores como Proust, Vergílio Ferreira ou Eugenio Montale.
“Cada coisa, cada pessoa é um poema que se dirige ao Outro, figura desse Outro”
Fenda, nome de editora, é, no sentido tipográfico, também uma marca que existe na letra, para indicar ao compositor o sentido em que a deve voltar quanto a mete no componedor. É um corte, feito próximo do pé da letra e operado por uma parte saliente que está no molde onde ela se funde3. Num sentido político, fenda, surge do pensamento partilhado de Barthes
Este texto condensa a participação do autor no colóquio “Do Livro ao Divã” que decorreu na Universidade Lusófona de Lisboa em 31 de Maio de 2008. Teve anteriormente uma difusão electrónica na Revista Afreudite n.° 7/8 Ano IV, 2008.
Recebido para publicação em 27 de Agosto de 2008. Revisão recebida em 15 de Setembro de 2008. Aceite para publicação em 26 de Setembro de 2008.
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Editor.
Joaquim dos Anjos (Compositor), in Manual do Typographo, p. 24.
ou Foucault, de que nem a cultura nem a sua destruição são eróticas mas apenas a fenda entre ambas se torna erótica. [Ou dito de outra forma: o da impossibilidade de um discurso totalmente exterior ao sistema]. Mas as aspas em «fenda» pretendem enviar para um outro lugar, aquele em que se inscreve a psicanálise como estética do desejo inconsciente.
Do livro ao divã remete-nos para a questão nuclear da relação entre a teoria e a prática analíticas e leva-nos também, colateralmente, para a questão da criatividade e da psicanálise, entendida aqui a criação como transformação do real em simbólico.
Dizemos a teoria mas existem hoje, como afirma Pontalis, uma pluralidade de teorias psicanalíticas: kleiniana, hartmaniana, winicottiana, bioniana, lacaniana. E todas elas partem de Freud e são internamente coerentes em função da dobra que imprimem ao texto fundador.
[Não pretendo, neste breve texto de partilha, discorrer de modo autoral ou professoral – nem professor eu sou – e não escrevi nenhum livro.
O meu singelo vértex é o de velho editor e analista aprendiz].
Os antigos, lembra Borges4, não davam importância aos livros. Pitágoras não escreveu voluntariamente. Ele queria que o seu pensamento sobrevivesse à sua morte física na mente dos discípulos. Daí a expressão: o mestre disse-o.
Platão pretendeu corrigir a mudez dos livros inventando os diálogos e foi, também ele, um autor oral. Ainda e a propósito (Borges oblige): o testemunho mais notável é o de Séneca. Nas suas Cartas a Lucílio 5, escreve de um indivíduo muito vaidoso de quem se diz que possuía uma biblioteca com cem volumes e quem – interroga-se Séneca – poderá ter tempo e vida para ler cem volumes?
Se as coisas tivessem este futuro, certamente que não teria sido editor.
Depois da galáxia Gutenberg, valorizamos os livros e as bibliotecas, por enquanto ainda.
E aquilo a que chamo livros são aqueles que, como escreveu sempre J. L. Borges6, vão mais além do que a intenção do seu autor. Ou, melhor ainda, na célebre fórmula de Proust: “os belos livros estão escritos numa espécie de língua estrangeira”7.
, O Livro, in Borges Oral (1979), pp. 171-174.
, in Cartas a Lucílio, Livro I, C. 1-12.
, in Cartas a Lucílio, Livro I, C. 1-12.
, Contre Sainte-Beuve, p. 297.
A fala (ou escrita) de um psicanalista, evocando Pontalis, situa-se no “entre-dois”, isto é, na fenda: entre os que alimentam o seu pensamento – e mais do que autores são, antes do mais, os seus pacientes, como reiteradamente nos ensinou Winnicott – “e o que pode emanar do seu fundo próprio; entre a teoria e o fantasma, entre o saber e a ignorância”8.
Evoquemos W. Bion: “A prática da psicanálise é muito difícil. A teoria é simples. Se o analista tem boa memória, poderá ler todos os livros e decorá-los com facilidade. Daí poderão dizer ‘que bom analista é tal pessoa; sabe todas as teorias’. Mas isto não equivale a ser um bom analista. Um bom analista está sempre a lidar com uma situação desconhecida, imprevisível e perigosa”9.
Parece intuitivo que o analista transforma o que o analisado julgava ser previsível (o sofrimento ou a sua persistência), identificando a causa (que o analisado desconhecia). Mas talvez aqui a palavra já não seja previsibilidade, mas inevitabilidade e aí a questão adquire novos contornos.
Bion, porém, foi um dos autores que nos advertiu sobre a inaptidão que ameaça o ser humano cada vez que pretende pensar a vida e o próprio pensamento.
Ele diz-nos que pensamos os objectos inanimados, mas somos defrontados com dificuldades insondáveis quando pretendemos pensar a própria vida. Fundamental é, portanto, pensar a experiência, pois não há personalidade que não se alimente dela10.
Santo Agostinho, nas Confissões, escreve: “Não é de admirar que esteja longe de mim tudo o que não sou eu. Todavia, o que há mais perto de mim do que eu mesmo?”11.
Sublinhe-se, então, que não há conhecimento de si sem interpretação, isto é, sem exercício hermenêutico.
Qualquer sentido interior é um sentido para um sentido.
A interpretação e construção são as duas coordenadas do método e do objecto psicanalíticos.
Podemos ainda considerar que o desafio maior da interpretação é a inevitabilidade de ter de se interpretar a interpretação. E isto porque a
J.-B. Pontalis, in Entre o Sonho e a Dor, p. 12.
W. Bion, in Revista IDE, 14, 1987, p. 5.
W. R. Bion, Learning from experience, pp. 6-8.
Santo Agostinho, Confissões, X, p. 16.
fala e o próprio corpo que a exprime são já, provavelmente, uma forma primordial de interpretação12.
Onde há interpretação não há apenas logos, mas também mito.
“Se o mito parece, em primeiro lugar, possuir uma função imaginária, ele faz com que o homem relacione o mundo onde habita com outros mundos, tentando, assim, dilatar o exercício da compreensão e do pensamento”13.
Sabemos, depois de Freud, que a interpretação é interpretação dos sonhos e o psiquismo é sonho. O que, entre muitas outras coisas, abriu caminho à investigação científica da criatividade. [Podemos dizer que Freud democratizou a criatividade, rompendo com a metafísica tradicional segundo a qual, desde Platão e Aristóteles, só Deus poderia criar, o homem apenas descobrir]14.
O sonho é um modelo paradigmático, é o modelo de base de toda a fundamentação da Deutung.
O psicanalista entra em contacto com o “estilo” psíquico original de uma pessoa durante o trabalho clínico e a constelação psíquica revela-se do mesmo modo que o sonho revela o sonhador. Porém, o que constitui a originalidade do “estilo” psíquico de uma pessoa não é o complexo de Édipo, mas as elaborações desse complexo e a sua integração na personalidade15.
A prática clínica é um modulador fundamental. Não há psicanálise sem que haja pacientes. Sem pacientes não há, também, teoria; mas sem teoria não há pacientes16.
Na clínica, somos confrontados com a prova da realidade e é isto que nos separa dos religiosos ou dos filósofos. A clínica impõe-nos, constantemente, uma reelaboração, uma revisão das ideias construídas. Um analista, então, está sempre em formação e reorientação.
O psicanalista não é, pois, uma pessoa tranquila, ele tem nuclearmente, uma mentalidade de investigador, percorrendo a alma, palavra cara a Freud, e derrotando o confessional.
A prática da psicanálise, como técnica da veracidade, implica sabedoria, experiência e tempo. E esquecimento.
Carlos Amaral Dias, in Modelos de Interpretação em Psicanálise, pp. 41-44.
José Manuel Heleno, in A Experiência Sensível, p. 58.
Veja-se a este propósito a teorização de A. Barruzzi.
Acompanho aqui o pensamento de Marisa P. Mélega, in Eugenio Montale, p. 116.
Esta questão é desenvolvida, entre muitos autores, por Simone Korff-Sausse, in Dialogue avec mon psychanalyste, p. 96.
Hegel, no início da Fenomenologia do espírito, afirma: “O que é bem conhecido é mal conhecido, porque é bem conhecido”. De facto, o que nos é familiar, habitualmente, é o que conhecemos pior justamente porque essa familiaridade nos dispensa do aprofundamento.
Sob este signo, como poderemos reflectir sobre a função da teoria em psicanálise, sendo ela a consequência – Pontalis chama-lhe um desperdício – daquilo que trabalha o psicanalista?
Disciplina trans-paradigmática, a psicanálise não é uma teoria causal, mas sim semântica. A psicanálise não é um ramo das ciências da natureza.
Peter Fuller enfatiza que a psicanálise, pelo facto de ser uma disciplina que toma como seu objecto uma série de subjectividades particulares, está sujeita a problemas epistemológicos particulares que não surgem em qualquer outra disciplina17.
De modo pouco original, gostaria de convocar, sobre esta matéria, autores como Paul Ricoeur, J.-B. Pontalis ou J. Derrida, de quem me aproprio, penhorado, tal como o Pierre Menard borgiano, autor de Quixote.
Freud, em termos metodológicos, ligou sempre a psicanálise a três termos: método de investigação, técnica de tratamento, elaboração de um corpo de teoria.
Porém, a prática psicanalítica não é uma aplicação directa do conceptual, já que se trabalha com o particular, o individual. Não existem duas análises iguais e, assim sendo, existe sempre uma distância, uma fenda, entre a teoria e a prática psicanalíticas, ainda que, como reitera Pontalis, “elas devam avançar paralelamente (…), já que uma teoria que não seja operatória é nula; e uma clínica empírica que não seja capaz de se enunciar perante um interlocutor não é psicanalítica”18.
Nesta perspectiva, uma oposição entre “clínicos” e “teóricos” é inconsistente e o exemplo maior disso é o do próprio Freud entrelaçando permanentemente o seu discurso teórico e a sua práxis clínica.
Paul Ricoeur, numa leitura conexa, afirma que “a psicanálise é, de uma ponta à outra, práxis, englobando a arte de interpretar e a teoria especulativa”19.
Peter Fuller, in Arte e Psicanálise, p. 27-31.
J.-B. Pontalis, in Entre o Sonho e a Dor, p. 138.
P. Ricoeur, in O Conflito das Interpretações, p. 176.
E se, por um lado, Pontalis afirma que os psicanalistas têm algo a dizer sobre a teoria no âmbito da sua actuação clínica, “têm algo a dizer sobre as funções que a teoria preenche para os seus pacientes e para si próprios”20; Ricoeur, por outro lado, enfatiza que toda a tentativa de assimilação da Psicanálise a uma ciência de observação e a uma técnica proveniente de uma ciência de observação “desconhece o essencial, isto é, que é no campo da fala que a experiência analítica se desenrola e que, no interior desse campo, aquilo que vem à luz é, como o diz Lacan, uma outra linguagem, dissociada da linguagem comum e que se oferece para decifrar através desses efeitos de sentido”21.
Depois das grandes máquinas freudianas, armas contra uma filosofia da consciência e da intencionalidade transparente – utilizando uma asserção de Derrida22 –, é necessário pensar outra vez a sua inscrição institucional (espaço secreto) e a sua difusão e ensino (espaço público), implicando tal trabalho uma outra heteronomia, para que não fiquemos colaborantes da sua esclerose. E isto porque, depois de Freud e da sua apropriação, reaparecem hoje em acção, como vê Pontalis, “os próprios mecanismos que a psicanálise trouxe à luz do dia: resistência, recalcamento, deformação, deslocação, repetição”23.
Estamos ao lado da verdade, da mesma forma que se está perto daquilo em que se acredita.
O devir O (origem) é, para Bion, chegar a ser o que se é ao alcançarmos conhecimento da própria realidade psíquica, o qual se consegue pela transformação K → O. Este devir O é consequência do insight e o crescimento mental é acompanhado pela dor da responsabilidade que comporta este ser único na sua própria verdade.
Por outras palavras: é preciso viver como se pensa, de contrário acabaremos por pensar como temos vivido.
O trabalho analítico é por fim, uma questão de autenticidade e não uma psicologização explicativa. Ser autêntico, em Heidegger, diz-se da existência que assume plenamente a sua inarredável condição mortal,
J.-B. Pontalis, in Entre o Sonho e a Dor, p. 139.
P. Ricoeur, in O Conflito das Interpretações, p. 184-185.
J. Derrida, in De quoi demain/Dialogue, p. 281-283.
J.-B. Pontalis, in Entre o Sonho e a Dor, p. 141.
aceitando em decorrência a angústia que só poderia ser dissimulada através da banalidade quotidiana (a inautenticidade).
Faça-se, pois, uma leitura transferencial deste fragmento de Invocação ao meu corpo , de Vergílio Ferreira, romancista maior:
“A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é – o que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser – a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que nas origens se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões que a justificam“.
Tal como o escritor é sempre alguém que escreve para ser outra coisa, poderíamos afirmar que a psicanálise, como operação técnica sobre as limitações da linguagem, não é uma criação que vise a cura, “mas um meio apenas, a escultura de um mundo possível, uma passagem de vida”24.
A psicanálise navega entre a metáfora e o conceito e, para Freud, a obra de arte é, antes de tudo, escrita do desejo.
Freud interessou-se muitíssimo pela literatura. Afirmou ele que o romancista precedeu sempre o homem de ciência e em particular o psicólogo científico.
Sousa Dias, in Questões de Estilo, p. 37.
Freud, creio, tornaria objecto para um saber o poema de Eugenio Montale – A forma do mundo 25 – que diz admiravelmente o que eu queria ter dito. Admiravelmente mostrando que não é tanto o que se diz que faz o discurso, mas como se diz:
“Se o mundo tem a estrutura da linguageme a linguagem a forma da mentea mente com os seus cheios e os seus vaziosé nada ou quase e não nos tranquiliza.
Assim falou Papirio. Estava já escuroe chovia. Vamos para um sítio segurodisse e apressou o passo sem se aperceberque falava a linguagem do delírio“.
SUMMARY: This paper considers the actual theme of the relations between analytic theory and practice, issuing the psychoanalyst work, centred in (mutative) interpretation and in construction, aiming, in the analysand, desire re-education. The conceptual constellation between analytic theory, technique and praxis is angularly based on W. Bion, J.-B. Pontalis and Paul Ricoeur contributions and also on writers such as Proust, Vergílio Ferreira or Eugenio Montale.
KEYWORDS: Fenda; Analytic theory; Analytic practice; Praxis; Experience; Interpretation; Construction; Creativity; Language; Truth; Authenticity; Desire; Style; Discourse.
Eugenio Montale, in Poesia, tradução de José Manuel Vasconcelos, p. 281.