Na natureza, tudo o que vive cresce e joga.Nos humanos, tudo o que joga cresce e refina.
O homem mais pobre do mundo será o que deixou de jogar. O que tendo usufruído o “jogo pelo jogo” o consumiu ou perdeu, transformando em labirinto as peças íntimas do seu xadrez.
Derramando amarguras e contundências, isolado dos outros e de si, esse homem chegou ao fim. Porventura rico e poderoso, ele nada partilha, nada agradece. Às vezes já nem a vida agradece, sem consciência de que foi a inveja que lhe inundou a fortaleza e fez emergir a parte mais mesquinha de si.
Esse homem já frequentou outras garagens, calcorreou outros terrenos. Alegrou-se, competiu, doutra forma não sobreviveria. Já se divertiu nos amores, nas cartas, nos tabuleiros: nasceu com tais virtudes, progrediu-as, enalteceu-as. Já perdeu, já ganhou, já completou os arcos de busca e regozijo que o jogo em si mesmo comporta. Muito antes da consciência amarrotar e de novos preços exigir, o jogo e o seu prazer perfumaram-lhe textos e sabores, presentearam-no com fortunas e disposições, abriram-lhe caminhos e potencialidades.
Ele não se lembra (a inveja nunca permite rememoração das boas memórias), mas a exemplo das espécies que o circundam, quer das vegetais que permanentemente jogam embaladas pelo vento, quer das animais
Conferência apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008.
Psiquiatra. Psicanalista. Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental, do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Presidente do Instituto de Psicanálise do Porto.
que permanentemente jogam na mastigação dos cadáveres que a sua fome e garras obrigaram a fazer… esse homem já foi menino, já deslizou na relva, já musicou solstícios. Mas, favorecido pela dotação mental com que nasceu, montou escravidões, alimentou omnipotências, gerou patologias. Na pretensão de tudo ganhar ou de sempre ganhar, adicionou perversões às benfeitorias com que tinha sido presenteado. E, ao contrário dos primos da savana que quando comem os vizinhos o fazem com espírito de gratidão… os carnívoros agradecem, por certo, o alimento que a natureza lhes concedeu, sem reparar na agressividade procedida… excluiu a outra parte, tornando-a apenas alvo de tiro e disparo. Recusou transparências, cultivou ambiguidades, abastardou parcerias.
No paleolítico, sem experiência, desculpado seria. Mas, no trajecto, ele entreteve-se a ocultar isto que inexoravelmente se evidenciava: ao exultar na destruição do outro, o ser humano a si mesmo se destrói: afunda-se exactamente no que para o outro preconiza. Nisso se comprometeu, e, por cansaço, por depressão, por narcisismo, com justificações à medida e anuências de ocasião, fingiu não perceber. Empurrado pelos espelhos de fora que lhe reflectiam poderes e pelos espelhos de dentro que lhe glorificavam atitudes, deformou-se em simbolismos de espaço curto e em fronteiras de engano certo. Aturdiu-se, perturbou-se e no seu continente abriu fissuras por onde a inveja, uma espécie de volfrâmio empobrecido que dentro de si jazia e que em erupções mais ou menos vulcânicas se tentava infiltrar, definitivamente o inundou.
Convirá lembrar, no entanto, que os humanos percebem muito mais do que na aparência insinuam. Percebem mas não se permitem, por razões que dentro de si acariciam: eles julgam que só dessa maneira podem suportar os seus próprios medos e intolerâncias. Vão ao ponto de, se alguém lhes lembrar o “jogo pelo jogo” que no passado tanto os gratificou, rapidamente os ouvidos fecharem, apoiados no que à sua volta observam e que também rapidamente lhes mostra a insignificância de tais velharias.
Inveja é a gratidão perversa do perdedor. É o tributo de quem não aceita a derrota (real ou fantasmática) e julga enaltecer-se no desmerecimento do outro.
Sempre afirmando que o poder não lhe interessa, o invejoso nunca esquece quem ganhou. Agasalha-o, esconde-o dentro de si, convertendo o amor em ódio e a ligação em destrutividade. Vinga-se mas não se autonomiza, incapaz de lhe aproveitar a lição.
Melanie Klein trouxe muitíssimos dados a este conhecimento. Antes desta autora, a inveja estudava-se apenas na formulação freudiana sobre a sexualidade feminina (inveja do pénis) e a gratidão nem se estudava com esse nome: o poder e as disputas seriam conflitos edipianos. A autora estudou as relações mais precoces e definiu gratidão e inveja como sentimentos em oposição, esclarecendo a sua presença já no primeiro objecto relacional: o seio maternal.
Introduzindo as pulsões agressivas em todos as dinâmicas interpessoais, definiu uma “inveja primária” não dependente das frustrações, mobilizada por essa agressividade estrutural (instinto de morte, sadismo oral) e pela destrutividade decorrente. O seio será o primeiro objecto amado, mas será igualmente o primeiro objecto a ser invejado e agredido, considerando o seu poder sobre o bebé que dele depende. Nele se cumpre a inveja inicial, posteriormente agenciada para todo o desenvolvimento e para todas as idades, na carência ou na satisfação. Interiorizada, inconsciente, em quantitativos variáveis, de forma mais evidente em formações caracteriais, ela pode completamente avassalar a organização mental do portador.
Já a gratidão nunca poderá ser excessiva, por definição. Facto que se deve a esta particular diferença: a inveja tem marcas, histórias, memórias, mas a gratidão não. Flui num dinamismo que só se nota quando falha, nunca acompanhada de insatisfação nem de necessidade de reparação. Significa isto que, no ser humano, as “partes más” são muito mais audíveis que as “partes boas” e que a dor é um grito, um alarme no silêncio do seu bem-estar. Clivagens, ódios, raivas, desconfianças, controlos, ciúmes, susceptíveis de presença em todos os funcionamentos e em todas as anomalias, sempre serão sentidos como objectos de crítica e de potencial correcção, enquanto a gratidão corre em silêncios sem rasto, salvo quando mascarada em racionalidades ou em interesses de ocasião.
M. Klein acentuou, além disso, a importância das boas e das más experiências na estruturação do narcisismo nascente. Vincou a sua importância na organização da unidade pessoal do bebé e na funcionalidade dessa inveja que se inicia. Segundo ela, a normalidade e a anormalidade edificam-se entre posições esquizóides e depressivas, objectos parciais e totais, identificações e projecções, identificações projectivas e ausências de idealização, podendo a inveja deteriorar todos esses movimentos quando os remete para questões narcísicas nunca suficientemente resolvidas.
Cada pessoa é um edifício formatado na relação, pelo que as mesmas razões que o edificam lhe podem prejudicar a construção. Quem se identifica agradece, por definição e por estrutura: reconhece as partes boas do outro e gosta da ressonância que em si mesmo elas propiciam, num fio condutor da generosidade e da boa memória nos humanos obrigatoriamente presente. Porventura em grau insuficiente, sem gratidão nem viveríamos, embora o invejoso disso não saiba nem, aparentemente, esteja preocupado em saber.
Relacionar-se, amar-se, implica participação e partilha. A inveja não reconhece tais propósitos porque assenta no desejo de possuir, em exclusivo, o que ao outro pertence. É todo o edifício que o invejoso põe em causa, quando o tenta desmerecer ou reduzir. Por isso mais facilmente se observa nas actividades onde a preocupação central for o poder. Na política, por exemplo, todos afirmam, directa ou indirectamente, que a gratidão não existe nem pode existir. E quanto maior for o poder antevisto maior a inveja será, numa proporcionalidade que se adivinha.
Das inseguranças na relação infantil derivam ciúmes e desconfianças, às vezes persecuções. As experiências nunca serão completamente gratificantes nem as riquezas abrem suficientes janelas se as perspectivas de poder predominarem. Boas notícias não moram naquela casa, expulsas pelo senhorio. “Vírus” então emergem, reactivados pelas frustrações, volvidos para traços de carácter em múltiplas situações. Uma vez instalado o sistema, ele não mais se poderá dispensar, sob pena de morte simbólica do portador ou do seu apagamento como pessoa. Sem inveja, o invejoso jamais se sentirá completo, consigo mesmo e com os outros.
No invejoso, o instinto de morte dispara e esconde a mão. Forja inúmeros artifícios porque se dá conta desta particularíssima condição: nem o invejoso gosta da sua inveja. Nunca a si próprio a diz, mesmo que ausentá-la não possa.
Nos grupos, o mesmo acontece: é banal disfarçarem-se invejas em cenários de rigor e de concorrência, mascarando a destrutividade que lhe subjaz.
A inveja reveste-se de malignidade quando passa do desejo de poder para o desejo de atacar quem possui, por não poder ser como ele.
Antes de atingir esse patamar, poderá ser uma natural admiração pelo outro e um benigno desejo de o reproduzir: uma ambição de pronúncia sobre o que se avista e se reconhece. Será o narcisismo e a sua eventual
patologia que lhe motorizam a destrutividade, num movimento que aparentemente pode apenas querer suavizar o narcisismo do outro, mas que evidencia, desde logo, quanto de exclusivo o autor para si próprio deseja. Pode vir a projectar-se sobre o objecto transformando-o em perseguidor, numa complexidade onde o ciúme por norma também aparece como atitude.
A gratidão poderia repor o que a inveja tendencialmente destrói, no eterno jogo entre a vida e a morte, o bem e o mal, as partes boas e as partes más, mas o invejoso instalado já não se permite a criatividade necessária para disso sair. Oculta completamente essa possibilidade, salvo em racionalidades fugazes. Limitado na crítica, deforma e desvaloriza os conteúdos a que aspira e o respectivo portador, numa glorificação de si. Mas o sucesso será sempre relativo, mesmo com acólitos de ocasião, porque a insatisfação prossegue e a sua avidez jamais se sacia, sempre supondo batotas e omnipotências na competição mais banal. No invejoso:
Nunca há plenitudes: há reservas e desconfianças.Nunca há seguranças: há tremuras e esquecimentos.Nunca há partilhas: há controlos e possessões.Nunca há festividades: há estreitezas e melancoliasNunca há caminhos: há impedimentos e conspirações.
Nas situações mais graves, todas as perspectivas acabarão por se confinar em mentiras e hostilizações. E se porventura consegue agregar parentes e similares, facilmente se atribui méritos de justiceiro, esquecendo a mão que o alimenta. Os outros nunca verdadeiramente o interessam. Objectos para um fim, por completo perdem a graciosidade mesmo que no jogo anterior a tenham tido.
Só um longo trabalho analítico pode alcançar tais conflitos. A inveja só passará a funcionar como estímulo construtivo se o invejoso conseguir defrontar-se com as suas próprias fraquezas. Só aceitando o vencedor ele poderá superar-se, conservando-o como figura de identificação e percebendo-o como exemplo. O que será sempre difícil, porque quem não aceita as suas inferioridades também nunca aceita as suas consequências.
Ninguém diz: eu sou pequeno ou eu sou invejoso, mesmo quando invejas transpiram. Todos procuram mascará-la e atribuir-lhe bênçãos, mesmo que inexplicáveis ódios e raivas os assediem. Duas ideias predominam: quanto mais público for o poder, mais cobiçado será: e quanto mais visível for o seu poder, mais o invejarão. É por isso que muitas vezes os vemos discursar aos pobrezinhos, na mais paradoxal das condições: na mira de através deles arranjar o poder de que no fundo se sentem carenciados.
Mesmo não se atrevendo a dizê-lo, o jogador “sabe” que os deuses intervirão a seu favor. Tem garantias para a próxima parada… para a interminável próxima parada.
Nesse mágico “saber”… o deus acabará por ser ele… embora também nunca se atreva a verbalizar tal afirmação.
É o desafio e o reconhecimento do seu próprio poder que o motiva.
Qual o papel da inveja e da gratidão em tão íntimo propósito?
O jogo inicia-se na competitividade infantil e em boa parte aí permanece. Mesmo praticado noutros tabuleiros, a sua estrutura inicial persiste, formalmente esquecida. Boa parte da socialização da criança passa pelo jogo e ninguém joga, apenas, segundo as regras da federação. Há elementos pessoais e intuitivos em todos os jogadores, salvo nos muito maus.
Seguranças/inseguranças, ganhos/perdas, vitórias/derrotas, amores/ódios são peças fundamentais na organização interna da sua capacidade, seja no desempenho, seja no que no adversário se imagina, convocando fragilidades e incertezas onde o pensamento mágico goza de excelentes condições para florescer. Essa componente contempla-se na roleta mais do que noutro jogo qualquer, explicando o seu paradigma e o seu insuperável fascínio. Sendo o mais cego e o mais mortífero dos jogos, toca intensamente a omnipotência e a intemporalidade inconscientes. A inteligência e a participação não a integram, pelo que nenhum jogador racionalmente gosta dela nem da sua eventual fonte do dinheiro (ganhos de roleta são para gastar loucamente, ao contrário doutros jogos), mas o desafio e a provocação tornam-na incontornável. Todo o jogador a odeia porque sabe que a não controla, mas a glória infinita aproxima-se, na mais terrível das contradições: assegura-se a derrota, mas diviniza-se o acontecido no interior do praticante.
A roleta confirma-lhe a grandiosidade. O número vai sair, as dúvidas vão desaparecer. Mesmo perdendo, garante-se o heroísmo narcísico na sua mágica função. Jogar é um acto supremo, uma intimidade recuperadora. E se porventura se conseguir um bom desprendimento sobre a bolinha que corre, o cume aproxima-se mais ainda. Todo o jogador se aspira cavalheiro, mesmo avassalado por traficâncias, pelo que esse desprendimento emocional o assinalará como dominador do mundo. Como exemplo de grandiosidade serena, os outros o notarão.
Aspiração narcísica absoluta, vertente essencial dum teatro auto-promovido, essa condição irá repetir-se até ao fim. Uma solução lhe restará, se a boca de cena se fechar: transfere-se para o euromilhões, nunca para as pindéricas grandezas das pessoas comuns. Racionalizar, memorizar, contabilizar são características de secundários: deles não rezará a história.
Numa hipótese académica, se ao jogador fosse concedida suficiente capacidade de amar, ele passaria a arriscar quantitativos razoáveis e nunca chegaria à compulsividade que verdadeiramente o define. Mas o imperativo narcísico seria abandonado, deixando ele de ser um verdadeiro jogador.
Mesmo assim, o jogador pode amar e ser amado por alguém que o admire, ao contrário do invejoso que nem isso consegue. O jogador idealiza, imagina, pode fantasiar construtivamente, ao contrário do invejoso, embora se remeta para o Olimpo e por norma suponha que só alguém tão grandiloquente como ele o possa salvar. Mas não atribui as culpas ao árbitro, nem entra em teorias da conspiração. Admite relacionar-se com os instintos da vida, enquanto o invejoso se compraz nos instintos de morte e apenas busca as seguranças que o poder lhe possa conferir.
Nesta diferença, o jogador pode deprimir-se e melhorar, enquanto o invejoso nunca terá uma depressão normal: deprimido, a situação será grave, o manicómio espera-o. Mesmo potencialmente vigarista, o jogador é a pessoa mais simpática do mundo, enquanto o invejoso nem de si próprio gosta.
A relação lúdica é indispensável nos humanos. Brincar, jogar, é uma capacidade desde o início. A mãe brinca com o bebé, o bebé brinca com a mãe, em movimentos de troca, securização e crescimento.
Quer o invejoso quer o jogador treinaram mal nos seus relvados infantis. E agora desviam, respondem, agridem… tentando compensar-se.
O jogo privilegia a fluidez relacional e dissolve os sentimentos de poder do narcisismo nascente. Possibilita disputas sem pensamentos prévios e sem prejuízos codificados. Não jogando, a criança orienta-se para violências reactivas e para estereotipias de competição. Empobrece a fantasia, restringe a comunicação, privilegiando isolamentos donde a retribuição se ausentou. Será o mesmo que uma escola onde jogo não haja: o aluno não partilha nem agradece, só por obrigação processa o que o
professor lhe diz. Não identifica nem se identifica com ele nem com os seus conteúdos, por falta de gozo e de jogo na comunicação comum.
Nesta linha de pensamento, o jogo nunca será apenas bom ou mau, bonito ou feio, moral ou imoral. Nem voluntário ou involuntário, interesseiro ou desprendido. Será tudo isso e muito mais, num conjunto de passatempo, agilidade e afecto onde a gratidão se subentende: do póquer aos joguinhos de praia todos agradecem a parceria, mesmo que nisso não pensem. Desporto e lucros virão depois. Foi a introdução do poder e do narcisismo no motor de busca que lhe prejudicou o cenário e as organizações. Por isso, ainda, o invejoso é sempre mau jogador: excessivamente defensivo, carece de espontaneidade.
Há muito de jogo em todas as actividades humanas. Destrezas físicas, capacidades mentais, formatos competitivos, horizontes reflexivos, alcances estratégicos, sexualidades movidas, agências de dinheiro, tudo isso o frequenta. A sua faculdade organiza muito do que se pensa, diz, ou faz. Utilizando variadas designações, às vezes chamam-lhe inteligência, esperteza, sagacidade, outras vezes nomes feiíssimos como batota, vício ou corrupção. Como ócio ou como negócio, num módulo onde a interioridade sempre se vincula, todos igualmente tecem enredos sobre riscos e avaliações, embora o que para uns sejam trapacices para outros sejam alegrias e gloriosas vitórias. O factor “admiração” estará sempre presente, mas será na chamada “neurose de jogo” que melhor se percebe quanto ele embala mentiras, crenças, e cerimoniais, numa espécie de esconjuro sobre os males íntimos de que o jogador depende.
Há imensas simbologias na sua funcionalidade. Partindo da dualidade mãe-filho para a triangulação que nos define, a capacidade de jogo acaba por centrar-se no xadrez entre o pai e a mãe, no que fazem, no que escondem. A curiosidade sobre o que entre eles se passa, sobre o papel do próprio naquele cenário, sobre as ansiedades decorrentes, constitui elemento seminal do jogo de cada um. Excitações, enigmas, medos, teatros, dramatizações, entradas, saídas, bastidores, cartas, fichas, desse simbolismo partem, numa espécie de religião privada. Nas suas malhas e astúcias, a triangulação edipiana argamassa todos os nossos dinamismos, gizando muito do que somos e do que fazemos, no jogo e no anti-jogo do dia-a-dia.
Tais essências sacralizaram-se nas culturas, que em formato de jogo suportam rituais civis, religiosos, académicos, militares e outros, rituais interiormente tão significativos que todos fingem não reparar nos seus ridículos e eloquentemente os prosseguem. Serão um bom exemplo do que se transformou a capacidade inicial. A cultura a si mesma alimenta,
dessa forma, através de processos projectivos e de racionalidades em eterna revisão. Deixaria mesmo de haver cultura transmissível, em minha opinião, se a dimensão de jogo entre os humanos se extinguisse.
Muita da chamada socialização também dele depende, com significados diferentes em pessoas e grupos. Exaltamos memórias, evacuamos fragilidades, retomamos poderes, em tabuleiros de muita ou pouca preparação. Sobretudo nas perdas e nos temores o jogo credita-se como reparador do futuro e da fé, acrescentando-lhe perspectivas de sorte e azar, quase sempre.
Sorte e azar ganham estatuto no jogador. Podem mesmo transformar-se em religiosa repetição, plena de certezas, vitórias e iluminações, até a polícia chegar.
Não há outra forma de o convencer, muito menos de o impedir. Só a polícia interna (culpa) ou a polícia externa (tribunal) podem afrouxar as virtudes do jogador, escalando-o para outros condomínios ou para aulas de substituição.
Sorte e azar não existem. São perspectivas de controlo sobre os aleatórios com que todos os seres vivos se defrontam, em si mesmos despidos de estranhezas e absurdos. Dá jeito acreditar, todas as coincidências adicionam magníficos argumentos, mas por sorte não deverá entender-se um destino, um dom ou uma celestial preferência. Será antes um conjunto de esforço, intuição e sensibilidade, onde as condições melhoram se a gratidão e a generosidade fizeram parte da proposta. A chamada sorte do iniciado assenta nesta última condição, difícil de purificar no adulto, mais ainda de compreender ou de aceitar. O invejoso e o batoteiro dificilmente dela usufruem, uma vez que contrariam essa espécie de moralidade que na sorte subjaz.
Foi quando a ingenuidade inicial se converteu em racionalidade e evoluiu para projectos grandiosos que a sorte e o azar se inventaram. O jogador das cavernas encaminhou então grande parte das suas potencialidades para controlos, poderes e domínios. Mas a prática e a repetição não lhe confirmaram os desejos, pelo que se enredou numa componente ficcional e atribuiu a capacidade de desfecho aos deuses (Olimpo era o monte dos deuses e, simultaneamente, o local dos jogos), determinando-se a operar em conformidade.
O prazenteiro esconde-esconde do bebé e da mãe complicou-se em segredos. Preferências, mistérios, orações, crenças, passaram a assediar todos os seus torneios, conferindo-lhe contornos enigmáticos. E assim se mantiveram até hoje.
Não devemos estranhar tal deriva. Há sempre um gato preto a cruzar-se e a justificar as mais fortes suspeitas. Na rua e na desgraçada vizinhança que nos calhou, há sempre inconfessadas presunções. Possuir um controlo remoto sobre o desconhecido, comandar o aleatório que aquele tenebroso gato exalta, representa uma estrondosa vitória sobre as insuficiências com que fomos dotados. Prezamos tanto esse jogo, sobrepomo-lo de tal modo à inteligência e à razão, que um simples bichano nos serve. Despojar essa fantasia seria adoecer, não a reconhecer seria adoecer doutro modo. E venham então os deuses, mesmo que bruxas se chamem, para trabalharmos com segurança. Eles acrescentam-nos muitíssimo e nem são grandemente exigentes: apenas nos obrigam a acreditar.
Sorte e azar são picantes de exercício. Perfumam incertezas, arrebatam futuros. Derrotam as indisponibilidades de quem manda e que para nós sempre desliga o telefone. Acorda-os, coloca-os do nosso lado. Nos alarmes que todas as imaginações criam e que todas as ansiedades ampliam, a vida seria ainda pior, apesar de todos reconhecermos a falsidade dos seus conceitos. A sorte protege-nos de injustiças, desmandos e perdas. Corrige-nos vulnerabilidades. Antes que os malefícios dêem cabo de nós, cuidados e vigilâncias devemos garantir, uma vez que a nossa inteligência e a nossa virtude estão acima de qualquer suspeita. Definitivamente a merecemos, contra aqueles invejosos da vizinhança, sempre prontos a maldizer e a prejudicar.
Dispor da sorte, controlar os acontecimentos, é um desejo profundo do ser humano. Há um narcisismo saudável nesse texto, desde que um sorriso se adicione. A sorte fica-nos bem, como dizia, deve-se à nossa excelência, mas se por acaso não vier, foi o azar que comandou. Foi ele, foi o mafarrico, não fomos nós.
Lidamos mal com aleatório, como se percebe. Mas ele funciona no bem e no mal, nas esquinas e nas rotundas, nas graças e nas desgraças. Todos gostaríamos de controlar o universo, como na imaginação infantil. No desejo de voar, a criança procura acreditar na sua capacidade de voo, mesmo que apenas aviste o andar de cima e esconda as suas incompetências debaixo da cama, local onde todas as superstições, amuletos e magias adquirem adequado formato. Sorte será uma convocação desses voos, alimentada pela publicidade enganosa de deuses desconhecidos.
Será a esperança de que a mãezinha traga chocolates o dia inteiro, que da Lua gotejem manjares. Imensos narcisismos a suportam, apesar da curvatura de costas que na sua oração se utiliza. E o azar será o diabo, que só existe para nos prejudicar, instalado de mesa feita dentro de nós. Trabalho, dedicação, empenho, confiança, autonomia, não fazem parte desses dicionários, significando que algo correu mal na edificação da pessoa.
O jogador sabe que o número bom vai sair, que a boa carta vai chegar. Não é uma esperança, é uma visão interior. “Alguém”, os deuses, a forneceram. A felicidade aproxima-se, o voo infantil vai cumprir-se. Há certezas primordiais, danças iniciáticas, coloridos sublimes, a repetir repetindo, até que os maus, os aborígenes da vida que também por aí circulam, o contrariem e pela força tratem de o corrigir.
Quer o invejoso quer o jogador têm problemas com o poder: há inferioridades no primeiro, grandiosidades no segundo. O invejoso luta com os homens, o jogador luta com os deuses.
Além disso, o invejoso esconde o jogo e nada partilha, enquanto o jogador exulta e agradece, embora o faça mais aos deuses e aos diabos do que às pessoas.
A gratidão instala-se na cumplicidade silenciosa das partes satisfeitas. Integra os participantes, num texto sem exuberâncias. Na dialéctica do amor/ódio, vitória/derrota, protege a partilha e fá-la perdurar contra voracidades, posses e vassalagens. Reconhece o outro e a “dádiva”, propiciando contrapartidas no dar e receber.
A gratidão depende dos inícios pessoais e dificilmente se edifica em relações maternais relutantes ou excessivas. Nesta segunda hipótese, muito característica dos portugueses, as mães dão tudo às crianças e tornam-nas dependentes, mas agridem-nas a seguir para que elas se libertem e novamente o fazem porque elas se libertaram sem a sua permissão. São as próprias mães, quando fomentam e simultaneamente proíbem a autonomia e o poder do filho (autonomia e poder que para si próprias sempre desejaram e invejaram, mas que nunca obtiveram), que transmitem e multiplicam as jazidas de inveja anteriormente preformadas. O filho é delas, um produto seu, de mais ninguém. Sobre ele terão um direito total, aspirando crescê-lo segundo o que de si próprias
projectam. Estas contradições bloqueiam dinamismos e retiram-lhe fluidez. A gratidão ganha forma de bondade armadilhada, passando a não ser mais do que uma alavanca instável e decadente sobre as invejas e inseguranças em que ela própria sempre viveu. E o filho, em adulto, tendencialmente assim será.
Será útil acentuar, no entanto, que a gratidão faz parte de nós. Dela não podemos prescindir, como condição estrutural. Só por ela, interiormente, nos reconhecemos e reconhecemos a consonância dos outros, mesmo que o seu espaço social pareça hoje demasiado invadido e, aparentemente, se haja transformado em medrosa atitude. Parece em vias de extinção, mas uma breve reflexão tal exclui. Sobre ela recai na actual cultura, em minha opinião, um processo idêntico ao que anteriormente se manifestava sobre a sexualidade. Mostrar algo confundível com falta de testosterona deixou de ser preocupação, como sabemos, pelo que o seu anátema se deslocou para regiões substitutivas do psiquismo. Nos nossos dias, viril será o que estiver acima dessa pequenita e pouco brilhante faceta chamada gratidão, que só medievais passivos ainda continuam a utilizar.
Exemplificando as inundações de inveja e as jazidas de “volfrâmio” empobrecido que no início referia:
Já se viu alguém poderoso mostrar gratidão seja a quem for, salvo nas cerimónias oficiais quando evoca alguém morto e bem morto e disso procura tirar algum proveito?
Já se viu algum aspirante a poderoso mostrar gratidão seja a quem for, salvo quando em dizeres públicos ou privados disso pensa tirar algum proveito?
Já se viu algum português mostrar gratidão seja a quem for (família, vizinhos, governo, etc.), salvo quando nas lojas de conveniência disso pensa tirar algum proveito, uma vez que sempre lhe falta tudo mesmo que possua quase tudo?
Tomás de Aquino dizia, no século XIII: “inveja é a tristeza em relação aos sucessos dos outros… o bem alheio é o mal do próprio…”.
Melanie Klein adiantava, no século XX: “ o invejoso adoece com o regozijo do outro…”.
Permito-me acrescentar, no século XXI: a inveja e o invejoso voltam sempre: logo de manhãzinha…