Ao glosar perante uma assembleia de psicanalistas o mote “o jogo da adaptação hormonal”, ocorre-me que estamos perante mais do que um tipo de jogo:
Um deles é o jogo da adaptação biológica ao desenvolvimento, manutenção e vicissitudes da vida e das relações com o meio ambiente em que as hormonas desempenham um papel importante. Em resumo, é a biologia em todo o seu esplendor.
O outro é o jogo do papel das hormonas no imaginário das pessoas e das sociedades civis, científicas e profissionais. Das expectativas criadas e do respectivo aproveitamento…
Comecemos pela biologia:
O nosso organismo é um sistema complexo, fortemente regulado, em interacção com um mundo exterior também ele complexo e imprevisível. Tal como para a governação de um país, é necessária uma estratégia global, uma hierarquia de estratégias locais, bons sistemas de informações e órgãos executivos, todos ao serviço de uma causa comum.
A coordenação de todas as funções necessárias para um desempenho harmonioso do conjunto é assegurada por três sistemas: o sistema nervoso, o sistema imunitário e o sistema endócrino, eles próprios comunicantes entre si.
O sistema nervoso é um emaranhado de biliões de neurónios num esparguete de aparência inextrincável. Apesar do grande investimento e dos inegáveis progressos das neurociências, ainda estamos a anos-luz de ter uma compreensão global do funcionamento do sistema nervoso que nos habilite a intervir racional e eficazmente na maior parte das
Comunicação apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008.
Director do Serviço de Endocrinologia, IPO Lisboa. Professor Catedrático na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
suas disfunções, muito especificamente naquelas que mais interessam aos psiquiatras e psicanalistas. Isto em franco contraste com as disfunções endócrinas, como veremos.
O sistema imunitário, por outro lado, é constituído por um conjunto de células dispersas por todo o corpo e agrupadas em órgãos, como é o caso dos gânglios linfáticos, do timo e do baço, ou em núcleos dentro de outros órgãos, como é o caso das amígdalas, placas de Peyer do intestino (uma espécie de pequenas amígdalas ao longo do intestino), etc. e ainda células isoladas e distribuídas por toda a parte. Estas células circulam no sangue, constituindo os glóbulos brancos, e circulam também nos canais linfáticos que se distribuem por todo o corpo. Actuam localmente em resposta a estímulos locais. Assim, a informação que se pode obter medindo produtos de secreção no sangue periférico apenas pode dar uma ideia diluída do que se está a passar nos locais onde se processa a acção.
O sistema endócrino é, no meu entender certamente enviesado, o sistema integrador mais simples.
Porquê? Porque as hormonas são substâncias químicas bem definidas que, produzidas num órgão, são lançadas em circulação e vão actuar em outros órgãos onde exercem funções reguladoras. Pela sua própria natureza, andam em circulação e podem ser medidas no sangue.
Por poderem ser medidas no sangue, o seu papel na regulação de funções fisiológicas e em desregulações ou doenças é, em muitos casos, conhecido em pormenor. A maior parte das doenças hormonais caracteriza-se por falta, ou excesso, de uma determinada hormona.
Quando o problema é uma carência hormonal, a estratégia a adoptar é óbvia – substituir o que falta usando a própria hormona ou um substituto que, por qualquer razão, lhe seja preferível. As causas das carências hormonais são diversas e podem, em geral, ser identificadas.
Se o problema é um excesso, então terá de se identificar a causa e, na medida do possível, eliminá-la. Frequentemente trata-se de tumores das glândulas endócrinas que podem ser removidos cirurgicamente.
Não estou a dizer que estes objectivos sejam sempre fáceis de alcançar. Mas, em princípio, é possível partir de sólidas bases fisiopatológicas para conceber uma estratégia de intervenção terapêutica. Às vezes acontece é que os meios práticos para a concretizar deixam um bocado a desejar.
Os órgãos próprios onde são produzidas as hormonas são as glândulas de secreção interna. Conhecemos vários exemplos – a tiroideia, as paratiroideias, que regulam o metabolismo do cálcio, as supra-renais, as gónadas, etc.
Mas a verdade é que muitas hormonas são produzidas por órgãos que têm outras funções.
A primeira hormona identificada como tal foi a secretina, produzida no duodeno, que, como sabem, é um segmento do tubo digestivo que tem funções de digestão, absorção e transporte.
O coração produz uma hormona, a atriopeptina, que actua na excreção do sódio, o estômago produz a gastrina e a grelina, esta última hoje considerada muito importante na regulação do apetite e do metabolismo energético.
O próprio tecido adiposo, até há pouco considerado um órgão plástico, isolador térmico e de reserva de lípidos, produz grande quantidade de hormonas responsáveis, entre outras coisas, pela insulino-resistência e pelo agravamento da diabetes na obesidade.
Assim, o conceito de glândula endócrina não tem nenhuma especificidade anatómica.
Por outro lado, as mesmas substâncias que, enquanto circulantes, se chamam hormonas, podem ser neurotransmissores, isto é, são libertadas nas sinapses e veiculam informação de um neurónio para o outro ou para um órgão periférico. Por exemplo, a noradrenalina é uma hormona quando libertada pela medula supra-renal, mas é também o neuromediador major do sistema simpático. Mas não é o único – outras hormonas são também neurotransmissores.
Estas mesmas substâncias podem também ser produzidas e difundidas localmente, actuando apenas nas células que lhes estão próximas – a isto chamam-se secreções parácrinas.
As próprias células do sistema imunitário produzem hormonas que actuam localmente de forma parácrina, como, entre outras, a ACTH (Adreno Cortico Trophic Hormone) e a prolactina. A primeira é uma hormona hipofisária que estimula as supra-renais, enquanto que a prolactina actua na produção de leite, expressão do comportamento maternal, e acumulação de gordura. Mas quando produzidas pelos linfócitos, as secreções destas hormonas são reguladas de forma diferente das secreções hormonais e os receptores sobre que actuam (e portanto as suas funções) são também diferentes.
Assim, os três sistemas integradores – endócrino, nervoso e imune – utilizam, além de substâncias específicas, muitas outras que lhes são comuns.
Até aqui descrevi conceitos que até podem ter sido novidades para alguns de vós, mas que são conhecidas pela maior parte das pessoas
que trabalham em Endocrinologia. Mas há interacções que são, em geral, ignoradas e não constam nos livros de referência. Por exemplo, quando se remove uma supra-renal, a redução na secreção hormonal daí resultante estimula a actividade do hipotálamo, que por sua vez estimula a hipófise, a qual produz hormonas que estimulam a supra-renal restante. Esta aumenta de volume e de função e, passado algum tempo, produz tanta quantidade de hormonas quanta dantes era produzida pelas duas. Estes mecanismos de retrocontrolo (feed back) são mecanismos gerais de adaptação muito bem conhecidos dos fisiologistas.
O que é quase desconhecido é que, na sequência desta operação – remoção de uma supra-renal –, o correspondente núcleo homolateral do hipotálamo se atrofia, enquanto que o núcleo contralateral se hipertrofia. Ora, isto não pode ser explicado pelas hormonas, visto que elas chegam por via circulatória aos respectivos órgãos-alvo mas estes não têm qualquer possibilidade de saber de onde é que a hormona veio.
Esta lateralização só pode ser explicada admitindo que os órgãos periféricos – neste caso, as supra-renais – também comunicam com o hipotálamo por vias nervosas, estas sim definidas topograficamente pelos seus pontos de origem e de destino.
Ora, esta informação e outras no mesmo sentido demonstram a grande importância do sistema nervoso vegetativo, como também a imensidade da nossa ignorância sobre o seu funcionamento.
E não pensem que estas descobertas são muito recentes e por isso pouco conhecidas. Já têm uns anos e foram confirmadas.
O que acontece é que estas observações são esquecidas pela razão muito simples de que não sabemos o que fazer com elas. Não temos instrumentos para explorar o sistema nervoso vegetativo que se aproximem, em eficácia, daqueles que temos para explorar a regulação hormonal.
Assim, a evolução do conhecimento científico e tecnológico está sujeita a zonas de ocultação e a modas que dependem de vários factores, como, por exemplo, este a que aludi – a não existência de instrumentos conceptuais ou tecnológicos que permitam abordar os problemas. Isto para não falar de interesses ligados ao poder e ao dinheiro. Mas isso são outros jogos.
Tratemos agora do jogo do papel das hormonas no imaginário das pessoas e das sociedades civis, científicas e profissionais. Das expectativas criadas e do respectivo aproveitamento.
A mística de que as hormonas contêm algo de transcendente e poderoso já é antiga. Parte dela provém de uns trabalhos de um famoso
neurologista e fisiologista francês, Brown-Séquard, que, em 1889, e já com 72 anos, fez um conjunto de comunicações à Sociedade Francesa de Biologia em que exaltava as virtudes rejuvenescedoras das injecções subcutâneas de extractos aquosos de testículo de cão e de cobaia. Para o impacto destas comunicações deve ter contribuído, em não pequena parte, o facto de o próprio Brown-Séquard ser o objecto das observações – isto é, ele tinha experimentado em si mesmo.
Isto provocou acesas polémicas e muito cepticismo. Estas comunicações tiveram rápida expansão mundial, isto é, foram largamente seguidas e comentadas em França, Inglaterra e Estados Unidos. E não só no meio médico, mas também no público em geral. E não só na época, mas também nas gerações que se seguiram até à actualidade. Até há poucos anos, havia umas clínicas na Roménia onde alguns dos grandes deste Mundo iam fazer tratamentos de rejuvenescimento com injecções de extractos de tecidos.
Mesmo no nosso País há uns anos uma clínica médica usava o seguinte slogan publicitário para tratamentos com hormona do crescimento – “dê-nos dez dias e nós damos-lhe dez anos”.
Foram Brown-Séquard, e D'Arsonval que criaram o conceito de que os extractos de tecidos conteriam “secreções internas” com propriedades terapêuticas. A palavra “hormona” só apareceu mais tarde, em 1905, aplicada à secretina, mas o conceito já aqui estava.
O tratamento com extractos de órgãos expandiu-se até muito recentemente e permitiu salvar milhões de vidas – foi a tiroideia primeiro. Seguidamente, a insulina, extraída dos pâncreas de animais por Banting e Best, em 1922, e imediatamente aplicada ao tratamento da diabetes tipo I. Mais recentemente, o tratamento de crianças de muito baixa estatura devido à falta de uma hormona – a hormona de crescimento – foi também conseguido com hormona extraída de hipófises humanas.
Eu próprio tratei muitos doentes com hormonas extraídas das tiroideias de animais, tratei diabéticos com insulina extraída de animais e tratei carências de hormona de crescimento com hormona de crescimento extraída de hipófises humanas.
Se não o faço de há cerca de 15 anos para cá não é porque esses produtos não fossem eficazes, é porque desapareceram do mercado. E desapareceram sobretudo por razões de natureza tecnológica e económica, na medida em que a obtenção das hormonas por síntese, seja por técnicas químicas, seja por técnicas de biologia molecular, é muito mais barata e permite fornecer quantidades praticamente ilimitadas de produtos a
mercados em expansão. Os colibacilos ou células em cultura trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana e não têm sindicato. No caso da hormona de crescimento e mesmo da insulina, punha-se um problema que já não era só de custo. Era da falta de matéria-prima para satisfazer a procura.
Também os produtos obtidos por síntese podem ser modificados de forma a obter análogos com vantagens em relação aos produtos naturais e, sobretudo desde o pânico da encefalopatia espongiforme (das vacas loucas), os produtos de síntese dão mais garantias de não conterem contaminantes infecciosos do que os extractos de órgãos de animais ou de humanos.
Podemos agora deitar um olhar crítico sobre a história das injecções de extractos de testículo que Brown-Séquard deu a si mesmo.
É sempre difícil fazer julgamentos sobre eventos ocorridos em épocas distantes em condições experimentais que não sabemos bem quais foram e num clima que já nos é estranho. Mas custa a perceber como é que os extractos que Brown-Séquard usou poderiam ter tido alguma eficácia. A quantidade de hormona masculina armazenada nos testículos é minúscula – cerca de 0,025 mg por par (no homem), enquanto que a produção diária no homem é de cerca de 8 mg/dia, ou seja, 320 vezes mais. Seria preciso um número enorme de órgãos para obter uma quantidade de hormona comparável àquela que um homem normalmente produz.
Além disso, a experiência tem demonstrado que, em homens normais de qualquer idade, a administração de hormona masculina, mesmo em doses elevadas, é pouco eficaz para resolver aqueles problemas para que tem sido solicitada – problemas com a libido ou com a potência. E isto pela razão simples de que as causas do mau desempenho, na maior parte das vezes, são outras que não a falta de hormonas. Nunca dá grande resultado substituir aquilo que não falta.
E aqui têm como uma experiência metodologicamente inaceitável e cujos resultados positivos só podem ser atribuídos às expectativas optimistas do experimentador – como homem e como cientista – rasgou horizontes que vieram a revelar-se extremamente ricos, tanto do ponto de vista científico, como do ponto de vista prático no tratamento de doentes.