1 Do quadro de valências de qualquer dispositivo cultural, político ou jurídico faz parte a hipótese da fulguração. Ela é-lhes, de resto, consubstancial. Correspondendo a uma disponibilidade para interagir com o “jogo do mundo”, representa a possibilidade sempre em aberto de o próprio sistema repensar esse outro elemento que de igual modo lhe é inerente e em torno do qual ele se estrutura, o pólo da coerência. Nem por isso esta convivência é pacífica. Desde sempre, diversas modalidades de estabilização social têm procurado domesticar a dinâmica imparável do jogo e reduzir a presença, nele, do imprevisto da fulguração, para melhor o afeiçoarem a determinada província de significado. A mediação, o contexto, ou a própria cultura, entendida enquanto modo de sediar uma dada atribuição de sentido, são exemplo dessas modalidades, aspirando a constituir-se em zonas de filtragem sobre a instabilidade do jogo. Uma tradução esquemática desta ideia pode ser a de que a fulguração tende, historicamente, a ser aprisionada pelo contexto.
Ensaiemos uma leitura menos crua: a cultura, e sobremaneira o respectivo desdobramento em “culturas”, cada uma delas afeiçoada a determinada competência zonal e a determinado banco de dados dotado de coerência, apresenta-se, justamente, como hipótese de mediação entre esse jogo “local” cujo sentido ela referencia e cujas “regras do jogo” ela conhece e institui, e esse outro sentido, que lhe é exterior, produzido pelo “jogo do mundo”, e que releva de uma lógica de fulguração. Pode, por isso, o campo cultural definir-se como o palco de uma tensão entre contexto e fulguração. Uma tensão que pode tomar-se por estruturante, quando não mesmo a pedra de toque da dimensão cultural.
Comunicação apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008.
Professor de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
2 Tanto assim é que a resolução precipitada daquela tensão a favor do pólo da coerência (aspiração inconfessada de toda a escala cultural), desemboca, por norma, em fenómenos de enquistamento cultural tendencialmente auto-celebratórios e não raro de propensão ditatorial. Uma vertigem que tem no essencialismo a sua caricatura.
De acordo com a lição de Konrad Lorenz as estruturas pagam tributo à cristalização. E é por ser assim que, do seu ponto de vista, os sistemas culturais, porque sistemas vivos, não podem prescindir de uma permanente busca de compensação, mediante a qual os factores de conservação, próprios do apego do sistema à respectiva estrutura, devem forçosamente abrir-se à energia e aos saltos inesperados produzidos na esfera da fulguração. Uma abertura que pressupõe, naturalmente, uma complexificação do regime de alteridade vigente no dispositivo cultural, acrescentando à clássica estética de oposição entre os contrários uma estética de complementaridade capaz de administrar o potencial de articulação. Só assim o sistema cultural poderá canalizar positivamente o potencial traumático que ele carrega e que lhe advém do carácter paradoxal da sua própria estrutura de referencialidade: esta, ao mesmo tempo que, pela sua fixidez, possibilita a realização da liberdade, tem como contrapartida a produção ininterrupta de limites que podem equivaler a uma redução drástica da liberdade. É que a própria adaptação, ao consumar-se no âmbito cultural, consuma-se enquanto estrutura, o que pode fazer da recepção do novo um círculo vicioso que mata a energia da fulguração no momento da sua chegada.
Que consequências podem retirar-se do que vem de ser dito, e em particular desta limitação, para os dispositivos culturais? Se é verdade que, conforme assinala Miguel Baptista Pereira, diferir é tão real como unir e, por isso, as unificações sistemáticas, que se convertem em totalizações definitivas, olvidam e reprimem a dimensão capital da diferença, o que pode querer isso dizer no relativo ao processo de mediação entre contexto e fulguração?
3 A resposta a esta questão dependerá do entendimento funcional que é feito da dimensão cultural. A esse respeito, a minha pré-compreensão é a seguinte: o entendimento das culturas como reportórios culturais e o seu reconhecimento simultâneo como dispositivos.
A consideração da cultura como reportório implica, de alguma maneira, que a ideia de essência não vai sem a de agregação. Uma agregação sempre possível mas sempre irregular de valências, expressões, propriedades e experiências históricas, a qual desenha painéis de atributos e valores
em que a matéria original e a matéria incorporada sabem que são parte de um sistema que comporta ainda e sempre a matéria a incorporar. O dado mais significativo será porém o que decorre da dinâmica do reportório assim constituído. Ele é jogo, e, assim sendo, ele configura um verdadeiro dispositivo, maneira de dizer que se reflectem nele as categorias da activação, da selecção, da sobreposição, do deslocamento e, inevitavelmente, da fulguração – precisamente a que pode surgir por ocasião dos encontros inesperados entre os componentes do reportório, do deslocamento dos materiais para fora dos seus locais naturais, do consequente surgimento de vizinhanças inesperadas, do tipo de combinatória produzida por cada conjuntura histórica concreta, ou da complexidade decorrente da recepção de matéria “contaminada”, quer dizer, proveniente de outros reportórios. E, porque de agregação se trata, a contingência não anula a referência, soma-se a ela, do mesmo modo que a manifesta disponibilidade do dispositivo não exige a omissão da sua matéria fundante, apõe-se-lhe. Com consequências, claro. A mais relevante será a de que, a esta luz, a referência-fundamento não coincide com um lugar incólume; sê-lo ou não é assunto em aberto; porque, nesta perspectiva, ela está obrigada a explicar o processo pelo qual, em dado momento, ela escamoteou o seu processo histórico de construção e passou de fundação a fundamento. E com que legitimidade o fez, e que outras legitimidades calou, e assim por diante.
O grau de exaustão deste tipo de inquirição e o grau de vontade de cavar mais fundo dependerão, naturalmente, do modo como cada sistema cultural se relaciona com o sistema político. Dependerá, portanto, conforme acima disse, do entendimento funcional que é feito, em cada caso, da dimensão cultural. Para sociedades que se habituaram a fazer do contraditório fonte de legitimação, não vejo que aquela discussão em torno do núcleo duro dos dispositivos culturais possa estar fechada, o que, a verificar-se, equivaleria a fazer da cultura uma zona em estado de excepção permanente. Admito, entretanto, que a possibilidade de universalizar esta visão é nula. Basta uma pré-compreensão diferente daquela que acima comecei por assumir, para emprestar a esta questão uma leitura substancialmente diferente. Sem remissão. O “lugar da cultura” é justamente o de uma posição de indeclinável especificidade, motivo pelo qual a questão do “lugar” é já a questão da funcionalidade. Mas isso não me inibe de sugerir que, pelo menos no âmbito das “sociedades políticas do contraditório”, se a expressão me é permitida, alguma resistência a esta condição sistémica ou configuracional da operação cultural e à
disponibilidade por ela engendrada para com a hipótese da fulguração pode filiar-se em indicadores de algum cansaço para com o múltiplo e a complexidade, visíveis nas mais diversas áreas da contemporaneidade. Tenho chamado a este fenómeno a nostalgia do pensamento único.
4 Os seus indícios são de vária ordem. Em termos genéricos, pode afirmar-se que o seu pano de fundo é uma incompreensão basilar para com as presentes modulações subtis dos regimes de temporalidade. Diria que a grande perplexidade subentendida nesta incompreensão resulta de uma situação paradoxal da cultura contemporânea, a saber: a consciência de alterações marcantes e de mutações profundas não é acompanhada da possibilidade de delimitar com exactidão o momento da superação. Ora o que sucede é que esse ponto inexiste, desde logo porque a própria superação não esgota, também ela, os formulários da mutabilidade. Trata-se, nas culturas actuais, de uma chegada do novo que não tem a ver com eliminação do antigo, mas que se conjuga com ele, impondo processos de contaminação mútua e de reciclagens permanentes ali onde antes era suposto proceder-se a substituições, ultrapassagens, oposições, evoluções mais ou menos lineares, etc. Em rigor, nenhuma destas modalidades de mudança desaparece, mas elas são agora possíveis modalidades, entre outras, de organizar o modo da mudança.
É, aliás, dentro desta linha analítica que se percebe a inadequação das vulgatas dos “fins”, de que o “fim da história” é expressão cimeira, ignorantes de que mesmo a ausência de determinada funcionalidade do seu prototípico local de referenciação pode corresponder a um fenómeno de deslocamento ou de reconfiguração funcional, suscitando muito mais a questão “para onde foi?” do que um toque de finados que dê por adquirido aquilo que prossegue enquanto pergunta e, portanto, enquanto problema a resolver. A paródia do “mundo sem fronteiras” aplicada a um tempo que é, talvez como nenhum outro o foi, um incorrigível produtor de fronteiras, ou o nada inocente “fim do Estado”, preconizado ao arrepio das mutações operadas ao nível das categorias funcionais congéneres do dispositivo estatal, ou ainda, por todos, a repetida “morte do sujeito” com que se pretende rematar aquilo que é, afinal, uma “desfocagem” resultante da sua manifesta pluralidade e desmultiplicação, são bom exemplo desse logro, responsável por uma verdadeira procissão de cadáveres adiados. Em todos esses casos, a resistência ao reconhecimento da pluralidade constitutiva dessas “realidades em fuga” parece ditar o respectivo veredicto á luz de critérios de diferença, oposição e mudança
alheios a uma dinâmica complexa. Não porque de alguma maneira a complexidade suceda, por substituição, à linearidade. Esse é precisamente o modelo de raciocínio que não procede. Se o mundo hoje é particularmente complexo não é porque “superou” a linearidade, é antes porque, mantendo-a vigente, comporta em simultâneo a complexidade.
Resultado, também, de uma resistência elementar a esta realidade são os discursos da crise, hoje tornados verdadeiras “estruturas de repetição” Esquecido o tradicional sentido da noção, em especial a ideia de que a declaração de crise corresponde a uma vontade de produzir uma incisão sobre a ordem das coisas e à possibilidade de introduzir uma pergunta ali onde dela se carece, o discurso da crise alimenta hoje um pensamento conservador que tem como bandeira a “crise de valores”, não por acaso comummente associada a uma “crise cultural”. Quando o facto é que, também aqui, ao invés de uma ausência ou fim de valores, me parece estarmos bem mais em presença de uma desmultiplicação de valores e padrões culturais de toda a ordem, decerto não coincidentes, se não mesmo negando-se mutuamente, ou porventura dispersando ao máximo a sua significância de local para local, mas cuja marca diferenciadora em relação ao panorama anterior assenta sobretudo numa recusa de exclusividade e de preponderância hierárquica da tábua dos valores e não tanto numa vontade de rasura de todo o material fundante e canónico.
É contudo provável que a expressão maior desta toada de nostalgia de um pensamento único seja a produção de fantasmas. O da insegurança, que justifica, acto contínuo, os discursos de lei e ordem, tem-se revelado dos mais operativos. Mas a eleição do relativismo à categoria de fantasma da cultura contemporânea é espantosa (suspeito que ecoe nesta fantasmagoria o receio ameaçador de uma fulguração não devidamente domesticada e insusceptível de canalização positiva), e é-o mais ainda se pensarmos na menor caracterização fantasmagórica que, por comparação, é dirigida ao fundamentalismo. Porque o certo é que, se o relativismo, entendido como algo a que estamos condenados (é impossível produzir escolhas ao mesmo ritmo em que a torneira do múltiplo vai derramando opções), está, enquanto tal, sensivelmente onde sempre esteve, ainda que “engordado”, pela negativa, pelos vazios de distintos “amanhãs que cantam”, o fundamentalismo é uma patologia da vontade de aderir, sendo nessa exacta condição que, nas últimas décadas, “saiu dos seus gonzos”. O pior do relativismo é mesmo a sua propensão para o fundamentalismo, o que sucede sempre que, ao ambicionar fundar doutrina e dignificar a turbulência, ele faz bandeira do múltiplo
enquanto missão, com o que anula cedo de mais todo o potencial que só pode residir num múltiplo deixado em aberto. Em aberto – isto é, como um problema a suscitar resolução. Tal é a condição para que possa ocorrer o acto do perguntar, única forma de prover ao desdobramento da crise nessa sua dimensão gémea que é a de crítica. A pergunta, ao libertar-se, aniquila o relativismo que a propicia; mas não há fundamentalismo que possa recebê-la.
5 E pelo que pergunta essa pergunta? Pelos limites. É por eles que ela pergunta.
O que se compreende. Para um tempo cultural rasgado pelas questões da sobreposição, da simultaneidade e da interacção, a necessidade de demarcar preenche o horizonte de expectativas na medida exacta em que se difunde a consciência de uma carência delimitadora. Mas a solicitação para que sejam activados determinados mecanismos de redução da complexidade e de estabilização das expectativas – a demarcação é um deles – ocorre em paralelo com a produção incontinente do múltiplo e com um alargamento do quadro dos possíveis assegurado por uma maquinaria processual de expectativas trabalhada pelo desejo e movida por uma vontade forte de preenchimento. Descortinar onde começa uma e outra destas duas tendências não é fácil. Reencontramos aqui, de alguma forma, o problema da tensão entre fulguração e contexto que atrás dissemos ser a pedra-de-toque da dimensão cultural. Aparentemente, tudo aconselha a fazer da inevitável operação de mediação entre eles, tanto quanto possível, uma operação de demarcação. Mas o que implica demarcar? Onde, como e com que critérios estabelecer o limite?
A pergunta faz todo o sentido. Porque, repare-se: sendo o contexto, ele mesmo, o resultado de uma demarcação, pois ele é a atribuição de coerência a elementos dispersos vigentes dentro de determinados limites, não estará ele vocacionado para fazer dessa operação de demarcação uma operação de compactação e de uniformização (em virtude, precisamente, da particular devoção do contexto ao pólo da coerência, mais do que ao pólo da contradição)? Mas, nesse caso, a ser assim, não se justificará uma abertura da dimensão cultural ao pólo da fulguração que ela constitutivamente visa constranger? Poderá o pólo da fulguração, entretanto deixado em suspenso, constituir-se em válvula de escape perante a excessiva propensão quietista do contexto? É afinal emancipatória a fuga dos jogadores para essa exterioridade mais ampla que é o jogo do mundo? E, em caso afirmativo, pode esse “salto” ser sem condições?
6 Em relação ao contexto, prescindirei do óbvio: que ele comporta um tremendo potencial de correcção e de estabilização perante a instabilidade global das geometrias identitárias, ou que, em sentido inverso, o contexto cultural – local, regional, ou nacional – tem um historial pouco recomendável de redução do múltiplo ao uniforme, etc. O ponto onde o contexto se afigura hoje interessante e onde de facto desafia a presente reflexão é na respectiva consideração enquanto escala e na suposta operatividade “todo-o-terreno” que, enquanto tal, o caracterizaria. E isto porque essa pressuposição me fornece o pretexto para colocar a questão que tenho por fulcral: será que há uma escala privilegiada para efeitos de intermediação cultural?
Proponho uma resposta negativa. E sugiro, em termos auto-críticos, que a pergunta está mal colocada. O problema não é a escala em si, o problema é, apenas, o da possibilidade de definir, em cada momento, a escala pertinente – conveniente, justa, estimulante, mais ou menos híbrida, mais ou menos coesa, mas apenas libertadora na medida em que se apresentar como resultado de uma escolha ou de uma negociação. Porque o facto é que, em potência, cada escala, toda a escala, se constitui em prisão para o capital de inesperado supostamente à espera de cada indivíduo (não raro, o indivíduo é promovido/reduzido a emblema da cultura englobante, operação política localmente produzida e que carece, por vezes, de ser desmontada pelos investigadores que aceitam sem mais essa escala como operativa). O carácter construído das escalas e dos respectivos limites é o não dito quer dos processos de demarcação cultural, quer, fatalmente, dos projectos de diálogo intercultural, sempre que estes se apressam em abrir o diálogo sem questionar a efectiva representatividade das escalas em presença. e os níveis de silenciamento interno das diferenças subjacentes a cada uma delas. Toda a entidade cultural é, por definição, impositiva, em maior ou menor grau, de um limite, de uma ordem, de preferências de todo o género que, forçosamente, excluem outras. Assim, só a possibilidade de olhar criticamente a escala, qualquer que ela seja, abrindo-a ao jogo do limite e permitir que ela fique disponível, é razoavelmente libertador. O contexto, se despido da necessidade de justificar a demarcação e os fundamentos que o suportam, é sempre totalitário. E ilegítimo.
Em síntese, não há bondade intrínseca em qualquer escala, o que há é a correcta percepção da coexistência e sobreposição de escalas. Donde, o que há, inevitavelmente, é a mobilização forçosa do critério da pertinência, ou seja, a possibilidade de escolher, em cada momento, qual a
escala pertinente e qual o contexto em causa. Quer dizer: é a pertinência, entendida como jogo do limite e como possibilidade de demarcação conjuntural e contextualmente situada, que permite escapar à vertigem conformadora e envolvente das escalas dadas por antecipação e dos contextos culturais publicitados como essências. Todo o limite que se quer compaginável com dignidade é, em primeira instância, questão de pertinência. É-o, pelo menos, o limite em acção nas “sociedades políticas do contraditório”. E é na condição de um tal entendimento, e só nela, que pode dizer-se não haver liberdade, nem cultura, fora do limite. De fora ficam as sociedades aplainadas e vazias, carentes de limites, onde medra o populismo; e fica toda a tradição autoritária que insiste em afeiçoar a morada do homem ao limite que lhe está previamente destinado.
7 Nesta perspectiva, a questão passa por “devolver” à cultura a dimensão de hipótese que ela necessariamente comporta. Em sede de evolução humana, num ambiente em que terá sido precisamente a junção de oportunidades e desencontros de vária ordem, misto de acaso e de cruzamentos inesperados, que forjou as possibilidades e caminhos evolutivos à espécie, a cultura ocupa um segmento não forçosamente coincidente com a evolução biológica. O avanço e os saltos de uma não são correlatos dos avanços e saltos da outra. Quer dizer que a cultura não é, desde as suas primeiras expressões, um reflexo do existente, ela é então, em boa parte, fulguração, hipótese em aberto. É jogo.
Vimos atrás que, se a gestão do múltiplo faz deslizar a tensão cultural para o lado da fulguração, abrindo-se ao jogo, a negociação do limite produzida pelo contexto procura subtraí-la a esse mesmo jogo, como que impondo-lhe uma paragem, uma suspensão. Mas vimos também que, ao fazê-lo, é de novo no jogo que ela desemboca. Ora, os jogadores sabem, como diria Gadamer, que não são o jogo, que não coincidem com o jogo. Mas sabem, por conseguinte, que, se ele lhes é exterior, ele pode constituir uma válvula de escape, um espaço outro para onde apelar é possível, com o qual negociar é possível. A imagem pode ser dada pelo urbanismo contemporâneo: o jogo do mundo, espaço da fulguração, funciona como circular externa das cidades no interior das quais as mediações e os diferimentos de sentido não descolam, por vezes, do enquistamento, da tradição e das rotinas tautológicas. Do que se trata, pois, é de democratizar o acesso, num e noutro sentido, às vias que fazem a ligação entre a malha urbana, no centro, e esse arco de possibilidade, acaso, contingência e oportunismo que é expectável ocorrer na cintura externa. Há boas
razões para crer que este jogo-de-fora-dos-jogadores, pela simples possibilidade de ser jogado, comporta uma estimável dimensão libertadora. Até porque essa hipótese de jogo não dispensa uma pergunta que a antecede: Ficar ou Partir?; Ponte ou Porta? É importante garantir a possibilidade da pergunta. E, depois, é conveniente que a pergunta tenha resposta.