É para mim uma grande satisfação falar do futebol e da sua significação profunda num momento em que a Humanidade procura compreender melhor os fundamentos ontológicos da sua existência e o sentido último do seu destino.
Falar do futebol é falar da Humanidade e do próprio universo, é falar, no fundo, do próprio mistério do homem.
O futebol, mais do que todos os outros desportos, mais do que todos os outros jogos, é naturalmente inteligível. Porém, ninguém consegue explicar o mistério desta inteligibilidade. Todas as explicações são falsas porque incompletas, parciais, por vezes profundamente redutoras e, sobretudo, demasiado realistas. A paixão universal do futebol é um mistério para viver e não para compreender racionalmente.
Pelas suas origens, pelos símbolos que utiliza, pelos temas fundamentais que celebra e pelos rituais fundadores que constituem o seu funcionamento, o futebol está ligado ao universo dos mitos e à religião e faz-nos percorrer todo aquele universo misterioso onde podemos encontrar modelos de comportamento e formas de pensamento sobre o homem e sobre o mundo e assim descobrir o sentido da existência humana e compreender o lugar que o homem ocupa neste imenso campo de jogos que é o Cosmos e que acção lúdica ele aí tem de realizar para conseguir cumprir o seu destino. Podemos, pois, a partir do futebol, chegar a uma maior compreensão da natureza lúdica do universo e do próprio homem que aí se realiza enquanto jogador à procura de uma vitória final.
Comunicação apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008.
Professor Catedrático Jubilado na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.
É esta significação do futebol que vamos procurar descobrir e comunicar através destas breves reflexões que vou apresentar e que mais não são do que uma tentativa de chegar a uma visão poética e lúdica do homem e do mundo e a uma descoberta do sentido, sempre cheio de mistério e de riscos, da epopeia humana, aventura sempre grandiosa embora dramática, mas que vale a pena de ser vivida com esperança e entusiasmo.
Agora, deixando de lado o seu funcionamento espectacular e social, vou falar do outro lado do futebol, do lado onde se situam o seu mistério e as razões profundas da sua força e onde podemos descobrir a sua significação profunda e o valor da sua mensagem profética para o momento presente que vivemos e mesmo para o futuro que desejamos para a humanidade.
Segundo M. Mauss, um facto social total é aquele no qual vemos em funcionamento traços ou vestígios das instâncias fundamentais da sociedade que são as seguintes: política, económica, familiar, educativa, religiosa e recreativa. Não será difícil de verificar que o futebol apresenta, no seu funcionamento, muitos traços e vestígios destas seis instâncias fundamentais da sociedade. Mesmo em áreas como a educação e a religião, encontramos muitos aspectos que nos mostram as afinidades profundas entre elas e o futebol.
Além disso, este facto social total que é o futebol é também um fenómeno verdadeiramente planetário, vivido da mesma maneira no universo inteiro, instaurando festas e celebrando acontecimentos capazes de unir toda a humanidade numa comunhão universal que nenhum outro facto é capaz de conseguir.
Tudo no futebol manifesta a sua natureza simbólica.
Podemos começar pela sua estrutura espaciotemporal, pelo cenário onde o futebol se desenrola. Os estádios são lugares altamente significativos e vistos actualmente como símbolos da importância de um país e da grandeza de um povo. Antigamente, como foi o caso da Idade Média, construíam-se grandes catedrais e estas exprimiam a grandeza e o orgulho das nações. Hoje é pelos seus estádios que, muitas vezes, se mede a grandeza de uma cidade e mesmo de um povo.
O terreno de jogo é a imagem do nosso espaço social e do cenário da nossa existência onde nós lutamos para conseguirmos as vitórias da nossa vida, tanto individual como colectiva.
O tempo de jogo é igualmente simbólico e fonte de sentido para uma das coordenadas fundamentais da nossa existência, a coordenada temporal.
Todo o material utilizado no futebol, desde a bola, os equipamentos, as cores, as bandeiras, etc., são também elementos carregados de simbolismo. Os dirigentes são imagens dos antigos chefes tribais e, no contexto actual, podem ser o espelho dos dirigentes da nossa sociedade. Os jogadores são os nossos representantes e, através deles, podemos conseguir vitórias por procuração e com eles nos sentimos também vencidos no momento da derrota. Igualmente os árbitros são figuras profundamente simbólicas: são os símbolos da verdade e da justiça, são os representantes da lei e garantes da ordem, são os mestres de cerimónias e, muitas vezes, são os bodes expiatórios das derrotas e da violência, tanto mais que esta encontra, no futebol, uma ocasião altamente favorável para se manifestar.
A própria competição está envolta em simbolismo, o mesmo acontecendo à linguagem desportiva. Um jogo de futebol é tratado como uma verdadeira guerra simbólica e a linguagem desportiva utiliza amplamente o registo bélico no seu funcionamento. Uma leitura atenta da imprensa desportiva faz-nos descobrir rapidamente todos estes aspectos que acabamos de referir.
Toda a simbólica do futebol é de natureza profundamente cosmológica, o que nos ajuda, desde já, a compreender a intensa religiosidade que todos sentimos no funcionamento deste desporto, cujas raízes se situam nos tempos arcaicos da humanidade. Vamos apenas referir-nos a dois simbolismos particulares do futebol porque eles nos parecem muito importantes para a construção de uma imagem poética do mundo a partir deste desporto, objectivo principal das nossas reflexões: o simbolismo da bola e o simbolismo do terreno de jogo.
No futebol, a questão das representações cosmológicas e de todo o pensamento mítico da mesma natureza tem como ponto de partida a bola. Esta teve sempre, nas sociedades arcaicas, uma significação cósmica e religiosa muito particular.
Símbolo da Sol e da Lua, do Cosmos e da Terra, da alma do mundo e da alma humana, a bola possui uma força simbólica capaz de nos ajudar a pensar o Cosmos como manifestação e modelo do mundo humano e a descobrir o homem como “ser-no-mundo”, vivendo numa sociedade que se realiza num quadro existencial de tipo cósmico. Isto é de uma importância capital num momento da história humana em que as fabulosas conquistas espaciais correm o risco de não serem acompanhadas pela descoberta de sentido do cenário espacial da nossa existência.
O simbolismo da bola deve ser situado no conjunto da simbólica dos jogos com bola que, nas sociedades arcaicas, eram essencialmente representações rituais, sob uma forma dramática, da luta fundamental do universo e eram sempre integradas em festas religiosas, constituindo, por vezes, a parte mais importante destas mesmas festas.
Herdeiro dos antigos jogos rituais, onde a bola era, antes de mais nada, símbolo do Sol, o futebol faz-nos, pois, recuar até às origens do mundo e da sociedade e situa-nos no âmago da experiência religiosa do homem arcaico – Homo ludens//Homo religiosus – para quem o Sol era uma das principais representações visíveis da Divindade.
Além deste simbolismo mítico-religioso e mesmo filosófico e antropológico da bola, podemos referir sumariamente um outro mais de carácter sociológico. Num mundo estruturado à volta do princípio da oposição, o simbolismo da bola permite e convida à análise de toda a estrutura conflitual da sociedade. Pontapeada em todas as direcções, por parceiros e adversários, a bola pode ajudar-nos a compreender que a estrutura contraditorial da sociedade é, como afirma, aliás, o sociólogo M. Maffesoli, um arquétipo intransponível, mas é a sua presença que permite o funcionamento da sociedade e que dá sentido ao jogo existencial do próprio homem.
O estádio de futebol goza também de um simbolismo particular. Como já referi, a imprensa desportiva apresenta, muitas vezes, os estádios de futebol como lugares sagrados, como santuários grandiosos do culto da bola redonda. Ali se vivem manifestações populares impressionantes, onde a emoção e a religiosidade popular atingem o seu paroxismo.
Um estádio de futebol, com uma forma geralmente zodiacal, símbolo do tempo astrológico absoluto, e com uma organização minuciosa da sua estrutura espacial, lembra o espaço cosmisado das sociedades arcaicas e pode ser considerado como uma verdadeira imagem do mundo.
A forma do terreno de jogo é também cheia de significação. Como dizia M. Eliade, para o pensamento mítico, “o quadrado construído a partir de um ponto central é uma imagem do mundo e um símbolo da perfeição”.
O terreno de jogo é rigorosamente organizado e cada uma das suas divisões tem uma significação particular. Cada jogador tem uma função bem definida segundo a sua posição no terreno de jogo.
A estrutura espacial do futebol pode, de facto, ser vista como símbolo da perfeita organização do universo e como um modelo a imitar na organização do espaço social.
Na simbólica espacial do futebol, podemos ainda lembrar a presença de um outro elemento importante: a constituição do Eixo do mundo. Este Eixo é constituído pelo rito da bola em movimento e representa um meio de comunicação entre o Céu e a Terra. Trata-se de outro simbolismo cosmológico que funciona no futebol e que aparece ligado ao simbolismo do Centro.
Estes simbolismos são outros tantos traços da memória arcaica do homem no interior da nossa cultura moderna. Este “ponto fixo”, lugar de intersecção dos três níveis cósmicos – Céu, Terra e Inferno –, era considerado, no pensamento mítico, como a imagem do absoluto e como ponto de comunicação do humano com o sagrado. Além disso, respondia e continua a responder ao desejo imperioso do homem de abolir, de vez em quando, o tempo contingente, monótono e corrosivo da vida quotidiana para nos permitir reintegrar a unidade primordial e viver, de alguma maneira, a experiência das nossa origens.
É, portanto, nas profundezas da nossa memória colectiva que nós devemos procurar a explicação desta misteriosa atracção exercida pelo futebol.
Pois bem, como já tive a ocasião de escrever várias vezes (À Volta do Estádio), o que explica a força do futebol é, de facto, a presença do mistério e do mito no seu universo. São precisamente as suas relações com o mito e com a religião e o facto de ele ter as suas raízes no mundo das origens e do sagrado que permitem ao futebol ter uma tal força que o ajuda a resistir aos ataques dos seus inimigos e a exercer uma tal atracção sobre as massas populares.
O futebol funciona como um dos principais reprodutores dos mitos arcaicos no seio da nossa sociedade moderna. Ele exerce com verdadeira eficácia as grandes funções dos mitos, que são sobretudo estas: dar ao
homem do nosso tempo modelos de comportamento a seguir na luta de cada dia e formas de pensamento que o ajudem a melhor compreender o universo em que vive e que papel aí deve desempenhar.
O futebol é certamente um sistema mítico completo e coerente porque nele funcionam todos os elementos dos grandes mitos arcaicos. Os principais são os seguintes:
Os grandes encontros de futebol desenrolam-se em cenários onde o espectáculo, a festa e todos os rituais celebrados instauram uma situação onde podemos fazer a experiência do sublime, do dramático e mesmo do religioso. Aí estamos fora do ordinário e vivemos uma experiência que é da ordem do mítico e do sagrado.
A imprensa desportiva e todos os meios de comunicação social apresentam os grandes futebolistas como seres superiores, como artistas maravilhosos, ora como deuses, ora como super-homens, como heróis lendários vindos de outros planetas, etc. Como nos mitos, estamos em presença de ídolos, verdadeiros representantes dos seus irmãos e modelos de comportamento para os seus admiradores.
Já referi alguns símbolos cosmológicos que funcionam no universo do futebol. Também são celebrados temas que estão no centro dos principais mitos arcaicos, como: a conquista da imortalidade, a nostalgia do paraíso, a celebração da morte e a maneira de a vencer, a ideia do homem perfeito, a perenidade das oposições Morte/Vida, Bem/Mal, etc. São temas arcaicos, mas que nunca desapareceram das preocupações do homem.
Os mitos falam de combates. A luta é dramática, mas os vencedores são heróis. Esta dramatização encontra-se principalmente nas grandes competições de futebol realizadas por eliminatórias, onde só pode haver um vencedor final e onde o segundo é o primeiro dos vencidos. Ainda temos todos na memória o jogo dramático da final do Euro-2004 e todas as lágrimas que ele provocou, não só aos jogadores como a tantos Portugueses, e isto através do mundo inteiro.
A linguagem do futebol é profundamente simbólica. Ela utiliza os registos do maravilhoso, do combativo e do passional. Os jogos metafóricos mais frequentes situam-se no domínio do militar, do dramático, do nobiliário e mesmo do religioso. Estamos em presença de uma linguagem poética de tipo iniciático. A sua natureza é simbólica e a sua dependência dos mitos não oferece qualquer dúvida. Não é, pois, de estranhar as suas afinidades religiosas, dadas as relações profundas do mito com o sagrado.
A linguagem do futebol pode, pois, falar ao homem do seu destino cósmico e da sua dependência do transcendente porque ela tem toda a força e capacidade da linguagem mítica, única linguagem capaz de nos falar do sagrado e do que no homem é fundamental.
Numa época em que, as conquistas espaciais começam a perturbar seriamente as representações cosmológicas antigas e o homem, sem pontos fixos de referência, começa a perder o sentido do seu destino, sentimos cada vez mais necessidade de meios para nos situarmos em relação ao universo.
Profundamente antropológicas, as antigas visões do mundo tinham uma grande significação religiosa porque davam ao homem o sentido da sua existência e do seu destino e revelavam-lhe a origem e a natureza das suas relações com o sagrado, abrindo assim uma luz sobre a sua origem e o significado da sua história. É por isso que elas ocupavam um lugar considerável nas festas e em todas as celebrações religiosas. Uma certa ausência de representações cosmológicas que actualmente se nota no Cristianismo está na origem do que F. A. Isambert considera como “a tonalidade triste, mesmo fúnebre da liturgia, a sua pobreza simbólica, a sua aptidão quase exclusiva para celebrar a morte e a sua incapacidade para celebrar a vida quotidiana” (F. A. Isambert, 1982, p.145).
Tendo em conta os cenários míticos e festivos em que se desenrolam, os símbolos cosmológicos que os fundamentam e os temas arcaicos que celebram, os rituais desportivos do futebol são uma verdadeira liturgia do universo e, como veremos, uma autêntica encenação lúdica do próprio jogo do mundo. Cada jogo de futebol, por exemplo, é uma repetição ritual do combate primordial e da organização do mundo que se lhe seguiu. Através desta repetição, o mundo renova-se continuamente e o homem participa nessa renovação e tem assim um modelo arquetipal para imitar no combate concreto e quotidiano da sua existência temporal.
Um grande jogo de futebol é, pois, uma solene celebração litúrgica de tipo cósmico e de carácter dramático e, o que lhe dá uma grande importância e actualidade, é uma liturgia sempre em festa, onde os espectadores desempenham um papel de verdadeira participação. Nesta celebração há uma comunhão profunda e activa entre os principais actores e o público que os rodeia, e tudo isto participado e vivido pelos milhões de fiéis que, através do mundo, se unem a esta celebração com a ajuda dos meios modernos de comunicação. Podemos certamente afirmar que os grandes jogos de futebol de carácter internacional, apesar dos excessos e desvios que, por vezes, os rodeiam, são verdadeiras celebrações do mundo e instauram entre os homens uma comunidade litúrgica de tipo planetário, o que nenhuma das religiões clássicas consegue, e são uma fonte de sentido para o universo e para o lugar que o homem aí ocupa.
O futebol permite ao homem tornar-se, de alguma maneira, contemporâneo das suas origens e até das origens do mundo e, ao mesmo tempo, ajudando-o a descobrir o sentido da sua existência, abre-lhe uma luz sobre o seu destino. Esta mensagem do futebol é assim de natureza arqueológica e escatológica. Mas entre a arqueologia e a escatologia da história humana situa-se o tempo do jogo, tempo que o homem não pode desperdiçar sob pena de ter de ouvir o apito final do árbitro supremo sem que a vitória tenha sido alcançada.
Os mitos cosmológicos transmitem ao homem uma mensagem sobre a maneira de conduzir vitoriosamente o jogo da vida. Como estes mitos funcionam no universo do futebol, este desporto pode ajudar-nos a compreender como se deve participar vitoriosamente no jogo do mundo.
No fundo, podemos afirmar que uma análise alargada e uma reflexão profunda sobre o futebol e isto com ajuda da filosofia e mesmo da religião, podem ajudar-nos a construir um modelo existencial de tipo cristão, modelo este, se calhar, mais mobilizador para o homem do nosso tempo do que os modelos gastos e sem grande capacidade de renovação que as religiões tradicionais tentam apresentar aos seus fiéis, mas sem a eficácia que nós vemos no universo do futebol.
Seguindo uma linha de pensamento explorada por Claude Rivière, nós podemos descobrir no desporto a encenação da excelência humana, a glória desportiva celebrada numa religião dessacralizada e compreender
o imaginário exaltado pelas solenidades, competições e paradas festivas que brotam do tabernáculo televisual (Cl. Rivière, 1995).
Como os grandes futebolistas procedem geralmente de meios populares e de famílias modestas e funcionam como modelos de pensamento e de comportamento para os seus admiradores e como representantes dos seus irmãos, o futebol pode ser visto, antes de mais nada, como a epopeia do homem comum. E isto funciona tanto mais claramente quanto mais o meio é pobre e quantos mais problemas e frustrações existem na sociedade. Como afirma A. Ehrenberg a propósito de Pelé, este ídolo desportivo é um rei na medida em que ele não deve nada ao seu nascimento, mas tudo a si próprio. O seu êxito lembra o que Hegel chama “negatividade”, isto é, o momento em que o escravo se arranca à sua condição de servidão. Pelé é assim “um estereótipo épico que simboliza o tríplice êxito de um país pobre, de uma equipa popular e de um homem do povo” (A. Ehrenberg, 1986). Poderíamos falar de Eusébio, de Figo e de tantos outros.
No seu papel mítico, o ídolo desportivo aparece assim como o símbolo de uma vida perfeitamente realizada e até como expressão do ideal de transcendência. O futebol cria heróis e transforma os ídolos desportivos em actores da criação. Como diz igualmente R. Garassino, “dando um sentido desportivo à sua vida, separando-se de si próprio e da sua tendência à banalização, o homem pode aspirar ao bem espiritual e construir para si um ideal de vida… Na ordem do imaginário, a aventura desportiva constitui um êxito na ascensão para o sublime contra o risco de atolamento numa vida prosaica, ordinária e banal” (R. Garassino, 1992).
O futebol apresenta-se assim como uma epopeia do humano, como uma libertação criadora oferecida a cada homem, como uma conquista permanente onde o homem pode alcançar sempre novas vitórias sobre si próprio e tornar-se cada vez mais herói da sua própria vida.
Como afirma Ch. Pociello, seguindo, aliás, o pensamento de M. Bernard, “o desporto é uma maneira de representação da sociedade por ela própria numa dramatização intensa das suas divisões, mas também na euforia duma unidade e duma identidade reencontradas” (Ch. Pociello, 1995).
De facto, situando-nos na linha deste autor, podemos também afirmar que o futebol exprime uma esperança de integração social, de unidade, de comunicação entre os homens. Ele é também uma espécie de lugar
onde se realiza o corpo simbólico que a nossa sociedade utiliza para falar dos seus fantasmas, dos seus medos, das suas angústias, das suas violências e dos seus conflitos. Mas o futebol também fornece à sociedade elementos para ela tentar descobrir uma imagem harmoniosa e equilibrada de si própria e do seu funcionamento concreto. E isto para lhe dar a esperança num futuro melhor.
A hermenêutica desportiva procura compreender a sociedade real, mas, a partir dos símbolos e impulsionada pela força reveladora dos mitos, ela abre-nos também o caminho para podermos pensar numa sociedade alternativa. No momento desta hermenêutica desportiva, nós sentimos intensamente a estrutura essencialmente conflitual do imaginário colectivo. O futebol mostra-nos uma sociedade cheia de conflitos e contradições. Por outro lado, leva-nos a pensar numa sociedade mais justa, mais fraterna, mais leal na competição, mais comunidade universal; o futebol fala-nos de uma sociedade mais festiva, mais alegre, mais conforme aos seus valores originais que os mitos desportivos proclamam. Trata-se de uma sociedade ideal, mas que parece possível, se os homens assim o quiserem.
Uma reflexão sobre o futebol não nos pode levar a pensar numa sociedade sem conflitos e sem luta, pois estes são elementos da sua estrutura e a sua manutenção está erigida em sistema e legitimada por leis universais. Mas se tudo ocorrer como está regulamentado, como aliás deve acontecer no futebol, a sociedade terá sempre um funcionamento dialéctico, mas será uma sociedade justa e harmoniosa.
No fundo, uma das principais funções do futebol que nós tentamos compreender é a sua função mítica. Ora, um dos principais objectivos da função mítica do desporto, e portanto também do futebol, é procurar reconciliar o homem com certas realidades fundamentais terrivelmente problemáticas e para as quais ele parece não encontrar soluções satisfatórias. Estão neste caso a violência e a própria morte.
Constituindo um sistema de violência simbólica, o futebol mostra como é possível encarar a sua própria violência e a violência da sociedade. Como diz B. Jeu, “a violência é simbólica. Ela observa a regra. Portanto, já não é violência” (B. Jeu, 1987).
Na sociedade, a violência é, de facto, intransponível. Mas se ela se confina ao domínio do simbólico, não é problema. Ela funciona com o consentimento da comunidade universal e em moldes regulamentados.
Tal como no futebol, onde a violência só é problema quando ela transgride as barreiras do simbólico e funciona no mundo do real.
Mas há o problema da morte. Porque o homem tentou resolver este problema, a morte tornou-se talvez a questão maior e o último tabu da modernidade. Como escreveu Anselmo Borges, “a sociedade moderna europeia é a primeira época histórica da humanidade a colocar os seus fundamentos sobre a negação da morte. É que, face à pretensa omnipotência do homem moderno, a morte revela-lhe a sua total impotência” (A. Borges, 1994, p. 212).
Ora, ainda aqui, o futebol pode funcionar como o último refúgio do imaginário humano, ajudando a encontrar soluções para uma questão tão crucial e aparentemente insolúvel.
O futebol é um ritual de morte. É uma celebração sacrificial, onde, principalmente nos torneios a eliminar, uma equipa deve morrer. Alguém tem de ser eliminado. Isto é dramático, mas, no fundo, não passa de uma paródia litúrgica onde o homem procura vencer as leis da própria morte. Como diz ainda B. Jeu, “o vencido não morreu verdadeiramente. A sua vida é-lhe restituída em vista da competição seguinte” (B. Jeu, 1987). Finalmente, podemos dizer que o futebol é uma tragicomédia e uma eufemização da morte.
Procurando nas mitologias arcaicas uma luz para esta problemática, chegamos à conclusão de que a vida do homem se centra à volta de um eixo fundamental traduzido pelo trinómio: Amor/Morte/Imortalidade.
Celebrando a morte em rituais de profunda comunhão colectiva, o futebol fala ao homem da possibilidade de ultrapassar este problema e de conseguir finalmente a consagração suprema da vida, a conquista de uma vitória final que coloque o homem numa situação de festa sem fim.
Enquanto expunha estas reflexões, eu imaginava muitos a pensar: mas que visão idealista e completamente fora da realidade!
Bem sei que o futebol tem dois lados. Pelo seu lado social, isto é, pela sua função ideológica, ele é reflexo da sociedade concreta, com todos os seus defeitos e contradições. Mas pelo seu lado simbólico, isto é, pela sua função utópica, ele parece permitir falar como eu falei e justifica as reflexões que acabo de apresentar. Situei-me apenas nesta vertente simbólica do futebol e deixei-me entusiasmar pela mensagem profética que ele quer transmitir ao homem do 3.° Milénio. Sendo assim, posso concluir que o futebol é um fenómeno bem misterioso, mas profundamente maravilhoso.
No seu universo mítico-religioso, a humanidade pode encontrar um fundamento para a esperança no seu futuro.
Se pela sua função arqueológica o futebol nos fala das origens do mundo e dos fundamentos da nossa história, pela sua função escatológica ele anuncia-nos uma mensagem de esperança e fala-nos da conquista da imortalidade. A partir do futebol como jogo podemos, pois, fazer uma profunda reflexão filosófica e religiosa sobre o mundo e sobre o homem e compreender um pouco melhor a transcendência do seu destino.