Julgo que toda a arte, nas suas diversas expressões ou manifestações, é “fingimento”, se ao termo se conceder o sentido que a etimologia autoriza, aconselha e reclama. Repare-se que “fingir”, o verbo em que o substantivo assenta, tem em latim – fingere –, de entre as várias acepções do seu rico espectro semântico, o sentido de “modelar” (em barro, precisamente), “representar”, “esculpir”, “inventar”. Não é outro, segundo creio, o destino do artista – do poeta, do pintor, do escultor – do criador, em suma. Todos eles, segundo me parece, “modelam” ou “esculpem” objectos artísticos, ainda que por processos, materiais e linguagens diferentes. E todos eles também, enquanto criadores duma nova realidade, a realidade do objecto artístico, são inventores.
Quando Fernando Pessoa, num poema célebre, “Autopsicografia”, diz que “o poeta é um fingidor”, levanta um problema algo diferente, embora com este relacionado: o problema da sinceridade em arte – “a sinceridade metafísica, e não a sinceridade ética, irmã dos bons costumes”, como escreve algures Jorge de Sena. Ou, se quisermos, a inadequação entre aquilo que se experimenta, sente ou visiona e o que a linguagem, qualquer que ela seja, é susceptível de traduzir. E são também “fingimento” os disfarces de variada natureza através dos quais o artista se projecta na obra. Não deixa de conter alguma verdade a afirmação, tantas vezes repetida, de que um autor, quando fala, é de si que fala em primeiro lugar, isto é, que toda a literatura (e, desde logo, toda a arte) é autobiográfica. No caso do ficcionista, as personagens valem, assim, como máscaras ou desdobramentos da personalidade do autor, que, mediante estratégias e dispositivos próprios da narrativa, transmite ao leitor uma visão do real
Poeta. Texto a partir do qual o Escultor José Rodrigues desenvolveu a sua intervenção nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008.
organizado segundo modelos ajustados à sua concepção do mundo e da vida. E como máscaras ou desdobramentos devem ser entendidos os heterónimos de Fernando Pessoa, faces diversas da personalidade dum autor para quem a realidade interior é um mosaico complexo, procurando, através de expressões diferentes, de distintas individualidades, encontrar na diversidade a unidade perdida. Mas, como diz o poeta na carta a Armando Cortes-Rodrigues, de 19 de Janeiro de 1915, “literatura insincera não é aquela análoga à do Alberto Caeiro, do Ricardo Reis, ou do Álvaro de Campos… Isso é sentido na pessoa de outro; é escrito dramaticamente, mas é sincero (…) como é sincero o que diz o Rei Lear, que não é Shakespeare, mas uma criação dele”. Expressões de “fingimento” são também, no teatro, as personagens, verdadeiras máscaras da tragédia e da comédia humanas, convocadas para o palco onde se jogam os conflitos de que elas, as personagens, são disfarce ou representação. No caso do pintor ou do escultor, dir-se-á que as suas criações são simulações de si mesmo ou, por outras palavras, metamorfoses de um universo de que ele é o paradigma e o centro alveolar.