O objectivo deste artigo é analisar um projecto musical, BebéBabá, que foi implementado numa situação muito evidente de carências relacionais – mães e bebés em reclusão numa prisão feminina – e tentar identificar os mecanismos que levaram a que houvesse, no nosso entender, algumas melhorias, pelo menos temporárias, na qualidade das relações entre mães e bebés e também entre reclusas. Parece-nos que estes efeitos radicam na forma como a música foi utilizada pela equipa que implementou o projecto. Efectivamente, o potencial “terapêutico” da Música é – desde há muito – reconhecido, mas há também que sublinhar a importância de outras variáveis. Neste caso, para além de variáveis associadas à própria personalidade dos artistas envolvidos na equipa (que deixaremos de fora nesta análise), um conjunto de ideias relacionadas com a forma como as diversas actividades foram organizadas – aqui simplisticamente designadas por “jogo” – terá facilitado a expressão pessoal das reclusas participantes, bem como a qualidade dos relacionamentos interpessoais.
Assim, ao falarmos de “jogo” neste contexto, estaremos sobretudo a falar de estratégias de comunicação que rompem com os padrões normalmente esperados quando se pensa em fazer música, criar/ensinar/aprender música, expressar ideias e sentimentos (sejam desejos, anseios, frustrações ou outros). Ou seja, de forma geral, trata-se, antes de mais, de exercer a imaginação através de canais de expressão convencionados como linguagens artísticas. Correndo o risco de alguma falta de
Comunicação apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008.
Professora, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Serviço Educativo da Casa da Música, Porto.
rigor etimológico – talvez o termo “ludicidade” pudesse ser considerado mais adequado –, neste contexto “jogo” poderá implicar algumas outras palavras como brincadeira, corpo, movimento, faz de conta, expressão, comunicação, invenção, interacção, relação, direcção, participação, orientação, fluxo, criação, transgressão, descoberta, regra.
BebéBabá é um projecto pensado para bebés e pais, concebido pela Companhia de Música Teatral e apresentado pela primeira vez em 2001 (; Rodrigues & Rodrigues, 2004; Rodrigues, 2009; Rodrigues & Correia, 2008). Tem como objectivos o enriquecimento da vida artística e musical dos participantes, o fomento das ligações entre pais e bebés e a promoção das relações sociais na comunidade através da música. Um BebéBabá típico começa com uma série de workshops musicais, alguns para pais e bebés, outros só para pais, e evolui no sentido da apresentação de um espectáculo, uma espécie de “festa no palco” que permite a toda a comunidade partilhar a alegria de fazer música em conjunto.
Originalmente foi pensado apenas como uma experiência com objectivos artísticos e educativos, que permitisse aos pais aprender formas de interagir musicalmente com as suas crianças, providenciando a base para os primeiros passos de uma educação musical informal em casa. Ficou claro, contudo, desde as primeiras edições, que uma das características marcantes do projecto era a criação de ligações: entre pais e bebés, entre famílias, na comunidade. Descobriu-se também um forte potencial terapêutico, num sentido do desenvolvimento pessoal (Rodrigues & Rodrigues, 2009). A recriação do projecto em contextos em que fosse especialmente importante promover as relações entre pessoas e as ligações de afectividade surgiu, assim, como uma das direcções importantes a explorar.
Por seu lado, o Serviço Educativo da Casa da Música tem criado e acolhido vários projectos que visam materializar dois dos objectivos publicamente enunciados do seu trabalho: i) explorar o papel da música enquanto factor de reabilitação e de geração de afectos (promover a inclusão de comunidades desfavorecidas e de pessoas com necessidades especiais) e ii) inspirar outros agentes educativos, sociais e culturais (criar ideias e projectos-piloto que possam posteriormente ser dinamizados e desenvolvidos por agentes especialmente vocacionados para alguns tipos de trabalho com escolas, comunidades e outros) (Rodrigues, 2009).
À luz desta filosofia, foi decidido integrar na programação de 2008 do SE da Casa da Música a realização de uma edição especial de BebéBabá num estabelecimento prisional. De facto, as mulheres que vivem em prisões com as suas crianças deparam-se com problemas complexos, bem como as suas crianças, obviamente, que iniciam as suas vidas num ambiente particularmente difícil. Sabe-se muito pouco sobre este assunto, e, portanto, esta experiência era também importante como material de reflexão para além das circunstâncias específicas em que seria realizada.
No quadro do estabelecimento de relações entre o Serviço Educativo da Casa da Música com diversas instituições da comunidade, em 2007 iniciaram-se conversações com a direcção do Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo (EPESCB). Estes contactos preliminares indicaram ser muito difícil para as mães reclusas estabelecerem relações equilibradas com as suas crianças. Esta realidade decorreria não só das restrições e condicionalismos impostos pelo ambiente de reclusão, mas também de deficiências básicas que radicam nas experiências individuais, sociais e culturais de onde estas mães emergem.
Decidiu-se, então, que o projecto BebéBabá teria uma edição especial nesta instituição. E definiram-se os seguintes objectivos para o projecto: melhorar a auto-estima e autonomia das mães; ajudar as mães a encontrar alegria no contacto com as suas crianças; proporcionar padrões de estruturação; oferecer pistas de orientação musical; oferecer uma experiência artística profunda; proporcionar oportunidades para catarsis e relaxamento, canalizando energia e emoções através da música; desenvolver interacções humanas positivas; proporcionar aos bebés oportunidades de contactos sociais; ajudar as mães a desenvolver competências funcionais.
Foi formada uma equipa de seis músicos/educadores com formação e experiência em projectos musicais com bebés, incluindo os criadores de BebéBabá. Após um primeiro encontro com reclusas mães de bebés potencialmente interessadas em participar no projecto, um grupo de 15 reclusas com as respectivas crianças (com idades compreendidas entre 5 meses e 4 anos) trabalhou ao longo de 5 semanas, entre Fevereiro e Março de 2008, num total de 5 sessões com mães e bebés e
outras 5 sessões apenas com mães. Vários membros da equipa do EPESCB (educadoras de infância e terapeutas ocupacionais) participaram também no projecto. Da mesma forma que em edições anteriores, alguns dos workshops foram filmados para inclusão posterior das imagens num espectáculo final.
A realização de uma apresentação pública de qualidade artística no final do projecto foi definida de início com todos os participantes como um dos objectivos do projecto e, no final, foi possível realizá-la em duas circunstâncias: uma na prisão, para colegas reclusas, outros elementos do EPESCB e membros destacados do sistema judicial português, e outra na Casa da Música, aberta ao público em geral e às famílias das participantes em particular. O projecto foi acompanhado por uma psicóloga e por uma especialista em música no contexto prisional, que observaram e gravaram em vídeo as sessões, tendo também realizado entrevistas com participantes e profissionais do EPESCB (Monteiro, 2008).
O conteúdo dos workshops com mães e bebés seguiu de muito perto o trabalho que normalmente é feito em sessões de orientação musical para pais e bebés, isto é: canções (com e sem palavras, em vários modos e métricas, algumas originais outras tradicionais, acompanhadas com instrumentos e a cappella); cantos rítmicos (em várias métricas; acompanhados e a cappella); actividades de movimento que envolvem o corpo de forma expressiva (normalmente dentro de um contexto musical ou a partir de um imaginário que é despoletado pela música ou pelas palavras de uma canção). Algumas destas actividades eram orientadas pelos músicos da equipa, mas procurou-se também que houvesse lugar à descoberta ou à criação de formas próprias de interacção física entre mães e crianças, de pequenos “jogos”, actividades repetitivas e proto-coreografias onde, de forma geral, existia uma forte componente de contacto físico ou de expressão física de afecto.
Os workshops com mães foram encarados de forma muito diferente, não obstante haver conteúdos musicais idênticos (que, nesta circunstância, eram integrados em actividades adequadas à idade das reclusas). Basearam-se frequentemente em actividades que são usadas em jogos teatrais ou de improvisação dramática, em jogos de interacção pessoal ou de conhecimento do outro. Uma forte ênfase foi dada a actividades que envolviam corpo e movimento, a consciência/descoberta
do corpo no espaço e a relação entre corpo/movimento e música. Frequentemente recorreu-se a improvisações com objectos (por exemplo, balões ou cadeiras) para criar “paisagens” imaginárias, ou simplesmente situações que potenciavam a libertação de energia e a expressão de sentimentos e de ideias.
Um exemplo concreto foi a construção de uma pequena peça dramática e musical, usando as cadeiras da sala como instrumento musical e como adereço de uma situação teatral. A estrutura dessa “peça” tinha um refrão percussivo baseado em padrões rítmicos simples (a que se tinha chegado por consenso) que alternava com episódios de uma viagem que levava a várias situações teatrais onde existiria uma cadeira e que era teatralizada de forma física e/ou com recurso a palavras elementares ou texturas sonoras. A movimentação da cadeira entre os vários episódios desconstruía o espaço anterior e reformulava uma nova situação imaginária que tinha de ser sugerida por alguém, sem preparação anterior, e que todo o grupo seguia, de improviso. Este “jogo” funcionou, assim, como uma espécie de peça semi-improvisada, com secções de música de percussão com uma energia telúrica, uma correria/libertação de energia e uma expressão espontânea/associação de ideias através do corpo (frequentemente a expressão directa de anseios ou preocupações, ou a evasão para outras realidades).
Outro exemplo foi a construção de uma peça-jogo que envolvia um refrão vocal num registo semi-falado/cantado e a movimentação/expressão corporal num espaço onde poderiam acontecer eventos sonoros a desenvolver a partir de desenhos. Foram criados desenhos por cada uma das participantes, colocados no chão e postos a funcionar como uma espécie de “teclado imaginário” que produzia sons vocais que expressassem a ideia que cada uma via no desenho mais próximo do sítio onde parava. Esta actividade e a anterior permitiram claramente a expressão individual. O facto de este tipo de jogo ter permitido revelar algumas das angústias e anseios das reclusas talvez tenha contribuído para as “unir”, conforme o termo utilizado na apreciação que uma delas fez ao projecto.
Outros jogos foram especialmente eficazes em aproximar as pessoas. Por exemplo, foram realizados jogos muito simples com balões: primeiro, um balão por pessoa, deixando-o flutuar e tocando-o com diversas partes do corpo de cada vez, ao som da música; depois, um balão para o grupo ou uma corrida de balões (só com o sopro) entre dois grupos, até finalmente ser possível ter pares de pessoas que partilhavam um balão e que eram capazes de cooperar para atingir um objectivo definido (por
exemplo, manter no ar o balão o maior tempo possível só usando o nariz) ou que entravam numa abstracção/expressão/fluxo mediado pela música onde o corpo reagia à presença de outro corpo como numa dança.
As questões intrinsecamente musicais foram abordadas com a profundidade possível, mas, regra geral, integradas dentro dum contexto informal. Por exemplo, o canto aconteceu quase sempre em conjunção com um jogo teatral, de movimento ou como momento final dos workshops, já com uma certa conotação de apresentação. Ficou evidente, logo na primeira sessão com as reclusas, que os gostos musicais, as capacidades e talentos específicos do grupo apontavam numa direcção bastante diferente da que havia sido antecipada (preparada com base na experiência das versões anteriores de BebéBabá). Um exercício inicial muito simples (um rap para apresentação dos nomes de cada um dos participantes) revelou um potencial especial para música com batida forte e grande energia na emissão vocal que deveria ser canalizada através de um tipo de música reconstruída à medida do grupo. Assim, ao longo de várias sessões, foram sendo introduzidas e criadas músicas nesse novo sentido.
Um exemplo particularmente interessante foi o de uma música africana, cujo refrão tinha sido usado na primeira sessão, sem letra, acompanhada por percussão e feita com movimento, que serviu de base para a composição de uma canção com letra constituída pelos nomes das reclusas e das “alcunhas”/formas carinhosas que elas usavam para chamar às suas crianças. O facto de se ter criado músicas originais para o grupo, integrando palavras trazidas pelas próprias reclusas e remetendo para as suas relações afectivas com os seus bebés, contribuiu, por certo, para uma identificação com o projecto e para o seu sucesso (exemplo de uma das letras criadas com os nomes da “intimidade materna”: Olha como é linda essa menina/Pérola negra, princesinha pequenina/Pretinha boa, meu amor, amarelinha/Minha riqueza, marreca, minha pestinha). E, quem sabe, talvez cantar a letra da canção que ajudaram a criar tenha contribuído para reforçar e rememorar os laços afectivos com os seus filhos.
É importante ainda referir que a oportunidade de apresentar o resultado do trabalho não só na prisão mas também na Casa da Música, para além de constituir uma quebra na rotina, colocou desafios que foram superados e criou oportunidades de afirmação e de valorização pessoal. Tal como num jogo, este projecto apresentou desde o início uma meta clara: criar um espectáculo para os bebés que seria depois partilhado com o público. A existência desta meta pareceu-nos especialmente
importante nesta edição de BebéBabá, na medida em que constituiu uma espécie de desafio, obrigando a uma certa forma de estruturação, persistência, empenho individual e colaboração de todo o grupo. Num momento especialmente importante na vida destas reclusas – o nascimento de um filho revolve necessidades de reestruturação, podendo significar uma oportunidade de reconstrução interior -, conseguir pisar um palco com os próprios filhos representou, pois, para estas mulheres, “ganhar o jogo”. E isso pode ter constituído uma metáfora significativa nos seus percursos de vida.
(…) E bate-lhes nas caras, o amor leve. /O amor feroz. / E as mães são cada vez mais belas. (…) As mães são as mais altas coisas/ que os filhos criam, porque se colocam/ na combustão dos filhos.
A observação das sessões, filmagens e entrevistas levou às seguintes constatações gerais: 1) Houve mudança nos hábitos musicais das reclusas. Isto reflectiu-se na adopção de novo repertório e na assimilação de pistas sobre orientação musical para os bebés reproduzidas fora do ambiente do projecto. Por exemplo, várias reclusas referiram ter passado a cantar nas celas para os seus bebés. 2) Verificaram-se indícios de progresso na auto-estima e na interacção social, com desenvolvimento de novas relações de grupo e entre mulheres e crianças. 3) Constatou-se haver enriquecimento do tempo passado na prisão (alegria, prazer, entrega, sentido de realização e valorização da existência de uma finalidade no trabalho realizado). Parece-nos importante referir este aspecto: por um lado, técnicos e guardas prisionais do EPESCB referiram que, durante o tempo de realização do projecto, “as reclusas andavam mais calmas”, o que nos parece relevante num ambiente em que há normalmente grande propensão para a existência de conflitos; por outro lado, o tempo passado numa prisão deve ser olhado como uma oportunidade de preparação para uma futura reinserção social. Foi constatado que o projecto artístico implementado trouxe uma série de sensações e experiências novas à vida destas mulheres, o que é certamente relevante se pensarmos que a reinserção social passa também pelo encontro de alternativas num processo de reconstrução interior. 4) Observou-se um enriquecimento do “repertório relacional”
entre mulheres e bebés. Ao longo do projecto verificou-se que as reclusas passaram a juntar-se para “ensaiar” para o espectáculo, constituindo novos grupos entre elas. Interessante notar, por exemplo, que algumas reclusas alfabetizadas se juntaram para ensinar a letra de uma das canções às colegas iletradas. Ou seja, a música e os jogos usados no processo de realização de BebéBabá ajudaram a desenvolver competências funcionais e modalidades de comunicação que extravasavam o espaço do projecto propriamente dito; 5) Verificou-se um enriquecimento da vida das crianças da creche e jardim-de-infância da prisão. Verificou-se que as educadoras, participantes no projecto também, adoptaram muitos dos jogos, brincadeiras e canções realizados nas sessões das mães e filhos, continuando a fazê-los mesmo depois do projecto ter terminado. Este é, certamente, um dos aspectos mais importantes deste projecto. A vida de uma criança que vive numa prisão é muito limitada de vários pontos de vista, pelo que é fundamental proporcionar-lhes iniciativas que as coloquem em contacto com outras realidades. A actividade dos profissionais de educação de infância que trabalham numa prisão precisa também de desafio – e, conforme referiram, este projecto ajudou a nutrir a sua vontade de desempenharem um bom trabalho com estas crianças.
É possível que os efeitos deste projecto se esbatam ao longo do tempo. Mas a sua vivência foi um processo muito intenso que terá deixado vincos. Vínculos, também, a que a memória poderá regressar. Meses após o termo do projecto, regressámos ao EPESCB para mostrar o documentário realizado por Pedro Sena Nunes ao longo do projecto. As crianças reagiram de forma que não deixou margem para dúvidas: de repente, toda a sua postura corporal como que reconstruiu a mesma atmosfera. Dançaram e cantaram ao som do que ouviam, penetrando numa memória sonora que as terá levado à rede de afectos construída em BebéBabá. Poderá essa memória permanecer como uma espécie de âncora? Poderá essa memória constituir uma espécie de vinco, a música estabelecer uma espécie de vínculo?
Para a equipa que liderou o projecto ficaram reforçadas aprendizagens que a tornam especialmente sensível para intervir em contextos necessitados de mudanças relacionais e de reconstrução de afectos. Entre essas aprendizagens, incluem-se reflexões sobre o papel do “jogo”, que teve no projecto um lugar crucial.
Neste contexto, “jogo” é essencialmente uma estratégia de comunicação que se materializa de formas diversas, normalmente em actividades de grupo interactivas que envolvem comportamentos e elementos não
habituais (lúdicos), uma espécie de realidade construída, com regras que podem ser inventadas na altura. Num estabelecimento prisional, terá sido especialmente importante esta possibilidade permitida pelo “jogo”: a construção de uma realidade em que é possível definir e ter controle sobre as regras.
O “jogo” cria, pois, uma ruptura relativamente à realidade e ao quotidiano: possibilita a criação de uma “realidade” sem passado, cria espaços imaginários, introduz elementos de comunicação e relação que normalmente não são usados ou aceites (o corpo, a voz cantada e dramatizada, por exemplo) mas que aproximam as pessoas, dilui as barreiras porque permite ser-se outra pessoa, catalisa a imaginação, possibilita a transgressão, permite aceder a emoções e estados de espírito, cria possibilidades de realização (permite o sucesso; torna possível aceitar a falha; o grau de dificuldade pode ser adaptado), possibilita o “fluxo” (Csikszentmihalyi, 1990).
A introdução de factores que fazem com que as pessoas se possam comportar de forma não convencional – frequentemente cómica ou ridícula – talvez seja uma espécie de revisitação da infância e/ou um factor de atenuação das diferenças de status. Talvez, também, um substituto temporário da liberdade. As regras do jogo implicam um “fazer de conta que”, e esta organização do possível abre um espaço de liberdade: todos estão igualmente sujeitos às regras do “jogo” e face a elas todos têm o mesmo poder.
Ou seja, este tipo de actividades cria um espaço/tempo onde as regras são temporariamente diferentes, onde as relações entre pessoas são regidas por novos parâmetros, diferentes dos que estão envolvidos nas relações quotidianas. Assim, as situações criadas permitem explorar formas diferentes de relacionamento e de comunicação. Frequentemente impõem comportamentos que não seriam possíveis na realidade, mas que são desbloqueadores de tensão ou dificuldade de relacionamento.
Em suma, o “jogo” estabelece as condições necessárias para determinadas actividades – cria um “estilo” ou framework que permite abordar descomprometidamente assuntos ou matérias delicadas, faz aproximar pessoas e cria ligações, cria situações que podem vir a ser desenvolvidas como produtos artísticos. O “jogo” envolve uma combinação de fórmulas e repertório (actividades e conteúdos pré-definidos), mas tem também uma forte componente de imprevisibilidade: é muito importante o “go with the flow”, isto é, ser capaz de ler em tempo real a reacção do grupo e acomodar ou moldar as ideias de forma a deixar que a situação
evolua de forma natural em direcção a objectivos gerais, que podem, claramente, ser atingidos de várias formas.
Em BebéBabá, o “jogo” foi uma filosofia de base: informou não só as actividades de aprendizagem e a estruturação do espectáculo mas também todos os aspectos que se prendem com a geração de afectos.