Quero começar por agradecer o convite generoso que me foi dirigido pelo Professor Rui Coelho para participar neste Colóquio.
Confesso que se trata de um desafio incalculável. De facto, não é a história que enlaça o passado e o futuro? Mas estamos numa crise, como diz o historiador François Hartog, “a partir do momento em que o futuro já não é o motor da sociedade, já não é objecto de esperança, mas portador de catástrofes, a história com H grande já não tem sentido”3.
Com a queda da ideia de progresso e as catástrofes recentes, desapareceu a História com maiúscula, que aliás era a secularização da ideia de Reino de Deus e da sua esperança infinita.
Mas não é verdade que também a religião e Deus estão em recuo? Escrevia recentemente Steven Weinberg, Prémio Nobel da Física na New York Review of Books, 25 de Setembro : “Uma das consequências do avanço das ciências é a de ter conduzido a um enfraquecimento das crenças religiosas. Não pretendo demonstrar que o declínio das religiões é uma coisa boa (ainda que o pense). Também não pretendo que é fácil viver sem Deus e que a ciência é tudo o que necessitais. Ainda que para um físico é mesmo assim uma alegria imensa fazer ligar a beleza das matemáticas à descrição do mundo real. (…) Mas a visão proposta pela ciência é sobretudo terrificante: não só somos levados a descobrir que não há bases objectivas para os nossos princípios morais (…), mas também ficamos a saber que as emoções que mais acariciamos, o amor que
Conferência apresentada nos Colóquios do Porto – Psicanálise e Cultura: “O Homem e o(s) Jogo(s)”. Porto, 14 e 15 de Novembro de 2008. O texto mantém o carácter de oralidade da comunicação ao Colóquio.
Teologia (Universidade Gregoriana, Roma). Ciências Sociais (École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris). Filosofia (Universidade de Coimbra). Professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Le Nouvel Observateur, hors-série, “L'histoire en procès”, 2008, p. 80.
temos para com a nossa mulher, o nosso marido, os filhos, são o fruto de processos químicos no coração do cérebro, processos que são eles próprios o resultado da selecção natural e do acaso. Então que fazer? Se há realmente algo que ajuda é o humor. Viver sem Deus não é coisa fácil. Mas esta dificuldade comporta uma consolação: há uma certa honra, pelo menos uma satisfação sardónica, em fazer face à nossa condição sem cair no desespero, com bom humor, mas sem Deus“4.
Então, onde está a esperança? Num tempo que parece ser nem de esperança nem de desesperança, mas simplesmente de in-esperança? No nosso espírito do tempo (Zeitgeist, dizia Hegel), com o horizonte do “presentismo” e da eficiência técnica, qual é o jogo da esperança do mundo?
1 Não há como começar pelo Homem.
Kant diz que o campo da filosofia se pode reduzir às seguintes perguntas: “1. O que é que posso saber? O que é que devo fazer? O que é que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia.”5 Por sua vez, mais perto de nós, Ernst Bloch inaugura a sua enciclopédia das esperanças (O Princípio Esperança, 1654 páginas) com estas perguntas: “Quem somos? (Wer sind wir?) Donde vimos? (Wo kommen wir her?) Para onde vamos? (Wohin gehen wir?) Que esperamos? (Was erwarten wir?) O que é que nos espera? (Was erwartet uns?).6
Sobre nós mesmos podemos fazer diferentes afirmações: Eu sou eu, a partir de um corpo. Eu sou eu e a minha circunstância. Eu sou eu, a partir de mim. Eu sou eu, saindo de mim. Por vezes, não sei se sou eu. Eu sou eu, mas ainda não sou eu … plenamente.
Quando nos perguntam quem somos, narramos a nossa história. Nunca será possível narrá-la completamente, porque seria necessário narrar também a história da nossa família, da humanidade, da vida, do cosmos, pois aparecemos na história toda da natureza e do mundo. O nosso passado são as nossas costas, que nunca vimos. Mas ainda não somos plenamente, uma vez que estamos voltados para o futuro. O nosso rosto somos nós voltados para os outros e para o futuro. Como nunca vimos as nossas costas, também não vemos o nosso rosto a não
In: Philosophie magazine, Novembro, 2008, p. 12.
, Logik, in: Id., Werkausgabe. Band VI, Frankfurt/M., 1991, 8.a ed., pp. 447-448.
, Das Prinzip Hoffnung. Erster Band, Frankfurt/M., 1977, p. 1.
ser indirectamente. De qualquer modo, fica claro que a nossa identidade é uma identidade narrativa.
E perguntamos inevitavelmente: que ser é este que é e ainda não é? Sou, somos, a partir de um passado: ninguém viu as suas costas, repito. Sou, somos, voltados para o futuro, um futuro que não domino, não dominamos. E num abismo que não se preenche: por mais que realize, realizemos, nunca se preenche este abismo entre o desejado e o alcançado. O ser humano é constitutivamente o ser do transcendimento e da antecipação. Está a caminho de ser.
É aqui que radica a esperança enquanto experiência fundamental, radical, humana, movendo o Homem num dinamismo constante e sem fim. A esperança coincide com a própria questão do ser humano enquanto tal, porque coincide com a questão do sentido. Pedro Laín Entralgo disse-o bem: “A primeira coisa que deve afirmar-se acerca da esperança é a profundidade e a universalidade da sua implantação no coração do Homem”. O Homem é, pela sua própria natureza homo viator, segundo o título da obra de Gabriel Marcel, podendo P. Landsberg afirmar: “Somos esperança” – é a esperança como transcendental ontológico7. A esperança radica no mistério que o Homem é para si mesmo e, por isso, ela é anterior a toda a tentativa filosófica ou religiosa de interpretação. Vivemo-nos como esperança esperante…, mesmo no desespero.
E é preciso colocar a esperança na própria raiz de toda a realidade. Uma reflexão aprofundada sobre a esperança deverá começar por aquela tendência para o futuro que caracteriza todo o ser vivo e mesmo toda a realidade cósmica, em evolução, de tal modo que já é e ainda não é adequadamente – por isso, está a caminho: é a ontologia do ainda não (das noch-nicht). É mérito do filósofo Ernst Bloch ter insistido numa radicação ontológico-cósmica da esperança: “Espera, esperança, intenção voltada para a possibilidade ainda não realizada: isto não é apenas um traço fundamental da consciência humana, mas, compreendida justamente, uma determinação fundamental da realidade objectiva em geral”. O mundo não está feito, enclausurado: “se o ser se percebe a partir da sua origem (Woher), isso só também enquanto tendência aberta para um fim ainda aberto” (Wohin). O mundo está “cheio de disposição para algo, tendência para algo, latência de algo, e esse algo para que o mundo tende é plenitude do que se busca”. A realidade como o Homem só se compreendem a partir do futuro. “A essência não é o que foi; pelo contrário, a essência
In: Andrés Torres Queiruga, Esperanza a pesar del mal, Santander, 2005, p. 17.
do mundo está na Frente“8. O que é, pois, urgente e necessário aprender é a esperança dentro de uma ontologia do ainda não enquanto marca constitutiva da realidade toda, que ainda não é o que pode e deve ser.
O cosmos, desde a sua origem, na sua raiz, é em processo (do latim procedo, ir para diante). A realidade material tem então carácter “prodeunte” (do verbo prodeo, avançar), para utilizar uma palavra do filósofo Pedro Laín Entralgo, e futuriço, no sentido daquela dimensão do “para diante”, para utilizar uma palavra dos filósofos Xavier Zubiri e Julián Marías.
Desde o início, o dinamismo que constitui o cosmos configura-se como movimento orientado para o futuro. Com esta futurição, temos uma propriedade genérica que se vai fazendo proto-estruturação – passagem das partículas elementares às complexas –, molecularização – dos átomos às moléculas –, vitalização – das moléculas aos primeiros seres vivos –, vegetalização, animalização – aparecimento e desenvolvimento da vida quisitiva da zoosfera – e hominização – transformação da tendência geral para o futuro em “futurição” humana, tanto no indivíduo como na espécie humana e na História, desde o Homo habilis até ao presente.
No quadro destes modos de existir na orientação para o futuro, só quando se chega ao nível do ser vivo, que precisa de buscar para viver – Pedro Laín Entralgo chama a isto “vida quisitiva” –, é que se dirá que a tendência para o futuro se configura como espera, podendo chegar a ser esperança. Desde o nascimento até à morte, entre a esperança e o temor, o animal vive permanentemente voltado para o futuro e orientando a sua espera na procura do que precisa para viver. Como escreve Pedro Laín Entralgo, “a prodeúncia da existência animal tem a sua forma mais própria na espera. Viver animalmente é, na sua mais profunda e específica raiz, estar activa ou passivamente à espera, exercer uma espera, seja predatória, copulatória, lúdica ou defensiva, para voltar a outro modo dela, uma vez conseguido o que se esperava”9.
O animal e o Homem esperam, mas com uma diferença essencial. A espera animal é instintiva, isto é, inscreve-se nos padrões de conduta de cada uma das espécies; é estimúlica, porque só percebe estímulos e não a realidade enquanto tal; por isso, é situacional, isto é, enquadrada no meio estimulante; portanto, fechada, já que “a sua satisfação dá ao animal tudo o que este naquele momento deseja”.10
, Das Prinzip Hofnung, pp. 17-18.
, Creer, esperar, amar, Madrid, 1993, p. 152.
, Creer, esperar, amar, Madrid, 1993, p. 154.
Ora, enquanto a espera animal é instintiva, no quadro dos instintos e de estímulos, situada e fechada, a do Homem é supra-instintiva, trans-estimúlica, supra-situacional, aberta: transcende os instintos, os estímulos e as situações, sendo, portanto, aberta, de tal modo que nunca se contenta com a simples realização de cada um dos projectos parciais em que a sua “futurição” constitutiva se concretiza.
Pedro Laín Entralgo dá um exemplo. Numa “sala de espera” de uma estação de caminho-de-ferro, não me limito a aguardar a chegada do comboio que traz o meu amigo, pois, mesmo que não tenha consciência explícita disso, espero o que será a minha existência em todo o seu decurso posterior. A espera humana está realmente aberta a possibilidades que transcendem a realização feliz ou frustrada de cada projecto. Isto significa que o Homem se configura como projecto e antecipa a sua realização. “A espera humana é na sua essência a explícita ou implícita elaboração de um projecto, a tácita ou expressa resposta operativa às perguntas que esse projecto secretamente leva consigo e a adequada execução do projectado”11. O Homem é constitutivamente projecto de si mesmo. Por isso pergunta. Ele é constitutivamente pergunta, porque é constitutivamente projecto: o que farei de mim, o que serei?
E que possibilidades há para a realização dos meus projectos e, em última análise, do projecto da minha realização? E da realização humana e da História e do mundo?
Ora, tanto num como noutro caso, isto é, tanto na espera do concreto – aqui, a chegada do amigo no projecto de aguardá-lo – como, mesmo que não pense directamente nisso, na espera do que transcende o concreto e limitado – o que será de mim na minha vida depois da chegada do amigo –, são possíveis duas atitudes enquanto tonalidades afectivas fundamentais: a confiança e a desconfiança.
Devido a uma multiplicidade de factores, desde o temperamento às circunstâncias biográficas de sorte ou desgraça, passando pela educação, estes dois estados de ânimo – confiança e desconfiança – “podem converter-se em hábito de segunda natureza: a esperança, quando é a confiança que domina, e a desesperança, quando prevalece a desconfiança”.
Passa-se assim da espera à esperança, pela confiança ou desconfiança, pela crença ou descrença. A realidade é fiável? Até que ponto posso crer, dar crédito à realidade e a mim próprio para a realização dos meus projectos,
, Creer, esperar, amar, Madrid, 1993, p. 163.
e, em última análise, do projecto de realização plena de mim com os outros e do próprio cosmos?
O Homem, como o animal, não pode não esperar: vive orientado para o futuro e esperando o que projecta, isto é, a consecução de metas e objectivos concretos e também, quer se dê conta disso quer não, o que permanentemente transcende a obtenção desses projectos. A esperança tem, pois, dois modos complementares: a esperança do concreto (o hábito de confiar que os projectos parciais se irão realizando bem) e a esperança do fundamental (o hábito de confiar – a confiança não é certeza – em que a realização da existência pessoal será boa). Esta esperança do fundamental é a “esperança genuína”, que assume também dois modos, que não se excluem: a esperança terrena e histórica e a esperança meta-terrrena, trans-histórica12.
Em primeiro lugar, a esperança terrena e histórica. É possível esperar o progresso científico e técnico, com todas as vantagens para o Homem, desde que ele não esqueça que é sapiens e demens (sapiens sapiens e demens demens): o Homem conhece e vai aprofundando o conhecimento das leis do real e as suas possibilidades em interacção com as possibilidades do mundo.
O que se esconde no núcleo da matéria?
Esta possibilidade terrena e histórica estende-se ao campo moral e político: podemos apresentar os exemplos do fim de ditaduras, o fim do apartheid… Neste quadro, I. Kant fala certamente da “tendência para o mal” (Hang zum Bösen), mas há algo mais originário: a “disposição natural para o bem” (Anlage zum Guten), que é originária e pertence “à possibilidade da natureza humana”. Neste contexto, é possível irmo-nos aproximando daquilo que Kant chamou um “ente ético comunitário” (ethisches Gemeinwesen), um reino de Deus na terra, a “Igreja invisível” ou “povo de Deus” e também uma “confederação de povos”, num quadro político cosmopolita.
Mas há sempre a questão do sentido último. L. Wittgenstein referiu que, mesmo que resolvêssemos todos os problemas científicos e técnicos, ainda não tínhamos tocado sequer a questão do sentido último.
O Homem, no seu projecto interrogativo, vai sempre mais longe, inclusive para lá da morte. A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos
O leitor encontra uma síntese do pensamento de Pedro Laín Entralgo sobre a esperança num texto por ele enviado ao V Colóquio “Igreja e Missão”, em 1992, em Valadares, que pode consultar em: Anselmo Borges, “Introdução à edição portuguesa”, in: Pedro Laín Entralgo, O que é o Homem. Evolução e Sentido da Vida, Lisboa, 2002, pp. 13-20.
estando mortos. Isso para nós. E o que será do mundo? Terminará num Big Crunch? A partir de certo momento, concentrar-se-á outra vez para outro Big Bang, segundo um modelo oscilante? Que sabemos nós? E que papel joga aqui o princípio antrópico?
O projecto da esperança é o Sumo Bem, já presente em antecipações e sempre anelado, na plenitude – porque as antecipações são só isso: antecipações e ambíguas.
2 Aqui, entra então o que esteve sempre subjacente nesta exposição: o jogo do mundo. Realmente, como disse Heraclito (fragmento 52), “o curso do mundo é uma criança que joga, e coloca as peças onde quer. É o reino da criança”.
Então, no quadro do jogo do mundo, quais são as regras do jogo? Porque o Homem joga, mas sobretudo é jogado. Afinal, joga com quê ou com quem? O que está na raiz do mundo? A vontade cega? E se afinal for o jogo pelo jogo, uma Força que joga colocando-nos na vida e devorando-nos na morte? E se for um jogo sem fim? Não se trata então de um jogo cruel para os seres humanos? Em que posso crer, confiar para a realização plena do projecto humano, que não é apenas continuar a viver, mas viver sempre e realizar-se plena e adequadamente? Aqui dividem-se os espíritos.
Não há dúvida de que, como diz Pedro Laín Entralgo, o Homem “espera sempre ‘algo’ e ‘tudo’ ao mesmo tempo”. Não queremos viver apenas por algum tempo, mas sempre e queremos tudo. “A partir da sua situação concreta pessoal, quem tem esperança confia em ‘ser homem’, ‘ser ele mesmo’ e ‘ser mais’ numa situação futura”; mais ainda: “existir no mundo é ‘estar sendo’ a caminho e pretensão de ‘ser plenamente‘”. Desde Aristóteles que esta pretensão se chama eudaimonia, a felicidade. Esta felicidade coincide com o sentido final de todos os sentidos, aquele “estado no qual, sem contradições, se realizariam todas as potencialidades, se manifestariam todas as latências e se cumpririam todos os desejos e aspirações que habitam o coração humano, individual, colectivo e cósmico”13.
Mas onde estão as possibilidades – categoria fundamental numa ontologia do ainda-não – para essa realização? Quem é o garante? Porque não há certeza. A esperança não é certeza, apenas tem a segurança própria da confiança. Aliás, a realização não depende apenas de nós. Confiamos ou não alcançar. Daí, a esperança, o temor ou a desesperança.
, Esperanza a pesar del mal, Santander, 2005, pp. 26-27.
A negação da esperança pode dar-se por excesso – pense-se na dialéctica hegeliana ou no materialismo dialéctico: “o comunismo é a solução do enigma da História e sabe que o é”, escreveu Karl Marx.
A negação da esperança pode dar-se pelo outro extremo: porque o mundo se considera absurdo: pense-se em Sartre ou no teatro do absurdo. Mas mesmo Sartre não acabava por acreditar numa transcendência na imanência? E o Super-homem de Nietzsche não implica ainda uma confiança?…
Mas, quando se leva a pergunta humana até ao final, conclui-se que só a religião pode garantir a “esperança total”. Por isso, a Escola Crítica de Frankfurt vivia atenazada.
Assim, por exemplo, Max Horkheimer, por um lado, não acreditava, mas, por outro, tinha o anelo pelo totalmente Outro: “Sem Deus, é inútil pretender salvar um sentido incondicional. (…) A morte de Deus é também a morte da verdade eterna”14. “O anelo pelo totalmente Outro é um anelo que une os homens, de tal modo que os factos atrozes, as injustiças da história passada não sejam o destino último, definitivo, das vítimas”. Por isso, pensava que a moral assenta em última instância na teologia, significando teologia “a consciência de que este mundo é um fenómeno, que não é a verdade absoluta, que não é a ultimidade. Teologia é – exprimo-me conscientemente com grande cautela – a esperança de que a injustiça que atravessa o mundo não seja a ultimidade, que não tenha a última palavra (…) expressão de um anelo de que o verdugo não triunfe sobre a vítima inocente”15.
Theodor Adorno escreveu que “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência; a sua meta seria a ideia de uma constituição do mundo na qual não só ficasse erradicado o sofrimento existente, mas também revogado o irrevogavelmente passado”.16
Há o famoso paradoxo de Walter Benjamin. Como seria possível pensar a história a-teologicamente? É que, mesmo que fosse possível no futuro alcançar uma sociedade humana plenamente realizada, ela não poderia ser feliz, porque ou pensava nas vítimas do passado e não podia ser feliz ou não pensava nelas e não seria verdadeiramente humana.
Por isso, também Jürgen Habermas se refere a toda esta problemática, concretamente a das vítimas inocentes e da dívida da história para
, Crítica de la razón instrumental, Buenos Aires, 1973, p. 194.
, Anhelo de Justicia, Madrid, 2000, p. 242.
, Dialéctica Negativa, Madrid, 1975, p. 401.
com elas, trazendo à colação este texto de J. Glebe-Möller: “Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos que reclamar uma realidade que esteja para lá do aqui e do agora e que possa vincular-nos a nós também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama-a Deus”17.
Na sua última entrevista, que deveria ser publicada apenas depois da sua morte, Martin Heidegger deixou: “Nur ein Gott kann uns retten” (Só um Deus nos pode salvar). Só religiosamente pode ser garantida a esperança, como argumentou John Macquarrie: De facto, “1. Se há esperança séria absolutamente, ela não pode deixar de converter-se a longo termo em esperança total, 2. Uma esperança universal supõe a realidade de Deus, 3. Essa esperança tem que ser também uma esperança para lá da morte”18.
Mas, por outro lado, ninguém pode gloriar-se, diz I. Kant, de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura: se alguém o souber, escreve Kant “esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele”.
No entanto, embora não seja possível saber, é possível esperar que na raiz do mundo está o Deus criador por liberdade, não por necessidade. Segundo a Bíblia, Deus criou através da Sabedoria, a primeira das suas obras, ordenadora e arquitecta de toda a criação. Ela existe desde toda a eternidade. Quando Deus criou o céu e a terra, diz o autor do livro bíblico dos Provérbios, “eu, a Sabedoria, estava com Ele como arquitecto, e era todos os dias o seu encanto, jogando continuamente na sua presença; brincava sobre a superfície da Terra, e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos”19.
Como faz notar Jürgen Moltmann, segundo esta tradição, “a criação do mundo reveste carácter de jogo, que provoca deleite a Deus e alegria aos homens”. O mundo não é necessário. Existe porque Deus o criou em liberdade. Mas criou-o livremente, não arbitrariamente. “Por isso, não é uma casualidade”. Deus criou o que lhe agradava e agrada, “o que corresponde ao seu ser”. Assim, a criação é boa. Nesta categoria do jogo, exprime-se da melhor maneira a unidade da criação livre e da correspondente complacência. Com Hugo Rahner, pode dizer-se: “Quando dizemos que o Deus criador joga, dá-se a entender a ideia
, Israel o Atenas, Madrid, 2001, p. 101.
, Esperanza a pesar del mal, Santander, 2005, p. 40.
Prov. 8, 22-31.
metafísica de que a criação do mundo e do homem expõe a acção divina com sentido, mas não necessária“. Cá está o que caracteriza o jogo: pleno de sentido, mas não necessário. O Deus criador joga com as suas possibilidades e cria a partir do nada o que lhe agrada, porque está de acordo com ele. Então, ”a profundamente sentida contingência do mundo e a contingência dos acontecimentos, constantemente experienciada, deixam de aterrorizar o Homem, quando este se vê como grande participante do grande jogo que se joga com o mundo na sua evolução e consigo mesmo na história da sua vida“20.
No quadro desta fé no Deus criador livre, tendo a Sabedoria que joga como arquitecto, percebe-se que o jogo como símbolo do mundo inclui “o papel criador do ‘acaso’, pois capta o acaso como acontecimento do novo imprevisível a que um ser vivo se adapta ludicamente e recebe mediante o livre jogo das suas forças. O ‘acaso’ não é algo escandaloso pelo facto de escapar ao cálculo das leis. (..) De facto, as formas de jogo abarcam a necessidade e o acaso, a regularidade e a liberdade, a realidade e a possibilidade, o passado e o futuro, em ordem a construir sistemas de vida mais complexos”21.
No sentido de pensar a importância da interacção de acaso e lei, também o cientista e teólogo Arthur Peacocke escreveu: desenvolvimentos decisivos em biologia teórica e molecular bem como em bioquímica física, graças aos contributos das Escolas de Bruxelas e Göttingen, “demonstraram que é a interacção de acaso e lei que na realidade resulta criativa no tempo, já que só a combinação de ambos permite o aparecimento e evolução de novas formas; e, assim, a selecção natural parece ser oportunista. (…) Se tudo estivesse governado por leis rígidas, prevaleceria uma ordem repetitiva e de modo nenhum criativa; se regesse só o acaso, nenhuma forma, nenhum modelo, nenhuma organização poderia perdurar o suficiente para adquirir identidade ou existência real, e o Universo nunca seria um cosmos susceptível de indagação racional. É a combinação de ambos, lei e acaso, que possibilita um universo ordenado capaz de desenvolver no seu interior modos inéditos de existência. (…) Os teístas não podem deixar de interpretar o facto como sendo essas propriedades dadas como um dos traços do mundo estabelecidos por Deus. O modo no qual o que chamamos ‘acaso’ opera dentro deste quadro dado para produzir novas entidades, estruturas e processos pode
, Gott in der Schöpfung, Munique, 1985, pp. 312-313.
, Gott in der Schöpfung, Munique, 1985, p. 313.
ser entendido como suscitação das potencialidades que o cosmos físico possui desde o começo. Os teístas devem considerar que essas potencialidades, inscritas na criação pelo desígnio divino, são actualizadas pela acção do acaso, que as estimula para que cheguem à existência. Poderia dizer-se que o potencial do ‘ser’ do mundo se manifesta no ‘devir’ que a acção do acaso actualiza. Deus é o fundamento e a fonte última tanto da lei (necessidade) como do acaso“22.
De qualquer forma, ninguém sabe de modo pleno quem dirige o jogo do mundo nem quem é o árbitro, quem ou o que é o jogador último que joga e com que nós jogamos. De todo o modo, o mundo é um jogo em curso, que continua. O mundo está em processo, e o processo ainda não transitou em julgado. Ninguém sabe o que está verdadeiramente em questão – o que está em jogo é a salvação ou o sem sentido – na História do mundo e na História dos homens. A História lê-se do fim para o princípio e precisamente o fim ainda não chegou.
Por mim, neste tempo de in-esperança, fico, sem wishful thinking, portanto, com razões, mas com algo de opcional – na esperança e na questão do sentido, estamos inevitavelmente também no plano da opção vital-pessoal, o que se assemelha um pouco à aposta de Pascal: Ernst Bloch também disse que era preciso escolher entre “niilismo” e “metafísica da esperança” – fico com Immanuel Kant, quando escreveu: “A balança do entendimento não é completamente imparcial, e um braço da mesma, com o dístico: esperança do futuro, tem uma vantagem mecânica, que faz com que mesmo razões leves, que caem no seu respectivo prato, levantem o outro braço que contém especulações em si de maior peso. Esta é a única incorrecção que eu não posso eliminar e que eu na realidade não quero abandonar”23.
Mas, como disse Ernst Bloch, trata-se de “esperança com crepes fúnebres”. Entretanto, essa esperança, se não quiser ser justamente acusada de projecção alienante e de traição à Terra, tem de empenhar-se – a esperança não é passiva, mas activa, não é quieta, mas praxística: a praxis é constitutiva da esperança – na transformação do mundo, para que se torne um mundo mais feliz, pelo menos, seja menos infeliz e sinal de antecipação do que pode chegar, a partir do Futuro Absoluto, Realissimidade, não Coisa, mas Pessoa.
Esta é a “santa esperança”, de que falava Charles Péguy.
, Los caminos de la ciencia hacia Dios, Santander, 2008, pp. 131-132.
, Träume eines Geistersehers, in: Id., Werkausgabe, Band II, Frankfurt/M., 1991, p. 961.