Partindo de uma narrativa centrada e fechada sobre o sofrimento físico e psicológico, a autora descreve o percurso percorrido entre analista e paciente, na direcção do contacto emocional – entre analista e paciente e da paciente consigo própria. Esta experiência relacional nova (no sentido que lhe dá Coimbra de Matos) funda uma mudança que se observa ao nível da narrativa da paciente, abrindo possibilidade à verdadeira comunicação analítica, não obstante os movimentos de retrocesso que se observam ao longo do processo psicanalítico.
Florbela é uma flor triste, pálida e com pétalas de um amarelo bonito, mas seco; pouco irrigado pela vida. É alta e pouco adornada, como se se escondesse atrás de uma infância já há muito perdida…
Usava cores discretas, em tons pastel, e vestia com alguma displicência. O corpo sobrava-lhe das roupas que teimosamente pareciam querer esticar. As mangas curtas e as calças sem corte ou as saias compridas disfarçavam as formas femininas do seu corpo escondido, quase sem expressão.
Era uma menina, não havia dúvidas, mas só isso; uma menina. Não havia nada de masculino nela, mas também não chegava a ser uma adolescente. E durante muito tempo, também o seu discurso revelava esta imaturidade, deixando-me muitas vezes paralisada e impotente.
Quando a conheci, há cerca de 7 anos, Florbela tinha 34 anos e estava no limite do desespero. Considerava que a sua vida tinha sido um desastre
* Comunicação apresentada no “XXI Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: Psicanálise e História”. Lisboa, 16 e 17 de Maio de 2008.
Membro Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
completo. Não havia nada que funcionasse, muito menos que funcionasse bem. Estava desempregada e sem qualquer relação motivante: Não tinha amigos e nunca tinha tido um namorado.
Tinha-me procurado por indicação de um colega. Já antes tinha tentado uma psicoterapia com outro colega, mas não tinha corrido bem. Florbela conta que não se sentia compreendida, ou até, talvez, que não terá compreendido bem o psicoterapeuta que, nas palavras dela, “passava a vida a dizer que do que ela precisava era de se arranjar melhor e de pintar os lábios… Não que fosse mentira (…)” – Conta na primeira sessão – “(…) mas aquilo não me ajudou, e eu acabei por desistir” – Como se quisesse prevenir-me do temor da sua sexualidade e da angústia intolerável mobilizada, face ao investimento no seu corpo sexuado.
Também já tinha passado por vários psiquiatras que a tentaram ajudar a ficar menos ansiosa, mas nada resultou. O último ter-lhe-á mesmo dito que desistia do caso dela, pois já não sabia mais o que fazer para a ajudar.
Na primeira sessão, conta-me todos estes desaires. Tudo começou aos 15 anos, na sequência de ter tido, pela primeira vez, maus resultados escolares. “Até aí era perfeita” – Diz – “A melhor aluna da turma, tinha amigos, brincava, era feliz… Desde aí fui ficando triste, e depois cada vez mais ansiosa e com o horror dos sintomas físicos: Náuseas, dores de estômago, diarreias, dores de cabeça, dores no corpo todo… Um inferno. Um verdadeiro inferno… E cada vez fui ficando pior, e então comecei a correr para o Hospital e para os médicos, e desde aí comecei a recorrer aos calmantes.
Hoje em dia estou totalmente dependente dos medicamentos! De tal forma que sou incapaz de não os tomar. Fico louca, completamente louca, se não os tomo! Não que me façam alguma coisa, que não me fazem nada, não me acalmam, não me fazem sentir melhor, nada! Só que se não os tomo fico completamente incapaz de funcionar, porque fico com ainda mais sintomas físicos. O pior de todos é não dormir. Eu sei que é difícil acreditar, mas eu não durmo! Não estou a dizer que durmo mal, estou a dizer que não durmo mesmo! Ou seja, a maior parte das vezes deito-me e não chego a adormecer durante a noite toda! E depois vou ficando cada vez mais enervada, vou vendo as horas a passar e eu sem conseguir dormir, e vou ficando cada vez pior. Quer dizer, passo a noite num estado de nervos horrível! Depois, às vezes, sobre a manhã durmo qualquer coisa – meia hora, uma hora – e depois acordo em sobressalto, cheia de dores de cabeça, diarreia, náuseas… e é assim há anos…“.
Pergunto há quantos anos, e se coincidiu com algum acontecimento. Responde que sim. É assim desde que se apaixonou pela primeira vez e não foi correspondida. Já não andava bem desde os 15 anos, mas mais ou menos ia dormindo. Depois, aos vinte e poucos anos, quando se apaixonou pela primeira vez, por um primo de uma amiga de infância, e não foi correspondida, tudo se agravou ainda mais. Desde aí nunca mais largou os medicamentos. Se antes tomava só quando se sentia mais ansiosa, desde aí passou a tomá-los sempre, porque não conseguia suportar o sofrimento do desgosto, e os sintomas físicos que a deixavam incapaz de funcionar… “E a minha vida é isto.” – Continua – “Vivo num pesadelo horrível!… É claro que, sem dormir e cheia de sintomas físicos, é impossível funcionar, não é?… Não consigo trabalhar porque, obviamente, sem dormir não consigo sequer concentrar-me… e o resultado disto tudo é que sou uma inútil.
E agora estou nesta situação – completamente dependente dos meus pais – que se não fossem eles, nem sei o que seria de mim – sem conseguir fazer nada pela minha vida. Já para não falar no desgosto que lhes dou, não é? Deve ser horrível ter uma filha assim! Eles fazem tudo por mim, e eu pago-lhes desta maneira!…
… E então é isto… Vivo num inferno, e ainda por cima, culpada por fazer isto aos meus pais… Eu sinceramente não sei… Não sei o que se passa comigo; o que eu sei é que não me sinto a pertencer a este mundo… Não sei explicar, mas sempre senti isto. Sinto que não sou de cá, que estou cá por engano e que não percebo nada do que aqui se passa… Sinto-me uma extraterrestre… Acho que ninguém me compreende e que eu também não compreendo nada das pessoas, do que elas pensam, de como funcionam…
E depois é isto dos sintomas físicos… É impossível viver assim. É mesmo impossível, e eu já não sei o que fazer, porque, como lhe disse, os medicamentos já não me fazem nada, embora eu esteja completamente dependente deles… É de tal forma que eu já não sei muito bem o que é que é causa e o que é que é efeito…” – Eu penso no seu primeiro desgosto de amor… mas não a interrompo.
Ela continua: “Já não sei se o problema sou eu ou se são os medicamentos que eu tomo e sem os quais já não posso viver… Também já não tenho esperança de viver sem os medicamentos, porque já fiz várias tentativas de os retirar, com vários médicos, e nunca consegui… Não suporto o estado miserável em que fico – porque sem os medicamentos ainda fico pior: Cheia de sintomas físicos (ainda mais) e com uns nervos
que me deixam completamente fora de mim… Não suporto mesmo. Não aguento mais este inferno. Às vezes, nem sair de casa consigo, porque não aguento as dores e tenho que estar sempre ao pé de uma casa de banho. É horrível! É mesmo horrível viver assim. Não sei mesmo o que fazer. Só sei que viver assim não vale mesmo a pena. Para mim, a vida é uma tortura horrível. Sinceramente não sei mesmo o que fazer… Penso muitas vezes em morrer, mas nem isso eu posso fazer… Nem morrer eu posso, por causa dos meus pais… Nem sequer me posso matar, porque acho que lhes dava um desgosto ainda maior… E então, a única coisa que me resta é esperar… Esperar e aguentar… Porque a única coisa que me acalma é pensar que um dia, mais tarde ou mais cedo, isto vai acabar… Um dia, espero que seja cedo, a morte há-de chegar, e então, finalmente descanso; livro-me deste massacre… O problema é que, enquanto espero, tenho que sofrer este horror, 24h sobre 24h… Às vezes acho mesmo que nem esperar eu vou conseguir mais… Às vezes acho mesmo que não vou aguentar mais esta tortura… Não sei… Não sei mesmo… Só sei que estou numa lástima, não sei mais nada.”
Penso que me fala de uma dor antiga, que remete para o desamparo vivido na relação primária – da incapacidade de contenção de todas estas angústias e aflições corporais (que reenvia para falhas importantes na relação precoce) e também da impossibilidade de conciliar a emergência da sexualidade (aos 15 anos) com esta imaturidade afectiva e funcional. Mas, naturalmente, guardo para mim estes pensamentos, esperando compreendê-la melhor e melhor oportunidade para que as duas os possamos pensar.
Florbela prossegue, acrescentando que todos os médicos lhe disseram que na base do seu sofrimento físico está a ansiedade. E ela concorda. Sente-se realmente muito ansiosa. Não sabe é donde lhe virá esta ansiedade… Só sabe que sofre, e que não é uma pessoa normal…
Aqui, atrevo-me a comentar qualquer coisa como: “Mas, no entanto, disse-me que até aos 15 anos não era assim…”
Ela concorda: “Sim, isso é verdade. Mas será que isso também não pode vir programado nos genes? Já ouvi dizer que algumas doenças só aparecem em determinadas idades…”, mostrando a defesa pela racionalização, que mais tarde voltará a estar muito presente, como forma de combate às minhas hipóteses explicativas e interpretativas. Defesa contra uma dor funda, a que só anos depois foi possível ter acesso.
Proponho ainda uma nova hipótese exploratória: “Também me falou do seu primeiro desgosto de amor, e parece que foi nessa altura que ficou
mais dependente dos remédios… Aí parece que não há dúvidas sobre o que é que foi causa e o que é que foi efeito…”.
Ela: “Sim, é verdade, as paixões são um descalabro, mas a verdade é que eu já não andava bem… Sim, mas nesse plano, a minha vida é uma desgraça completa. Para ter uma ideia, tenho esta idade e nunca tive um namorado. E também nunca ninguém gostou de mim… É triste, mas é verdade. Às vezes, há pessoas que sofrem de desencontros, porque se apaixonam pela pessoa errada; mas depois, em contrapartida, têm outras pessoas apaixonadas por elas mesmo que elas não estejam apaixonadas… Mas eu não. Eu nunca tive sequer um desencontro. Nunca ninguém se apaixonou por mim. Sou eu sempre que me apaixono, mas nunca sou correspondida.
A primeira vez foi com aquele primo da minha amiga, como lhe disse há bocado. Depois foi com um colega que conheci num curso de alemão… Depois foi com outro colega que conheci durante um estágio que fiz na Alemanha… Com todos aconteceu a mesma coisa: Contrariando a minha tendência natural para ser inibida – e porque percebi que isso me prejudicava –, lá me enchi de coragem e lá lhes disse, mas obtive sempre a mesma resposta… Têm muita pena, mas não sentem o mesmo por mim… Eu sou uma pessoa impecável, mas eles não sentem o mesmo… Eu até já devia estar habituada, não é? Mas não. Pelos vistos não estou. Porque não só não sofro menos, como sofro cada vez mais! E o pior de tudo é que não desisto! Enquanto não tenho outro para substituir, fico a sofrer pelo último! Mas quando eu digo a sofrer, é a sofrer mesmo! Quer dizer, fico completamente avariada! E é incrível porque já lá vão quase dez anos e eu não o esqueço. Mesmo sabendo que não tenho a mínima hipótese, mesmo assim não consigo esquecê-lo…
E com as amizades é a mesma coisa: Eu dedico-me, gosto das pessoas, faço tudo por elas, e depois, sem saber por quê, todos acabam por me abandonar… Não sei… Não sei mesmo o que se passa comigo, e também não percebo nada das pessoas… A sensação que eu tenho é que está tudo bem, enquanto eu me mostro disponível, quando mostro os meus problemas, todos fogem, mas não sei se é isto. Não sei se são as pessoas que são horríveis, ou se sou eu que tenho um defeito horrível…“.
Esta primeira sessão marca o tom dos primeiros anos da análise: Tom melancólico e sem esperança, queixume permanente centrado em problemas sem solução, e sobretudo no mal-estar físico.
Nada, mas mesmo nada do que eu pudesse propor para pensarmos era aceite como ponto de partida para construirmos algo de novo. Todas
as minhas propostas eram sistematicamente rejeitadas – frequentemente combatidas pelo frouxo mecanismo de racionalização que denunciava a falha ao nível dos processos de pensamento e simbolização – como se não lhe fosse sequer tolerável ouvir-me; como se precisasse que eu percebesse, pela minha própria experiência, o beco sem saída em que se sentia.
Desisti de explorar, sem sucesso, o mundo dos sonhos e da fantasia ou de tentar associar, também sem sucesso, as dores físicas às dores mentais e sentimentais. Tinha respostas rápidas e conclusivas: Já sabia e isso não a ajudava. Também não sonhava e não imaginava. Não brincava, tão pouco. Apenas se apaixonava, de vez em quando, mas isso, como me explicou, só lhe trazia sofrimento – o que mostra a deficiente ligação entre a realidade e a fantasia e, por consequência, a falência dos fenómenos transicionais (Winnicott, 1975). Diria mesmo que estas paixões se situam na tentativa inconsciente de encontrar o objecto que permite a ilusão omnipotente (Winnicott, 1975), sem o qual não é possível a integração progressiva da realidade e a passagem para a dependência relativa e para a fase do uso do objecto (Winnicott, 1975).
Se me atrevia a pensar um pouco no seu quotidiano, nas relações com os pais (já que eram as únicas que imaginava que tinha), também não acrescentava muito mais ao facto de sempre ter sentido que viviam em mundos diferentes: Eles no deles, e ela no dela. Nada mais havia do que isso, e a dor de os fazer sofrer. Também não havia qualquer ressonância interna entre este desencontro com os pais e o desencontro que sentia nas outras relações ou qualquer associação com o seu sofrimento físico.
Tudo o que queria era explicar-me o seu mal-estar (físico e mental), com o máximo de pormenores, como se esperasse uma receita para as suas maleitas, que infelizmente eu não tinha. E durante muito tempo, as sessões foram ocupadas com a descrição minuciosa das suas dores corporais, dos seus sintomas físicos e do seu desespero vivido no plano mental…
Aceito, apesar da impotência que sentia, ouvi-la, anos a fio, em todas estas descrições, queixas e lamentos. Florbela mantém-se assídua, nunca falta, e nunca chega atrasada, embora nunca traga nada de novo para dizer… Eu, pelo meu lado, vou percebendo melhor a minha contratransferência impotente e pouco esperançosa… Sentia-me, também eu, a viver um tormento em cada 45 minutos de cada sessão (o tormento que habitava o seu interior, que ela vivia 24h por dia e que tão bem me fazia compreender).
Eu própria parecia querer fugir do contacto com alguma coisa dentro de mim, talvez também desvitalizada e sem esperança… Com o tempo percebi que o que me estava a ser intolerável era a minha própria impotência infantil – revivida naquele tempo enquanto aprendiz de psicanalista – que, estava claro, também não era passível de ser resolvida omnipotentemente…
E então o que me restou foi mesmo ouvi-la, com a empatia que me era possível, dizendo o mínimo possível e procurando manter-me presente. Felizmente resisti à tentação de a tentar convencer de que ela estava enganada e que a vida não era assim tão má e que as pessoas não tinham que ser todas tão horríveis e que era possível encontrar dentro dela alguma coisa que transformasse o ciclo vicioso do azar em laivos de sorte que lhe trouxessem a possibilidade de mudar e de não ser tão infeliz… Intui que se lhe tentasse dizer alguma coisa de parecido, ela iria reunir todas as suas forças para me provar que eu estava errada. Ou seja, para me mostrar que eu ainda não tinha compreendido bem todo o seu sofrimento, desespero e impossibilidade de evoluir, numa aliança secreta com o sabotador interno (Fairbairn, 2000) – sobretudo nesta fase, em que não havia ainda uma relação de confiança entre nós, que permitisse um ambiente facilitador (no sentido que lhe deu Winnicott, 1975) ao desenvolvimento da expressão do Eu verdadeiro.
Por isso, mantenho-me calada, e vou ensaiando um espaço dentro de mim onde vou encontrando diálogos possíveis, não com ela – ainda não –, mas com uma parte dela, semente de uma Florbela que vai existindo dentro de mim e que eu vou construindo na minha fantasia. Uma Florbela que ansiava por uma relação aceitante (embora não a soubesse aceitar), para depois poder ser motivante (a Nova Relação de que nos fala Coimbra de Matos), em contraste com as relações ténues das figuras apagadas e deprimidas da sua infância.
E assim vou conquistando alguma liberdade, e vou-me sentindo cada vez menos sufocada e convocada a dar uma resposta imediata a todo aquele sofrimento. Ou seja, dentro de mim é possível ampliar o espaço de disponibilidade para ela e para a relação com ela, e o tormento vai dando lugar a um sentimento mais sereno de esperança e de alguma tranquilidade.
Um dia, ao fim de dois anos e meio, três anos de análise, mostro-lhe o quanto é importante para ela que eu oiça e aceite sem criticar todas as suas queixas… Provavelmente nunca ninguém o tinha feito antes…
Pela primeira vez, fala na relação com a mãe e chora, dizendo que, na verdade, embora lhe custe muito dizer isto, nunca se sentiu compreendida e aceite por ela. Pelo contrário, quando se queixava (e mesmo agora que está praticamente incapaz de funcionar), o que obtinha era sempre (mas mesmo sempre) uma postura crítica e culpabilizante… Chora sentidamente, recordando alguns episódios de infância: Lembra-se de ser pequena e de a mãe não a deixar brincar, sempre obcecada com as limpezas e com as arrumações (ainda hoje é assim). Também se lembra dos Natais em que a mãe cozinhava para toda a família e a todos tentava agradar (sem sucesso), enquanto que a ela a criticava, ou porque não a ajudava (como ela queria), ou porque fazia barulho, ou porque não comia (o que ela queria que comesse), ou porque outra coisa qualquer… Ainda hoje é assim: Para as outras pessoas (pessoas que muitas vezes não a valorizam e se aproveitam dela) desfaz-se em amabilidades; para ela, que é filha, tem sempre uma crítica a fazer, tem sempre qualquer coisa a dizer para a fazer sentir-se culpada… Nunca, mas mesmo nunca, tem uma palavra de carinho ou de compreensão… Mesmo agora, que se sente tão mal, não percebe este sofrimento, acha apenas que teve muito azar… As outras mães têm filhas normais e ela teve o azar de ter uma filha assim…
Com o pai foi diferente. Quando era muito pequena, lembra-se de o pai lhe dar um pouco mais de atenção. Também não brincava com ela, mas levava-a ao café e ensinava-lhe as letras… Nunca mais se esquece do bem que aquilo lhe sabia… Também lhe lia histórias antes de adormecer, mas isso era quando era muito pequena… Depois, com o tempo, também este afecto do pai foi perdendo… (Chora). O que pensa que aconteceu é que ele se foi aliando cada vez mais à mãe, deixando-a cada vez mais sozinha… Antes não tinha muita consciência disto, mas agora começa a ver com nitidez o que se passou, e isso causa-lhe um sofrimento horrível… (Chora convulsivamente, até ao fim da sessão).
Este momento, vivido com grande intensidade, onde contacta pela primeira vez com a sua depressão infantil, raiz da sua depressão actual (a rejeição, a crítica e a culpabilização da mãe e o desinvestimento, abandono e perda de amor do pai), permite-lhe, pela primeira vez ali comigo, viver a sua dor ao nível de uma linguagem interior, até então curto-circuitada pela evacuação através do corpo. Mas embora rico, este momento não perdura. Só muito mais tarde é possível a vivência plena desta dor e a sua consequente (embora lenta e com retrocessos) transformação em verdadeira revolta transformadora.
As sessões seguintes, e durante muitos meses, são novamente inundadas de problemas sem solução, de dores sem cura, de queixas sem resposta. Mas há, pela primeira vez, uma brecha que se vislumbra neste discurso fechado (que retoma por impossibilidade de dar continuidade à dor vivida no plano mental); uma ponte de ligação entre o somático e o psíquico, um espaço em embrião onde os pensamentos se ligam às emoções… Diria mesmo que a partir desta sessão se vai organizando, cada vez mais, uma verdadeira Relação Analítica – A experiência adivinhada de um contacto intimo, autêntico e partilhado.
As sessões prosseguem o seu ritmo habitual. Prevalece o desânimo e o pessimismo. Os sintomas continuam, mas já vai sendo possível arrancá-la dos factos e ajudá-la a pensar sobre os sentimentos. Guardei umas notas de uma sessão que penso que ilustra bem esta mudança de plano no seu discurso. Teria talvez três anos e meio de análise.
Como de costume, diz-me que se sente muito mal e enumera os vários sintomas físicos. Voltou a não dormir – Eu não sabia que tinha passado a dormir melhor. Penso que não me terá dito com medo que eu pensasse que ela já estava muito bem. Mesmo assim, pergunto-lhe há quanto tempo tem estado a dormir melhor – Diz que não sabe bem, mas que isso também não é significativo – Eu penso que talvez tenha aprendido com a mãe a valorizar os aspectos negativos da vida e a desvalorizar os aspectos positivos, mas não lhe digo. Ela prossegue, dizendo que o que é realmente importante é que se sente muito mal mesmo, e que mesmo o dormir melhor é relativo… Agora já adormece, mas acorda sobressaltada a meio da noite e de manhã dorme até à uma da tarde, o que inviabiliza qualquer hipótese de trabalho – acrescenta, como se receasse que eu a apressasse na entrada no mundo adulto, agora que mal entrou no mundo da infância… Continua, dizendo que mesmo um trabalho só da parte da tarde está fora de questão, porque não se sente minimamente em condições de aceitar um compromisso destes. Sabe que vai falhar, pois haverá sempre um dia que não se vai conseguir levantar, nem mesmo de tarde, já para não falar em todas as disfunções físicas que eu tão bem conheço… Diarreia, dores de estômago, dores de cabeça, enfim…
Mas como me estava a dizer, voltou a não dormir – já não dorme há três noites, porque acabou o remédio que estava a tomar (um hipnótico) e ficou num estado de nervos horrível. Está num grande sofrimento: Dói-lhe violentamente a cabeça e o estômago. Também voltou a diarreia. A meio da noite até pensou ir ao Hospital. Está muito aflita, porque o novo psiquiatra só a pode ver daqui a um mês. Acha que vai dar em
maluca. Não vai aguentar… E continua a enumerar queixas e lamentos, mostrando o impasse interno em que se sentia: Por um lado, o desejo de evoluir, por outro, a falta de instrumentos de autonomia e a revolta; o desejo inconsciente de deixar claro o mal que lhe fizeram, não fosse eu convencer-me de que o problema dela era um problema menor e de fácil resolução… Como se me dissesse que a sua dor é infinita e que o meu esforço, empenhamento e dedicação terão que ser infinitos também; como foi o dela, no passado, com a mãe… Também ela terá tido um esforço infinito, e sempre inglório, para “reabilitar” a mãe…
Eu pergunto-lhe se este mal-estar, para além de ter coincidido com o fim do remédio, se não coincidiu também com mais alguma coisa.
Diz que sim. Há precisamente três dias esteve em casa de uma amiga – uma antiga colega da Escola Primária, das únicas relações que manteve, embora sem grande intensidade e com contactos muito esporádicos. Esteve lá até às quatro da manhã, a conversar com ela e com os amigos dela, e teve a sensação que eles não estavam a gostar nada dela. E quanto mais tinha esta sensação, mais falava, e quanto mais falava, mais ansiosa ficava… – Fica em silêncio.
Diz, depois, que a única coisa que a fez levantar-se da cama hoje foi pensar que vinha ter comigo, para me contar o mal-estar que sente…
Recordando o seu medo de ser abandonada e rejeitada quando as pessoas passam a conhecê-la melhor, nomeadamente, quando lhes fala dos seus problemas ou lhes mostra o seu sofrimento, digo-lhe: “Também tem medo de se desiludir comigo…”
Ao que ela responde sem hesitar: “É sempre isso que acontece quando me conhecem melhor, não é?” – Fica novamente em silêncio. Depois, fala-me, mais uma vez, de todas as desilusões que teve, não só no campo amoroso, como também nas relações de amizade. Sente, na realidade, que está condenada a esconder o que é e o que sente verdadeiramente, se não quiser ficar completamente sozinha…
Digo, para terminar que penso, que é assim que se sente desde sempre: Impossibilitada de ser quem é e de sentir o que sente, por falta de aceitação dos pais, em primeiro lugar da mãe, mas mais tarde também do pai.
Faz um som de anuência e a sessão acaba aqui.
Na sessão seguinte, depois das queixas habituais, retoma o tema das relações, nomeadamente das relações amorosas. Acha estranha esta coisa de se apaixonar sempre por homens que não se interessam por ela…
Eu arrisco uma interpretação: “Talvez isso também se explique pelo seu medo dos homens…”
Para minha surpresa, ela concorda de imediato. E conta-me então um episódio, teria 13/14 anos, em que foi perseguida por um grupo de rapazes que a tentaram violar… Chora, lembrando o horror que sentiu quando eles brutalmente lhe tentaram tirar as calças (por sorte tinha calças!) e ela, sem saber como, consegue resistir e fugir. Até esse dia não conhecia a sua força física. Nunca pensou que conseguisse realmente livrar-se deles, mas conseguiu. Lembra-se de correr até casa, num fôlego só e de se fechar no quarto a chorar, petrificada de pânico! Não contou nada a ninguém, nem à mãe nem ao pai. Teve medo de os preocupar e também teve medo da reacção deles. Receou que a impedissem, por medo, de fazer a sua vida normal.
E o tempo foi passando, sem nunca ter falado deste episódio a ninguém. Hoje é a primeira vez que o faz. Nunca pensou que guardasse ainda de forma tão viva na memória o horror que sentiu naquela altura… – Chora por algum tempo. Finalmente diz que deve ser por isso que nunca usa saias e se veste sempre tão descuidadamente… O outro psicólogo não podia saber disto, quando lhe sugeriu que pintasse os lábios e que se arranjasse melhor… (diz entre soluços). Ele não podia adivinhar o horror que sentiu naquela altura e o medo dos homens que ficou gravado, para sempre, dentro de si…
Nos anos que se seguiram, várias vezes voltámos a este assunto, que foi sendo sentido, progressivamente, de formas diferentes. Ao princípio era vivido como “o trauma que a marcou para sempre”, responsável por todos os seus males. Depois, embora continuasse a assumir um lugar importante, tornou-se menos determinante. A dada altura diz mesmo que, apesar da violência da situação, provavelmente continuaria a ter medo dos homens, mesmo que este episódio não lhe tivesse acontecido. É verdade que a fantasia que faz dos homens é que são bichos violentos que só pensam em sexo. Mas é verdade também, reconhece-o agora, que se sentia muito mais imatura do que as outras raparigas da sua idade. Enquanto as outras já pensavam em namorar, ela ficava decepcionada por ter perdido as parceiras das brincadeiras. Enquanto as outras se interessavam e ficavam bonitas para agradar aos rapazes, ela queria continuar pequenina a brincar ingenuamente na rua, como fazia na infância… Para ela, perder a infância foi uma dor horrível! Talvez por isso, ainda hoje se entenda muito melhor com as crianças do que com os adultos… Talvez porque o tempo da infância foi escasso e insatisfatório, penso eu. E talvez por isso deseje agora uma infância eterna, que a compense deste buraco imenso deixado pelo passado…
Mais tarde, muito mais tarde, também ela começou a sentir desejo e impulsos sexuais, mas mais uma vez, sentia-se desadequada e sozinha. As outras já há muito tinham passado por aquilo e ela continuava sem perceber nada de rapazes… Ou melhor dizendo, já não tinha amigas que a pudessem ouvir, e com a mãe… escusado será dizer que também não podia contar… Ainda se lembra da aflição e da vergonha que sentiu quando, aos 15 anos, lhe apareceu a menstruação. Felizmente não foi apanhada desprevenida, pois as amigas já tinham passado por isso há alguns anos e ela sabia que um dia lhe ia acontecer a ela. Mas lembra-se do embaraço que sentiu quando teve que contar à mãe, e também se lembra de a mãe lhe ter dado qualquer coisa para ela não sujar as cuecas, e foi tudo. Portanto, também aqui esteve sozinha, como sempre esteve, reconhece-o agora.
As sessões vão prosseguindo. Florbela continua assídua e o sofrimento físico, lentamente, vai dando lugar ao sofrimento mental; à recuperação mnésica da sua história e à expressão vivida dos seus sentimentos… A pouco e pouco vai-se sentindo melhor, um pouco menos só, embora continue a tomar remédios e ainda ocupe grande parte das sessões com grande pessimismo e com queixas sobre o seu mal-estar físico. No entanto, por volta dos quatro anos de análise, sente-se um pouco mais segura e aceita começar um part-time numa loja – só da parte da tarde – porque ainda lhe é muito penoso levantar-se de manhã. Não se sente ainda segura para procurar um trabalho na área em que se formou, mas inicia este trabalho com algum entusiasmo.
Continua com medo da relação com as pessoas em geral, e particularmente das relações amorosas, mas ainda assim estabelece contacto com algumas pessoas. Há duas ou três raparigas com quem simpatiza e torna-se amiga íntima de uma delas. Esta amiga, por sua vez, apresenta-lhe um amigo, por quem Florbela se apaixona quase de imediato: O João.
Com o João as coisas foram um pouco diferentes. Ele também se interessa por ela e começam um enamoramento que dura cerca de dois meses. Apesar do medo, venceu o desejo e Florbela estava feliz, embora muito ansiosa. Tinha medo de tudo: Tinha medo de fazer má figura; tinha medo de não saber como fazer; tinha medo de fazer amor (quando surgisse), tinha medo de não fazer; tinha medo de ter medo… Enfim, sentia-se rodeada de fantasmas, mas finalmente a viver uma parcela suspensa (como tão bem explica Coimbra de Matos) da adolescência perdida e bloqueada no passado.
Estava mais bonita e finalmente usava batom. As sessões eram vivas e os pedidos agora eram outros. Precisava que eu lhe ensinasse as coisas da vida. Mais do que de um colo para chorar as suas mágoas, precisava que eu a ensinasse a ser mulher…
Mas este entusiasmo foi sol de pouca dura. João revela-se muito inseguro, indeciso e deprimido. Confessa-lhe que ainda gosta da ex-namorada e que isso é mais forte do que ele… Mais uma vez, ela sente-se a desabar… Ainda por cima identifica-se completamente com este discurso. Sabe perfeitamente o que é não conseguir superar uma paixão… Ela sabia como era impossível lutar contra isso, mesmo quando se sabe que nada se pode esperar dessa paixão. Contudo, sente novamente a dor insuportável de ser rejeitada, e mais uma vez mergulha no desalento e no pessimismo. Os sintomas físicos agravam-se, e, como se não bastasse, a amiga de quem se tinha tornado íntima e por via de quem tinha conhecido o João torna-se distante e sem disponibilidade para ela.
Completamente incapaz de funcionar, fica de baixa por mais de dois anos, e o seu discurso regride novamente às queixas somáticas, ao desânimo e à solidão inconsoláveis… Os pais já não suportam vê-la assim, e ela sente-se cada vez mais culpada… Agora está sempre a desejar que eles saiam de casa; que vão de férias, que passem fins-de-semana fora, que a deixem sozinha… Pelo menos ficar sozinha… Já que não tem meios para ser ela a sair de casa, pelo menos que saiam eles, e que a deixem em paz… Já sabe que depois (quando eles voltarem) vai ter que ouvir a mãe porque acha sempre que ela não cuidou bem da casa e que tem tudo sujo e desarrumado, mas compensa… Pelo menos enquanto estão fora não a chateiam, não a criticam, não a comparam com as primas, e ela não se sente tão culpada e inferiorizada…
Por esta altura decide fazer uma viagem à Alemanha. Vai ver os amigos que conheceu durante o estágio, embora se sinta muito culpada por ir gastar o dinheiro que não tem, em vez de estar a trabalhar, como fazem as pessoas da sua idade. Mas a verdade é que, neste momento, não consegue trabalhar e nem se imagina sequer a cumprir obrigações.
A viagem dura uma semana, e quando chega está ainda num desespero maior… Sente-se muito mal… Os sintomas físicos, que já tinham voltado, pioraram ainda mais durante a viagem. Passou o tempo todo de casa para o médico e do médico para casa. Não pôde fazer nada. Nem passear, nem estar com as pessoas, nada! Passou o tempo todo doente e de mau humor… As pessoas devem ter ficado com uma imagem péssima dela. Se ainda acalentava a esperança de pelo menos ter guardado estes
amigos, agora não tem dúvidas que também os perdeu… Ninguém está para aturar uma pessoa assim… Está desesperada… A vida assim, realmente, não vale a pena ser vivida… Já não sabe mesmo se vale a pena tanto esforço e sofrimento, só para não dar um desgosto aos pais…
Desta vez interpreto o pessimismo e as queixas inconsoláveis ao nível da zanga antiga e profunda que ela tem dentro dela, despoletada agora por esta desilusão com o João, mas anterior a ela; a mesma zanga que a fez entrar em desespero das outras vezes que se apaixonou… É uma zanga que corresponde a uma dor imensa, a um grande desgosto que não consegue sarar: o seu primeiro desgosto de amor – a rejeição da mãe, mais tarde revivido no abandono do pai. Não esperava que o pai a abandonasse e, sem saber – porque não se pode lembrar, mas pode sentir – arrisco eu, tendo como hipótese que ela faz comigo o que a mãe terá feito com ela: invadir-me de dor e de queixas sem solução; anulando assim a minha existência e qualquer possibilidade de a ajudar – sem saber – continuo – esperava da mãe alegria e entusiasmo pelo seu nascimento, e o que teve foi dor, queixas intermináveis, pessimismo; que resultaram em desvalorização, rejeição e culpabilização…
Florbela rompe num choro incontrolável, por muito tempo. Finalmente conta-me, entre lágrimas e soluços, a história que a mãe sempre lhe contou sobre o seu nascimento: o parto foi uma coisa horrível – nem sabe como é que se consegue resistir a tanto sofrimento físico. A mãe conta-lhe, com todos os pormenores, o horror físico que passou para ela nascer: Horas intermináveis de dores insuportáveis; depois, fórceps, rasgões e suturas; e, por fim, uma incapacidade total para cuidar dela… Foram umas tias que lhe asseguraram os cuidados básicos, quando ela nasceu, porque a mãe estava completamente incapaz – Chora – Ainda hoje se sente culpada por lhe ter provocado tanto sofrimento… O seu nascimento só trouxe dor; não trouxe alegria… – Chora.
Depois, era ela recém-nascida (também lhe conta a mãe), e a mãe começou logo a trabalhar, porque precisavam do dinheiro… E então, como trabalhava por turnos (tal como o pai), não a podia deixar sozinha em casa e levava-a com ela numa alcofa, para que pudesse tomar conta dela enquanto trabalhava… – Chora, mais uma vez, imaginando o sofrimento da mãe.
Nesta altura mostro-lhe o quanto foi traumático para ela esta rejeição e exigência da mãe – Mais tarde, fizesse ela o que fizesse nunca estava bem, nem nunca tinha o efeito de a pôr mais bem-disposta; o que a fazia sentir-se impotente e desvalorizada – como, de alguma forma, faz comigo
agora; também eu, diga o que disser, nada é suficiente para a aliviar e para a ajudar a sair do ciclo vicioso em que se encontra…
Florbela fica em silêncio. Depois diz que é verdade que se sentia assim com a mãe, mas não acha que faça isso comigo… O que sente é que sofre e, portanto, fala-me desse sofrimento, mais nada… Eu não insisto e ela retoma as memórias do sofrimento vivido na relação com a mãe, e depois também o desgosto pela perda de afecto na relação com o pai.
Apesar de tudo, a sessão permite novamente o contacto com a dor infantil e abre novamente caminho a um novo registo. Pela segunda vez, é possível a saída do impasse em torno das queixas físicas e dos lamentos desesperados e sem resposta possível.
Florbela passa um período de grande sofrimento psíquico. As queixas físicas cedem finalmente à vivência plena da dor emocional, por identificação à criança algures perdida no seu passado e confundida com a dor da mãe – embora este trabalho de desconfusão seja ainda sujeito a retrocessos. Ainda assim, as sessões seguintes são ocupadas, por muitos meses, ou mesmo anos, com recordações recuperadas da sua solidão infantil e com o choro incontido (finalmente descongelado) que as acompanha. A vivência da sua depressão e consequente libertação da revolta abafada contra os pais libertam-na quase totalmente dos sintomas físicos e Florbela retoma o part-time, ao mesmo tempo que vai aceitando dar umas explicações de Alemão (que fala fluentemente).
O movimento de revolta contra os pais, e principalmente contra a mãe, vai sendo cada vez mais presente e consistente, como se vê neste extracto de sessão que seleccionei como exemplo e que data de Outubro de 2007:
Começa a sessão num misto de dor e revolta, chorando enquanto fala: “Agora sinto uma revolta enorme contra a minha mãe!… Mexe-me em tudo, não me respeita em nada! Para ela, a única coisa que conta são as limpezas e as arrumações! Já lhe pedi vezes sem conta que não mexesse nas minhas coisas; pelo menos no meu quarto; acho que pelo menos o meu quarto devia ser meu por direito, não é? Mas não! Mexe-me em tudo, tira-me a ordem às coisas e põe-me louca. Completamente louca! Não me considera, não me respeita em nada! É como se eu e as minhas coisas não existíssemos ou não tivéssemos importância nenhuma – e então pudessem ser perdidas, ou mesmo deitadas fora. Não percebe que me prejudica e que isso pode ter consequências graves na minha vida.
Desta vez conseguiu fazer desaparecer a explicação que tinha preparado para o aluno novo de 12.° Ano! Ela não percebe, embora seja evidente
a insegurança em que fico, o medo de falhar, de não ser capaz… Já me custa a ideia de ter um aluno novo, ainda por cima de 12.° Ano; já me custa ter que preparar as explicações – e só eu é que sei a ansiedade em que fico dois ou três dias antes de cada explicação…”
Nesta altura, pudemos também perceber melhor esta ansiedade relacionada com o medo de falhar, enraizada no acontecimento que despoletou a sua depressão, aos quinze anos: os maus resultados escolares. Como ela própria diz, ser boa aluna era a sua identidade. Era como se não existisse para além disso, nomeadamente para o pai. Para a mãe era mais a identidade de ser muito boa dona de casa, que ela sempre rejeitou. Ou seja, da mãe, terá desistido mais cedo, desistindo também, por consequência, de uma parte de si que terá ficado fundida na identidade da mãe, por impossibilidade de a acusar. Ter-se-á então virado para o pai, numa tentativa inconsciente de compensar a falha empática vivida na relação com a mãe.
O seu Eu verdadeiro terá então ficado escondido e sem expressão, já mesmo desde bebé: Era um bebé pouco exigente, contam-lhe os pais, só comia e dormia; como se, desde cedo, se tivesse habituado a anular-se para que a mãe pudesse existir… Depois, com a escola, foi o mesmo, desta vez já na relação com o pai – mais importante do que ser feliz, era satisfazer o desejo do pai…
Mas nesta sessão, Florbela continua a expressar a dor e a revolta contra a mãe: “Ontem, depois desta cena de ela me ter perdido os papéis, tive que sair de casa, para não rebentar de raiva; para não lhe dizer tudo o que penso e sinto por ela… Porque sei que isso seria ainda pior. Sei que depois haveria de me sentir ainda mais culpada, e isso seria ainda pior. Por isso, decidi não lhe dizer, apesar da vontade que tinha de lhe dizer tudo: que ela me invade com o sofrimento dela, que ela nunca tentou chegar a mim, que nunca fez um esforço sequer para me ouvir, que nunca soube dos meus gostos, que para ela chegava achar que eu sou esquisita, que no fundo no fundo nunca gostou de mim…” – Chora – “Tentei resolver isto dentro de mim… mas não é fácil… Ainda tentei agarrar num papel e escrever, como se estivesse aqui, a falar consigo, mas também não consegui; não estava suficientemente calma para isso. Então decidi sair de casa, e pus-me a andar sem destino – a andar e a chorar, sem conseguir parar – Quem me viu de certeza que pensou que eu estava louca! E estava. Estava e estou. Louca de tanta dor e raiva por ela me tratar assim…”
Mas a revolta e a zanga são também vividas na transferência, como se vê com nitidez noutro extracto de sessão, datado de Janeiro de 2008:
Florbela mostra-se claramente desalentada com o processo terapêutico: “Para lhe dizer a verdade, acho que a minha vida não melhorou em nada, desde que comecei a vir cá – e já lá vão muitos anos! – Pelo contrário. Às vezes acho que estou ainda pior…” – Chora – “O sofrimento sempre cá esteve, eu sei. Mas antes, pelo menos, eu não sabia das coisas. Agora sei, e isso faz-me sofrer ainda mais. Antes sabia que tinha um problema, mas não sabia que era tão grande, isso não sabia… A verdade é que, apesar de saber, nada melhorou na minha vida. Nada! Não há área nenhuma da minha vida que se aproveite, com a agravante que saber das coisas me aumenta ainda mais a ansiedade… Quanto mais percebo, mais desesperada fico, e o resultado é que fico logo a dormir pior! À noite, fico num estado de nervos horrível, porque não consigo deixar de pensar na anormalidade da minha vida – e a consequência é que já tive que aumentar a medicação para conseguir dormir.
Não consigo livrar-me da dependência dos medicamentos. Não sei como é que é com as outras drogas, porque nunca experimentei, mas não deve ser muito diferente… Ao princípio consegue-se o efeito desejado, mas depois deixa de fazer efeito e tem que se aumentar… E isto é assim desde os vinte e poucos anos – desde aquele primeiro desgosto de amor que lhe contei – Antes disso tomava esporadicamente, mas quando aconteceu aquilo, comecei a tomar sistematicamente e nunca mais consegui parar.
Depois houve aquele episódio que lhe contei do psiquiatra que me seguia me ter dito que já não sabia o que fazer mais para me ajudar… Porque nos médicos, pelo menos, eu confiava…” – Chora – “Mas ele falhou-me… Acho que foi a pior coisa que me aconteceu na vida… Acho que foi o maior desespero que eu vivi… Naquela altura, perdi completamente a esperança… E acho que foi a primeira vez que pensei no suicídio… ”– Chora – “…Quando é o meu próprio médico a dizer-me que eu sou um caso perdido…” – Chora novamente – “Acho que foi o maior desespero que eu vivi…
Depois foi quando a conheci…” – Chora – “Agarrei-me a si porque não me rejeitou, mas a verdade é que me sinto a evoluir tão lentamente que não sei se vale a pena… Às vezes não sei mesmo se estou no caminho certo… Eu só queria ser uma pessoa normal, que não sou. Nunca fui, e acho que nunca vou ser… Por este caminho, quando é que eu estou preparada para ter uma relação amorosa? Para ter filhos, para ser normal? É que os anos vão passando, e há coisas que não podem esperar… Eu só queria ser uma pessoa normal, percebe? Só isso; e não sei mais o que fazer…”.
Retomando, assim, o rol de queixas e actualizando novamente a identificação adesiva ao funcionamento da mãe; mais uma vez, procurando que eu sinta com ela o que ela sentiu com a mãe; mostrando-me, através do ódio agido na relação comigo, o ódio de que foi alvo na relação com a mãe. É, mais uma vez, a transferência psicótica que terá que ser resolvida passo a passo e com muito cuidado para que não se corra o risco de se reforçar a aliança inconsciente do Eu libidinal com o sabotador interno (Fairbairn, 2000), fixando-a na doença.
E termina este desfile de queixas, dizendo: “Os meus relacionamentos também não estão melhores… Agora acho que já nem gosto das pessoas… Acho que o problema é que eu já não confio nada nas pessoas…” – Chora.
“Às vezes nem em mim.” – Intervenho eu, interpretando agora o masoquismo – “Em mim e na minha capacidade para a ajudar a ir encontrando as suas saídas… Ou talvez não me reconheça valor suficiente” – Acrescento, como se estivesse a pensar alto. E depois, num tom mais firme: “Sem se dar conta, faz comigo o que a sua mãe fez consigo… Aprendeu com ela a valorizar quem a rejeita e a desvalorizar quem se interessa por si, e isso deixa-a num beco sem saída – impede-a de se apoiar na nossa relação para resolver os seus problemas: deixar os medicamentos e aprender a escolher pessoas que gostem de si; que lhe reconheçam valor, e com quem poderia estabelecer relações saudáveis… Em vez disso, chora o psiquiatra que não teve disponibilidade para si…”.
Florbela fica em silêncio por algum tempo, e finalmente diz: “Talvez eu não saiba ainda muito bem o que isto é…” – Referindo-se à análise e adoptando um tom calmo e reflexivo, como se estivesse aliviada por eu não a deixar fugir da nossa relação.
Eu acrescento apenas: “Talvez… Talvez ainda não saiba muito bem como aproveitar a nossa relação…” – e a sessão acaba aqui.
Na sessão seguinte, Florbela não quer perder o fio da nossa conversa. Ficou a pensar no que eu disse e descobriu que não é bem assim, embora concorde comigo quando eu lhe digo que funciona como a mãe, escolhendo sempre pessoas que não se interessam por ela. Mas no caso da nossa relação, não é bem isso que está em jogo. O que está em jogo é mais o que aconteceu com o pai… Não está nada segura que isso não possa acontecer comigo também, embora eu só lhe tenha dado provas do contrário…
Mais uma vez, Florbela abre-se ao prazer de se relacionar comigo. A expressão emocional e o contacto íntimo voltam a tornar as sessões
mais ricas. Secretamente, vai crescendo um novo entusiasmo. Florbela vai ficando mais bonita e com mais vida. Agora ouve piropos na rua e desperta novamente para os homens. Pela primeira vez, há um homem que se apaixona por ela, mas infelizmente ela não sente o mesmo… Bom, mas pelo menos agora sabe o que é ter alguém que goste dela, e embora não goste de o ver sofrer, pelo menos sente-se com mais valor… e… quem sabe, um dia, talvez também se apaixone e possa ser correspondida… Para isso, acrescentaria eu, falta-lhe recuperar as memórias que completam o puzzle da rejeição da mãe… Falta-lhe compreender melhor a armadilha do seu próprio ódio (deflectido ainda com alguma dificuldade para o verdadeiro alvo – os pais, principalmente, a mãe – aprisionado que fica no desamparo e na culpabilidade inconscientes), agido contra ela própria com o objectivo de agredir os pais, mostrando-lhes o seu fracasso geral na vida… Inconscientemente, dirigido também contra mim e contra a análise – como se recusasse desidealizar a força e o poder dos pais –, recusando o triunfo do amor sobre o ódio e mantendo, desta forma, a circularidade da doença que a paralisa.
SUMMARY: Starting from a centred and closed narrative about physical and psychological suffering, the author describes the course between analyst and patient, in the direction of emotional contact – between analyst and patient and patient with oneself. This new relation experience (in the sense given from Coimbra de Matos) establishes a change that is observed to the level of patient narrative, opening a possibility to the true analytical communication, despite of the backtracking movements that are observed throughout the psychoanalytical process.
KEYWORDS: Coutertransference; Empathy; Emotional contact/expression; Transference.