Algumas reflexões acerca da construção da identidade de psicanalista, usando os conceitos de Léon Grinberg de vínculos espacial, temporal e social e apresentando o campo analítico como constituído de forma triangular com: nós, o analisando e o nosso percurso pessoal e de formação.
Pensar sobre a construção da identidade do analista é um tema muito aliciante porque é reflectir no que somos e para onde queremos ir. Não há um marco definitivo na construção da identidade de psicanalista porque os aspectos profissionais, pessoais, familiares e sociais não existem independentes uns dos outros, mas colocam a questão de como se articulam, obrigando a um trabalho de transformação que permita a sua co-existência. Não me parece que haja um marco definitivo para a evolução e desenvolvimento do psicanalista, apesar de haver um programa de formação curricular, terminável, no Instituto de Psicanálise.
Mas o que é isso de “identidade de psicanalista”?
Quando estava a preparar este texto, lembrei-me, a certa altura, da história do aprendiz de feiticeiro e, mais especificamente, do filme de Walt Disney com o Mickey vestido com um fato de mangas muito compridas,
Texto apresentado no Encontro “Identidade e História de Vida”, organizado pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise em 19 de Novembro 2004.
Este texto é dedicado a Fernanda Gonçalves, médica psiquiatra, sócia da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e já falecida.
Psicóloga Clínica. Sócia Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 8 de Abril de 2009. Revisão recebida em 5 de Maio de 2009. Aceite para publicação em 16 de Maio de 2009.
satisfeitíssimo porque o mestre ia sair e a experimentar todos os truques que tinha visto fazer. Eis senão que perde o controle e os baldes começam a não obedecer, a fazerem o que querem e a destruir todo o castelo. Perante tal cena, o Mickey fica aflito, apercebe-se da sua impotência, da sua responsabilidade, da sua tristeza por ter traído a confiança do seu mestre, e por imaginar como ele vai ficar zangado e triste.
Esta história surgiu-me como um momento de humor num período de tensão e de inquietação. Achei-a deliciosa e fez-me lembrar outras: uma vez, em pequena, recebi a visita de uma amiga da minha mãe que, não a encontrando e vendo-me a recusar um prato delicioso de empadão, me foi convencendo a comer contando uma história: se eu não comesse, ficava tão magrinha que, a certa altura, as pessoas se enganariam, pensariam que eu era um palito, palitavam os dentes comigo e eu seria mandada para um caixote de lixo, a seguir para um contentor de lixo que, por sua vez, seria metido num cargueiro com destino a África. Aí as aventuras seriam imensas: guerreiros ferozes, descoberta de sítios maravilhosos, mas também saudades de casa; e a aventura culminava com o encontro da Sra. Macaca e do Sr. Macaco que me convidariam para tomar um chá de banana na casa de árvore onde eles viviam. Em casa dos senhores macacos, eu engordaria e, como na altura já tinha comido dois pratos de empadão, voltaria a casa num cargueiro que passava por ali e teria uma família saudosa a receber-me. Fiquei completamente maravilhada com esta história que acompanhou muitos empadões e refeições afins e decidi, nessa altura, que iria ser quando fosse crescida, para além de professora, cabeleireira, bailarina, e outras tantas coisas, médica psiquiatra, que era o que eu sabia que ela era. Na altura, a profissão de contador de histórias não era do meu conhecimento.
Mais tarde desisti de ser cabeleireira, professora, bailarina, etc., mas mantive a de médica psiquiatra até que descobri através de uma colega que havia uma coisa que se chamava psicologia que era bem mais interessante. E a psicanálise. Mais tarde, já nesse percurso, encontrei um professor que falou numa aula de mestrado de um livro de Ursula Le Gum, o Feiticeiro de Terramar, sobre um aprendiz de feiticeiro que, tal como o Mickey, usou de saberes não sabidos e fez surgir das entranhas da terra um monstro, a sua sombra, que o segue e que ele tem de recuperar. Este aprendiz, aborrecido pelo tempo em que passava com o seu mestre a procurar plantas medicinais, ansiava por experimentar o verdadeiro poder e foi nesse desejo que libertou o monstro. A saga continua por três volumes, vindo ele a descobrir que o monstro libertado
era ele próprio e que foi apaziguado quando lhe foi dito o nome. Esta é uma das histórias que poderei contar sobre a escolha do meu analista didacta porque foi ele que contou esta história e todo o movimento de histórias ilustra, a meu ver, o que se chama transferência e como ela pode ser o motivo de escolha de um determinado analista e não de outro: por conjugação de circunstâncias desencadeou um processo de reconhecimento e de esperança de algo novo, fazendo mexer o meu imaginário. Claro que estas histórias, que propõem um fio condutor na minha motivação, são o que Grinberg chama de vínculo temporal, ou seja, um conjunto de factos psicológicos que me dão o sentimento de ter sido sempre eu própria ao longo do tempo com mudanças que mantêm um movimento vivo. Este é um dos múltiplos discursos que poderei fazer à volta do meu percurso pessoal. Como diz Michel Neyraut em “Les destins du transfert: problèmes méthodologiques”, não é se não retrospectivamente que podemos falar de um destino da transferência, imaginar uma configuração anterior. E nunca poderemos ter uma certeza absoluta sobre o que este encontro com a psicanálise e o psicanalista deve ao acaso e à necessidade. A análise é muito mais do que a transferência, que é, no entanto, o seu motor, o seu movimento. E por isso este autor faz um trocadilho entre a expressão “destinos da transferência” e “transferência de um destino”, que, em última análise, é a essência da própria transferência.
Apesar do lúdico e da referência expressa à magia nesta sequência de histórias que contei, a psicanálise não tem nada de mágico. No entanto, as nossas vivências da situação analítica, como analisandos e analistas, contêm estes elementos do imaginário, nomeadamente transformados em histórias mais elaboradas que mantêm a conexão com as anteriores. A elucidação da transferência – que só tem sentido quando é restabelecida, simultaneamente, a semelhança e a diferença entre o passado e o presente – torna-se central.
Repegando os vínculos de Léon Grinberg, o vínculo espacial tem a ver com o corpo, o esquema corporal e a identidade sexual: a questão do sexo do analista, a forma como imagina que é visto, o propor-se como ecrã na cena psicanalítica. Várias questões: o analista tem sexo? Tem idade? O gabinete e o divã como corpo do analista; a voz, a respiração, o cheiro, os silêncios; as emoções sentidas no seu corpo sobre a forma de estados físicos: enjoos, sensação de vertigem, murro no estômago, sensação de ser batido, sensação de ser embalado pelas palavras e ritmo do discurso, de ser cuidado, de ser despertado de repente por um tom
de voz, um ritmo, uma entoação, uma palavra, apresentando-se como continente que recebe estados emocionais; o estado de rêverie, o poder sonhar os sonhos do paciente. Ou seja, a sensação de contacto emocional, que sem existir qualquer contacto físico se estabelece como uma realidade sentida como física naquele setting. Nisto tudo está o corpo do analista, embora não o esteja como instrumento de intervenção de forma pragmática. E mais, apesar de tudo isso ser sentido pelo analista, nada disso é referente à sua própria pessoa, sendo isto o que caracteriza o contexto psicanalítico. Citando Carlos Amaral Dias, em Da Interpretação Psicanalítica: “Mas a contransferência, a partir de Bion, ao supor possível o modelo continente-conteúdo, transforma-se essencialmente em vértex de observação da realidade psíquica. Os sentimentos do analista sofrem, então, a dessubjectivação resultante da interpretação que se faz a partir deles; a geração de sentido via contratransferência, colocada em continente, é o que materializa a frase de M. Perez Sanchez – ‘tudo o que se observa, torna-se mente’” (p. 22).
Paul Denis descreve a especificidade do campo psicanalítico: a questão do objecto e do anti-objecto, descrevendo a situação analítica como irreal, paradoxal, integrada e não clivada como a prova da realidade do mundo interno. Se houver clivagem, não há análise.
Segundo Paul Denis, o paradoxo da situação psicanalítica é que o analista se propõe, simultaneamente, como objecto de transferência e se recusa a ser esse objecto. Ele define objecto da transferência como a pessoa que deixa que se instale um investimento libidinal sobre ela, de forma contínua e organizadora para o sujeito; e anti-objecto da transferência como a pessoa que se recusa a deixar-se investir dessa forma. O efeito terapêutico da psicanálise estará ligado a estes dois elementos relacionais: a transferência e a relação. A relação corresponde ao investimento pelo paciente da pessoa do analista.
Num sentido um pouco diferente, António Coimbra de Matos tem-nos chamado a atenção para estes dois elementos, acentuando que a relação psicanalítica não é só transferência, é também uma nova relação, reparadora, onde a repetição deixa de fazer sentido.
Ambos os autores estão de acordo em que o analista, objecto da relação analítica, não é, em sentido estrito, objecto da transferência.
Se pensarmos através da proposta de Paul Denis, o analista tem sexo, tem idade, tem tudo o que o caracteriza como individualidade enquanto anti-objecto da transferência; mas pode ter qualquer sexo, qualquer idade e quaisquer características como objecto da transferência e como
promotor do espaço psicanalítico. Será, então, connosco próprios, com o que somos, que seremos capazes de usar a nossa função psicanalítica e elucidar os aspectos transferenciais, seleccionando no discurso subjectivo e emocional do paciente aquilo que são os factos psíquicos e propô-los como objectos de investimento libidinal do paciente.
Todas as nossas situações de psicoterapia ou análise vividas anteriormente estão presentes, numa cena de fundo, sobre o nosso trabalho como analistas; os pacientes fazem desencadear reminiscências emocionais, de vivências nossas anteriores. De certa forma, algumas das análises que fazemos, pela problemática trazida pelo paciente, nos relembram a nossa própria e nos ajudam a entender aspectos que ficaram como que em suspenso. Mas os pacientes não nos ajudam apenas a redescobrir a nós próprios como a descobrir novos pensamentos, novas vivências, novas experiências emocionais.
Quando fazemos a nossa candidatura à Sociedade de Psicanálise, temos uma experiência clínica anterior como psicoterapeuta que nos permite começar desde logo com a prática psicanalítica. Logo que tal se inicia, essas situações são supervisionadas por dois psicanalistas didactas da sociedade, não sendo nenhum o nosso próprio analista. O início da formação inclui simultaneamente a frequência de seminários teóricos e clínicos durante três anos lectivos. O fim da formação curricular consiste na aprovação pelos supervisores do nosso trabalho clínico, ou seja, a validação dos casos, e na apresentação de uma memória de um trabalho psicanalítico desenvolvido no mínimo ao longo desses três anos e que será discutido pela Comissão de Ensino. Aí passa-se, de facto, a poder usar a denominação de psicanalista, apesar de fazermos esse trabalho muitos anos antes. Este percurso prossegue, dentro da Sociedade de Psicanálise, onde estão institucionalizadas várias etapas evolutivas, culminando com a chegada a analista didacta. Põe-se a questão de saber se após tanto esforço, trabalho dispendioso do ponto de vista económico (a nossa formação é das mais caras da Europa) e pessoal, seremos capazes e teremos a coragem de reflectir sobre as próprias regras institucionais que abrigam essas exigências e de repor algumas questões como a necessidade de análise didáctica para a entrada no Instituto de Psicanálise, o valor da memória, o lugar dado aos candidatos e outros membros, etc.
Na história do aprendiz de feiticeiro surgem muitos aspectos que têm a ver com esta relação de aprendizagem: a vontade de crescer, a inveja, a intolerância ao não saber, à dúvida, a intolerância à espera, mas também
a relação ao desejo. Tudo isto está presente com maior ou menor expressão em todo o processo de aprendizagem e de formação. E faz parte da concepção de vínculo social de Léon Grinberg. Este processo é um movimento que pode ser concebido como oscilando entre defesas esquizoparanóides e maníacas, posição esquizoparanóide, e momentos de integração, posição depressiva. E as supervisões, tal como anteriormente o foi a análise, são um continente destes movimentos, onde ressurgem aspectos transferenciais aos quais se pode perguntar qual o destino. Estes aspectos não podem, salvo situações excepcionais, ser elucidados e o supervisor propõe-se como pessoa real, que, na expressão de Paul Denis, é anti-objecto. Parafraseando Michel Neyraut, podemos interrogar-nos sobre o destino destas transferências, se se estruturam e que lugar ocupam. A partir das reflexões deste autor, parece-nos que estas transferências têm como destino a sublimação e criam a possibilidade de imaginar, como cena que fica em pano de fundo, o supervisor como analista e criam o espaço para a identificação. Isto só é possível se fizermos um luto pela nossa própria psicanálise, pela separação com o nosso analista e pelo nosso espaço de analisandos.
Na nossa experiência de formação, o supervisor integra os pedacinhos de identidade do supervisionando através da relação analítica que ele está a construir com o seu paciente4.
O encontro com os colegas, as discussões, as reflexões e leituras conjuntas propõem um modelo que, próximo do escolar, mobiliza aspectos infantis, muitas vezes vividos como os últimos que se terão como uma pertença ao grupo, criando um vínculo corporal: o encontro nos corredores, os acenos silenciosos de cumplicidade, as trocas de informações, o apoio mútuo, a rivalidade, e, principalmente, o humor.
Estamos aqui ao nível do que Grinberg chama vínculo social, e que reflecte também, não só a pertença ao grupo, mas as relações que o grupo cria com o espaço exterior. No dizer de Meltzer seria a família psicanalítica-na-comunidade. E este autor propõe como funções educativas, no sentido de criar condições ao desenvolvimento do indivíduo no seu seio, a promover o amor, no sentido em que só se conhece o que se ama, promover a esperança, conter a dor depressiva e promover o pensamento, diminuindo a confusão.
Este texto não tem como objectivo expor modelos de formação em Psicanálise. Referimo-nos apenas à nossa experiência pessoal de formação. Paul Denis ajudou-nos a pensar sobre a nossa própria experiência e é nesse contexto que aqui é referenciado.
A nossa própria análise, ou análises, estão sempre presentes como pano de fundo no nosso trabalho de analistas. A estas experiências vêm juntar-se as das supervisões e dos seminários e ainda tudo o que nos enriquece como pessoas. Para Paul Denis, na situação analítica estão sempre presentes três entidades: o paciente, o analista e o analista do analista, sendo este último representante da Psicanálise, cuja figura ideal enquanto criador e génio é o próprio Freud. Esta representação da psicanálise, que se vai estruturando, recompondo, enriquecendo, ao longo de toda a formação, será o modelo referencial para o nosso trabalho analítico. Se os processos de idealização estiverem demasiado activos, estará em risco a nossa própria equação pessoal de ser analista. Porque há a Psicanálise, enquanto referente teórico, clínico e histórico, que se actualiza em tantas psicanálises quanto as dualidades analista e paciente que se constituem. E essa individualidade da cena psicanalítica constitui-se mantendo como objectivo o investimento do funcionamento psíquico, mas individualizando-se na relação entre aquelas duas pessoas específicas.
Para mim, um dos aspectos essenciais da construção da identidade do analista é a construção do pensamento psicanalítico, suficientemente interiorizado através de uma formação longa e que permite manter uma consistência identitária na forma como os comportamentos são ouvidos, lidos e vistos. A construção deste pensamento, que como pensamento depende, em primeira análise, da interiorização da função analítica da personalidade, termo introduzido por Bion, mas que tem a sua origem na própria criação da psicanálise, na auto-análise de Freud. É a partir daqui ou em simultâneo que nos podemos permitir aceitar que o nosso papel é acompanhar aquele sujeito que foi ter connosco, ao longo do seu percurso analítico e de vida nesse período de tempo, e aceitar o que não sabemos, o que não percebemos, acreditando que iremos entender e perceber: tolerar a confusão, a espera, a angústia – tal como assistimos enquanto sujeitos de análise e observadores da nossa própria análise.
O pensamento psicanalítico permite colocar cada fenómeno numa determinada estrutura onde ganha a sua própria importância e significado. E este pensamento implica uma ruptura com um pensamento ordinário, senso comum, quotidiano, que instaura o paradigma da questão do conteúdo manifesto e do conteúdo latente. Logo, obriga a uma leitura diferente da realidade: externa e interna. Os sonhos não são o que parecem ser: há uma série de operações que o nosso psiquismo realiza e que encobre e altera o que é a questão ou as questões, os objectos, as relações.
Ser psicanalista é renunciar à referência da realidade externa no discurso, para a integrar num outro discurso em que, sem a negar, ela possui múltiplos sentidos, subjectivados e emotivos no paciente com que estamos. A investigação psicanalítica, sem negar o exterior, integra-o e investiga a sua marca em cada um de nós e de que forma nos enriquece e aprisiona. A arte do psicanalista é criar este mesmo espírito de investigação, com fins terapêuticos, no paciente, para que ele possa lidar consigo próprio e com o mundo com menos sofrimento e de forma mais criativa.
Paul Denis conclui que o destino da relação com o analista – no sentido de alguém que não é investido enquanto objecto transferencial – seria a introjecção da função psicanalítica da personalidade. O destino da relação transferencial seria a identificação propriamente dita.
Para terminar, repego as palavras de um doente que, deitado no divã, dizia: “Isto de estar no divã é curioso… Inquietante, mas interessante. Dentro de mim pareço uma montanha russa, sabe, daquelas que o corpo todo mexe… Mas, curiosamente, nas duas últimas sessões, apesar de ser para mim muito difícil falar… já entendeu que é muito difícil, não entendeu? … É que tenho um discurso organizado, aparentemente fácil, encadeado… mas não, não é nada fácil. É um esforço. Mas nas duas últimas sessões saí mais leve; parecia que aquele peso que tenho sempre… estava mais leve. Curioso isto. Não sei porquê…”
Este foi um começo de uma das histórias de um processo psicanalítico.
SUMMARY: Some reflections on the construction of the identity of the psicanalist, based on Léon Grinberg's concepts of spatial, temporal and social bonds and presenting the analytical field as triangular shaped with “us” – the subject undergoing analysis and our personal and scientific development.
KEYWORDS: Identity; Construction of the psychoanalyst's identity; Transference; Countertransference.