Na capa há uma fotografia antiga. Freud, envelhecido e doente, avança fatigado pelo braço da Princesa Marie Bonaparte. É o dia 5 de Junho de 1938, na Gare de l'Est, em Paris, onde acabava de chegar de Viena, fugido à perseguição nazi. Com a sua família mais próxima dirigia-se a Londres, onde acabaria os seus dias no dia 23 de Setembro do ano seguinte. Na nota explicativa, os autores sublinham a importância simbólica deste momento para a relação de Freud com a França. Marie Bonaparte, que começou uma análise com Freud em 1925, foi importante para a fundação da Société Psychanalytique de Paris em 1926, e no ano seguinte da Revue Française de Psychanalyse. Foi sempre uma presença empenhada da psicanálise freudiana em França, e no momento trágico que a Europa então vivia, teve uma intervenção decisiva para conseguir a fuga de Freud para Londres.
O título dá como assente que existe uma psicanálise francesa, o que será o mesmo que dizer uma contribuição francesa para a psicanálise freudiana, que me parece inegável. Sem que isso represente o desconhecimento de outras contribuições, pode afirmar-se que a produção francesa, particularmente ligada ao estudo da grande invenção seminal de Freud, é no seu conjunto de grande valor. Não pode ser ignorada, sem que isso represente um empobrecimento considerável para o pensamento analítico.
Estamos perante um excelente instrumento de trabalho para quem estiver interessado em conhecer a psicanálise francesa e não dominar a língua.
Dois membros da British Psychoanalytical Society, Dana Birskstead-Breen e Sara Flanders, juntamente com Alain Gibeault, da Société Psychanalytique de Paris, fazem um trabalho editorial de grande qualidade, que torna esta obra altamente informativa e de agradável leitura.
Para quem, ao longo de décadas, foi procurando acompanhar o trabalho de um certo número de psicanalistas franceses, o índice deste livro poderá dar a sensação do reencontro com velhos companheiros de jornada. Para outros, poderá ser uma surpresa. Os editores apresentam-nos uma visão de conjunto da evolução da psicanálise francesa a partir de Lacan, assumidamente de dois pontos de vista diferentes. As duas psicanalistas britânicas vêem a sua evolução tal como lhes aparece a uma observação exterior. O psicanalista da Sociedade Psicanalítica de Paris coloca-se no interior, para apresentar a evolução do pensamento francês.
Os textos são escolhidos entre aqueles que se considera serem os mais representativos da criatividade e especificidade desse
mesmo pensamento. Como não podia deixar de ser, estamos perante uma obra volumosa (817 páginas), mas cuja leitura se revela extremamente compensadora.
Começa com uma consistente introdução geral em que Dana Birksted-Breen e Sara Flanders defendem a existência de uma psicanálise francesa, referenciando as suas origens e apresentando as suas contribuições específicas posteriores.
Seguem-se os textos dos autores franceses, agrupados em sete secções: I Secção – História da Psicanálise em França; II Secção – Os Pioneiros e o seu Legado; III Secção – O Quadro (setting) e o Processo Psicanalítico; IV Secção – Fantasia e Representação; V Secção – O Corpo e as Pulsões; VI Secção – A Sexualidade Masculina e Feminina; VI Secção – A Psicose.
Como é óbvio, a escolha destes textos pode prestar-se a discussões, baseadas nos diferentes critérios e preferências pessoais. Mas não se pode negar que a escolha é criteriosa e que dá uma panorâmica muito consistente do desenvolvimento do pensamento psicanalítico em França. São textos que hoje se podem considerar clássicos e que resultam de uma notável produção científica.
Deve salientar-se que cada uma destas secções é precedida por uma longa contribuição de Alain Gibeault, fazendo a introdução a cada tema, que em si só é já um importante trabalho sobre o assunto em questão. Ajuda o leitor que não está familiarizado com essa literatura a bem enquadrar aquilo que vai ler e portanto a bem reter os conceitos.
Com a mesma preocupação de situar devidamente as leituras que são propostas, cada texto é precedido por uma caixa cuidadosamente informativa sobre o seu autor.
No final da obra, além de um excelente índice de conceitos com referência às páginas onde são tratados, é-nos ainda oferecido um precioso elemento de trabalho, sem o qual muitos leitores se veriam em dificuldade. Trata-se de um Glossário dos conceitos usados na psicanálise francesa, tendo no fim de cada entrada as referências bibliográficas que os identificam e situam na obra dos autores que os criaram, ou que mais significativamente a eles recorrem na sua escrita. A ordem alfabética por que são apresentados, como é de rigor, refere-se à sua tradução em inglês. No entanto, para facilitar as referências, o título de cada entrada tem entre parênteses a sua versão original em francês.
Finalmente, são também referências de grande interesse dois diagramas apresentados antes da introdução geral. O primeiro é o esquema das filiações analíticas francesas, a começar em Freud e a acabar nos autores cujos textos nos são apresentados, de modo a ser possível traçar a sua “árvore genealógica analítica”.
O segundo tem a ver com o desenvolvimento das sociedades psicanalíticas em França e as várias dissidências que se verificaram, o que é da maior importância para se compreender a literatura psicanalítica de língua francesa. A nota que acompanha este diagrama explica que a Sociedade Psicanalítica de Paris (Société Psychanalytique de Paris – SPP) foi a primeira que surgiu em França, em 1926, e ainda se mantém como uma sociedade rica de membros e de influência. Em 1953, devido a desentendimentos sobre o modo como deviam ser formados os futuros psicanalistas, um grupo de dissidentes, entra os quais se encontrava Jacques Lacan, fundou a sua própria sociedade, a que deram o nome de Sociedade Francesa de Psicanálise (Société Française de Psychanalyse – SFP). Esta associação
desagregou-se em 1964 e alguns dos seus membros fundaram a Associação Psicanalítica de França (Association Psychanalytique de France – APF), que ainda se mantém em actividade. Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris (École Freudienne de Paris – EFP), que em 1980 se dividiu em várias sociedades lacanianas, que continuaram a cindir-se e a reagrupar-se, sempre devido a desentendimentos quanto à mesma questão fundamental, ou seja, o modo como devem ser formados os futuros psicanalistas.
Mesmo para os que estão familiarizados com a língua francesa, e que portanto podem ter acesso directo à produção psicanalítica francesa, este livro reveste-se de grande interesse. Por um lado, porque apresenta num só volume uma selecção dos textos considerados mais importantes, e que se encontram dispersos por muitas dezenas de publicações. Por outro lado, o trabalho editorial que acompanha esses textos, representa uma excelente introdução à psicanálise francesa, compreendida também a partir de um outro universo cultural.
Esta iniciativa de uma editora inglesa em associação com o Instituto de Psicanálise de Londres é um sinal extremamente animador, que revela a capacidade da comunidade psicanalítica aceitar as diferenças legítimas, reconhecendo-as como uma riqueza comum de que todos devem beneficiar.
O conhecimento do passado é sempre útil para a nossa compreensão do presente. Nesse sentido, e para quem se interesse por História, sugiro o excelente trabalho de Alain de Mijolla, de quase mil páginas e já publicado em 2010, sobretudo as terceira e quarta partes, que tratam respectivamente do nascimento do movimento psicanalítico francês e da segunda guerra mundial. (Alain de Mijolla, Freud et la France – 1885-1945, Paris, PUF, ).
João Seabra Diniz
Psicanalista. Presidente da Sociedade
Portuguesa de Psicanálise
Nota: Este livro existe na Biblioteca da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.