Retornando à sua própria experiência e dando voz à sua voz enquanto analisando, o autor reflecte sobre a importância e significado do silêncio do analista, mas – e é este o seu foco principal – ouvido, internalizado e interpretado pelo analisando através da sua própria voz. O autor enfatiza o movimento essencial, por parte do analisando, de substituição da voz do analista pela representação da voz do analista; e aborda a dimensão inconsciente e não verbal daquilo a que chama conversa analítica silenciosa (dentro e fora da análise), bem como o jogo de ausências recíprocas e subliminares implícitas no setting analítico.
“Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence.
Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness”
ANTE-SCRIPTUM
“O que significa para mim este silêncio?
Tiquetaque, tiquetaque… – eis o “infra-som” (do relógio) que ressoa aqui, repercutindo-se à minha volta, neste espaço onde me encontro, ou quiçá dentro de mim, num espaço recôndito e inaudível, sem tempo nem voz. Tiquetaque, tiquetaque… mas, apesar de “ouvir” o seu sussurro ponteado, eu não o consigo realmente ouvir. É assim o som do silêncio em psicanálise?”
Psicólogo Clínico.
Recebido para publicação em 21 de Dezembro de 2009. Revisão recebida em 3 de Fevereiro de 2010. Aceite para publicação em 30 de Novembro de 2010.
No caminho sempre renovado e quiçá nunca completado de me tornar analisando, analisado e sobretudo analista de mim próprio, atravesso a porta do espaço-tempo analítico; entro e aperto a mão do analista, no único verdadeiro momento pele-na-pele que tenho e terei com ele.
E, logo ali, naquela experiência táctil à entrada do setting, ocorre uma transacção de significados para mim intraduzíveis sob a forma de palavras; e dirijo-me para o divã com o sempre renovado entusiasmo, mas também estranheza de me deitar para não dormir.
Paradoxalmente, “dormir” parece ser o que o analista deseja que eu seja capaz de fazer, ali, na sua presença: convidando-me a permanecer na posição horizontal, restringe-me indirectamente a força motriz do corpo, cujo tónus muscular relaxa no conforto desejável e desejado do divã e da almofada (que a linguagem popular diz ser boa conselheira).
Desaparecendo da minha cena visual, o analista invisível parece implicitamente indicar-me que cerre os olhos… pois ali fora, diante de mim, não há nada para ver: restando o atrás de mim, e claro, o dentro de mim. Pois reparo que para além de mim próprio, e pelo menos no início da sessão, o analista é a única coisa viva na sala. Já que, no decorrer do espaço-tempo analítico, muitas são as coisas que ganham vida, não só vida externa/perceptiva – as frestas penetradas pelas partículas de luz na direcção do meu olhar, o quadro vivo na parede que me transporta num só tempo para muitos espaços, os contornos fixos mas dinamicamente enquadrantes da sala; mas sobretudo vida interna/afectiva – o sonho-desejo outrora esquecido, agora pulsando para sair; o sonho-projecto, apenas esboçado, que implicitamente se desenha, projecta e constrói.
Mergulhando na escuta silenciosa, o analista inaudível não me impõe, antes “seduz de modo irrefutável” – na feliz expressão de Fernando Savater, citada de memória – para que aguce a minha própria audição. Tanto que o próprio analista silencioso, antes inaudível, deixa pouco a pouco de o ser: porque inspira, expira, suspira, e, eventualmente, até transpira.
Neste manto de fundo silencioso sobre o qual nos deitamos (analista e, consequentemente, eu próprio), percebo que todos os corpos se movimentam, todos os movimentos ganham som, e todos os sons ganham vida – tal como o olhar mergulhado na escuridão, depois de apurado, vislumbra traços e contornos outrora invisíveis (mas presentes).
Assim, talvez a única coisa que o analista deseje pôr a dormir seja a minha censura interna: as defesas, sobretudo as mais silenciosas e inaudíveis; para serem analisadas na calada da noite (quer dizer, no silêncio).
Ou talvez o analista deseje apenas manter comigo uma conversa contínua, aquém do verbo, entre o limiar do sonho inexpressável e o limite da realidade tangível; uma transacção de sentimentos e pensamentos, sons subliminares, cadências gestuais e expressões faciais, respirações e transpirações; imagens projectadas, multiformes e disformes, passando no tecto em branco, no quadro ao lado, na janela em frente; como se viessem do nada; um nada, não obstante, presente, constante e silencioso.
Oiço o analista sem que este tenha que falar e vejo o analista sem que este tenha que se mostrar (mostrar fisicamente, pois ninguém – nenhum analisando – se mostra psicologicamente sem a necessária e complementar correspondência do seu analista). Mas oiço e vejo o analista silencioso e visualmente ausente porque penso: porque o meu pensar (aliás, o nosso pensar, já Freud o tinha notado em ) tem a capacidade de recolocar “diante de mim” – na minha mente, sob a forma de representação – um objecto externo outrora percebido, que então já não precisa de estar na minha frente (Freud, 1925).
Ou seja, penso porque reapresento a mim próprio o objecto ausente, a sua imagem, a sua voz, a sua palavra. Porém, nem sempre precisei de palavras para pensar: quando tinha um ano de idade, não usava palavras, logo não pensava de modo verbal; mas já utilizava imagens e símbolos visuais, pelo que ninguém duvida de que nessa altura já pensaria – pelo menos António Imbasciati (2003) não duvida.
E se não precisei de palavras para pensar, então, no início do desenvolvimento, o fulcro do funcionamento mental era a representação de imagem (ou imagética); contrariando, de resto, a ideia bíblica de que no início era o verbo…
Há, portanto, pensamento sem palavra (e logo sem representação de palavra), mas não sem representação imagética. Pensar é essencialmente representar, como notou, por exemplo, Bernard Gibello .
O que significa que o acesso à palavra não constitui a condição sine qua non da representação simbólica e do funcionamento egóico e pré-consciente: no período pré-verbal, o infante (aquele que não fala) discerne, memoriza e cogita lógico-dedutivamente, muito embora o seu registo mnésico seja ainda fragmentário – porque lhe falta a palavra e é esta que introduz ordem e sentido no mundo das coisas, tendo por isso (a palavra) um papel decisivo na maturação psicológica. Lugar à palavra, então.
O psicanalista valoriza a palavra, e, ao fazê-lo, desloca a importância, isto é, o foco: da imagem (da coisa) para o som (da palavra); e da palavra (que nomeia) para o significado (da coisa). Ou seja, da imagem, que indica lisura/planura perceptiva, para a palavra, que vai no sentido da interioridade e do desenvolvimento em profundidade: todas as palavras são vazias quando não têm, para nós, qualquer significado… e nesse caso nem as consideramos como nossas (são estranhas/estrangeiras). Todas as palavras são esvaziadas de significado, de substância afectiva, enquanto não forem encontradas, criadas, destruídas, e recriadas no nosso interior psíquico.
Assim – e embora possamos inicialmente pensar através de representações de imagem –, são sobretudo as representações da palavra que nos permitem o acesso ao funcionamento secundário, através do “princípio de assimetria” (Matte-Blanco, 1988), que é aquele que nos permite criar contrastes e assimetrias, diferenciações e ordenações, categorias e classificações; no fundo, permite-nos especificar os fenómenos e perceber que as relações que observamos no mundo não são todas iguais. Contrariamente ao processo primário, que é mais primitivo mas está sempre presente no nosso funcionamento mental, e segundo o qual homogeneizamos e generalizamos os atributos dos objectos, que assim se tornam simetricamente sobreponíveis e por isso englobáveis na mesma classe.
Ao representar mentalmente a palavra, ligo a coisa ao seu significado, o que me permite efectuar uma compreensão lógica dos fenómenos (sobretudo dos acontecimentos), das suas causas e dos seus efeitos – o que facilita, claro, a sua retenção mnésica e posterior evocação de modo diferenciado. Por exemplo, é porque compreendemos o fenómeno e o enredo da história que podemos narrá-la: e, ao fazê-lo, aprofundamos a sua compreensão. Quem conta um conto acrescenta um ponto, diz-se na linguagem popular; mas também descobre (pode descobrir) outros pontos, implícitos nas entrelinhas do conto: isto é, aprofunda a sua compreensão, de uma forma mais íntima, profunda e idiossincrática.
A palavra é o veículo mental, ligante por excelência; ligante porque liga o dentro de mim com o fora de mim (liga-me ao outro: é a dimensão intersubjectiva); mas também porque liga o “dentro” com o “fora” dentro de mim próprio (liga-me comigo mesmo: é a dimensão intrapsíquica).
Esta última ligação é intrapsíquica porque liga “aquilo que está dentro”: o que está mais dentro do dentro (sistema inconsciente) com o que
está mais fora do dentro (sistema consciente/pré-consciente). A questão do dentro e do fora remete para o conceito de espaço ou “topos” – que utilizamos apenas como imagem ou metáfora para facilitar a comunicação.
Aliás, com a evolução da teoria topográfica para a teoria estrutural da mente (Freud, 1923), compreendemos facilmente que a mente não é, de facto, um espaço, mas sim um funcionamento, um processo, um fenómeno (e, em última instância, um acontecimento, um acontecer, em sentido lato); e o inconsciente/pré-consciente/consciente são apenas qualidades desse funcionamento ou da forma (mais consciente, menos consciente) como os significados são processados internamente. Por isso dizemos: processei, funcionei ou pensei de forma inconsciente; e não: pensei no inconsciente. Já no que se refere ao sentir, há muitas vezes uma confusão terminológica, pois não faz sentido dizer senti de forma inconsciente (é uma imprecisão ou contradição da linguagem), pois o que se sente é, por definição, consciente.
Enquanto veículo comunicacional (entre o “dentro” e o “fora”), a palavra é mais consciente ou menos consciente, e, quase sempre, é pré-consciente: pois enquanto falamos ou escrevemos (enquanto pensamos de modo verbal) não temos, constantemente, plena consciência das palavras que utilizamos. Quer dizer, por uma simples questão de economia mental, funcionamos de forma pré-consciente; muito embora facilmente esse funcionamento se possa tornar consciente (basta, para isso, incidirmos o foco da atenção nas próprias palavras que utilizamos a cada momento).
Este funcionamento pré-consciente que facilmente se torna consciente é equivalente ao automatismo: ao conduzirmos um automóvel não tomamos consciência de cada movimento que efectuamos nas mudanças, nos pedais, etc. Mas se for preciso – por exemplo, quando ensinamos alguém a conduzir – facilmente tornamos presentes, isto é, reapresentamos à nossa consciência tais movimentos. E porquê? Porque foram bem apreendidos no seu significado e bem compreendidos na sua causa/efeito. É, pois, toda a diferença entre automatismo e a chamada “compulsão à repetição”. Embora possa existir, a posteriori, um certo automatismo na compulsão à repetição, não é essa a sua raiz – a sua raiz é a ausência de significado (consciente) daquilo que se repete; ou, se quisermos, ausência de consciência do significado da compulsão, das suas causas (motivação) e, sobretudo, dos seus efeitos (finalidade).
Existem, portanto, coisas/objectos, acontecimentos e sentimentos aquém do período verbal: enquanto infantes, observamos os objectos
(o objecto primário, sobretudo), vivemos os acontecimentos à nossa volta (os acontecimentos relacionais, essencialmente) e desenvolvemos afectos (referentes aos dois anteriores). Não obstante, é a aquisição da palavra que nos permite atribuir significado à coisa, ao acontecimento e ao afecto – e, sublinhe-se, só aquele (o significado) pode ser tornado inconsciente; porque não existem sentimentos e muito menos palavras inconscientes! Sublinhe-se: não “sentimos” inconscientemente: o que podemos é sentir o efeito de “algo” (quase sempre um acontecimento vivido, e registado, numa relação significativa) cujo significado foi tornado inconsciente2.
O significado pode ser tornado inconsciente de forma secundária – é o recalcamento secundário: quando compreendemos o acontecimento, mas posteriormente tornamos o seu significado inconsciente; ou de forma primária – é o recalcamento primário: quando não compreendemos o acontecimento, o que implica que não lhe chegamos a atribuir um significado (isto é, o significado pura e simplesmente não chega existir na nossa mente).
Mas voltemos à palavra: para além da dimensão do significado (ligada à racionalidade), a palavra tem ainda a dimensão do som (ligada à afectividade) – o som, em primeira instância, proveniente do objecto primário; por isso, no que se refere à palavra, não há significado sem som, nem som sem significado.
O som da palavra veicula o seu significado, nesta dupla valência cognitivo-afectiva: ao significado sentido (qualidade de afecto), acresce o significado pensado (valor de mensagem). Porque existe sempre uma relação dialéctica entre o sentir (corporal/sensorial) e o pensar (simbólico/psíquico), de resto confirmada por Damásio: “A minha ideia é de que os sentimentos e as emoções são funcionalmente distintos porque a sua essência consiste em pensamentos sobre o corpo surpreendido no acto de reagir a certos objectos e situações. Quando se remove essa essência corporal, a noção de sentimentos desaparece… deixa de ser possível dizer ‘sinto-me feliz’, e passamos a ser obrigados a dizer ‘penso-me feliz’.” (Damásio, 1999, p. 105)
Por exemplo: não sinto conscientemente que a minha mãe não gosta de mim; tornei inconsciente o significado de certos acontecimentos que me indicaram ou mostraram que a minha mãe não gosta de mim. O acontecimento foi vivido, sentido e registado, mas o seu significado – a sua falta de amor – foi tornado inconsciente. Aquilo que sinto – gosto pouco de mim, sinto-me inferior, culpado pelo desamor dela, etc. – são os efeitos ou consequências desse acontecimento.
E é, portanto, assim desde o início: para a criança, o significado sentido vem inscrito na musicalidade da voz da mãe, cujas vibrações sonoras (vocalizações) se propagam no espaço real e potencial da relação. Impressionando indelevelmente as caixas dos tímpanos da criança, tais vibrações produzem o embalo primário, envolvente e apaixonante da melodia materna (e que aguçam o ouvido e a curiosidade da criança). Mas como a vida não é só música, logo de seguida é o significado pensado que se inscreve na palavra-ordem executada com êxito pela criança (Matos, 2001). Pensemos então no significado do silêncio (do analista) em psicanálise.
A situação analítica, pela sua especificidade, promove em mim – analisando – uma evolução similar: da importância da imagem do analista passo a privilegiar o som da sua voz e o significado das suas palavras. Daí a importância da raiz silenciosa subjacente à musicalidade da conversa analítica. Tão silenciosa que parece ter vindo a ser pouco escutada: “…a simbolopoiese auditiva pré-verbal tem sido muito descurada nos estudos sobre a estruturação da mente dos indivíduos” (Imbasciati, 2003, p. 193).
O analista retira-se do meu horizonte visual e dessa forma privilegia o som em detrimento da imagem. Ou seja, promove aquilo a que Bernard Gibello (1999) chama “representações de transformação” para se referir conjuntamente à representação da acção exercida pelo sujeito sobre o objecto e à representação do efeito retroactivo exercido pelo objecto sobre o sujeito.
Quer dizer: se, por um lado, a invisibilidade do analista estimula a minha mente a funcionar através da representação de imagem (que substitui o analista concreto), então, por outro lado, o silêncio do analista estimula a minha mente a funcionar através da representação de som (que substitui a voz do analista).
Esse fenómeno é extremamente importante para mim, analisando, e, embora gradual, surge a partir do momento em que me dou conta que converso com o analista fora da análise, isto é, mesmo na sua ausência. Quando isto acontece fora da análise, significa que o mesmo já vinha acontecendo (sem que eu próprio me tenha apercebido) dentro da análise! Ou seja, já conversava sem conversar – é este o som vivo do silêncio – com o analista, na sua presença, muito antes de o fazer na sua ausência, o que só é possível, claro, devido ao seu silêncio. Se, por
absurdo, o analista fosse mudo, seria impossível ao analisando representar mentalmente a voz do analista – mas, se por (des)ventura/desgraça, o analista nunca se calasse, seria igualmente (talvez até mais) impossível ao analisando fazê-lo.
A ausência de voz do analista cria um espaço potencial entre mim e o analista – que é o espaço analítico intersubjectivo – preenchido fora da análise, mas porque já começara a ser preenchido dentro da análise, que é onde se gera o espaço analítico intrapsíquico (no interior da minha mente).
Quer dizer, as condições de “fertilização” criadas pelo silêncio analítico estendem-se para lá do terreno fértil do espaço-tempo analítico, e, reproduzindo-se na minha mente, promovem ou frutificam numa conversa silenciosa, fora da análise, entre mim e o meu analista. A posteriori, percebe-se que essas condições assentam, fundamentalmente, no silêncio do analista.
Para além disso, o silêncio do analista é, também, a resposta necessária e complementar da necessidade, quiçá, mais íntima e incomunicável (porque precoce/pré-verbal) do analisando enquanto analisando – que é a necessidade (infantil) de ser compreendido sem ter que recorrer à palavra.
Complementarmente, o que sinto/percebo é que, sendo o silêncio do analista um silêncio receptivo, compreensivo e reflexivo, então recebe, compreende e reflecte-me a necessidade (que é a mãe da invenção) e, dessa forma, promove em mim a “invenção” da palavra, significante e significativa – a palavra através da qual invento, crio e encontro os meus próprios significados, que são aqueles que me colocam em frente a mim mesmo; isto é, que me colocam, em uníssono, face à minha dupla realidade, intrapsíquica (comigo) e intersubjectiva (com os outros). São, no fundo, aqueles significados de que verdadeiramente necessito para, reflectindo e compreendendo-me, crescer.
Em resumo: não é, portanto, só a invisibilidade do analista que promove a representação mental (imagética) no analisando – a presença imagética interna –, é também o seu silêncio que possibilita a construção da representação mental sonora3, a presença acústica interna, o holding
E quando falamos aqui em representação de som, não falamos apenas da representação da palavra em si, mas também e sobretudo, da musicalidade, do timbre, do tom, da entoação, do calor, da energia, e da vida da voz do analista… potencialmente construídas e continuamente existentes no interior do analisando, como sinfonia de fundo do seu espaço analítico intrapsíquico.
(Winnicott, 1958) acústico da relação analítica. Não é apenas porque recordo a imagem do analista na sua ausência, mas sobretudo porque recordo – represento – a sua voz no seu silêncio.
Mas… de quem é essa voz?
O fenómeno que a seguir se pretende descrever – como todos os fenómenos mentais – é complexo. É composto por epifenómenos e subfenómenos entrelaçados, mais ou menos sequenciais e separáveis apenas para efeitos de esquematização.
O silêncio do analista, uma vez internalizado pelo analisando, funciona como um crivo a partir do qual o analisando diferencia entre: a voz do analista, a voz dos objectos internos e a sua própria voz, esta última cada vez mais apurada ou “purificada”, já que progressivamente “depurada” (depurada dos detritos ruidosos dos objectos internos) na sua voz própria. Funcionando como crivo mental interno, permite ao analisando – dentro e fora da sessão – começar a separar, metaforicamente, o trigo (qualidade relacional do analista enquanto objecto desenvolvimental) do joio (objectos primários); a água (objectos internos) do azeite (self do analisando); e o carvão (ruídos objectais internos) do diamante (voz do verdadeiro self do analisando).
O analista cala-se (quer dizer, silencia-se) para que eu fale e dê voz à minha voz. Ou seja, o silêncio do analista cedo se torna no meu próprio complemento silencioso, pois abre um espaço transitivo para o preenchimento pela – e cria um tempo potencial para a emergência da – minha verdadeira voz (que é, no fundo, a voz do meu verdadeiro self, que enforma o meu pensar próprio e que emana do meu sentir profundo).
Mas só ingenuamente poderia pensar que, pelo menos inicialmente (no início do processo analítico), a minha voz é a minha voz ou apenas e só – tão simplesmente – minha! Porque inicialmente a minha voz enquanto analisando é uma voz incompleta – incompleta porque é completada, por vezes substituída ou até confundida com a voz dos meus objectos internos.
Em primeira instância, ocorre uma substituição da voz do analista pela representação da voz do analista, um fenómeno que se traduz e se revela
pelo acontecer intrapsíquico de uma conversa silenciosa com “o analista” – da qual me dou conta fora análise, para depois perceber que a mesma já decorria dentro da análise (é aí que, na verdade, tem/teve a sua origem).
Mas esta substituição implica, pelo menos inicialmente, também uma certa confusão ao nível das representações, nomeadamente entre a voz do analista e a voz dos objectos internos; mas sendo progressivamente diferenciadas, a voz do analista vai ganhando peso, valor e preponderância sobre a voz dos outros objectos internos.
Esta substituição implica também uma apropriação por parte do analisando: ou seja, significa que me aproprio da voz do analista, a qual utilizo para criar o meu novo interlocutor interno.
Não obstante, reparo/percebo que não é a sua (do analista) voz que represento, mas sim, verdadeiramente, a interpretação que faço da sua voz no acto de conversar silenciosamente com ele (analista) na sua ausência – e, sobretudo, no seu silêncio.
Ou seja, mais do que substituir o silêncio do analista pela representação da voz do analista, o analisando tende a interpretar, ele próprio, a voz do analista – “interpretar” não tanto no sentido psicanalítico (que seria o de criar um significado que ilumina a obscuridade psíquica), mas sobretudo no sentido de representar, de fazer de, pôr-se num lugar, neste caso, num lugar de silêncio.
Essa interpretação da voz do analista só é possível porque o silêncio do analista está presente, em negativo (em presença potencial), na voz do analisando, como uma “partitura infra-sónica”. Quando falo, não se ouve o silêncio do analista: não se ouve, mas está lá, inscrito na minha voz. É, no fundo, em tudo semelhante àquilo que Green (1990) define como a representação da ausência de representação; mas, neste caso, falamos de representação sonora: é o som da ausência de som, é o som do silêncio.
Esta apropriação ou interpretação que realizo da voz do outro4 é, no caso do analista, possibilitada pelo seu silêncio: é como se o analista me emprestasse a sua voz, calando-se. E empresta-me a sua voz para que eu a possa usar, sempre que o necessite e enquanto o necessite. Recebo este empréstimo, não porque a voz do analista seja especialmente bela ou admirável, mas porque é a voz silenciosa complementar da minha
Por exemplo, quando relato as minhas próprias conversas com os meus objectos externos (e internos), adopto sem saber (ou interpreto inconscientemente) a voz desses objectos – não literalmente, como é óbvio, mas ao nível do tom, entoação, timbre, etc.
própria voz (tal como o objecto parental é o complemento do filho, ou a porca é o complemento do parafuso).
O silêncio do analista é, portanto, o complemento acústico para que a minha verdadeira voz – que é a voz do meu verdadeiro self, muitas vezes inaudível porque esmagada pelos ruídos ensurdecedores dos objectos internos, quando não se calam e não deixam espaço à idiossincrasia sonora (como me oiço) – se faça ouvir.
Enquanto analisando, compreendo que é – não só, mas também, e se calhar sobretudo – nos momentos de silêncio do analista que o interiorizo enquanto objecto e que me aproprio/interpreto a sua voz.
Para além disso – para além de me permitir interiorizar a sua voz –, o silêncio do analista permite-me distingui-la da voz dos outros objectos internos. Aí – nesses momentos (que sempre estiveram, afinal, presentes desde o início) –, oiço o analista como analista, cuja voz se torna real e progressivamente diferenciada. Diferenciada e também ela complementar do meu próprio silêncio, que, mais à frente, também me torno capaz de viver e realizar. E percebo – mais à frente – que o seu silêncio, permitindo diferenciar entre a voz do analista e a voz dos outros objectos internos, permite-me também diferenciar a minha própria voz da voz do analista, e, também, da voz dos outros objectos internos.
Em resumo: a vivência e realização do meu próprio silêncio, em consonância com a progressiva diferenciação entre a voz do analista e a voz dos meus objectos internos (privilegiando cada vez mais a primeira e desvalorizando a segunda), criam condições para o desenvolvimento, extracção, depuração e refinamento da minha própria voz. Ela mesma cada vez mais completa, consonante com o meu verdadeiro self, cada vez mais diferenciada da voz dos meus objectos internos, mas também – e não menos importante – da voz do próprio analista. É esse o momento – ou melhor, são esses os momentos (já que é de uma continuidade que se trata) – de desapropriação da voz do analista, mas cujo silêncio permanece inscrito na minha voz própria.
O silêncio do analista na voz do analisando descreve uma situação transitiva, transaccional e transitória no movimento progrediente de trazer, da penumbra e da gama infra-sónica das representações sonoras, a
minha própria voz inconsciente – inconsciente não tanto no sentido de recalcada, mas no sentido de implícita, potencial, por desenvolver. Na linguagem de Thomas Ogden, nesta situação transitiva, a minha voz não é a voz do analista nem a minha própria voz, mas sim a voz do terceiro analítico (Ogden, 1994). A voz potencial do terceiro analítico não é uma criação exclusiva nem de um nem de outro, e nenhum deles pode reclamar a sua posse exclusiva.
O silêncio do analista na voz do analisando é uma metáfora de um diálogo eco-práxico: a representação de transformação (Gibelllo, 1999) da voz do analista inscrita no seu silêncio, vivida passivamente pelo analisando, é depois activamente vivida quando o analisando se apropria e interpreta a voz do analista. O mesmo é dizer que o analisando reage circularmente ao silêncio do analista, apropriando-se da sua voz, tal como a criança reage circularmente à acção da mãe quando esta lhe leva a colher à boca, apropriando-se do acto da mãe, para o simular (levando a sua mão à boca da mãe). A representação de transformação, de facto, introduz a sequencialidade (diacronia); mas ao despoletar reacções de forma circular e repetitiva, introduz também e concomitantemente a ilusão de simultaneidade (sincronia). Daí a dificuldade de distinguir de quem é o quê quando estão em jogo as representações de transformação – tal é o caso do silêncio do analista na voz do analisando.
Enquanto a minha voz não é suficientemente audível para expressar aquilo que apenas é potencialmente expressável (mas realmente inexpressável), é o analista que me empresta, com o seu silêncio, a sua voz. É como se as qualidades (calma, serenidade, vitalidade, constância, genuinidade, segurança, indestrutibilidade) da musicalidade da voz ausente do analista transudassem através do seu silêncio, constituindo assim o meio óptimo de transfusão de substância psicanalítica (para a construção da função psicanalítica da personalidade).
É, no fundo, um fenómeno comparável ao “empréstimo de identidade” (Matos, 2001) do analista ao analisando. Aqui, e na esteira de Sacha Nacht, e no que ao crescimento afectivo do analisando diz respeito, o analista valerá mais pelo som da sua voz – e pela qualidade do som do seu silêncio – do que pelo conteúdo das suas verbalizações. É, claro, um empréstimo (passageiro e ao serviço do Eu do analisando) realizado pelo analista atento às ondulações sonoras na voz do analisando e na conversa analítica: uma conversa ponteada pela palavra e modulada pelo silêncio.
No silêncio analítico existe uma interacção de infra-sons com a mesma intensidade, no mesmo comprimento de onda relacional, ambos guiando-se pela mesma pauta afectiva, ambos seguindo o mesmo traço mnésico inconsciente, antes solto e desligado, depois progressivamente animado e integrado na continuidade sequencial de uma narrativa com sentido e de uma musicalidade sentida.
É uma articulação e sintonização entre intuições, e dificilmente inteligível exclusivamente através da lógica racional – a posição analítica exige que o par analítico funcione de forma bi-lógica (dois hemisférios cerebrais, duas lógicas [Matte-Blanco, 1988]), flutuando entre o pensamento primário intuitivo-englobante (afectivo) e o pensamento secundário lógico-dedutivo (racional).
Nesta comunicação silenciosa, alargam-se as gamas espectrais de absorção consciente, mais e melhor recebendo o infra-som oriundo das profundezas inconscientes de analisando e analista, o que promove uma compreensão mais íntima e profunda – e silenciosa – de si por si mesmo: de mim por mim e – imagino – do analista pelo analista.
Por isso o som do silêncio do analista é – e sempre foi – inaudível pelos meus ouvidos. E, não obstante, está lá, presente, reflectindo a calma, tranquilidade, serenidade da sua voz, que – no silêncio – não tem forma nem som, figuração ou sentido; pode tomar qualquer forma e qualquer som, todas as formas e todos os sons, e forma ou som algum. É e era inaudível. E não obstante, sempre esteve lá… pois é esse, afinal, o terreno aparentemente extra-sensorial, misterioso e sinuoso, onde analista e analisando se aventuram, em uníssono e a uma só voz, a voz do silêncio.
POST-SCRIPTUM
“O silêncio é o som do compasso analítico, ali ao lado, na secretária do analista: o tiquetaque, tiquetaque do relógio que nunca fui capaz de ouvir. Até ao dia em que ele se calou, se silenciou; aí, o relógio falha e o seu som cessa; aí permito-me parar e… ouvir. E ‘perceber’ que, afinal, o tiquetaque de fundo do compasso analítico sempre esteve lá, desde o primeiro dia, contínuo, ininterrupto, indestrutível. Porque existem sons que só os ouvimos quando se calam. Tal como o silêncio do analista, presente na minha própria voz. Hoje, na minha voz própria.
Nesse dia, em que o silêncio intemporal cria contra a ‘loucura dos relógios’, o analisando passa a ouvir com uma clareza ímpar, até aí nunca possível, o silêncio que afinal sempre esteve presente. Esse dia é
hoje, ontem, amanhã. Pois o silêncio já ressoava no espaço infinito e já marcava o tempo eterno do setting analítico, desde hoje, desde há vários anos, desde sempre. É assim o som do silêncio em psicanálise.”
“Dawn points, and another day
Prepares for heat and silence.
Out at sea the dawn wind
Wrinkles and slides. I am here
Or there, or elsewhere. In my beginning”
ABSTRACT: Returning to his own experience and giving voice to his own voice as analysand, the author reflects about the importance and meaning of the silence of the analyst, but – and this is his main focus – heard, internalized and interpreted by the analysand through his own voice. The author emphasizes the essential movement, on the part of the analysand, of substitution of the analyst's voice by the representation of the analyst's voice; and approaches the unconscious and non verbal dimension of what he calls silent analytic conversation (inside and outside of the analysis), as well as the game of reciprocal and subliminal absences implicit in the analytic setting.
KEYWORDS: Silence; Voice; Representation.