Nos dias actuais, quando vivemos um apelo tão intenso da imanência do mundo, um processo inédito de globalização, e o domínio da técnica em todos os aspectos de nossa vida, vemos surgirem novas e complexas questões humanas. Para nos ajudar a compreender alguns dos fenómenos cruciais que nos afligem recorremos ao conceito de tolerância, conceito limítrofe entre a possibilidade de acolher e respeitar o outro e as grandes tarefas emocionais implicadas, e que nos impõe reflexões históricas, filosóficas e psicanalíticas.
“Matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem.”
Etimologicamente, a palavra tolerância deriva do latim, tolerantia, que significa constância no sofrer, paciência. O binómio intolerância/tolerância nos remete à oposição entre barbárie, preconceito, fanatismo versus liberdade de pensamento, de opinião, de crença, e também à ideia de concessão e indulgência, que levam à conciliação das relações humanas.
Psicanalista, Antropóloga, Membro Associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e da International Psychoanalytical Association; Coordenadora do Centro de Estudos sobre Psicanálise e Intolerância – CEPI, do Laboratório de Estudos sobre Intolerância da Universidade de São Paulo, Doutoranda em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. E-mail: ilanawn@uol.com.br
Conferência apresentada no XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
Tem também um carácter emblemático e um valor de resistência à perseguição, à violência política e privada, e em determinados contextos históricos, o significado de liberdade religiosa e política. Do ponto de vista filosófico, a tolerância é considerada uma virtude que se refere ao agir, implica escolhas e critérios ou princípios racionais que possam presidir nossas acções.
Quando no século XVI, o humanista francês, Sebastian Castellio , escreveu a frase citada acima em epígrafe, manifestava-se contra o assassinato de um homem que representava o mais avançado espírito ético e científico da época, Miguel de Servet helenista, teólogo, geógrafo, médico e filósofo espanhol. A luta e a argumentação de Castellio com relação à liberdade de consciência foram pioneiras na Europa Renascentista. Foi perseguido pelos calvinistas, suas obras foram queimadas e seu nome permaneceu esquecido até o século XIX.
Durante as guerras de religião que ensanguentaram os séculos XVI e XVII, as obras dos filósofos modernos levaram a uma verdadeira renovação do pensamento político, religioso e científico. Maquiavel, Espinosa, Descartes, Bacon, foram expoentes que delinearam o novo pensamento europeu. Neste contexto surgiu o conceito moderno de tolerância.
Entre os pensadores que contribuíram para esta reflexão, alguns são referências sempre lembradas, como Erasmo de Roterdão , que propôs, no início da modernidade, dar fundamento cultural à tolerância, criticando a Reforma luterana, incentivando um retorno ao Evangelho, ao comedimento da fé e da razão, e sendo assim um precursor do individualismo.
A força moral da tolerância, sua importância para o convívio humano e para uma nova concepção da sociedade civil, encontrou em John Locke seu maior defensor. Os princípios da tolerância para Locke correspondem às liberdades fundamentais da consciência, do corpo e da propriedade. Os direitos apontados por Locke apresentam-se como contrários a todo poder totalitário, e juntamente com sua concepção de tolerância deram base ao Iluminismo.
Os iluministas, como Voltaire , por um lado, fortaleceram o conceito de tolerância, mas ao mesmo tempo, durante a Revolução Francesa, as fogueiras e os patíbulos contra a intolerância deram lugar às guilhotinas e às execuções. Ao permitir o terror jacobino os “ilustrados” esvaziaram o conceito de tolerância, que passou a ser uma categoria desprovida de responsabilidade ética, deixando os homens indefesos diante das violências e dos horrores da história.
Os totalitarismos do século XX ao exercerem uma intolerância explícita, absoluta e orgânica, comprometeram definitivamente a mensagem iluminista da tolerância. Após o nazismo e o estalinismo, o que entender por tolerância? “Se aconteceu o que não deveria acontecer” como escreveu Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo (Arendt, 2000), a cultura da tolerância foi mais uma vez derrotada. A nosso ver, não se trata realmente de compreender, não há nada a compreender diante do mal absoluto, da barbárie, sob pena de justificá-lo e nos tornarmos inevitavelmente cúmplices. Lamentavelmente, a proposta de Adorno em “Educação pós-Auschwitz” (Adorno, 2000) fracassou, e novos campos de concentração, perseguições e matanças continuam em várias partes do mundo.
Hoje, quando o quadro teológico-político que deu origem ao conceito moderno de tolerância modificou-se, novos conceitos têm sido propostos para pensarmos esta questão, entre os quais os de identidade, diversidade de grupos (por sexo, etnia, género, idade, etc.), multiculturalismo, mas que não têm se mostrado satisfatórios. Embora também apresente limites, o conceito de tolerância continua sendo lembrado na busca de convivência entre grupos e povos, como uma alternativa à violência e à dominação, mental, social ou política.
Em 1936, quando Freud completava 80 anos, na Academia de Medicina Psicológica de Viena, Thomas Mann, já um escritor famoso, convidado a fazer um discurso em sua homenagem, disse: “os povos livres são aqueles que no futuro estarão libertos do medo e do ódio e maduros para a paz” (Mann, 1988). No centenário do nascimento de Freud, em 1956, seus colaboradores escreveram:
“o descaso ou o esquecimento desta data nos países onde as instituições liberais foram afastadas, é mais uma prova de que aqueles que se apresentam como guias de um novo Éden, não atingidos pela perspectiva sombria das ideias de Freud, vivem, no entanto mergulhados na vergonha e no subterfúgio, pelos quais terrível preço ainda virá a ser pago” (Nelson, 1959).
Estas falas lembram os momentos dramáticos em que a humanidade esteve mergulhada no nazismo, fascismo e estalinismo. Época em que Freud era visto como a ponte que ligava o século XIX ao XX e o ano
de 1900 como a aurora de uma nova era na historia da ciência, com a publicação da Interpretação dos Sonhos, seguida em 1901 pela teoria do Quantum (Max Planck) e em 1905 pela Teoria da Relatividade (Albert Einstein).
Ao completar 150 anos de seu nascimento, em 2006, Freud foi mundialmente homenageado, e novamente reverenciado e lembrado como alguém que através de sua vida e obra lutou contra a discriminação, a hipocrisia, a intolerância social e política, e pela liberdade humana.
A psicanálise, seu legado – através do reconhecimento do inconsciente – das forças ocultas que nos governam; dos processos transferenciais, presentes nas relações humanas, e todo o funcionamento psíquico que procura desvendar, representa uma força e uma abertura para o homem tornar-se consciente da sua precariedade, da sua ambiguidade, e mais livre frente a seu destino.
Os tempos sombrios em que Freud viveu, sua trajectória pessoal, e seu trabalho clínico com as histéricas, as suas primeiras e sem dúvida as mais importantes pacientes, foram as três vertentes fundamentais da formulação de suas teorias. E nestas três facetas encontramos presentes experiências de intolerância. Revisitemos um pouco estas raízes da psicanálise e de seu fundador a partir deste ponto de vista.
Schlomo Segismundo Freud nasceu em 1856, na Moravia, que na época pertencia ao império Austro-Húngaro, numa cidadezinha chamada Freiberg, de 5 mil habitantes, em sua maioria católica. A família de Freud fazia parte dos 2% de judeus que conservavam a língua alemã e a cultura austro-germânica, sendo considerados ‘estranhos’, num meio que falava o checo e que depois da Primeira Grande Guerra seria anexada a República Checa.
“Meus pais eram judeus e eu próprio continuei judeu” (Freud, 1969, vol. XX, p. 7) declara Freud no início de sua Autobiografia. Seu pai, Jakob Freud dedicava-se ao negócio de lã, mas via dificuldades em Freiberg para seu futuro e o de sua família. Segundo Ernest Jones (Jones, 1981), o biógrafo oficial de Freud, o anti-semitismo começou a se alastrar pela aldeia, transformando a diminuta comunidade judaica local em bode expiatório da crise económica e do nacionalismo racista. A família Freud seguiu para Viena, aonde Freud chegou aos 4 anos e só saiu já velho e doente, devido à perseguição nazi.
Como súbditos do império Austro-Húngaro, os judeus passaram a gozar nessa época de uma série de direitos que lhes tinham sido negados durante séculos, como poder morar fora dos guetos, ou seja, a livre
escolha de residência, poder cursar escolas e universidades e votar. Foi um momento propício à ascensão socioeconómica de muitos judeus que se aventuraram para além do pequeno comércio e sobressaíram-se como cientistas, intelectuais, artistas, profissionais liberais, industriais e banqueiros. Atraídos pela cultura europeia, pela filosofia, pela música e pela literatura, estes intelectuais abandonaram o mundo cultural judaico. Mas festejados e rejeitados ao mesmo tempo, trouxeram para seu novo ambiente um olhar penetrante, próprio de quem está simultaneamente dentro e fora.
Isso pode ser relevante para se explicar, pelo menos parcialmente, o carácter de inovação próprio à contribuição de tantos judeus à cultura europeia do século XIX, até o advento do nazismo. Muitos deles questionaram normas e padrões de comportamento sociais, como Ludwig Wittgenstein com a crítica da percepção e da linguagem; Edmund Husserl criando a fenomenologia; Einstein contribuindo com a teoria da relatividade; vários autores da tradição socialista; além, é claro, de Freud com a criação da psicanálise. Todos eram judeus agnósticos ou convertidos, o que se destaca na constelação de factores que os levaram a desenvolver ideias revolucionárias em seus respectivos campos de investigação (Mezan, 1982, p. 28).
Freud aludiu várias vezes às dificuldades encontradas ao longo de sua formação pelo facto de ser judeu. Ao ingressar na universidade, relata que esperavam que ele se sentisse inferior e estranho por ser judeu, acrescentando que suportou sem grande pesar a sua não-aceitação na comunidade académica.
Em 1926, ao agradecer às felicitações enviadas pela B'nei B'rith (sociedade beneficente judaica à qual pertencia) pelo seu 70.° aniversário, confessa que apesar de não ser um judeu praticante, sentia uma atracção pelos judeus e pelo judaísmo, vivendo…
“[…] vastas e obscuras forças emocionais, tanto mais poderosas quanto difíceis de serem expressas em palavras, a clara consciência de uma identidade íntima, a secreta familiaridade de possuir uma mesma arquitectura psíquica. A isto não tardou-se a acrescentar a compreensão de que somente à minha natureza judaica devo duas qualidades que chegaram a ser indispensáveis no difícil caminho da minha existência. Precisamente por ser judeu, encontrava-me livre de muitos preconceitos que toldam a outros o exercício de seu intelecto; precisamente como judeu estava preparado para colocar-me na oposição e para renunciar ao acordo com a maioria compacta” (Mezan, 1982, p. 27).
Em 1897, ao se sentir praticamente sozinho com suas descobertas subversivas, foi exactamente na B'nei B'rith onde apresentou pela primeira vez suas ideias. Mas apesar de sempre ter afirmado seu judaísmo, Freud seguia um rigoroso secularismo em sua vida doméstica.
As experiências sofridas pela intolerância e preconceito aos judeus marcaram sua consciência e posição frente ao judaísmo, e entre elas, ter presenciado uma conduta anti-semita em relação ao seu pai – quando um homem pegou o solidéu de seu pai e o atirou ao chão. Jakob Freud, não teria dito nada, não teria tido nenhuma reacção, apenas pegou o solidéu, colocou novamente sobre a cabeça e dirigiu-se para casa. Esta experiência contradizia o cultivado ideal heróico familiar dos Freud, e revela a dor da experiência de humilhação e do preconceito.
Por outro lado, as cartas de Freud para Marta Bernays, sua noiva, e para Wilhelm Fliess seu grande amigo e confidente, contêm grande número de citações da Torah e do Talmud, o que revela que Freud tinha conhecimento desses livros fundamentais para o espírito judaico. Ernest Jones afirma que Freud, nos momentos mais contundentes da sua vida, em que precisava argumentar para lidar com uma situação de impasse, sempre fazia uma citação da Torah, apesar de se declarar um judeu sem Deus (Jones, 1981).
Os últimos anos de Freud foram de grande amargura e fizeram com que suas sombrias ideias sobre a natureza humana parecessem pálidas, como nos diz Peter Gay (Gay, 1989, p. 532). Com a ascensão do partido nazista de Hitler, em 1933, em poucos meses foram liquidados sistematicamente os partidos políticos, as instituições parlamentares, a liberdade de expressão e de imprensa, as universidades e organizações culturais independentes e o domínio da lei. Seguiram-se os campos de concentração para os adversários políticos e inaugurou-se o governo da mentira, intimidação, proscrição e assassinato. Socialistas, democratas, conservadores inconvenientes e judeus foram ‘expurgados’ de cargos oficiais e cátedras de ensino, jornais e editoras, orquestras e teatros. O anti-semitismo racial se converteu em política governamental.
Em 10 de Maio de 1933, os nazis realizaram uma espectacular queima de livros, por toda a Alemanha, onde estavam os trabalhos de Freud e seus seguidores, e toda literatura de esquerda, democrática e judaica: Thomas Mann, Albert Einstein, Heinrich Heine, Karl Marx e Franz Kafka , entre outros. Estas fogueiras de livros realizadas
nas praças públicas das cidades e centros universitários alemães simbolizavam o auto-de-fé de um século de cultura alemã.
“Acompanhado por desfiles de estudantes à luz de archotes e discursos apaixonados de professores, encenado pelo Ministério da Propaganda, este ato de barbárie inaugurou uma época que Heinrich Heine havia resumido com as palavras proféticas de que: ‘onde se queima livros, ao final também se queimam pessoas e as consciências’. As publicações psicanalíticas, com os livros de Freud à frente, estiveram presentes no grande incêndio da cultura” (Gay, 1989, p. 546).
Freud referiu-se a isso como “tempos loucos”, e disse a Ernest Jones: “Na Idade Média teriam queimado a mim, hoje em dia eles se contentam em queimar meus livros”, numa referência aos autos-de-fé inquisitoriais .
Em 1938, preocupado com a preservação da Psicanálise, Freud ainda não queria emigrar. Sua fuga só iria “[…] dar o sinal para a dissolução completa do grupo analítico […]” e essa era uma eventualidade que queria evitar (Gay, 1989, p. 558). Acreditava que o grande poder da Igreja austríaca poderia ainda conter as pretensões nazistas. Mas logo sua ténue esperança se desvaneceu.
Muito doente, já tendo se submetido a inúmeras operações devido ao câncer de que sofria havia já algum tempo, anotou em seu diário: “13 de Março: Anexação á Alemanha” e no dia seguinte, “Hitler em Viena”.
Iniciou-se o reinado do terror, uma repugnante combinação de expurgos planeados pelos invasores e explosões locais e espontâneas: terror contra os social-democratas, contra os líderes inconvenientes da velha direita, e, sobretudo contra os judeus. E os austríacos mostraram-se muito mais temíveis que os alemães. Os incidentes nas ruas das cidades e aldeias austríacas foram mais violentos do que os até então presenciados pelo Reich de Hitler.
Dois dias depois, em 15 de Março, o apartamento de Freud e a editora, foram invadidos, revistados e roubados por membros de tropas paramilitares, e seu filho Martin Freud foi mantido preso durante todo o dia. Em seguida, em 22 de Março Ana foi detida para interrogatório. O futuro da psicanálise em Viena revelava-se impossível. E também o futuro de Freud.
Ernest Jones, através de seus laços com membros do ministério inglês, e a princesa Marie Bonaparte , psicanalista e amiga de Freud,
com sua riqueza, e laços reais suficientemente ilustres, foram os grandes protectores de Freud. Depois de muitas dificuldades, e o pagamento de uma grande soma em dinheiro em Junho de 1938 Freud deixou Viena, rumo a Paris e depois a Londres, onde morou até sua morte, um ano depois, em Setembro de 1939.
Com relação à outra faceta que determina a teoria freudiana – o trabalho clínico, a perplexidade com que a medicina na época olhava e ouvia as histéricas, tinham provocado, como sabemos uma profunda e perene impressão no jovem Freud, que pensava e repensava as suas histórias e as suas dores, e a partir delas construiu uma visão teórica da mente humana, de todos os homens.
Freud através de sua escuta e observação atenta chega, à ideia da etiologia sexual das neuroses, afirmando ainda que a sexualidade saudável exigia a prevenção de doenças venéreas e como alternativa à masturbação o ‘intercurso sexual livre’ entre rapazes e moças solteiras, acrescentando que era necessário um contraceptivo melhor do que a camisa-de-vénus, que não era segura nem agradável (Freud, 1969).
As descobertas freudianas chocaram Viena, pois com suas ideias atacou dois fundamentos da ideologia dominante: a crença no domínio da racionalidade e a inocência da instituição familiar. Viena recebeu suas ideias sobre a sexualidade e o complexo de Édipo em princípio com incredulidade e depois com ódio. Atacou e caluniou o seu autor, e quando não foi mais possível ignorar seu trabalho, cercou-o de uma áurea de escândalo e atribuiu suas formulações à origem judaica de Freud.
As ideias de Freud representaram uma revolução em nome da verdade e em nome do direito à palavra, violentaram a tranquilidade autocomplacente e atacaram a hipocrisia que cercava a vida quotidiana da época, envolvida pela repressão sexual, pelos edifícios ornamentados da Belle Époque e pela linguagem cerceada. Foi por tudo isso, hostilizado e suas teorias consideradas como fruto de uma mente doentia.
Freud escreveu referindo-se ao silêncio hostil que se formou ao seu redor quando começou a anunciar suas descobertas:
“Mas o silêncio provocado pelas minhas comunicações, o vazio que se formou em torno de mim, as insinuações que me foram dirigidas, pouco a pouco me fizeram compreender que as afirmações sobre o papel da
Page 98sexualidade na etiologia das neuroses não podem contar com o mesmo tipo de tratamento dado às comunicações (científicas) comuns. Compreendi que daquele momento em diante eu passara a fazer parte do grupo daqueles que ‘perturbaram o sono do mundo’, como diz Hebbel, e que não poderia contar com a objectividade e a tolerância. […] Dispus-me a acreditar que tinha tido a sorte de descobrir factos e ligações particularmente importantes, e resolvi aceitar o destino que às vezes acompanha essas descobertas” (Freud, 1969, vol. XIV, p. 32).
O objectivo de Freud era criar uma ciência sobre a alma humana. Sabe-se o quanto procurou ser reconhecido pelas academias e pelas universidades, o que só aconteceu muito tarde em sua vida.
Defendeu uma prática e uma perspectiva teórica que estivessem fundamentadas no pensamento científico. A psicanálise precisava ser uma ciência. Seu círculo de amizades era formado, com algumas excepções, por outros médicos judeus, e isso durante muitos anos. Como também serão judeus seus primeiros discípulos. E isto o deixava preocupado.
Essa situação marcou sua relação com Carl Jung , suíço e protestante, pois a sua participação no movimento psicanalítico auxiliaria a afastar possíveis suspeitas de que a psicanálise estivesse vinculada ao judaísmo. Sobre isso, Freud escreveu a Karl Abraham , um de seus discípulos mais próximos:
“Seja tolerante e não esqueça que na verdade, é mais fácil para o senhor de que para Jung seguir meus pensamentos. Por nossa pertinência racial comum, o senhor está mais próximo de minha constituição intelectual, enquanto Jung, como cristão e filho de pastor, encontra o caminho rumo a mim somente lutando com grandes dificuldades interiores. Sua adesão tem por isso um valor ainda maior. Diria quase que é somente a partir de sua chegada que a psicanálise escapou ao perigo de se converter num assunto nacional judaico” (Mezan, 1982, pp. 25-26).
O argumento de que a psicanálise seria uma “ciência judaica” foi utilizado pelos seus detractores, e em particular, pelos nazis, que dele se valeram para proscrevê-la do Reich assim como os estalinistas a consideraram uma ciência “burguesa” proibindo-a na União Soviética.
O edifício freudiano é parte do percurso de Freud como clínico e investigador, conjugado intimamente com sua biografia, e podemos perceber que o desenvolvimento da psicanálise esteve relacionado com as questões que Freud pôde elaborar de sua vida pessoal, algo que se explicita desde a Interpretação dos Sonhos, com a sua auto-análise.
A psicanálise surge, de facto, a partir da experiência de Freud no tratamento das neuroses, em seu consultório de especialista em moléstias nervosas. Por mais importante que tenha sido o judaísmo em sua formação pessoal, também o foi a educação que recebeu no ginásio austríaco e na Universidade de Viena, que enfatizava a cultura humanística e a ciência, ambos profundamente absorvidos por Freud. Como nos assinala Rouanet: “O freudismo não é fruto do judaísmo, mas da relação instaurada entre o judaísmo e o pensamento ocidental. […] é resultado da confluência e do conflito entre as duas culturas. […] É a impossibilidade de toda síntese, e ao mesmo tempo, a impossibilidade de uma separação” (Rouanet, 2002).
Nos seus escritos, encontramos inúmeras citações da literatura poética, dramática e novelesca, que conhecia bem, pois admirava os clássicos gregos e latinos, além de seus contemporâneos como Stefan Zweig , Arthur Schnitzler e Thomas Mann, entre outros. Com eles partilhou de grande prazer estético e também inquietações universais, foram modelos para seu estilo de escrita, e sua descrição dos processos mais obscuros da alma humana, em seu entender, prefiguram muitas das descobertas da psicanálise (Mezan, 1982, p. 33).
Freud queria criar uma ciência que possuísse um objecto próprio – o inconsciente e suas leis; uma metodologia específica – a interpretação do discurso dos pacientes na ‘situação analítica’; que se baseasse na descrição dos fenómenos observados na situação analítica e na formulação de leis gerais a partir deles; que constituísse um corpo de conhecimentos acumulados por meios adequados, transmissíveis a quem desejar se apropriar deles, verificáveis e rectificáveis. Como afirma Freud em uma de suas conferências, a psicanálise é fundamentalmente uma disciplina científica, partilha da visão de mundo da ciência e deve ser avaliada pelos critérios aceites de cientificidade.
A psicanálise surgiu, no entanto, em um momento particular, na Viena dos fins do século XIX, que vivia um período de profundas transformações na sensibilidade e no pensamento até então vigentes.
Naquele momento, surgiram rapidamente movimentos de renovação em todas as áreas. E a psicanálise é contemporânea desta transformação
fundamental, nos ensinando que o racional mergulha no emocional, que a inteligência também é governada pelas paixões, que o conteúdo manifesto de uma ideia se ancora numa complexa rede de desejos e de pensamentos latentes. Estabelece correlações, descreve fenómenos e procura as leis a que eles obedecem.
Thomas Mann assim se refere à revolução operada pela psicanálise:
“Com sua ênfase no demoníaco da natureza, com a sua paixão de pesquisadora das esferas nocturnas da alma, ela é tão anti-racional como qualquer manifestação do novo espírito que está em luta vitoriosa com os elementos mecânicos-materialistas do século XIX. Seu sentido é totalmente revolucionário” (Mann, 1988, pp. 149-150).
Os anos de isolamento sofridos por Freud, de 1895 a 1902, em Viena, foram muito duros, mas aos poucos começaram a surgir os primeiros discípulos ao seu redor, e a organizarem-se as primeiras instituições psicanalíticas. Apesar das dificuldades durante a Primeira Grande Guerra, o trabalho dos psicanalistas no auxílio dos traumas de guerra começou a ser reconhecido.
Até o século XIX predominara uma concepção unitária da estrutura psíquica onde a loucura era vista como a irrupção da multiplicidade na unidade, como a cisão, a fragmentação de uma estrutura que justamente por ser unitária percebe a multiplicidade como quebra e desordem. A psicanálise, no século XX, ajudou a desconstruir esta visão unitária do ser humano, apresentando-o como um ser dividido, que se coloca frente ao sentido das coisas, sentido que, no entanto lhe escapa, introduzindo o conceito de inconsciente.
Sigmund Freud estabeleceu em seus textos teóricos e metapsicológicos as bases do psiquismo na psicanálise, através da diferenciação entre o Eu e o não-Eu, da busca em ultrapassar o narcisismo primário e pelo caminhar em direcção ao reconhecimento e aceitação pelo que nos é estranho ou diferente, o outro. Já nos alertava, entretanto, que algo sempre permanecerá misterioso em nós mesmos, e que o mal-estar na cultura é o mal radical, o mal inerente à condição humana do qual não podemos nos livrar, apesar de tentarmos transformá-lo pela construção da civilização.
Para Freud, o “narcisismo das pequenas diferenças”, que permite alguma satisfação das pulsões de morte, é a base de muitas formas de
intolerância vividas quotidianamente. Freud dá como exemplo deste ‘narcisismo das pequenas diferenças’ a animosidade entre populações que habitam regiões próximas: alemães do norte e do sul, ingleses e escoceses, portugueses e espanhóis. Para ele, o narcisismo das pequenas diferenças é uma forma conveniente e relativamente inofensiva de satisfazer tendências agressivas, pela qual é reforçada a coesão entre os membros de um grupo.
De acordo com Freud, as relações de intolerância nos falam das relações de agressividade primeva, “essa pulsão agressiva é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo” (Freud, 1930).
Na espécie humana há uma constante luta entre uma pulsão de vida e outra de destruição e, portanto, “a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida”.
Criamos leis, tábuas de mandamentos, colocamos o “não” na frente do desejo de causar dano ao outro. Assim, Freud considera a civilização como um processo a serviço de Eros, “cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade” (Freud, 1930).
Cabe à cultura a contrapartida do investimento pulsional para, assim, regular as trocas e sustentar as ofertas. A economia libidinal precisa ser atendida e as formações ideais do Eu, como instância psíquica, têm de encontrar condições colectivas de conexão e ancoragem. Apesar do conhecido alerta de Freud de que mesmo diante dos esforços realizados pelas construções civilizacionais, algo sempre permanecerá pulsando silenciosamente, sem simbolização, sem nome, pronto a emergir oriundo do território de nossos confins, do mal que nos compõe e se espalha na cultura – mal esse radical, inerente ao desamparo do qual não nos livramos em definitivo – ainda assim a função conectiva da cultura permanece essencial.
O trabalho quotidiano de criar laços, fazer ligações, estabelecer e sustentar relações e dessas práticas construir valores, projectos com desdobramentos, realizações que contribuem é o único caminho que pode instaurar a tolerância entre os homens. Nas relações também estão implicadas as identificações. Quando temos laços de identificação com o outro podemos reconhecê-lo como semelhante a nós e, ao mesmo tempo, separado e diverso de nós.
Freud interessou-se como sabemos, não apenas pelo que ocorria em seu consultório, com os pacientes que analisava, mas também pelos
fenómenos sociais e culturais, como os movimentos de massa, a religião, a literatura e a arte. Utilizou, muitas vezes, conceitos desenvolvidos a partir da clínica, na compreensão destes fenómenos, o que ficou conhecido como Psicanálise Aplicada. Ao fazê-lo não estava verdadeiramente utilizando o método psicanalítico, pois não investigava fenómenos transferenciais que poderiam acompanhar in loco, mas tomava a teoria psicanalítica para reflectir sobre fenómenos para fora do consultório.
Este panorama modificou-se na década de 1950, quando outros vértices da situação analítica começaram a chamar a atenção dos psicanalistas. Para Freud, o analista precisava ser como um espelho, manter o campo da neutralidade, a fim de poder observar e trabalhar com os fenómenos transferenciais. Com o aprofundamento do estudo da contratransferência, o desenvolvimento do conceito de intersubjetividade nos chamou a atenção de que todo fenómeno entre humanos acontece em decorrência da subjectividade de ambos os participantes. O fenómeno transferencial sendo o fenómeno psicanalítico por excelência, foi compreendido a partir de então como algo que ocorria também entre analisando e analista, e não apenas da parte de cada um separadamente. Este conceito deu novo fôlego à metodologia psicanalítica, pois instrumentalizou os profissionais para poderem sair de seus consultórios e investigarem fenómenos humanos no campo social, na literatura, na arte, empregando de forma legítima o método psicanalítico.
Os cem anos decorridos da prática psicanalítica contam a história das lutas pela tolerância com o outro, com aquele que não é como nós, assim como pelo reconhecimento do estrangeiro que vive em cada um de nós, como pela luta para manter viva a psicanálise como prática não totalizadora, sempre aberta ao desconhecido.
Neste rápido percurso, vimos como a intolerância esteve presente na vida de Schlomo Segismundo Freud por sua origem judaica, como atravessou todo seu trabalho de construção da psicanálise, através de suas sofridas pacientes histéricas, que viviam profundos conflitos com relação à sua sexualidade, e também como a própria história da psicanálise sofreu o peso da intolerância, por parte da sociedade, dos governos totalitários, tanto sob o nazismo como sob o estalinismo, quando suas obras e seu estudo foram proibidos.
Até hoje, estamos compreendendo o legado de Freud, todas as implicações de suas descobertas, pois trouxe ao mundo uma nova definição
do destino humano, colocando em nossas mãos os meios que permitem transformar situações antes consideradas irremediáveis.
Freud contribuiu através da psicanálise para a modernidade, para a construção do homem moderno. Em seu texto de 1930, O mal-estar na civilização (Freud, 1969, vol. XXI) – parte da mensagem de que quando se ganha alguma coisa habitualmente algo se perde. A ‘civilização’ a que Freud se refere em seu livro, é a modernidade, pois só a sociedade moderna pensou em si mesma como uma actividade da ‘cultura’ ou da ‘civilização’, e agiu sobre esse autoconhecimento através da psicanálise (Bauman, 1998).
O preconceito, as perseguições e o nazismo que marcaram a vida de Freud e a história do movimento psicanalítico, fruto do mundo moderno que ajudaram a construir, nos permitem reflectir sobre o que vivemos na contemporaneidade: um processo que ainda nos cabe procurar compreender, com a colaboração dos diferentes campos de conhecimento.
A psicanálise, através do desenvolvimento do trabalho clínico, assim como de estudos e pesquisas trabalha continuamente em busca da compreensão das condições necessárias para o existir humano, para a sua plena realização, com mais liberdade e menos intolerância.
Seu principal método de investigação, que tem semelhanças com o método talmúdico, consiste em formular perguntas e procurar hipóteses que possam contribuir para estimular novas perguntas, novas reflexões.
Na verdade, como dizia Maurice Blanchot, filósofo francês, a resposta é a desgraça da pergunta, de modo que penso ser muito mais útil do que dar respostas o método de levantar questões, hipóteses e procurar produzir algum tipo de conhecimento. A psicanálise se aproxima dos fenómenos humanos com curiosidade científica e, um certo cepticismo benevolente, conforme sugeria Freud, desconfia das respostas fechadas, simplistas e reduccionistas. Sua proposta é contribuir com alguma parcela talvez relevante para enfrentar a crescente complexidade do mundo em que vivemos, e suas estranhas e aparentemente incompreensíveis manifestações.
Na psicanálise contemporânea, encontramos no Prof. Gilberto Safra, psicanalista, pesquisador, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, contribuições importantes para a compreensão da clínica e da teoria psicanalítica. O Prof. Safra distingue-se por uma abordagem original do pensamento de D. W. Winnicott ,
propondo uma expansão e redimensionamento da psicanálise. Reconhecendo a necessidade de contemplar o acontecer humano no nível ontológico e teleológico, sua visão transborda os limites da psicologia e da psicanálise clássicas, e faz face aos temas relativos ao ser humano como a precariedade, a criatividade, a empatia, a religiosidade, o idioma pessoal, a corporeidade, entre outros, sem perder a dimensão histórica e a inserção no campo social e cultural. Isto implica exigências específicas para um trabalho clínico contemporâneo, que se funda nas noções de intersubjetividade, ética e comunidade de destino, e nos abre assim a possibilidade de pensarmos as questões da tolerância na clínica através da psicanálise contemporânea.
“A situação clínica é fundamentalmente aberta à singularidade de cada paciente, que por sua vez, traz por meio de seu sofrimento e de seu adoecimento notícias das condições do mundo. Isto significa que o analista ou terapeuta precisa estar continuamente aberto ao inédito, investigando o que os analisandos lhe revelam sobre si mesmos e sobre o mal-estar no mundo, para poder adequar o seu trabalho à situação clínica que está conduzindo. (…) o clínico, aliás, como todo profissional ligado às ciências humanas, necessita estar continuamente investigando e reflectindo sobre a condição humana, para poder reinventar sua prática em sintonia com os problemas de seu tempo” (Safra, 2006).
Nossa experiência clínica nos mostra que para alcançarmos nossos objectivos, não podemos limitar o nosso foco apenas à vida intrapsíquica presente e manifesta dos pacientes, sem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor. No momento em que vivemos, o convívio e o reconhecimento da alteridade vêm-se tornando insuportáveis para muitos, em muitos lugares. Para podermos realizar o trabalho analítico, e lidar com os novos tipos de sofrimento e adoecimento, é necessário, a nosso ver, resgatar os valores que nos colocam em reverência à alteridade, compreendida como matriz de uma ética individual e das relações humanas, e que tem tido até agora fraca ressonância na cultura da tolerância.
Neste tempo marcado pelo ódio para com o outro homem, e pelo seu desprezo quotidiano, o que leva muitos a se submeterem ao niilismo, e à sua ultima forma contemporânea no ocidente, o individualismo, Emmanuel Lévinas, filósofo francês, propôs através de uma visão fenomenológica, uma crítica ao estudo do ser – da ontologia – que não contempla a alteridade. Testemunha do Shoah (Holocausto), e das incontáveis
violências, destruições e dores para sempre inconsoláveis, Lévinas persevera na tarefa de pensar, servindo-se do caminho filosófico, mas sempre atento à tradição hebraica, especialmente ao Talmud – abrindo assim a racionalidade filosófica para uma fonte de pensamento ignorada durante muito tempo. Sua obra transmite por isso uma inquietação que mantém o espírito alerta, dedicada a se opor à totalidade, ao fechado, e ao conhecido, e aberta à alteridade irredutível do outro homem.
Para Lévinas, a primazia do ser, o “si mesmo” colocado em primeiro lugar nas preocupações do homem, impede que ele se abra ao outro, ao diferente, e ao estranho. Por isso, a experiência ética principal é a experiência do rosto, do frente a frente, como presença viva que se impõe. Não se trata de pensar o outro, mas de abrir o próprio pensamento e a própria linguagem para um encontro em que ocorre uma saudação a ele. A subjectividade surge com o outro e está fundada nele, como nos dizia Winnicott e é também responsabilidade pelo outro, acrescenta Lévinas, sendo que nossos laços se fortalecem na medida em que nos disponibilizamos ao outro dizendo: “Eis-me aqui!”.
Esta perspectiva epistemológica do estudo da pessoa humana, não é apenas um elemento relacionado à teoria do conhecimento, mas é relevante para a Ética, pois abordar o homem pelo universal leva à perda do singular. Todo “tipo humano” é assim um equívoco epistemológico e ético, que pode levar ao adoecimento. Uma perspectiva epistemológica fundamenta uma antropologia, uma visão de homem, que vai definir modos de se proceder e têm também implicações clínicas e políticas.
Não se trata aqui, entretanto, de uma discussão filosófica, de uma abstracção, mas de colocar a Ética como uma questão central, de efeitos contundentes sobre a nossa concepção e reconhecimento das necessidades da pessoa humana. Assentados em um vértice para além da representação, sobre o ontológico, sobre a condição humana, mantemos a situação, tanto da clínica quanto da pesquisa, aberta ás condições fundamentais para o habitar do homem no mundo, o que implica não apenas estar aberto para o novo, mas para o mistério, para que a situação transferencial esteja aportada na solidariedade e na amizade, decorrentes da consciência de que o outro, que nos procura na clínica ou sobre o qual nos debruçamos na pesquisa, está irmanado a nós, pois estamos ligados ao mesmo destino, que é a condição humana, ou seja, em comunidade de destino.
Partindo da sua experiência com pacientes que falam de sofrimentos decorrentes do mal-estar contemporâneo, o Prof. Gilberto Safra propõe
fundar a situação clínica na investigação e na abertura para o inédito, vivido com os pacientes. E estas novas modalidades de sofrimento que presenciamos, nos levam a basear a clínica contemporânea no ethos humano, isto é, nas condições que possibilitam a própria constituição e instalação do ser humano no mundo. Além disso, não basta testemunharmos as fracturas éticas sofridas por cada um, é preciso também sustentar a possibilidade da pessoa realizar o seu percurso de forma singular.
O mundo humano organiza-se transgeracionalmente, por sentidos e significados e nele estão sempre se articulando novas perspectivas e facetas da experiência humana2. Ao mesmo tempo, ele pré-existe a todo nascimento humano, e cada um de nós precisa romper e recriar o mundo que lhe foi ofertado, com suas possibilidades e impedimentos.
O ser humano não está apenas na História, não é apenas afectado pelos fenómenos históricos, mas tem na própria subjectividade a dimensão da historicidade. Isto quer dizer que os acontecimentos que se desenrolam no tempo, o contexto social e político, nos afectam não só de fora para dentro, mas também em como se organiza e se realiza nossa subjectividade.
Por esta razão, uma abordagem formulada sobre uma determinada situação clínica nunca dará conta, na sua totalidade, dos problemas com os quais temos que nos deparar em diferentes épocas da História. Como clínicos, precisamos ter um posicionamento crítico em relação à técnica e à teoria, para não ficarmos presos a um suposto saber, e possamos estar sempre reinventando a nossa prática, guiados pela singularidade do outro e pela situação histórica onde o par está incluído. O psicoterapeuta precisa estar continuamente investigando, pois não é possível, como em outras áreas, ter o domínio sobre um sistema de conceitos e aplicá-los a um campo. Embora tenhamos um conhecimento teórico e técnico, temos que reinventar e repensar nossos princípios e posições teóricas a cada novo encontro.
Há uma diferença entre transmissão intergeracional e transgeracional. A intergeracional diz respeito à transmissão consciente de conteúdo mental no ciclo vital, como identificação de fantasias que são organizadas na história familiar e herdados pela geração subsequente, resultando no efeito estruturador do aparelho mental. Transmissão transgeracional ocorre inconscientemente e são transmitidos às futuras gerações conteúdos mentais que são dissociados e não simbolizados por palavras ou histórias, portanto afetos primitivos e não integrados, resultantes de traumas, dor, perdas, que não são elaborados e não são resolvidos, e esse tipo de transmissão transgeracional permanece encapsulado, agindo tanto como uma violenta reclusão de sentimentos de si mesmo, ou transmitido para as futuras gerações.
Para podermos acolher o outro, que é sempre diferente e estranho, é preciso poder reconhecer a semelhança, e ter uma atitude moral e ética. Pois ainda que o outro me incomode, e eu tenha antipatia e prefira eliminá-lo do meu caminho, participamos de uma mesma comunidade de destino, ele é um ser humano como eu.
O reconhecimento do outro na sua alteridade se exprime na própria etimologia da palavra grega ethos – da qual deriva ‘ética’ – que remete a dois sentidos: morada e pátria; a primeira remete a um lugar para viver, a segunda sublinha os laços sociais através dos quais emergimos. A palavra ética refere-se assim às condições necessárias ao acontecer humano, isto é, ao que permite a cada sujeito ‘morar’ no mundo inserido numa comunidade (Safra, 2004, p. 26).
Morada, pátria, um lugar para viver, significa um lugar para ser, o que se relaciona directa e profundamente com a questão do sentido da vida. Este ‘lugar’ considerado uma condição para emergência do ser é na realidade o ‘nós’ no interior do qual o sujeito pode construir sua singularidade. É a relação fundante com o outro, o pertencimento a um colectivo, o ser parte de uma comunidade, que constitui a condição fundamental para o vir a ser do sujeito e para o desenvolvimento de sua singularidade.
Habitualmente a experiência ética é vista como fruto do aprendizado, de um agregado a uma personalidade que estaria se formando, se organizando, o que levou á importância dada socialmente à educação, auxiliando as crianças em formação a alcançar o registro ético como experiência pessoal.
Mas vemos através da experiência clínica contemporânea que a questão ética não é apenas um registro agregado, uma aquisição decorrente de um aprendizado, mas faz parte da própria condição humana, do modo de ser de uma criança, do que lhe é originário. Há, portanto, desde o início, um pressentimento do ético. Uma criança que pôde de alguma maneira, experimentar ser cuidada, recebe a oferta de uma experiência que lhe dá um saber sobre a ética, lhe dá um elemento fundante, sobre o qual, inúmeros outros elementos psíquicos podem acontecer.
Antes de ser uma acção, o cuidado caracteriza uma atitude. Na ausência desta atitude – que exprime a consideração pelo outro e por suas necessidades – as acções do cuidar perdem sua motivação ética, se desvalorizam e deterioram. Desta perspectiva, o cuidar revela sua dimensão ética alicerçada no reconhecimento da alteridade e seus correlatos, na diminuição do narcisismo e da omnipotência (Plastino, 2009, p. 53).
Quando este cuidado ético não acontece temos a presença de fracturas nos fundamentos da ética da criança, e ocorrem fissuras psíquicas no seu desenvolvimento, que não são frutos apenas de uma dinâmica psíquica, mas decorrentes da falta deste cuidado ético. Nossos analisandos são testemunhas dessas fragmentações éticas com seus inúmeros tipos de sofrimentos, como a perda do sentido de si, do contacto com os outros, e podem se sentir para fora da humanidade, uma solidão por não ter alguém que o faça se sentir humano, por não se sentirem pertencendo à comunidade humana. Outros podem desenvolver uma visão niilista da existência. Estas pessoas que não tiveram este cuidado ético fundante tendem a reproduzir comportamentos de violência explícita, no nível social, tendências anti-sociais em organizações de delinquência, como tentativas de sobrevivência.
O cuidado como faceta ética implica a hospitalidade, ou seja, em aceitar e receber o outro que nos chega. Todo ser humano nasce numa experiência de ‘nós’, em um grupo familiar, e precisa da experiência de hospitalidade, como experiência fundante no seu grupo familiar e humano, onde o cuidado implica em tolerar o outro que nos chega, pois aquele que não foi tolerado, não tem condições de tolerar.
O cuidado é uma experiência muito complexa e apresenta muitas facetas, entre elas a necessidade de respeito, a possibilidade da responsabilidade, de participação e transformação, a necessidade de limites e autoridade. A criança que não encontra figuras que lhe permitem estas experiências, que encarnam apenas força, pode desenvolver ideais fantásticos de si mesma, desenraizada da condição humana, uma personalidade megalomaníaca ou louca. Pode também buscar a autoridade pelo negativo entrando em uma sequência de comportamentos delinquentes na busca de quem a pare, de quem a devolva a uma ética da condição humana. Situações que podemos reconhecer que se formam a partir do sofrimento de crianças que viveram a violência e a intolerância. Aquele que não pôde ser recebido como outro, tem muito pouca possibilidade de poder receber um outro, de ter espaço para tolerar a singularidade do outro em si.
Hoje os indivíduos, famílias, grupos e instituições mostram-se incapazes muitas vezes de oferecerem estas formas de cuidado fundamentais, pois passam por graves descontinuidades e arcam com certo descrédito: nem podem oferecer continuidade aos sujeitos nem fazê-los sonhar (Figueiredo, 2009, p. 137).
A proliferação de ideologias e partidos totalitários e a globalização de diferentes formas de intolerância, como o anti-semitismo, a islamofobia,
entre outros, mais uma vez, atestam as falhas nos dispositivos de acolhimento e reconhecimento disponíveis no mundo contemporâneo. Uma sociedade tecnológica, de competição e da imagem revela pelo avesso hoje as graves deficiências em mecanismos sociais de reconhecimento dos indivíduos em suas singularidades. Os fenómenos do totalitarismo trazem à tona a intensa demanda de inclusão em ambientes e de objectos capazes de sustentação e continência. É justamente a massa de indivíduos avulsos e desamparados a que mais se sente atraída pelas promessas de englobamento absoluto proferidas pelos partidos totalitários e seus líderes.
O cuidado é parte fundamental das condições ontológicas da constituição da pessoa humana, e sem ele, a dimensão ética é apenas superficial ou impossível de ser acessada, o que significa que não temos como conviver em um mundo hospitaleiro e solidário, com compaixão e tolerância.
Um mundo no qual só conta a lei do valor e a lógica do saber a ele associada não é um mundo humano. Sociedade sem espaço para a amizade e para a fraternidade, na expressão de Espinosa, 'não merece o nome de cidade, mas antes o de solidão“.
E num mundo solitário, as diferentes formas de intolerância ao outro, ao estranho e ao diferente estão presentes de forma globalizada. Reflectir sobre isto implica a necessidade de reconhecer as formas de sofrimento do mundo contemporâneo e os seus fundamentos. Neste percurso, Edith Stein pode vir em nossa ajuda.
Edith Stein foi uma das alunas mais brilhantes de Edmund Husserl, o criador da fenomenologia e também sua assistente. Em seu trabalho de doutoramento, “Sobre a empatia”, chamou a atenção sobre esta característica do ser humano, pondo-a em evidencia como parte da estrutura da pessoa humana, e demonstrando que se trata de uma vivência que permite reconhecer a alteridade humana. Temos através da empatia uma experiência que nos informa sobre uma semelhança estrutural com o outro, embora estejamos configurados concretamente de maneiras diferentes. A empatia ou entropatia é o reconhecimento da alteridade, é um facto cognitivo! A alteridade me diz que há algo semelhante a mim no outro ser humano, embora as reacções no nível psíquico possam ser diferentes.
Os seres humanos são plásticos, se expressam culturalmente de modos extremamente variados. Mas sua estrutura pessoal é semelhante, o que faz de todos nós seres humanos, apesar de nossas atitudes psíquicas diferentes.
Edith Stein fez uma analise fenomenológica completa da estrutura da pessoa humana, em 1933, onde nos fala do corpo, da psique e do espírito. Cada ser humano é singular, único, mas partilha com todos os outros seres humanos a mesma estrutura, sua vivência perceptiva é estruturalmente semelhante.
Em seus trabalhos, Edith Stein demonstrou como a negação da semelhança da estrutura da pessoa humana pode levar ao ódio pelo diferente. Porque para além das diferenças psíquicas e culturais, há uma humanidade comum, com uma dimensão fundamental e básica comum nas necessidades e afectos primários.
Edith Stein viveu no centro dos acontecimentos históricos cruciais que marcaram a primeira metade do século XX. Foi uma intelectual profundamente voltada para as questões de seu tempo, tendo se dedicado e reflectido não apenas sobre questões filosóficas, mas também pedagógicas, políticas, religiosas, e sobre a situação feminina.
Nasceu em Breslau, alta Silésia, hoje Polónia, numa família judia liberal. Na adolescência se dizia ateia e foi estudar com Husserl em Göttingen, e depois em Freiburg, tornando-se sua assistente. Apesar das recomendações que recebeu de seu mestre, não foi aceite como professora em nenhuma universidade alemã por ser mulher, passando a se dedicar ao ensino secundário, e a ser convidada a dar conferências por toda Europa. Converteu-se ao catolicismo e tornou-se monja carmelita em Colónia, de onde fugiu depois da Noite dos Cristais, em 1938, para a Holanda. Em 1942 foi presa junto com outros judeus convertidos e levada para Auschwitz, onde foi morta na câmara de gás, junto com sua irmã Rosa. Parte de sua família também morreu nos campos de concentração, e parte emigrou para os Estados Unidos.
“Judia, filósofa, carmelita, mártir, que traz em sua intensa vida, uma síntese dramática de nosso século” – assim a descreveu o papa João Paulo II ao canonizá-la em Outubro de 1998, com o nome de Santa Teresa Benedita da Cruz.
A vida de Edith Stein é indissociável da história do povo judeu, e como os conversos portugueses e espanhóis do século XVI, foi perseguida e morta, não por suas ideias ou por sua crença, mas por sua origem judaica, apesar de ter se convertido ao catolicismo e se tornado monja carmelita.
Sua obra tem sido traduzida e estudada intensamente nos últimos anos, pois foi uma crítica do mundo moderno que deu origem ao nacional-socialismo e ao estalinismo, pondo em questão o potencial de
adoecimento do ser humano decorrente da perspectiva epistemológica das teorias utilizadas no seu estudo e tratamento.
Ela amplia o olhar sobre a situação vivida pelo ser humano nos dias actuais, preocupando-se com a dignidade inalienável de todo o ser humano e nos prevenindo, já na década de 30 do século passado, frente aos grandes perigos desumanizadores de nossa sociedade moderna, como o pragmatismo, o activismo, o eficientismo.
Ao nos determos na reflexão sobre a questão da tolerância através da experiência em nossos consultórios, percebemos na actualidade a presença de um sofrimento muito intenso quanto à falta de sentido existencial, à busca de um lugar, uma vocação no mundo humano.
Compreendemos, que por mais que nossa biografia seja diferente daquela do nosso paciente, somos companheiros de viagem pelas intempéries da existência. Posicionados desta forma estamos em comunidade de destino, condição fundamental para o nascer, o caminhar pela vida e para o morrer de qualquer ser humano! Embora cada pessoa tenha uma singularidade, decorrente do momento histórico em que nasceu, de suas características peculiares e de sua biografia específica, questões universais atravessam a vida de cada um, e respondemos de maneira peculiar a elas. É neste sentido que cada homem tem um duplo registro na sua subjectividade: o singular, e o universal. Na clínica, acompanhamos os conflitos, as dores, os sofrimentos de nossos pacientes no que possuem de mais pessoal e peculiar e ao mesmo tempo, nos informamos sobre as facetas universais da experiência humana que só aquele paciente singular pode nos revelar. Por outro lado, somos afectados pelo atendimento clínico que nos faz reflectir sobre nosso lugar, nossa própria existência e sobre a condição humana. Presenciamos, também, no mundo contemporâneo, o recrudescer de um movimento pelo mesmo, no qual outras questões fundamentais do ethos humano, como a singularidade e a liberdade, são ameaçadas ou suprimidas.
Precisamos reflectir profundamente sobre tudo isso, pois se o conceito de tolerância não dá conta das questões humanas, novos conceitos e ideias precisam ser buscados, como a que nos propõe Safra, ao trazer o conceito de Sobórnost, derivado dos filósofos russos, e que quer dizer associação, comunidade. Na perspectiva de Sobórnost, cada ser humano é a singularização da vida de muitos, isto é, tanto de seus ancestrais quanto o pressentimento daqueles que virão. Assinala que o ser é
comunidade, o outro é Sobórnost. A concepção de Sobórnost é ontológica, diz respeito ao ser, e procura iluminar as condições fundamentais do acontecer humano, no sentido de que qualquer situação que fracture ou impeça Sobórnost, pode adoecê-lo.
Reencontrando as questões da condição humana vividas por cada um de nós de modo singular, mas dentro de uma comunidade de destino, a questão da tolerância, sob o prisma das relações de alteridade e da responsabilidade, como nos lembra Lévinas, nos coloca empaticamente relacionados em diversos graus com o outro ou então submersos na barbárie, fora do humano. Quando não podemos mais acompanhar e sermos acompanhados nas nossas necessidades e vocações, estamos num meio propício à intolerância e em seu extremo, na barbárie, quando o outro é usado, negado, em nome de objectivos e justificativas os mais variados.
Uma reflexão psicanalítica sobre a questão da tolerância/intolerância, como nos propusemos neste artigo, a nosso ver implica, portanto que busquemos uma relação ética fundamental em nossos consultórios, em nossas pesquisas, e em nossas reflexões sobre os sofrimentos no mundo contemporâneo, e que possamos como psicanalistas, ouvindo os testemunhos dos nossos pacientes, e testemunhando os acontecimentos actuais, estar sempre abertos para o inédito.
A nosso ver, a concepção de Sobórnost nos permite reencontrar a relação entre o singular de cada um e o universal do humano, e a partir daí compreender a possibilidade de convivência com o outro, sempre numa perspectiva de comunidade de destino. A questão da tolerância coloca-se assim em outro parâmetro, pois não se trata de “tolerar, ou ter paciência” com o mais “fraco, infantil ou necessitado”, ou seja, de uma relação de poder, que depende de cada um querer ter ou não, mas se trata de ver, sentir e viver com o outro, sempre, em comunidade de destino, e portanto reconhecendo como partilhamos as mesmas necessidades, fragilidades e angústias. A chamada experiência de empatia assim transformada e aprofundada na vertente de Sobórnost surge como experiência humana fundamental.
A perspectiva epistemológica usada no estudo sobre a pessoa humana e as relações de tolerância e intolerância, mais do que ser um elemento relacionado à teoria do conhecimento, expressa uma posição ética. A perspectiva epistemológica da psicanálise fundamenta uma antropologia que, por sua vez, define os modos de se proceder frente ao homem, o que envolve implicações clínicas e políticas. É nesta concepção que assentam nossas reflexões sobre os fenómenos da tolerância/intolerância.
Pretendemos com estas reflexões nos aproximar da questão da tolerância/intolerância, do ponto de vista psicanalítico. A frase de Castellio, epígrafe deste artigo, do século XVI, é mais actual do que nunca, ao nos lembrar, como Lévinas, quatro séculos depois, que o objectivo de toda criação humana, seja ela política, social, cultural ou religiosa, é a perpetuação do próprio homem e o atendimento de suas necessidades éticas fundamentais, sem as quais estamos condenados ao adoecimento e à barbárie.
“Do mesmo modo que a felicidade da humanidade não justifica a infelicidade do indivíduo, a retribuição do futuro não torna mais suave as penas do presente.”
ABSTRACT: In our days, as we live an intense appeal to the immanent aspect of the world, an inedited process of globalization and a technological approach of all aspects of our life, we see new and complex human questions emerge. To help understand some of these crucial phenomena, the concept of tolerance can be helpful, a concept that stands in the limits between the possibility to receive and respect the other and the great emotional needs that it implies, and that impose on us historical, philosophical and psychoanalytical reflections.
KEYWORDS: Intolerance; Psychoanalysis; Contemporary clinic; Gilberto Safra; Edith Stein.