A procura de conceitos universais por parte do Homem, uma vez que a realidade é individual e solitária, projecta-nos no espaço da encenação, criando um local de universalidade e de entendimento comum, afastando-nos da memória individual e, desse modo, aumentando o espaço de intolerância por parte das comunidades. Ou, melhor, o Homem rejeita o diferente por ele não fazer parte dessa encenação, chegando mesmo a criar mecanismos de repressão ou de punição. Trata-se, então, apenas, de viver ou de criar a possibilidade de viver em encenações ditas melhores, de criar personagens melhores, que nunca irão contra uma ordem que, aparentemente, nos parece estável e confortável.
O papel da arte enquanto super-encenação permite a quem a faz e a quem a vê a coragem para assumir a realidade. Já não conseguimos olhar o real tal como ele se nos apresenta, precisamos do artifício para podermos viver, para nos entendermos. A isto chama-se ter medo de enfrentar a realidade e é com a super-encenação, com o artifício, que disfarçamos e vamos conseguindo falar de nós próprios, mas afastamo-nos do mundo em que vivemos. O herói morre, a realidade desaparece e nós renascemos, como a Fénix renasce das cinzas, e volta a construir mais uma encenação.
Artista Plástico.
Comunicação apresentada no painel “A (des) construção da (In) tolerância” do XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
Se considerarmos que toda a realidade, tudo aquilo que vivemos, é encenação, a arte só pode ser uma espécie de super-encenação. Uma super-encenação através da qual nos afastamos, ou nos distanciamos, ou nos elevamos, sem nenhuma valorização moral das outras encenações em que participamos na nossa vida quotidiana. Este princípio permite-nos exactamente ter uma posição crítica e perceber que “Ah! Sim, claro, de facto… isto… ou a outra realidade… ou a outra encenação… é assim”. É por isso que a arte nos questiona. O único problema é que a arte é tão exagerada que nos apercebemos que ela é arte. E que é só arte e não é mais nada senão isso, ou seja, ela não é a realidade. Ela é a encenação da encenação. É uma Super-encenação.
Uma outra formulação, mais radical, consistiria em dizer que não há realidade. A procura de conceitos universais por parte do homem, uma vez que a realidade é individual e solitária, projecta-nos no espaço da encenação, criando, assim, um local de universalidade e de entendimento comum, afastando-nos da memória individual, aumentando, assim, o espaço de intolerância por parte das comunidades. Ou, melhor, o Homem rejeita o diferente por ele não fazer parte dessa encenação, chegando mesmo a criar mecanismos de repressão ou punição. Trata-se, então, apenas, de viver ou de criar a possibilidade de viver em encenações ditas melhores, de criar personagens melhores, que nunca irão contra uma ordem que aparentemente nos parece estável e confortável.
Agora queria levantar um problema. Se a arte, como referi, é uma espécie de super-encenação como é que se pode ancorá-la na subjectividade individual? Como é que conjuga a apresentação do trabalho como super-encenação com a legitimação última na singularidade de uma experiência estritamente pessoal?
Penso que o processo, de facto, se baseia na memória e na sua encenação. Essa memória, sendo própria e única, não é universal, não é válida para os outros. É pura pertença subjectiva, não existe. Só poderá existir, apenas se concretiza, como aliás todas as outras coisas, através da encenação. Do artifício. Do confronto com aquilo que não é real.
O trabalho de encenação da memória, estando a falar de uma memória individual, vai implicar também um trabalho muito específico sobre a identidade. A identidade deixa de ser uma revelação, não se trata de revelar, ou manifestar ou assumir uma identidade, mas sim de construir possibilidades de identidades que até podem não ser unívocas. Pelo contrário até podem ser tão fragmentadas que, como em muitas das minhas peças,
não se percebe quem é que está a falar ou com quem é que me identifico ou com quem é que nós, que estamos a ouvir, nos podemos identificar.
Cada um de nós pode ser mais que um, podemos construir dezenas de identidades dentro de nós e, daí, podemos representar/-nos em variadíssimas situações. Os clássicos mostram-nos isso. Ou seja, se lermos uma tragédia clássica encontramo-nos perante uma série de arquétipos e identidades de personagens. Nós que estamos a assistir ou estamos a ler identificamo-nos com este ou com aquele, mas podemos passar a identificarmo-nos com outros. Esta oscilação entre personagens vem da construção da identidade individual; estamos do lado daquele e depois do outro e, ainda, do outro… Tudo isso constrói-nos ou vai-nos construindo. Constrói-nos, claro, em termos de carácter, de ética, de moral; mas o que são o carácter, a ética e a moral? São a nossa identidade, aquilo que nos faz ir até ao fim, como uma plataforma de conhecimento, pensamento crítico ou auto-consciente do ser humano, como princípio regulador do caminho. É um não pôr em causa uma verdade que advém da fragmentação da realidade, que nos permite construir naquele momento uma verdade universal, uma encenação e, com isto, aceitar tudo e todos aqueles que são aparentemente diferentes de nós.
Há agora uma questão mais genérica que se pode pôr: a relação entre encenação e perversão ou, se quisermos, a relação entre encenação e frustração ou encenação e perda. A encenação é sempre um indicador de um défice de realidade ou um défice da realidade. Ou seja, até que ponto é que a encenação é sempre uma ilusão ou uma super-ilusão? A questão é: se não existe realidade, se só existe encenação, será que a encenação não passa para um plano em que já não pode ser encenação de uma realidade mas só pode ser encenação de um desejo?
É neste sentido que gostaria aqui de analisar a peça “About Being Different”, que resulta de uma residência de dois meses no Baltic Art Center, e de uma colaboração com vigários locais da comunidade de Gateshead/Newcastle. O trabalho, inspirado na ópera de Benjamin Britten, “Peter Grimes”, explora ideias de comunidade e marginalidade. Peter Grimes é um pescador da vila de Fisherman's Borough, em Inglaterra. Ele é marginalizado pela sociedade e vive sozinho e isolado numa cabana perto de uns penhascos. Grimes está convencido que pode ganhar o respeito da sua comunidade ao tornar-se rico. Dois aprendizes ao cuidado de Grimes morrem misteriosamente e a comunidade acredita que ele os violou e assassinou. A comunidade vira-se contra Grimes, perseguindo-o, decidida a fazer justiça, levando-o até ao suicídio.
Entrevistei cinco vigários de Gateshead, acerca da sua experiência enquanto espectadores daquela ópera. Os seus comentários dão-nos uma original reflexão sobre as noções de comunidade e de individualidade. A arquitectura residencial de Gateshead intervém na ilustração de “igualdade”. É usada como um símbolo visual da comunidade, leva-nos à questão do que significa ser diferente no seio de tamanha uniformidade.
O volte-face criado pela tomada de posição dos vigários no vídeo, apropriando-se da história de Peter Grimes para falarem das suas próprias diferenças em relação à sociedade onde estão inseridos, permite-nos observar que é através da interpretação de uma determinada realidade que se cria o desejo ou se assume um determinado personagem e que nada se pode compreender sem se sofrer ou sem se sentir na pele, a ponto de resgatar a verdade para si próprio numa atitude mimética de uma realidade que à partida não lhes diz respeito.
O facto de eles assumirem em si próprios o papel de Peter Grimes, ou do diferente, ajuda-nos a compreender melhor todo o papel da encenação como construção de uma identidade que, mesmo nos parecendo artificial, torna-se real e vivida. O espaço da causalidade entre desejo, encenação, prazer e frustração, permite a criação de uma nova encenação, ou mesmo chegar ao ponto de experienciar essa encenação, vivendo-a ou participando nela como agentes activos, tentando assim, cada um à sua maneira, criar o seu próprio personagem, ou mesmo encarnando-o, como se de uma voz se tratasse.
Na interpretação da história, por estes cinco vigários, apercebemo-nos que a estratégia de super-encenação tem dificuldade em gerar o herói, levando-me a pôr uma questão a respeito de uma figura problemática: como é a figura do herói? O que é que aconteceu ao herói?
O herói são todos, mas ele está morto à partida, por tradição e, depois, porque na realidade ele perde a sua heroicidade ao tornar-se global, ao ser incorporado pelos outros. Neste sentido, ele somos nós todos.
Na história da ópera, ou mesmo das grandes tragédias, o herói é contado pelos outros, mesmo em tempo verbal presente, ele existe somente em interacção com os outros personagens. A sua construção identitária é gerada em interacção com os outros. O herói não tem lugar, ele não cabe lá. Não há heróis porque isso é uma falsa realidade. O herói é uma falsa realidade porque quer morrer. Os outros matam-no. Ele perde rapidamente a sua heroicidade em confronto com os outros personagens mas, ao mesmo tempo, é nesta situação que o herói existe. Quando ele morre ficam os restantes personagens, aqueles que contam a história que, em
última instância, são os verdadeiros heróis. Os outros, não conseguindo assumir a realidade como sua, vão buscar a ele a voz para a cantarem, para a falarem. Já não conseguimos olhar o real tal como ele se nos apresenta, precisamos do artifício para podermos viver, para nos entendermos. A isto chama-se ter medo de enfrentar a realidade, e é com a super-encenação, com o artifício, que disfarçamos e vamos conseguindo falar de nós próprios, mas afastamo-nos do mundo em que vivemos. O herói morre, a realidade desaparece e nós renascemos, como a Fénix que renasce das cinzas e volta a construir mais uma encenação.
ABSTRACT: Given the individual and solitary nature of reality, man's search for universal concepts propels us into the realm of staging – where a space of universality and mutual understanding is created, detaching us from individual memory and leading to an increase in spaces of collective intolerance. In other words, mankind rejects what is different since it doesn't fit in with this staging, and even goes so far as to create repressive or punitive mechanisms. It is merely, then, a question of living or of creating the possibility of living in better stagings, of creating better characters who will never challenge an order which, apparently, we find stable and comfortable. Art as super-staging enables its creators and viewers to find the courage to confront reality. We are no longer able to truly see reality; we need artifice in order to live, in order to understand each other. This is known as being scared of facing reality and it is through immersing ourselves in super-staging, in artifice, that we begin to be able to talk about ourselves, even if this means removing ourselves from the world in which we live. The hero dies, reality disappears and we are reborn, like the phoenix that rises again from the ashes and comes back to construct one more staging.
KEYWORDS: Staging; Super-staging; Art; Hero; Repression.