A pesquisa em psicanálise permite uma investigação dos impulsos destrutivos, da agressividade, da vivência de alteridade, considerando as motivações inconscientes, como fenómenos humanos, procurando compreender em que circunstâncias e em que condições se apresentam, a partir do fenómeno intersubjectivo. Este vértice nos possibilita um olhar para as manifestações de fanatismo e intolerância a partir do referencial do homem em suas relações interpessoais e esse conhecimento contribui para promover uma interacção com outras áreas do saber como a história, a educação, a filosofia, a política, etc. O presente trabalho tem como objectivo a apresentação de alguns elementos relativos à pesquisa em psicanálise que podem contribuir para o estudo da intolerância.
Há cinco anos, aproximadamente, formámos o CEPI (Centro de Estudos sobre Psicanálise e Intolerância), um grupo de psicanalistas vinculado ao LEI (Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP) para, juntos, pensarmos sobre a questão da intolerância do ponto de vista da psicanálise. Este objectivo nos colocou e nos coloca continuamente frente à questão da pesquisa em psicanálise e de como ela poderia contribuir para pensarmos sobre esse tema que, cada vez mais, está presente em nosso quotidiano, nas nossas relações, nos noticiários dos jornais, das mais variadas formas de manifestação.
Participam desse grupo psicanalistas que se norteiam por diferentes vertentes teóricas (Freud, Lacan, Winnicott), o que possibilita um
Psicóloga pela Universidade de São Paulo - USP; Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP; Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae; Pesquisadora do Centro de Estudos sobre Psicanálise e Intolerância - CEPI do Laboratório de Estudos sobre Intolerância - LEI da Universidade de São Paulo.
Recebido para publicação no âmbito do XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
enriquecimento do nosso trabalho e, de início, uma experiência que nos coloca diante do exercício do convívio com as diferenças e, por que não, muitas vezes com a necessidade de tolerância. Seria muito mais simples formarmos um pequeno grupo de pessoas que comungam dos mesmos pontos de vista para, numa linguagem comum, estudarmos determinada questão. O convívio entre pessoas de posições diferentes, às vezes contraditórias, é um desafio dentro da psicanálise e, certamente, também em outras áreas, assim como em nossa vida quotidiana. Porém, o enriquecimento que pode advir desse convívio tem se mostrado compensador.
A primeira questão que se nos apresentou foi a da definição do que nos propúnhamos estudar. Seria possível definir intolerância segundo nossos referenciais psicanalíticos? Essa é uma questão sobre a qual ainda nos debruçamos. Assim, temos tentado estudá-la tendo por referência a definição geral de intolerância como a qualidade daquele que não admite e não respeita opiniões contrárias à sua, ou, mais genericamente, não aceita o diferente, na expectativa de encontrarmos elementos que nos possibilitem conceituá-la segundo alguns referenciais da psicanálise, o que nos permitirá enxergar a questão a partir de outro prisma. Porém, primeiramente, vemo-nos diante da tarefa de nos voltarmos para o fenómeno da intolerância e tentar compreendê-lo no seu modo de aparição, sem a contaminação de teorias pré-concebidas. Assim sendo, nesse momento, buscamos um conhecimento descritivo.
Nesse campo, estamos rodeados de exemplos de manifestações de intolerância que se multiplicam a cada dia. Além dos conflitos entre grupos políticos, religiosos e raciais, que tão bem conhecemos, temos notícias diárias de actos de intolerância que já estão se banalizando e que vão desde o fenómeno do bullying nas escolas a comportamentos cruéis em que a vida do outro parece nada significar. O que mais chama a atenção é que, ao vermos com tanta frequência essas barbaridades, elas passam a fazer parte de um repertório de coisas comuns, corriqueiras, e que, ouvir que alguém foi atacado, incendiado ou violentado pode não mais causar espanto e indignação.
Pretendo, nesta breve apresentação, tratar da questão da contribuição que pode ser dada pela psicanálise para a pesquisa sobre a intolerância. Em outras palavras: Por que considerar a psicanálise ao se pensar as práticas de intolerância? Em que ela pode contribuir? O que ela pode acrescentar à vida das pessoas em geral e, em especial, na luta em prol da diminuição da intolerância no mundo? Quem sabe a simples presença
de psicanalistas, entre pesquisadores de outras áreas que há tanto tempo se dedicam a estudar a intolerância, possa promover, ao menos, uma atenção para o facto de que talvez tenhamos algo a dizer, a partir de um olhar que procura compreender o homem na sua precariedade, na sua abertura para o outro, no seu sofrimento, na sua angústia.
Do que trata a psicanálise? Qual a natureza da pesquisa psicanalítica? O material da pesquisa psicanalítica é essencialmente o ser humano no seu viver: sentindo, relacionando-se, produzindo, agindo, agrupando-se, adoecendo, divertindo-se… Todos esses elementos do viver humano foram e são tão mais bem apresentados pela arte, como a poesia, as artes plásticas e a música, e possivelmente sua comunicação nos fale mais de perto do que qualquer estudo científico. Porém, temos como desafio dar nossa contribuição a partir do olhar do cientista que, dependendo do seu referencial, poderá estar mais ou menos próximo daquilo que nos é apresentado pelo artista. Esse olhar, o posicionamento científico, é construído a partir de determinados princípios epistemológicos e pressupõe uma antropologia e uma ontologia. Assim, a psicanálise fornece um modelo de investigação que abole a perspectiva tradicional do positivismo lógico, apresentando um modelo de pesquisa sujeito-sujeito, tendo a subjectividade um lugar fundamental na investigação, o que, como veremos, é decorrente da própria história da psicanálise.
Freud tinha o anseio de tornar a psicanálise uma ciência e ela apareceu como um método de investigação, como uma terapêutica e como uma teoria. A metapsicologia de Freud é uma tentativa de apreensão do funcionamento psíquico mais universal a partir da análise de alguns casos e seu anseio era de tornar a psicanálise a ciência do inconsciente. Um ponto fundamental para Freud era provar a existência de mecanismos psicológicos, e a necessidade de considerá-los, além dos mecanismos biológicos, ao se tentar compreender um sintoma. Penso que esta já não seja uma questão que se coloca actualmente, pois, imaginamos que tenha sido suficientemente provada, ao menos entre os psicanalistas. Porém, o reconhecimento da psicanálise como ciência é ainda uma questão presente, havendo posições distintas sobre a forma como a psicanálise contribui para um tipo de investigação. Essas divergências partem de uma definição anterior sobre o que é ciência, que muitas vezes está calcada nas ciências físicas e biológicas, o que traz complicações,
na medida em que os modelos de determinadas disciplinas passam a ser hegemónicos para todas.
Freud escreve um texto em 1913 sobre o interesse científico da psicanálise. Nesse texto, ele fala do interesse da psicanálise para psiquiatras e para as ciências não psicológicas na medida em que ela toca em várias esferas do conhecimento e revela inesperadas relações entre elas e a patologia da vida mental. Lembra que a psicanálise debruçou-se sobre fenómenos que eram negligenciados ou para os quais se tentava encontrar apenas explicações fisiológicas, como os actos falhados, e observou que os processos normais e patológicos seguem as mesmas regras. A partir dos actos falhados, descobrimos que mesmo pessoas normais são movidas por motivos contraditórios com muito mais frequência do que era de se esperar. Essa descoberta implicou uma grande modificação na visão de mundo da época.
Nesse texto, Freud também fala sobre os sonhos, outro fenómeno da vida mental normal, e de sua interpretação como pedra fundamental da obra psicanalítica, pois a elaboração onírica compelia a pressupor a existência de uma actividade psíquica inconsciente, que é mais abrangente e importante do que a ligada à consciência. A psicanálise demonstrou que as hipóteses da actividade mental inconsciente às quais chegamos a partir do estudo dos fenómenos normais, também nos permitem uma primeira compreensão de certo número de fenómenos patológicos e nos dão a chave para os enigmas da psicologia das neuroses.
Em relação à contribuição da psicanálise para as ciências não psicológicas, tenta esclarecer muitas esferas de conhecimento para as quais a psicanálise é de interesse, como a filosofia, a biologia e a educação entre outras, e os numerosos vínculos que começou a forjar entre elas. Basicamente, o estabelecimento da hipótese de actividades mentais inconscientes deveria reposicionar a “visão” das outras áreas que abordam o fenómeno humano.
Freud, ainda nesse texto, acrescenta que há uma estreita conexão entre as realizações psíquicas dos indivíduos e das sociedades, sendo que ambas baseiam-se no princípio de evitar o desprazer que depois é substituído pelo princípio de adaptação ao meio externo. Desta forma, os mitos, a religião e a moralidade, que sempre pareceram ter um “sentido secreto”, podem ser entendidos, segundo Freud, como tentativas de busca de compreensão da falta de satisfação dos desejos humanos, pois, para ele, parecia possível aplicar aos produtos da imaginação étnica os princípios psicanalíticos que deduziu dos sonhos. Assim, as neuroses mostraram ser tentativas de encontrar soluções individuais
para o problema de compensar os desejos insatisfeitos, enquanto que as instituições buscam proporcionar soluções sociais para esses mesmos problemas.
Especificamente em relação à educação, Freud afirma que tudo o que podemos esperar a título de profilaxia das neuroses no indivíduo se encontra nas mãos de uma educação psicanaliticamente esclarecida. Para ele, as nossas mais elevadas virtudes desenvolveram-se, como formações reactivas e sublimações, de nossas piores disposições e quando os educadores se familiarizarem com as descobertas da psicanálise, será mais fácil compreenderem certas fases do desenvolvimento infantil.
Há muitos pontos nessas afirmações de Freud que podem e devem ser pensados com a bagagem que podemos ter agora no século XXI, não só considerando o percurso da psicanálise nesses 100 anos, como também as questões da pós-modernidade sobre as quais a psicanálise, a meu ver, deve se posicionar.
Quando Freud iniciou suas investigações com as histéricas, identificou o fenómeno da transferência e a partir daí, o fenómeno psicanalítico se define pelo estudo e investigação do fenómeno transferencial. Porém, Freud começou a se interessar também por outros fenómenos, como a literatura, os fenómenos de massa e utilizou alguns dos conceitos que tinha desenvolvido na clínica para compreender, por exemplo, os fenómenos culturais. Isto ficou sendo denominado de psicanálise aplicada, sendo que psicanálise, verdadeiramente, era aquilo que ocorria no consultório do psicanalista.
Assim, ao tratar da literatura, ao tratar dos fenómenos de massa, Freud não estava fazendo suas reflexões baseadas no método psicanalítico. Estava fazendo uma aplicação da psicanálise. Não estava investigando fenómenos transferenciais que podia acompanhar in loco, mas estava tomando a teoria psicanalítica para fazer reflexões, deduções sobre fenómenos outros, para fora do consultório. Em função disso, esses trabalhos de Freud sobre o campo social receberam inúmeras críticas do ponto de vista científico, pois não tinham uma sustentação metodológica, embora sejam textos extremamente interessantes. Dessa forma, a contribuição da psicanálise para as ciências não psicológicas, segundo o que foi apresentado por Freud, abre campo, ao mesmo tempo, para críticas e para novas investigações.
Esse panorama só se modificou a partir da década de 1950, quando os psicanalistas começaram a aprofundar suas reflexões sobre o lugar do analista, trazendo à tona a contrapartida do fenómeno transferencial, ou seja, não só o analisando vivia coisas de seu passado com o analista, mas o analista podia viver coisas de seu passado com seu analisando. Surgiram então inúmeros trabalhos discutindo a situação da clínica psicanalítica pelos dois vértices: do analisando e do analista, o que implicou o desenvolvimento de um conceito importante para a psicanálise, para a pesquisa psicanalítica fora do consultório, que é o conceito de intersubjectividade. O fenómeno transferencial, fenómeno psicanalítico por excelência, passou a ser compreendido a partir de então não só como um fenómeno que ocorria do analisando para o analista, mas como um fenómeno que ocorria entre analisando e analista, portanto sustentado sobre essa noção de intersubjectividade, ou seja, de que todo fenómeno entre humanos é um fenómeno que acontece em decorrência da subjectividade de ambos os participantes.
O conceito de intersubjectividade foi uma revolução importante no método psicanalítico, pois, com essa noção, os psicanalistas poderiam investigar outros fenómenos humanos no campo social, no campo da literatura, no campo da arte, empregando de forma legítima o método psicanalítico para fora do consultório. A partir desse ponto não se fala simplesmente de psicanálise aplicada, mas de investigação psicanalítica fora do consultório, sendo que cada vez mais vai se tomar o fenómeno psicanalítico como um fenómeno intersubjectivo.
Todo esse percurso nos ensinou, entre outras coisas, que não podemos, a partir de determinados traços do psiquismo humano, explicar certas formas e práticas sociais. Hoje não podemos ter essa posição ingénua. É a partir desse posicionamento, da compreensão do fenómeno intersubjectivo, que nós, psicanalistas, podemos nos dedicar ao estudo da intolerância, onde quer que ela se manifeste nas relações humanas.
Para a psicanálise, qualquer produto humano, qualquer expressão humana tem um sentido, embora nem sempre esteja disponível para a pessoa, pois o homem não é apenas consciência, não é só comportamento; é um ser que se coloca frente ao sentido das coisas, mas é um ser dividido, que escapa a si mesmo. O método psicanalítico está assentado nesta perspectiva de que o homem é um sujeito dividido. Para a
psicanálise não se têm factos, mas factos significados. Assim, a psicanálise põe em questão a objectividade. Nas diferentes concepções psicanalíticas, o homem não é uma totalidade, um ser fechado, mas um ser deslizante que não pode ser capturado por conceitos. É desta noção de ser dividido que surge a noção de inconsciente e a própria noção de inconsciente nos comunica que a acção do momento é sempre um entroncamento de temporalidades e espacialidades. Grosso modo, o inconsciente está relacionado a toda aquela dimensão de mim mesmo que me leva a emprestar sentidos ao meu comportamento, à minha sintomatologia, às minhas relações, me leva a emprestar um sentido que está fora de minha consciência.
O ser humano, dividido, que escapa, abre espaço para o imponderável, o irracional, o inesperado. Já não temos mais, como Freud, que provar a existência do inconsciente (ou temos?). Devemos iluminar o facto de que o homem é aberto e não pode ser apreendido como algo acabado. É um ser de relação e devemos nos dedicar a pensar como estão se dando essas relações. É na relação intersubjectiva que se apresenta o inédito, o que muda o curso das coisas, o que é estranho, o que me reflecte como um espelho. Essa relação me desaloja de minhas convicções acabadas e me coloca diante da abertura que caracteriza o humano. Penso que uma constatação elementar para se pensar as formas sociais e, em especial, as práticas de intolerância, é a de que elas se dão entre humanos, nas suas relações. Talvez seja esse um ponto importante sobre o qual a psicanálise possa dar sua contribuição, pois nosso trabalho se dá a partir do singular, do minucioso e, ao mesmo tempo, a partir dele nos defrontamos com as questões de nosso tempo.
Diferentes autores em psicanálise, desde Freud, apresentaram suas concepções sobre as questões da vida humana – existência, criatividade, sexualidade, destrutividade, morte – partindo, cada qual, de uma determinada concepção de homem. Para Freud, os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas que têm uma poderosa quota de agressividade entre seus dotes instintivos. Diante disso, o seu próximo é visto não apenas como um ajudante potencial ou um objecto sexual, mas também alguém sobre quem se pode satisfazer a agressividade, explorar a capacidade de trabalho sem compensação, utilizar sexualmente sem consentimento, apoderar-se das posses, causar sofrimento, humilhar, torturar e matar. A civilização tem de utilizar esforços supremos
a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controlo por formações psíquicas reactivas. Para Freud, o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo é o mais antinatural para o ser humano e por isso precisa existir para que possa existir a civilização.
No texto “Psicologia de grupo e análise do ego”, Freud não apenas transpõe para o campo do grupo mecanismos da mente individual, mas estabelece comparações entre o que ocorre no psiquismo de indivíduos quando tomados isoladamente e em grupo, observando algumas peculiaridades e diferenças significativas, e tentando buscar suas causas. Para ele, os homens dão provas de uma presteza a odiar e de uma agressividade. Nas antipatias e aversões por estranhos identificamos a expressão do narcisismo, sendo que esse amor por si mesmo trabalha para a preservação do indivíduo e qualquer divergência é vivida como crítica e exigência de alteração. Isso é o que Freud vai chamar de narcisismo das pequenas diferenças. Porém, dentro de um mesmo grupo, essa intolerância se desvanece devido aos laços amorosos e às identificações que se formam entre os membros do grupo. Para ele, isso prova que o amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros; ou seja, a limitação do narcisismo é produzida por um laço libidinal com outras pessoas. Assim, para ele, só o amor actua como factor civilizador, no sentido de modificar o egoísmo em altruísmo. Vemos que, em Freud, o sentido social se baseia na inversão daquilo que a princípio constitui um sentimento hostil.
Winnicott, por sua vez, fala da existência de um senso de moralidade na criança que não surge das normas impostas pelos pais, mas de uma tendência natural, desde que exista um ambiente suficientemente bom propiciado pelo amor materno. A integração entre seus impulsos destrutivos e o amor pelo mesmo objecto promove um sentimento de culpa que leva a um sentido de responsabilidade e o equilíbrio aí implícito entre os elementos destrutivos e a oportunidade de reconstruir acarreta um sentido de justo e de errado mais profundo do que qualquer norma imposta pelos pais. Estes devem apenas fornecer um ambiente idóneo e ter um código moral à espera do filho quando ele começar a procurar algum. Para ele, as normas de limpeza e moralidade, e mais tarde as convicções religiosas e políticas devem ser apresentadas à criança de forma a facilitar e incentivar suas tendências naturais para a moralidade, e não de forma coercitiva. Winnicott diz que a natureza humana não é um assunto simples e que o homem, se quiser parecer civilizado, tem que enfrentar
dentro de si o poder da cobiça e da agressão e que a maneira mais fácil para o indivíduo é ver as suas partes desagradáveis apenas quando elas aparecem em outras pessoas. O difícil é que ele veja que toda a cobiça, agressão e embuste no mundo bem poderiam ter sido sua responsabilidade, mesmo que não o seja.
No texto “Discussão dos objectivos da guerra”, Winnicott discute vários pontos relacionados à guerra como a luta, a força, o ganhar, o perder, a democracia e suas conexões com o ódio, a agressividade, a inveja, e a cobiça. Winnicott fala que, numa democracia, nosso objectivo é a liberdade e que, geralmente, parte-se do princípio que todos a amamos. Porém, afirma que temos receio da liberdade, e em certas ocasiões tendemos a nos deixar controlar, pois a experiência da liberdade é cansativa e em certos momentos a pessoa livre procura um descanso da responsabilidade e se deixa controlar, sentindo um grande alívio em ser mandado. Para ele, a dificuldade em compreender isso se deve ao facto de que o consciente e o inconsciente não são, de modo algum, idênticos e que sentimentos e fantasias inconscientes fazem com que o comportamento consciente pareça ilógico.
Esses são exemplos de visões que partem de concepções de homem distintas e que, naturalmente, propõem posicionamentos distintos frente aos fenómenos humanos. Porém, não pretendo, no momento, apresentar ou defender alguma posição quanto ao sentido e origem de qualidades humanas com as quais todos nós, psicanalistas ou não, estamos habituados a nos deparar, como a inveja, a cobiça, o amor, o ódio, a angústia, o medo, o impulso agressivo, a ambivalência, a culpa, etc., etc. Posso dizer, no entanto, que todos esses elementos fazem parte do viver humano e que têm como pano de fundo a dimensão do conflito, do ser dividido, da ambivalência, da busca do sentido. Eles deveriam ser considerados em qualquer abordagem que se faça do fenómeno humano.
Outra questão importante com a qual nos deparamos ao pensarmos sobre o tema da intolerância é a da alteridade. Talvez uma das contribuições que a psicanálise possa oferecer sobre esse tema é que a constituição da diferença entre o Eu e o não-Eu não é dada, mas conquistada ao longo do percurso do desenvolvimento emocional (esse é um ponto elementar para nós psicanalistas, mas que talvez não o seja para outras
pessoas) e essa conquista só se dará a partir das relações com outro humano, sendo o fenómeno intersubjectivo o que funda a subjectividade humana. Só se compreende o homem em vínculo com o outro e com a cultura.
Como psicanalistas, somos impelidos a pensar e oferecer alguma contribuição ao tema da intolerância, diante de um panorama cada vez mais assustador. As diferenças, via de regra, tendem a ser vividas como superioridade ou inferioridade, o que podemos observar em vários segmentos e de várias formas. No Brasil, actualmente, impera um discurso que traz a pré-disposição do confronto entre “pobres” e “ricos” e isso vai se enraizando no campo das mentalidades e da consciência social. Poderia apresentar inúmeros exemplos de manifestações de intolerância com os quais nos deparamos quotidianamente, no mundo, em nosso país, em nossa cidade, nas relações de trabalho, professor-aluno, pais-filhos, etc., mas não vou me estender por esse caminho. Diante das mais variadas formas de submissão e intolerância, vimos que não nos cabe explicar as práticas sociais pelo psiquismo humano e nem vice-versa, mas pensarmos como se dá um terceiro elemento que nesse campo se compõe, sem perdermos de vista que sempre falamos de um sujeito singular num campo intersubjectivo, permeado por valores simbólicos e forças pulsionais. Não é possível pensar o sujeito como um indivíduo, mas como algo constituído pela articulação entre o dentro e o fora, entre o interior e o exterior.
Nossa contribuição só fará sentido se num diálogo com as outras ciências humanas, cada qual tentando um tipo de aproximação do fenómeno humano. Aproveito as palavras de Freud que fala de uma educação psicanaliticamente esclarecida como profilaxia das neuroses para dizer que o diálogo com a Educação é especialmente valioso para que tentemos imprimir algumas mudanças em prol da saúde da sociedade, assim como o diálogo com a história, filosofia, política, etc., no sentido de poder apresentar um pouco do que pudemos compreender até o momento do fenómeno humano. Esse “assunto” de homem dividido, que escapa, com facetas que lhe são ocultas, muitas vezes é um tema que, naturalmente, provoca um afastamento das pessoas em geral. Porém, na medida em que isto é parte de todos nós, seria bom se fosse reconhecido, mais aceite e estudado, pois é um elemento importante na forma como os humanos se compõem e está presente em nossas vivências mais corriqueiras. Penso que, além de uma possível resistência das pessoas em relação a esse tipo de abordagem, nós, psicanalistas,
talvez sejamos pouco generosos com nossas descobertas, pois pouco compartilhamos com as pessoas e as outras áreas de conhecimento a nossa percepção das particularidades da condição humana por, muitas vezes, nos atermos a modelos de psicopatologia. Poderíamos pensar em formas de promover uma democratização dos conhecimentos psicanalíticos, por que não?
Sozinha a psicanálise nada poderá fazer, assim como as demais áreas de conhecimento, mas tem a sua especificidade e a sua parcela de contribuição na sua tentativa de estudar o ser humano. Esse é um diálogo necessário, embora difícil, mesmo se nos limitarmos apenas ao território específico da psicanálise. Nesse campo, devemos nos orientar no sentido de não assumirmos uma postura nem dogmática e nem eclética, pois é preciso fazer trabalhar as teorias, criticamente, para responder às nossas questões teóricas e práticas.
A nossa prática clínica nos ensinou, arduamente, que só podemos nos aproximar do outro para tentar compreendê-lo, na medida em que nos voltamos para o que se passa na relação, o que implica, necessariamente, voltar nosso olhar para nossas vivências, nossas dificuldades, nossos “pontos cegos”, enfim, para tudo o que emerge do encontro com o outro. Um dos pontos com os quais nós psicanalistas nos deparamos desde o início de nossa prática é a necessidade de identificarmos e reconhecermos em nós os mesmos elementos que se apresentam em nossos pacientes e, para isso, um requisito fundamental é nossa análise pessoal. Não esperamos que todas as pessoas façam análise, nem seria o caso, mas um olhar para qualquer manifestação humana requer que nos reconheçamos no outro sobre o qual nos debruçamos. Falo de um outro igual a mim. Ao falarmos de intolerância e de sua manifestação entre os homens, os homens também são você e eu. E certamente somos capazes de coisas que nem sequer imaginamos. Não podemos pretender uma resposta puramente racional de quem quer que seja, pois isso não caracteriza o homem. Isso parece muito elementar, mas quantas vezes apresentamos essa expectativa no nosso círculo próximo, como com filhos, cônjuges, amigos, parceiros profissionais e também num círculo mais amplo? Muitas vezes nos inclinamos a tentar encontrar explicações muito rápidas e eficientes na tentativa de obturar esses vazios que fazem parte do próprio modo de ser humano.
ABSTRACT: The psychoanalytical research enables to investigate the destructive impulses, aggressiveness, experience of otherness, considering the unconscious motivations as human factors, seeking to understand under which circumstances and conditions they appear, taking into account the intersubjective phenomenon. This enables us a way of viewing the manifestations of fanaticism and intolerance, having the human beings in their interpersonal relations as reference. This knowledge contributes to promote the interaction with other areas of knowledge, such as history, education, philosophy, politics, etc. This work aims to present some elements related to the psychoanalytical research which can contribute to the study of intolerance.
KEYWORDS: Intersubjectivity; Intolerance; Psychoanalysis; Research.