Este artigo representa uma reflexão sobre a emergência de novas formas de (in)tolerância num mundo marcado pelos processos de globalização e migrações transnacionais. Os processos migratórios são uma experiência paradigmática das possibilidades de (des)encontros e de superação de diferenciações. As questões da tolerância num mundo globalizado e num espaço étnico e cultural cada vez mais diversificado constituem um desafio que implica criatividade e capacidade de construir novas metáforas interpretativas, aprofundando questões emergentes como a mestiçagem, a complexidade, o pluralismo e as noções de fronteira.
“Porque dentro de mim não sou sozinho. Sou muitos.
E esses todos disputam minha única vida.
Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um”
As migrações internacionais são parte integrante de um fenómeno mais vasto – o processo de globalização, caracterizado pela exponencial expansão, aceleração e aprofundamento das interconexões à escala mundial de todos os aspectos da vida social contemporânea. A globalização implica uma reconfiguração da organização espacial das relações e transacções sociais – definidas em termos da sua extensão, intensidade, velocidade e impacto – que geram fluxos transcontinentais ou intra-regionais, assim como redes de actividades e interacção (Held et al., 1999:16).
Professora-Adjunta (MSc, PhD) da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Recebido para publicação no âmbito do XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
O indicador-chave destes processos é o rápido aumento das conexões e fluxos transnacionais de todos os tipos: financeiros, comerciais, de ideias e sistemas de conhecimento, de artefactos culturais, de comunicação, de mercados, bens e serviços, de pessoas, através de redes transnacionais. Estas redes são complexas e podem assumir inúmeras configurações – desde as empresas multinacionais, as dinâmicas dos mercados financeiros globais, as organizações internacionais governamentais e supranacionais ou não governamentais, comunidades culturais transnacionais ou mesmo organizações criminosas à escala global (Held et al., 1999; Castles, 2005).
O processo de globalização implica uma reconfiguração espacial (e simbólica) do mundo, que deixa de ser um espaço de locais para passar a ser um espaço de fluxos (Castells, 2004). Por sua vez as novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo a Internet, comunicações telefónicas e a rede global de sistemas de transporte, cada vez mais acessíveis (de que são um exemplo as viagens aéreas a baixo custo) foram factores decisivos para o exponencial aumento de fluxos de pessoas e dos fenómenos migratórios nas últimas décadas.
Mas esta massificação e quase banalização das migrações transnacionais não retirou o sentido de excepcionalidade e alguma fragilidade existencial à experiência de emigrar.
Mesmo nas situações mais favoráveis, o processo migratório constitui uma mudança radical na vida de uma pessoa. Os migrantes atravessam fronteiras não apenas geográficas, mas também culturais, socioeconómicas e interpessoais. Embora em alguns casos a migração se traduza numa melhoria da qualidade de vida dos migrantes, permitindo-lhes melhores oportunidades de trabalho, melhores condições de vida e oportunidade de reunião com membros da família de origem, muitas vezes os processos migratórios estão marcados por situações desfavoráveis como guerra, fome ou violação dos direitos humanos (IOM, 2003, 2005).
Como refere Lechener (2007), independentemente das dimensões políticas, jurídicas e sociais que lhe estão associadas, a imigração implica, para lá da deslocação geográfica, uma experiência biográfica de ruptura e descontinuidade, uma fractura óbvia dos laços constitutivos da própria pessoa. Esta experiência provoca um deslocamento do sentimento de si, sublinhando as zonas de fronteira de pertença identitária, que pode ser vivenciada como “uma contradição entre o ser e o estar”, que pode concorrer para o mal-estar existencial ou mesmo para a doença.
Os clássicos paradigmas propostos para compreender ou interpretar os processos de integração da diferença instituída, quando o foco de análise são pessoas em processos de transição geográfica e existencial, parecem esgotados.
Os sentimentos de intolerância e “estranhamento” crescem com radicalidade nas sociedades de acolhimento, mas também nas próprias comunidades imigrantes que se instalam em ambientes culturais percepcionados como hostis, levando a uma radicalização quase persecutória dos limites entre o Eu e o Outro, expressos em alguns fenómenos paradigmáticos, como a proibição do véu em França.
Ou seja, à medida que as migrações transnacionais crescem exponencialmente no contexto da globalização económica, os fenómenos de intolerância, racismo e xenofobia tendem a agudizar-se, embora paradoxalmente nunca estivéssemos tão próximos uns dos outros.
De facto, a globalização e os fenómenos migratórios podem gerar enormes mudanças em termos não apenas sociais mas subjectivos e na própria mundividência individual orientada para paradigmas globais.
O cosmopolitismo quotidiano, como processo de alargamento das agendas pessoais, sociais e culturais, exprime-se na tendência de cada vez mais pessoas, em cada vez mais países, estarem dispostas a pensar em si mesmas colectivamente, como parte de uma humanidade comum, com agendas estranhas aos seus Estados-Nação de pertença ou residência. Mesmo sem uma deslocação física em espaços geográficos transnacionais, o cosmopolitismo quotidiano esbate lugares de pertença e referência. A um nível mais íntimo e pessoal, a própria noção de identidade torna-se mais ampla, mais fragmentária, percorrida por espaços e intersubjectividades múltiplas. Muitos indivíduos constroem as suas referências de intersubjectividade através de filiações complexas, ligações significativas, alianças múltiplas e interesses em questões, pessoas, locais e tradições que se encontram muito para além das fronteiras do seu local físico e simbólico de pertença (Cohen, 2005:38).
Por sua vez, os movimentos migratórios contemporâneos conduziram à criação de comunidades transnacionais, cujo recurso primário das interacções sociais é a solidariedade, caracterizada pela partilha de ideias, crenças, valores e símbolos e pela mobilização de representações colectivas – religiões, nacionalidades, etnicidades, diásporas (Faist, 2000:203).
O contexto onde nos movemos e construímos as nossas identidades é hoje construído pelas realidades aparentemente contraditórias de diversidade, pluralismo, universalismo e individualismo. “A diversidade
epistemológica do mundo actual não tem ainda uma forma definitiva – o palimpsesto de extractos culturais diversos e até contraditórios (onde se organizam as relações de sociabilidade), pode sedimentar-se de muitas maneiras” (Santos, 2006:134).
Talvez a raiz da intolerância emergente nas nossas sociedades multiculturais tenha a ver com as experiências de pluralismo da pós-modernidade, em que as fronteiras convencionais (físicas, temporais, espaciais e emocionais) parecem esboroar-se, traduzindo-se nalguma disrupção identitária. A fragilidade das metáforas com que construímos as nossas identidades grupais num contexto de fragmentação e diversidade, podem conduzir à radicalização de clivagens e à reestruturação de categorias agressivamente generalistas na definição do “nós” e do “outro”, do “nacional” e do “estrangeiro”, do “próximo” e do “alien”…
Como refere André , “Habituámo-nos demasiado a estabelecer a demarcação entre o idêntico e o diferente tanto no que se refere à sua relação com a unidade, como no que se refere à sua relação com o tempo”. Mas as múltiplas fracturas trazidas pelas dinâmicas da pós-modernidade vieram trazer ambivalências nestas categorias de construção da realidade e de diferenciação intergrupal.
Santos (2006) refere-se à turbulência porque passam actualmente as escalas em que nos habituámos a ver e a identificar os fenómenos, os conflitos e as relações sociais. A intensificação exponencial das relações transfronteiriças e as novas tecnologias de comunicação e de informação produziram alterações profundas nas escalas espaciais e temporais. Passámos das longas durações históricas das tendências seculares “ao tempo instantâneo dos mercados financeiros, ao regresso do passado supostamente superado sob a forma de violência intergrupal; ao curto-circuito dos ciclos de acção política por via da explosão das unidades de decisão”.
Também a cultura da virtualidade real onde hoje construímos as nossas relações de sociabilidade e as nossas identidades, está a reconfigurar os paradigmas clássicos de definição de relações de pertença. A virtualidade é a nossa realidade, porque é na estrutura dos actuais sistemas simbólicos intemporais e desprovidos do limite da espacialidade (desprovidos de lugar), que construímos as categorias e invocamos as imagens que modelam comportamentos, influenciam políticas e formas de sociabilidade, acalentam sonhos e provocam pesadelos (Castells, 2003:475).
Por tudo isto, e apesar desta radicalização agressiva de identidades grupais expressas em fenómenos de racismo e xenofobia, “cada pessoa sem excepção alguma é dotada de uma identidade compósita; bastaria
colocar a si mesma algumas questões para revelar fracturas esquecidas, ramificações insuspeitadas, e para se descobrir complexa, única, insubstituível” (Maalouf, 2002).
O conceito de mestiçagem pode fornecer a chave para a superação da dicotomia violenta face à alteridade vivida e integrada.
Condição de mestiço “é a condição do ser de fronteira, mas fronteira entendida nos seus três sentidos determinantes: fronteira é o que separa, mas é também o que faz a ponte e é ainda, o habitat de que muitos fazem a sua morada” (Nouss & Laplantine, 2001).
Neste sentido, nada se aproxima mais da experiência de mestiçagem do que a experiência migratória enquanto vivência de transição, desenraizamento e (re)encontro.
Ser migrante é pois a condição ontológica da nossa identidade. Somos migrantes e mestiços – seres de fronteira – na nossa complexa incompletude que se transfigura no processo de encontro com o Outro.
De resto, viver na fronteira é simultaneamente transgredir a fronteira, “o que faz dos mestiços fronteiriços (sobretudo dos novos mestiços fronteiriços) seres profundamente criadores e inventivos que, na debilidade das hierarquias e na fluidez das relações sociais, lançam projectos e utopias em que novas identidades, ou melhor, novas figuras de identidade, se desenham num movimento de criação permanente” (Nouss & Laplantine, 2001).
Os fluxos migratórios internacionais têm tendência a aumentar exponencialmente e a diversificar-se, constituindo um desafio para as sociedades de acolhimento, pontos de chegada e partida de novas diásporas. As formas emergentes de redes de sociabilidade e de criação de identidades num mundo global é uma experiência de desapropriação e da incerteza do encontro de alteridades e de abertura à imprevisibilidade do mistério do outro, da estranheza do (des)encontro às identidades partilhadas.
ABSTRACT: This paper represents a reflexion about de emergence of new forms of intolerance in a globalized world, where transnational migration is increasing. Migratory processes are a paradigmatic phenomenon, leading to experiences of cultural encounters and confrontation. The issues of tolerance in a globalized world (a multicultural and multiethnic space) are a challenge that implies different forms of creativity and ability to construct new interpretative metaphors, deepening concepts such as miscegenation, complexity, plurality, hybridity and the notion of borders.
KEYWORDS: Globalization; Transnational migrations; Miscegenation; Intolerance.