Da adolescência à gravidez, da infertilidade ao aborto, da menopausa à velhice, passando pelos efeitos traumáticos na sobrevivência ao Holocausto, Dinora Pines tenta entender, com base na sua experiência clínica de vinte anos, o relacionamento da mulher com o seu corpo, em todos aqueles momentos-chave.
Dinora Pines, faleceu em 2002, aos 83 anos. Foi psicanalista didacta da Sociedade Britânica, conhecida pela qualidade do seu pensamento teórico e da sua prática clínica. Nascida na Rússia, filha de médicos judeus, foi viver em Antuérpia, ainda criança, e depois em Londres. Obteve graduação universitária em francês, alemão, latim e espanhol, após o que cursou medicina. Juntou depois a prática médica como generalista e como dermatologista, com o casamento e a maternidade, de dois filhos rapazes. O seu interesse pelo Holocausto deriva das perdas de familiares por si vividas, nessa circunstância. Trabalhou em hospital com Hilda Abraham, analista, filha de Karl Abraham, o famoso psicanalista de Berlim. O seu interesse crescente pelos factores emocionais nas infecções da pele levou-a á psicanálise.
A editora Routledge Taylor & Francis Group republica agora este livro, primeiramente editado em 1993, e que mantém toda a actualidade.
Ao longo de todo os capítulos, ressalta sobretudo a extrema sensibilidade e a intensidade contratransferencial das relações psicanalíticas estabelecidas e a sua capacidade de vivência emocional. Era, no dizer de Susie Orbach – psicanalista britânica – que escreve o prefácio: “uma analista humana”.
No primeiro capítulo, Pines desenvolve a concepção da pele como meio de comunicação, e portanto de expressão da situação transferencial/contratransferencial. É identificada a origem da perturbação na relação precoce mãe-bebé, e a decorrente ferida narcísica básica, eventualmente “escondida” sob o “falso self”. O tema transferência/contratransferência é retomado no capítulo seguinte. É focada a assimetria da situação analítica, e desenvolvida a perspectiva da Autora relativamente à monitorização da resposta afectiva do analista ao material auditivo do doente, distinguindo entre identificação e empatia com o doente, por um lado, e jogo de projecções por outro. É de realçar a honestidade e o rigor com que se debruça sobre a suposta “neutralidade” do analista, e sobre a capacidade de cada analista avaliar até onde pode enfrentar a sua própria dor, ao ajudar o doente.
Pines debruça-se depois sobre a sua experiência de trabalho analítico com
adolescentes, focando temas como promiscuidade sexual, e gravidez e maternidade na adolescência; e também gravidez e aborto, aspectos emocionais da infertilidade, menopausa, velhice, concluindo com material clínico da análise de mulheres sobreviventes do Holocausto.
Com uma argúcia notável, Pines junta o conhecimento que obteve nas observações que realizou como médica, àquele que depois verificou na situação analítica. Interpreta a utilização expressiva que as mulheres fazem do próprio corpo ao longo do ciclo de vida – como a gravidez pode ser usada para resolver conflitos inconscientes relativos à identidade sexual, como a ambivalência inconsciente relativa a uma gravidez pode ser “agida” num aborto, como a perda da fertilidade pode ser um ataque à auto-estima mas pode também forçar a mulher a encontrar uma nova solução para a sua vida.
Em todo o trabalho apresentado, é patente o aprofundamento e a liberdade do pensamento teórico, e, principalmente, a riqueza do material clínico que nos dá a conhecer a intensidade e diversidade das experiências transferencial e contratransferencial.
Trata-se de um livro genuinamente psicanalítico.
Manuela Ferraz da Costa
Psicanalista. Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Nota: Este livro existe na Biblioteca da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.