Inicialmente, é feita uma breve revisão da literatura sobre a relação do quadro terapêutico com o estatuto do corpo na terapia analítica.
As autoras apresentam material clínico de um grupo de psicodrama analítico onde a patologia narcisista e a somatização estão muito representadas.
O material clínico é contextualizado na evolução recente do grupo terapêutico que está num processo de elaboração de uma recente alteração do setting do grupo.
A esta situação seguiu-se o agravamento da somatização nos pacientes que tinham sido seleccionados para tratamento deste tipo de problemas e uma rigidificação das defesas narcisistas do grupo.
É feita a ilustração de como a elaboração psicodramática desta situação conduziu ao crescimento e à aceitação e elaboração da rivalidade edipiana, no grupo, e no mundo mental dos intervenientes.
No que respeita à relação terapêutica, na literatura psicanalítica, é feita, com frequência, a distinção entre quadro e processo.
O quadro englobaria o papel do analista (alguns autores enfatizam aqui a qualidade do seu estado mental), factores ligados ao espaço em que decorrem as sessões, factores ligados ao tempo, e um conjunto de regras (que implicariam manejo técnico atento) como sejam as interrupções programadas do curso das sessões, os honorários, os horários, etc.
Psiquiatra. Psicanalista. Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Psicodramatista Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico.
Técnica de Serviço Social. Psicodramatista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico.
Recebido para publicação em 3 de Novembro de 2010. Revisão recebida em 11 de Novembro de 2010. Aceite para publicação em 18 de Novembro de 2010.
José Bleger (1967) explicitou a diferença entre processo e quadro, remetendo para este último todos os aspectos constantes e “mudos”, não processuais que, pela sua presença imutável, passam completamente despercebidos, até que, por qualquer circunstância, se apresenta uma alteração de algum dos seus componentes. Nesse aspecto, aproxima o quadro da simples presença/existência dos pais, na infância, na qual não se repara habitualmente e em cuja existência/possibilidade de inexistência se pondera unicamente em face de alguma alteração no curso habitual dos acontecimentos. O quadro seria “uma meta-conduta dos fenómenos que vamos reconhecer como conduta” (Bleger, 1967).
Já o processo diria respeito aos aspectos variáveis, ao conteúdo variável das sessões. Seria a figura, na qual se repara, contra o fundo, que permanece invisível, o quadro, numa gestalt que tem que ser mantida para que ocorram mudanças. Existe, nesta formulação, uma aproximação ao conceito de continente, formulado por W. Bion (1962).
Referindo-se ao quadro terapêutico, Bleger refere que, tratando-se de uma situação que se mantém durante anos, com as mesmas regras, não pode ser ignorada, enquanto instituição.
Tal como aconteceria com o quadro, também a simbiose com a instituição é “muda” e só se revela quando “entra em ruptura” ou “ameaça romper-se”. De tal forma que, na ausência de uma situação desse tipo, ela parece “inexistente”. Segundo aquele autor, a “relação analítica é simbiótica, mas é o quadro que é o depositário da simbiose” e esta “não está no processo analítico em si mesmo”. Define um conceito de não-Eu (diferente do formulado por Winnicott) que inclui os aspectos desconhecidos e não percepcionados, nem ainda recalcados do Eu, projectados/contidos no quadro, à semelhança do que a criança fará com a mãe, para poder desenvolver o seu Eu. O “não-Eu do quadro”, definido por Bleger, não percebido, incluiria o corpo e, “se o quadro se rompe, os limites do Eu, formados pelo não-Eu”, teriam que “ser recuperados ao nível do corpo” do paciente. Estes aspectos, da parte primitiva da personalidade, clivados no quadro, não seriam normalmente aparentes no processo, que poderia estar a manifestar uma transferência neurótica (Bleger, 1967).
Se não pode deixar de se concordar com este autor, quando ele enfatiza o aspecto institucional, de uma relação terapêutica, por maioria de razão, ele deverá ser realçado a propósito das terapias de grupo. De forma mais perceptível, o grupo é uma instituição apropriada para ser usada “como mecanismo de defesa contra as ansiedades psicóticas”, e como “depositário da parte psicótica da personalidade”.
Por outro lado, sendo o psicodrama uma terapia que mobiliza o corpo e coloca o corpo no centro do processo diagnóstico e terapêutico, mais se esperará que este mesmo corpo seja o depositário das ansiedades psicóticas do grupo e dos seus membros.
No seu trabalho sobre grupos, Bion, (1961) postulou a existência de uma área entre o físico e o psíquico, a área proto-mental, em estreita relação com o que denominou de pressupostos básicos, sempre presentes num grupo. De tal forma que, quando “uma doença se manifesta fisicamente, terá concomitantes psicológicas surgidas dos pressupostos básicos suprimidos e que permanecem no sistema proto-mental” (Symington & Symington, 1997).
As alterações surgidas, no quadro, por iniciativa do terapeuta, aproximam o paciente/grupo de uma vivência catastrófica, pois “colocam em crise o não-Eu, desmentem a fusão [simbiótica com o quadro], problematizam o Eu e obrigam à reintrojecção, reelaboração do Eu, ou à activação das defesas para imobilizar ou reprojectar a parte psicótica da personalidade” (Bleger, 1967).
O surgimento de somatizações, nos elementos de um grupo de psicodrama, em ocasiões de ruptura/alteração do quadro, parece corresponder a este tipo de formulações teóricas. O material clínico que se apresenta seguidamente constitui uma base clínica a partir da qual esta hipótese foi colocada3.
Integram o grupo em análise, dois pacientes em que se vai tornando evidente o recurso à somatização após as sessões em que foram experimentadas emoções intensas. Na sessão seguinte, é por eles negado que tenha havido qualquer experiência emocional, na sessão anterior, muitas vezes “visível” para os outros elementos do grupo, durante as dramatizações precedentes. É também negada qualquer relação do sofrimento “físico” com o vivido na situação psicodramática e na sessão em geral.
Trata-se de um grupo de seis pessoas, em que os elementos mais antigos estavam, então, em tratamento havia cerca de ano e meio.
Embora, tal facto não seja referido pelos pacientes, as sessões em análise, seguem-se a uma alteração da hora de funcionamento do grupo, que foi proposta pela directora, e em relação à qual não foi colocado
Os nomes dos elementos do grupo são fictícios.
nenhum entrave insolúvel por qualquer dos elementos do grupo, quando essa questão foi proposta.
O grupo tinha levantado, à saída de uma das sessões, a hipótese de faltar em bloco a uma sessão e um dos elementos acaba por falar desse assunto, na sessão de grupo, como que sugerindo que, dessa forma, não haveria sessão (não seria uma sessão paga e a Equipa Terapêutica ir-se-ia embora). Nessa altura a directora lembrou que a Equipa “está sempre aqui” a menos que tenha anunciado faltar, mas o assunto não foi trabalhado de imediato psicodramaticamente, como deveria ter sido, em virtude de configurar já um ataque ao setting por parte do grupo, aparentemente envolvendo todos os elementos.
Neste contexto, um dos elementos foi protagonista, trabalhando uma zanga antiga contra um colega de trabalho, por quem lhe parecia ter sido enganado e prejudicado profissionalmente. Na dramatização, encena a forma como informará o colega “hipócrita” de que, de facto, soube do processo que ele (colega) pôs em marcha e que o prejudicou. O paciente vive o momento dessa comunicação com emoção (zanga) reconhecida pelo grupo. De facto, na dramatização, o Carlos tem a oportunidade de romper com a atitude de ofendido que sofre (e odeia) em silêncio (a atitude de aparente superioridade narcisista) e exterioriza o que sente, expondo as suas razões e acusando o colega.
Na sessão seguinte, dois elementos, entre os quais o protagonista da sessão anterior, chegam atrasados (o Paulo, com uma hora de atraso). O Carlos refere, entre outras coisas, que o problema é que não sabe se está a prosseguir objectivos ou se está “a entrar na linha vermelha do suicídio.” (Por exemplo, no trabalho, se está a progredir ou se está a deixar a afundar com um negócio que nunca rende mesmo, e que devia abandonar). E acrescenta que acha que “está como há um ano”, quando se dramatizou uma situação que relaciona com a da semana passada.
Carlota, um dos elementos do grupo que somatiza e se expressa através de um discurso muito ordenado, que só muito recentemente vemos ser interrompido por um chorar discreto, mas aceite por ela, sem tentativas de disfarce, dirige-se a Carlos acaloradamente dizendo-lhe que agora é que ele pode ver como não consegue renunciar aos desejos de vingança, como aconselhava outros elementos a fazer, no grupo.
É proposta ao grupo uma dramatização na qual pertencem a uma espécie marinha que está em águas intoxicadas. Na distribuição dos papéis, quase todos querem ser o mais novo daquele grupo de animais. Os diálogos acerca das atitudes a tomar para se protegerem decorrem em clima
morno, entorpecedor e eufórico. O próprio ego-auxiliar, que é enviado a avisar dos perigos que estão a correr se permanecerem naquele local, é “arrastado” e vai-se deslocando devagar, como os outros elementos do grupo estão fazendo. A directora envia ainda um outro elemento do grupo com a função de apressar as operações de salvamento. Este elemento é olhado com desconfiança. Por último, os animais decidem acompanhar “os pais doentes” e ficar com eles, “no local onde aqueles animais iam para morrer”, sendo os egos-auxiliares neutralizados no palco, acabando por se desligar das instruções da directora.
Nos comentários finais, os egos-auxiliares foram chamados de “aves de mau agoiro” e abertamente referidos como alguém de quem se devia desconfiar, mesmo quando quiseram ajudar. Pensaram “porque é que estás a fazer isto?” (ajudar). Surge também, nos comentários, a referência à existência de um elemento “sabotador” (na dramatização) e a ideia de que existia “um clima de alienação”. O Paulo diz então que se “esqueceu” da hora da sessão, mas que, quando se deu conta, veio, mesmo assim, para não estar “tão fora” na próxima semana.
No seu comentário, a directora refere o clima que parecia de festa e a recusa em ver os perigos que corriam e também o clima de desconfiança que se vive no grupo “talvez pelo facto de nos termos aproximado de emoções de zanga e sentimentos de vingança aqui no grupo”. Refere ainda a desconfiança em relação às capacidades de a Equipa Terapêutica “dar conta do recado e saber tratar das coisas que se andam aqui a levantar”. Termina dizendo que existe no grupo uma recusa em guardar as memórias e que há um “desejo de permanecer pequeno e não ter que aprender”.
Mas existia também, no grupo, a consciência da existência de sabotagem e de um clima de alienação que não foi contemplado no comentário final, tendo sido esta constatação feita pela parte mais amadurecida do grupo.
Passemos, então, agora à sessão que vai ser tratada mais detalhadamente.
No início, faltam três elementos (metade do grupo), uma circunstância que é vivida pela directora como uma eventual impossibilidade de poder decorrer a sessão, pelo menos com os seus tempos ou fases habituais. Os restantes elementos vão chegando, um por um, à sessão de grupo, interrompendo-a várias vezes.
Nos comentários iniciais a Maria diz, por exemplo, referindo-se à sessão anterior, que, “nas dramatizações não está para pensar: alguém que seja os pais”.
O Paulo, um elemento com muita dificuldade em conter as emoções, com história de somatizações recorrentes com recurso prévio a inúmeras especialidades médicas e comportamentos que o colocam em risco de vida, diz que hoje pôs o alarme para se lembrar da hora da sessão. Mas não foi preciso. Diz ainda que “a proximidade incomoda” e que “anda sempre nisto: surge uma perspectiva nova e entusiasma-se, mas depois cansa-se, não chega até ao fim…agora, quando surge algo novo, já pergunta quanto tempo se irá ele empenhar…sente-se inseguro.” Há aqui um insight em relação à oscilação idealização-desidealização.
A Manuela que tem uma patologia grave, fala em desistir do grupo e que tem que se decidir por ter duas médicas (refere-se à necessidade da co-terapia e vigilância psiquiátrica concomitante). E que “não sabe se cresce ou não”.
A Carlota diz que teve, esta semana, um problema de saúde que a levou a uma clínica. Diz que estava “zangada por estar doente e depois chateada por estar zangada”… que estava “tão despistada que entrou por ali dentro e sentou-se na cadeira que era a do médico, em vez de se sentar na cadeira do doente”. Diz que, na última sessão, “foi a primeira vez que esteve zangada na sessão, porque não havia um plano”.
A Hipótese Terapêutica que se vai configurando é a de que o grupo não quer “sentar-se na cadeira do doente, mas na do médico” para negar a existência de partes doentes para tratar e negar a necessidade de depender da Equipa Terapêutica (representante dos pais por via da transferência grupal) para poder tratar-se.
A directora propõe então à Carlota e ao Paulo uma dramatização em que eles são sócios, numa empresa que vai pedir um empréstimo a um banco. O Carlos e a Manuela ficam como observadores. A Maria e a Márcia são os elementos do banco.
O quadro da dramatização torna-se mais definido com a escolha do ramo em que a empresa trabalha, com a explicação perante os funcionários do banco dos objectivos que motivam o presente pedido de empréstimo, com a enumeração das garantias que podem oferecer ao banco, etc. Este clima de entendimento altera-se quando a directora dá a indicação aos funcionários do banco para que solicitem aos elementos da empresa a realização de exames médicos e laboratoriais, para saber se são portadores de alguma doença que os venha a impossibilitar de
cumprirem com os compromissos que vão ser assumidos com o banco. A partir daí, o clima azeda com a Carlota e o Paulo a dizerem, indignados, que o banco não tem nada que pedir tal coisa, que aquilo é um abuso e que não fazem tais exames: há mais bancos, dizem. Do lado do banco, a Maria tornara-se, é certo, inflexível e peremptória: tem que ser assim e não há discussões.
Mesmo depois de uma reunião com a gerência do banco, que confirma que são esses os procedimentos habituais para quem pede um empréstimo de um tão grande montante, a situação não se altera substancialmente, dizem que vão pensar, consultar outros bancos etc.
Nos comentários Carlos diz que notou o Paulo muito tenso e que entende que ele só terá aguentado até ao fim para não sair do papel. Os elementos que eram funcionários do banco dizem que fizeram aquele papel mas “não concordavam com aquelas regras” e há indignação no ar, pois não deviam ser feitas tais exigências aos clientes. “A satisfação do cliente não era minimamente considerada” diz a Carlota. O Paulo, que mais se tinha indignado durante a dramatização e argumentado contra o pedido de exames médicos, diz que “os bancos, quando precisam, são só falinhas mansas, mas ao contrário, são inflexíveis” e que ele já estava de pé atrás…“aquilo dos exames era uma intrusão… era invasivo estarem a tirar essa informação…não senti nenhuma posição de inferioridade…não precisava daquilo para sobreviver…estava obrigado e isso irritava-me”.
Com irritação o paciente tenta aqui reafirmar a posição omnipotente, visível nestas afirmações, mas sobretudo consubstanciada no pressuposto de que ele (e o grupo) é que sabe quais são as regras do bom funcionamento (grupal): contemplar a satisfação do cliente, dar ao cliente o que ele pede, sem fazer perguntas ou exigir garantias, etc.
O Paulo diz ainda que, na dramatização ele “estava a mostrar que ia a outro lado” (pedir o empréstimo) e que aquilo que ali lhe estavam a pedir “era contra os meus princípios”…
A directora resolve então, em lugar de avançar para o comentário final, chamar de novo o Paulo ao palco.
Propõe-lhe um encontro com o gerente máximo daquela instituição bancária (o ego-auxiliar) que lhe explica calma e polidamente que aquelas exigências são as habituais. O Paulo responde que já tem três bancos em vista para pedir o mesmo empréstimo. Volta para casa e o Carlos, no papel de pai, diz-lhe que, na sua ausência, telefonaram três bancos “todos com a mesma conversa … dizem que tens que ir fazer uns exames médicos por causa do pedido de empréstimo”.
O Paulo diz então à sócia/Carlota que vai ceder “mas, mais tarde vai reclamar”. Aquela ainda lhe diz (instruída pela directora): “ó pá, andas sempre nisto das reclamações em vez de levarmos a nossa empresa p'rá frente”…O Paulo insiste e vai afirmando que, mais tarde, reclamará, mas numa atitude mais depressiva e menos enraivecida, como que para não aceitar que está a ceder totalmente.
É dada ao grupo a possibilidade de fazer um comentário rápido que quase unanimemente se resume à constatação da cedência que existiu por parte do empresário/Paulo. O ego-auxiliar realça o clima de total incomunicabilidade que existia entre o empresário/Paulo e o gerente/ego-auxilar: “falávamos mas não nos ouvíamos”…
O Paulo diz que se sentiu “cercado por todos os lados. Quando o pai lhe apareceu sentiu o apertar do cerco”. E que “se queria levar o projecto avante, tinha que ceder”. Achou que “ia ceder numa questão de princípio…senti-me furioso com o apertar do cerco”.
No comentário final a directora refere que aqueles sócios iam pedir muito dinheiro ao banco, “mas não se notava, parece que o banco é que tinha que pedir para os financiar… Pensavam que não tinham que dar garantias. Houve também aqui, na dramatização, o problema das cadeiras. Não está muito claro para o grupo que precisam de ajuda…é muito irritante quando queremos sentar-nos na cadeira de quem aparentemente não precisa e temos que sentar-nos na outra…isto é muito doloroso”. “Mas o que realmente foi muito importante foi o facto de o empresário/Paulo não ter desistido do projecto. Apesar de dizer que, depois, ele ia fazer e acontecer, de facto, ele não ia desistir do projecto”.
E “quanto ao cerco, parece que o grupo não quer ver que a vida nos prega cada cerco, de vez em quando”…
Num comentário individual à Carlota propõe-lhe que pense se as dores que sentiu e a levaram ao médico não serão o resultado das dores/emoções que ela vem sentindo no grupo e que depois “deixam de se ver aqui para irem aparecer noutra cadeira”.
Em seguida reforça a interpretação grupal dizendo que “uma parte do grupo está consciente de que precisa de ajuda, mas, quando as coisas se tornam muito evidentes/invasivas, instala-se a ideia de que é ilegal tirar esta informação” (frase proferida durante a dramatização). “O Paulo entende que andam aqui intromissões a mais, mas são as intromissões que temos que fazer, no grupo, para que ele não ande sempre nisto do pega e larga, como nos contava no início da sessão. Uma situação que se nota também no grupo que se sente, por vezes, muito invadido”.
Depois de terminada a sessão, o ego-auxiliar mostra-se preocupado com as consequências de um tal enfrentamento com o grupo e diz que sentiu “uma luta de titãs” entre o grupo e a directora. Está claramente do lado do grupo e entende que este está muito forte e coeso e não vai ceder…
Este não entendimento no seio da Equipa Terapêutica terá sido resultado da actividade da parte omnipotente do grupo que “divide para reinar”, atacando a ligação existente entre o ego-auxiliar e a directora para fragilizar a actividade e a capacidade de pensar no seio da equipa, obrigando-a a ser ela a ceder às exigências da parte omnipotente e narcisista: dar plena “satisfação ao cliente”, sem entraves, sem intromissões.
Havia no grupo, para além do já referido, uma actividade destrutiva que tem que ser entendida como fazendo parte da raiva contra a dependência. A dependência para poder alimentar-se, tratar-se e crescer emocionalmente terá ficado mais dolorosamente patente para os elementos do grupo, em virtude da mudança da hora, introduzida no quadro habitual, por solicitação da directora, e que é sempre uma ocasião para o vislumbre e a experiência da condição de separação radical face ao objecto, face à Equipa Terapêutica. Como sugere Bleger (1967), as alterações no quadro introduzidas pelo terapeuta são uma brecha a partir da qual a realidade, que se apresenta como catastrófica para o paciente, se insinua. Nessa situação, “fica em evidência que o seu quadro fantasma não é o quadro psicanalítico” ou o quadro psicoterapêutico, no psicodrama, diríamos.
Um dos aspectos típicos da relação narcisista destrutiva é este adormecimento/entorpecimento, este elemento hipnótico que obnubila o pensamento e retira energia, quando não proíbe que se veja e muito menos enuncie o ataque à capacidade de pensar do paciente/grupo e do terapeuta/equipa.
De facto, pensamos que, neste momento de evolução do grupo, estávamos perante um grupo a funcionar sob o domínio daquilo que Rosenfeld chamou, considerando “o narcisismo psicótico”, a “organização narcisista” a qual tem “o propósito de manter a idealização e poder superior do narcisismo destrutivo” (Rosenfeld, 1987). Repare-se que nem mesmo o elemento sabotador, referido espontaneamente nos comentários de um dos elementos e visível na tentativa de consumação de uma boicote colectivo a uma das sessões com o objectivo de obrigar a directora a submeter-se à parte omnipotente do funcionamento grupal, estava a faltar.
Importa referir que o Paulo é um paciente que vem reduzindo gradualmente as doses de ansiolíticos e que deixou de consultar médicos de
várias especialidades, bem como de fazer constantemente exames auxiliares de diagnóstico, para encontrar um diagnóstico para as queixas somáticas que apresentava. É neste contexto, que o paciente se torna mais presente emocionalmente e mais participativo no grupo, como vimos.
Quanto à Carlota, a outra paciente que apresenta queixas somáticas frequentes (musculo-esqueléticas) parece buscar com algum afã que lhe digam que a turbulência das emoções, que finalmente se está permitindo sentir, não tem que ser sentida e contida mas pode ser tratável noutro âmbito, “noutra cadeira”, no âmbito dos cuidados físicos, no qual se entrega nas mãos dos médicos para que a estudem e a mediquem, mas não lhe peçam para sentir e aprender a elaborar as emoções e os seus estados mentais, que a assustam pelo sofrimento que esses processos implicam. Trata-se de uma paciente com vários lutos por elaborar, relativos a relações muito significativas.
Todos estes aspectos foram demoradamente trabalhados nas sessões seguintes. Mas importa, pelo menos, referir que, na sessão subsequente a esta última, o Paulo toma a palavra para dizer, entre outras coisas, que, durante aquela semana, um orientador com quem estava, numa reunião de trabalho, se referiu a ele dizendo para os restantes elementos: “por exemplo, aqui o Paulo é uma pessoa que se lhe põem um obstáculo, ele corta a direito sempre, não se desvia”. O insight acerca deste aspecto inflexível da sua personalidade e a forma como o paciente aceitou ouvir que falassem sobre isso, bem como o facto de ter trazido essa aceitação para o grupo, na sessão seguinte, é, julgamos, um sinal evidente da integração dos aspectos que foram trabalhados anteriormente.
Em relação ao grupo, no seu conjunto, ouvimos a Maria dizer que está “spidada” porque afinal “os óculos que lhe venderam disseram que eram inquebráveis e quebraram” e os restantes elementos “viram”, como que pela primeira vez, e com surpresa e dor que, afinal, aquele ou aquela que, nas suas fantasias, poderiam ficar destroçados, caso deles se distanciassem um pouco (casando… assumindo uma nova relação, etc.) esses, afinal, “viu-se” durante esta semana, que têm, eles mesmos, novas relações e mais suporte emocional do que aquele que era fantasiado, para que estes pacientes pudessem continuar a imaginar que eram os únicos em quem se (o objecto) pensava, pudessem continuar a imaginar-se a controlar omnipotentemente o objecto, que afinal tinha vivido uma vida independente desse tipo de controlo. A barreira narcisista que impedia
a “visão”, isto é, o insight, para preservar a fantasia de omnipotência e colocar o paciente-grupo a salvo da realidade edipiana foi quebrada (os óculos quebrados) e a nu fica a possibilidade de se aperceberam da realidade triangular, a de um objecto que se reparte e se divide com outros, com o rival edipiano.
Muito curiosamente, no início desta sessão, e sem que a directora tivesse ainda ligado todos estes acontecimentos, na vida do grupo, à alteração da hora das sessões, que tinha sido concretizada umas semanas antes, quase todos os elementos fazem referência a esta mudança. Para comentar as vantagens e as desvantagens para a sua vida pessoal, ou, simplesmente, para dizer como se sentem com a sessão a esta nova hora, comparando com a forma como a sentiam quando ela decorria no horário anterior.
De facto, e concluindo, mais uma vez se comprova, que os aspectos mais regressivos e psicóticos de um paciente se encontram contidos no setting…também quando o paciente em questão é um grupo.
ABSTRACT: This article firstly presents a brief revision of literature references on the relationship between the therapeutic setting and the status of the body in psychoanalytical therapy.
The clinical material hereby presented was collected within a group undergoing analytical psychodramatic therapy in which narcissistic pathologies and somatization were particularly common. The clinical material is contextualized in the current alteration in the therapeutic group, which has been going through a recent change in its setting. That situation was followed by an increase in the somatization in the patients who had been selected for treatment of this type of disorder, as well as of a process of reinforcement of the narcissist defenses of the group.
The present article elicits how the psychodramatic elaboration of this situation led to growth, acceptance and elaboration of oedipal competition within the group and its patients' internal world.
KEYWORDS: Psychoanalytical psychodrama; Narcissistic defenses; Somatization; Setting.