Neste trabalho, procura-se definir risco, vulnerabilidade e resiliência. A partir daqui, faz-se uma breve reflexão sobre quais os elementos psíquicos que, estando presentes na criança ou no jovem (ou no adulto), aumentam a capacidade de resiliência, recorrendo a conceitos psicanalíticos – vinculação, mentalização, função-alfa, relação continente-conteúdo. Seguidamente, explora-se a influência da família na construção desses elementos psíquicos.
No contexto das crianças e dos jovens em risco, foi-nos pedido que abordássemos a questão do risco na sua relação com a estrutura familiar; a nossa primeira ideia foi tratar o tema dos factores psicológicos do risco, até que nos apercebemos que o que nos era pedido não era o risco, mas o que protege contra o risco – ou seja, os factores de resiliência. Por essa razão, este artigo é então intitulado “Estrutura familiar – risco e resiliência”.
Vamos começar por definir brevemente o que entendemos por risco, por vulnerabilidade e por resiliência. Depois partiremos para uma breve reflexão sobre quais serão os elementos psíquicos que, estando presentes na criança ou no jovem (ou no adulto), aumentam a capacidade de resiliência; e só então reflectiremos acerca da influência da família na construção desses elementos psíquicos.
Comunicação proferida na Conferência “Crianças e jovens em risco”, decorrida na Universidade Católica Portuguesa – Faculdade de Ciências Humanas, em Lisboa, no dia 13 de Janeiro de 2005.
Psicóloga Clínica. Mestre em Psicologia Legal. Sócia Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 3 de Julho de 2010. Revisão recebida em 20 de Julho de 2010. Aceite para publicação em 6 de Agosto de 2010.
Antes de mais, devemos questionar a própria expressão “crianças e jovens em risco”. Não porque seja uma expressão desadequada em si mesma, visto que é um conceito técnico, definido e delimitado na literatura científica, mas pela forma como a expressão é usada fora do discurso científico, na sua utilização corrente que é feita na comunicação social, nos discursos políticos, na conversa das pessoas e por vezes mesmo no falar dos técnicos. Muito frequentemente, sob esta denominação, está escondida a rejeição do que é diferente. De facto, parece-nos que, hoje em dia, a expressão é usada para designar tudo e mais alguma coisa que saia da vivência comum (e portanto dos caminhos trilhados pela maioria).
Ou seja, debaixo de uma expressão mais composta e aparentemente menos discriminatória, estão as antigas noções do anormal, do idiota, do pobrezinho que precisa de ajuda, do coitadinho digno de pena, mesmo do louco. Portanto, vamos definir o que é que o conhecimento científico entende por risco, para nos afastarmos destas utilizações erróneas dos conceitos.
Segundo as definições que encontramos na literatura (Choquet & Gutton, 2004; Petit, 2004; Visier, 2004), risco é um conceito específico, que comporta dois tipos de factores: factores externos, os quais, sendo vividos por uma criança, aumentam a probabilidade dessa criança se poder encontrar numa situação de perturbação psicológica; e factores internos, estes sim, estabelecendo e determinando um verdadeiro risco, que neste caso são chamados de vulnerabilidade. Isso significa que, por exemplo, não é porque uma criança vive numa casa com más condições de habitação que é necessariamente uma criança de/em risco.
Neste sentido, temos como factores externos aqueles que estão mais associados a problemáticas de desenvolvimento e psicopatológicas. Entre outros, consideramos sobretudo estes: mortes de irmãos anteriormente ou durante a gravidez e, de um modo mais geral, lutos da mãe durante o processo de gravidez; complicações na gravidez e no parto; prematuridade; doenças crónicas e/ou malformações congénitas; depressão pós-parto materna ou qualquer outra doença mental de ambos os pais; separações precoces da criança e dos pais; condições de vida precárias ou inseguras; dinâmica familiar altamente conflituosa; maus-tratos (Petit, 2004). Estes são os chamados indicadores de risco, precisamente porque aumentam a probabilidade de emergência de perturbações psicológicas, mas não as determinam, nem isoladamente, nem em conjunto.
Seguidamente, encontramos descritas as condutas de risco, observáveis nas próprias crianças e nos jovens – elas mesmas acabando por
ser consideradas como indicadores externos de risco – como o insucesso e o abandono escolares, as fugas de casa, os consumos excessivos de álcool, drogas e/ou medicamentos, as condutas delinquentes e os comportamentos violentos, dirigidos para os outros ou para o próprio (Choquet & Gutton, 2004). Mais uma vez, não é porque um jovem tem ocasionalmente comportamentos chamados de risco que é necessariamente um jovem em risco.
Efectivamente, se há factores que põem em causa o equilíbrio psíquico do ser humano, por outro lado, o completo evitamento de qualquer situação de risco pode ser também prejudicial à saúde mental, sobretudo na fase de desenvolvimento que é a adolescência, criando impasses no crescimento difíceis de desbloquear (Fleming, 2005).
O risco é também aquilo que nos faz funcionar no máximo das nossas potencialidades, que nos faz procurar e encontrar recursos internos até aí não utilizados, que nos faz perder algo para ganhar outro algo muito mais valioso…
Em seguida, e parece-nos a nós que este é o ponto mais relevante, temos o impacto que esses factores externos tiveram na criança/jovem. Neste caso, estamos perante o conceito de vulnerabilidade, que é uma menor capacidade de resistência a acontecimentos adversos (Visier, 2004). Inversamente, a resiliência é a capacidade para atravessar acontecimentos adversos sem que isso implique danos mentais intensos ou irreparáveis (Kreisler, 2004).
Todos nós temos, segundo Wilfred Bion (1962; 1963), uma função mental que o autor denomina de função continente, que entra em acção para acolher as experiências emocionais que nos vêm do nosso contacto com o exterior e do interior de nós mesmos. Se quisermos usar uma metáfora, esta função continente é como que um recipiente mental com determinada capacidade para acolher essas experiências emocionais vindas da nossa vida interna e externa. Esse recipiente tem sempre um limite, maior ou menor consoante a pessoa; quer dizer que há sempre um ponto em que, usando uma típica expressão portuguesa, “o caldo se entorna”.
E depois, continuando nas metáforas da culinária, temos uma função mental transformadora (função-α ou função-alfa, segundo a denominação de Bion), uma espécie de “passe-vite” (esta metáfora não é nossa, mas de Antonino Ferro, 2003), que permite transformar as experiências emocionais e dar-lhes uma utilização, abrindo então mais espaço na panela para receber novos elementos.
Portanto, se quisermos falar quer de vulnerabilidade, quer de resiliência, estamos a falar do espaço que tem a “panela” e da capacidade de transformação que tem o “passe-vite”. Temos muito ou pouco espaço para receber a experiência e lidar com impacto emocional que ela provoca na mente? Temos um “passe-vite” eficiente ou um que se encrava constantemente?
Dito de outra forma, mais científica, quais são então os factores de resiliência? Destacamos fundamentalmente quatro:
Relação de vinculação próxima do tipo seguro (tal como foi descrita por Ainsworth, em 1970, na sequência dos trabalhos de Bowlby). A relação de vinculação segura cria no sujeito um sentimento de segurança básica (Erikson, 1976) e a convicção de que a vida é fundamentalmente uma experiência gratificante, que vale a pena ser vivida, independentemente das adversidades. Isto aumenta no sujeito a capacidade de resiliência, na medida em que mantém a convicção de que “depois da tempestade, vem a bonança”.
Capacidade de verbalização do sofrimento, que protege contra a necessidade de passagens ao acto e de condutas de risco. A capacidade de mentalização (vide Lecours & Bouchard, 1997), isto é, de pensar o sofrimento, de lhe dar um nome e de o expressar através das palavras, dá ao sujeito uma saída para a dor, através da simbolização, no sentido em que aquela não tem que ser obrigatoriamente expulsa da mente através da acção. Aliás, Fonagy e Target (1999) ligam directamente a violência com falhas no processo de mentalização – ou seja, é porque o sujeito não consegue pensar, que age violentamente sobre si e sobre o outro.
Capacidade para estabelecer uma relação de proximidade com alguém que esteja disposto a ouvir e a ajudar a transformar. Enquanto seres humanos, comunicamos, pensamos, elaboramos através de uma relação entre dois elementos (relação ♀♂ ou continente-conteúdo, nas palavras de Bion, 1970) – um primeiro elemento que dá e um segundo que recebe, transforma e devolve ao primeiro. Este processo dinâmico acontece no interior da nossa mente e também na comunicação entre duas pessoas; quando o sujeito não tem capacidade de, sozinho, transformar uma experiência emocional (um conteúdo, na teoria bioniana), tem necessidade de encontrar um outro, que, com maior capacidade de tolerância à dor mental e maior capacidade de transformação, possa ajudar a pensar, elaborar e transformar aquilo que não é suportável para o sujeito.
Capacidade para adoptar uma conduta activa perante uma adversidade, defendendo-se dela, procurando formas de a contornar, fazendo escolhas de crescimento e progressão e não de bloqueio. Esta capacidade acaba por advir das anteriores.
Espelhando estes factores na família, o que é que teríamos como família que cria filhos resilientes?
Uma família em que estes elementos estejam presentes: a inscrição da criança no desejo dos pais; uma vinculação interna segura que estes pais têm dentro de si, que lhes vem da sua própria infância, e que transmitem aos filhos; a disponibilidade e a acessibilidade dos pais ao que vem da criança, vale dizer, a sua capacidade empática; a possibilidade que os pais dão à criança de se separar deles, que é o reflexo do próprio processo de separação que os pais interiorizaram na sua infância. Com estes elementos, temos uma família que ajuda as crianças a construir as capacidades acima descritas e que verão, por isso mesmo, a sua capacidade de resiliência aumentada.
Mas claro que isto não é directo nem linear. Sobretudo quando falamos de jovens, é a forma como estes interiorizaram a sua estrutura familiar, e não a estrutura familiar em si, que vai ter consequências ao nível das suas atitudes, dos seus comportamentos, dos seus sentimentos, enfim, ao nível da sua estrutura de personalidade.
Como exemplo, apresentamos o caso de uma jovem mulher que viveu numa família com uma estrutura facilmente descrita como desorganizada, em que os pais se separaram precocemente. Ela foi cuidada pelos avós, alternando entre os maternos e os paternos; o pai era toxicodependente e a mãe corria atrás do pai para tentar salvar o casamento, tendo muito pouca disponibilidade interna para a filha. Um dos avôs morre quando ela tinha 10 anos; o pai morre quando ela tinha 12; o outro avô, com quem se encontrava muito ligada, morre quando tinha 15.
Ora, podemos ver neste pequeno resumo da história desta mulher diversos factores de risco, que poderiam provocar uma vulnerabilidade muito intensa e uma propensão para condutas de risco.
Se podemos dizer que a sua entrada na vida sexual activa, que foi um pouco precoce, é um indicador de risco, quando observámos com mais atenção a estrutura mental desta mulher, vemos que evitou outras condutas de risco que poderiam ter emergido na adolescência.
Finalmente, chegou ao início da fase adulta organizando-se em termos de trabalho, com uma boa capacidade para escolher amigos que têm com
ela uma relação autêntica, com a capacidade para pedir ajuda, procurando uma psicoterapia, com uma boa capacidade de verbalizar o seu sofrimento interno e com capacidade de mudança, de tal modo que, em um ano de psicoterapia, fez mudanças significativas na sua forma de vivenciar os acontecimentos quotidianos, bons e maus. Isto denota uma boa capacidade para pensar, ou seja, conter as experiências emocionais, dar-lhes sentido, usá-las. Claro que a estrutura familiar teve consequências nela, ao nível dos sintomas depressivos e ansiosos que a fizeram procurar um tratamento psicoterapêutico (e que foram trabalhadas ao longo dos restantes anos em que a psicoterapia se desenrolou), mas não a colocou em risco no sentido estrito do conceito.
Ela nunca foi uma jovem em risco, mas podia ter sido erroneamente considerada assim se fosse atentado apenas o aspecto externo.
Queremos chamar a atenção para a responsabilidade dos técnicos, que é altíssima; rotular um jovem de “jovem de risco” sem uma avaliação séria prévia, que tenha conta os aspectos externos mas também, e sobretudo, os aspectos internos, é possivelmente dar um peso maior a uma situação que em si pode não ser assim tão grave (mas vai, com grande probabilidade, agravar-se após o rótulo ter sido posto). O contrário também é verdade: podemos encontrar crianças e jovens que estão em situações em que exteriormente não há grandes razões para falar de risco, mas que internamente se encontram num risco psicológico urgente – se atentarmos apenas ao exterior, a situação pode explodir como uma panela de pressão.
Como nos chama a atenção Manuela Fleming (2005), também temos que nos preocupar com os jovens que correm “o risco de não correr risco nenhum” (p. 141), que se sentem tão frágeis que não arriscam em nada; quando a vida os obrigar e tiverem que arriscar, então aí surgem as extremas vulnerabilidades até aí escondidas.
O papel dos técnicos não é só detectar os factores exteriores de risco. Diríamos mais, o papel dos técnicos é sobretudo ajudar a aumentar a capacidade de resiliência das crianças e jovens com quem cada técnico contacta. E isso faz-se de maneiras aparentemente mais simples do que, por exemplo, tirar as crianças das famílias chamadas desestruturadas – estar disponível para ouvir, conseguir escutar pedidos de ajuda atrás de comportamentos agressivos, irrequietos ou outros, e de facto ajudar as pessoas a “não deixar o caldo entornar”, mas a transformar o que está na “panela” em “sopa que se possa comer”.
Só que isto acaba por ser muito mais difícil do que parece, porque muitas vezes os próprios técnicos têm as suas próprias vulnerabilidades, muitas vezes têm outras preocupações, muitas vezes eles mesmos não têm espaço interno para receber o outro porque esse espaço está ocupado por outras coisas.
Mas não podemos deixar de afirmar que o nosso papel está em aumentar a resiliência e não em aprofundar a vulnerabilidade, mesmo com todas as dificuldades que isso possa trazer. Manter isso em mente no nosso quotidiano profissional é estarmos mais perto de efectivamente ajudarmos as pessoas a lidar com a vida e com os riscos que ela necessariamente comporta.
ABSTRACT: In this paper, the author defines risk, resilience and vulnerability and explores which psychic elements should be present in order to amplify the subject's ability to cope with life's risks, using psychoanalytical concepts such as attachment, mentalisation, alpha-function, container-contained. The author then explores the influence of the family in the construction of such elements.
KEYWORDS: Risk; Resilience; Vulnerability; Alpha-function; Container-contained; Bion.