Alessandra Lemma, a autora de “Under the Skin: A Psychoanalytic Study of Body Modification”, é uma reconhecida psicanalista da British Psychoanalytic Society e tem já diversas obras publicadas nas áreas da psicanálise e da psicoterapia psicanalítica. É, nomeadamente, e em conjunto com Priscilla Roth, coordenadora do excelente “Envy and Gratitude Revisited” (London: IPA/Karnac, 2008).
No livro em apreço, publicado em Março de 2010, Lemma parte da sua já longa experiência clínica para proceder a uma aturada e profunda elaboração teórica em redor da unidade somatopsíquica, com manifestas implicações na prática clínica de qualquer psicanalista no tempo presente.
Nas suas próprias palavras, o objectivo deste livro é o de “partilhar ideias sobre como compreender os indivíduos para os quais a manipulação do corpo é vivenciada como psiquicamente necessária, mesmo que, nesse processo, seja infligida uma considerável violência sobre os seus selves físicos” (p. 3).
Para tal, salienta, como não podia deixar de ser, a importância das relações precoces e, sobretudo, do papel da mãe (ou cuidador principal) no fornecimento de sentido às desorganizadas experiências sensoriais dos seus bebés. Não omitindo a importância da realidade externa, nomeadamente das “pressões sociais” exercidas pela moda e pela comunicação social, a autora discute os casos apresentados (e são inúmeras e riquíssimas as vinhetas clínicas expostas neste livro), a partir do ponto de vista de que as “modificações corporais têm como função primordial a de ajudar a lidar com as ansiedades e os conflitos inconscientes que não podem ser elaborados”, na medida em que a “modificação corporal é a actualização, através da relação com o corpo, de uma relação de objecto internalizada” (p. 21).
No primeiro capítulo deste livro (intitulado “As you desire me”), a autora manifesta a sua opinião de que as modificações corporais de índole patológica (Lemma explicita por diversas vezes, ao longo da obra em análise, que não podemos ver toda e qualquer modificação corporal como patológica; se mais não fosse, porque todos nós, nas actividades do dia-a-dia, procedemos em maior ou menor grau a modificações corporais) têm na sua origem dois grandes tipos de fantasias inconscientes. No primeiro (a “self-made phantasy”), o indivíduo age o desejo de apropriação do corpo materno (e da apropriação da criatividade que lhe é intrínseca); no segundo (a “perfect match phantasy”), as acções de embelezamento
corporal visam a obtenção de uma estreita ligação entre o self e o objecto, num olhar de admiração mútuo.
Em “The symptom of ugliness” (o se-gundo capítulo do livro), Lemma aborda a problemática do narcisismo, da falha narcísica, colocando a ênfase na importância do toque e do olhar materno (e das consequências da ausência destes), a partir de uma análise da vida e obra de Mary Shelley (e do seu “Frankenstein”).
No capítulo 3 (“Mirrors”) fala-nos da mãe (e do “outro”) como espelho do bebé e aprofunda a função das trocas corporais precoces entre a díade no estabelecimento de uma representação corporal estável. Para Lemma, a representação do corpo na mente apenas depende em parte da anatomia em si mesma; essa representação depende, acima de tudo, do contacto corporal estabelecido nas relações precoces (com a mãe ou com outro cuidador primário).
Em “Being seen or being watched” (o capítulo 4), Lemma, a partir da análise da patologia dismorfofóbica, propõe uma original classificação da função especular materna. Indivíduos preocupados com um objecto interno sentido como inacessível ou indisponível teriam experienciado uma “mãe espelho unidirecional”, enquanto que os indivíduos que vivenciaram um objecto distorcido, intrusivo e hostil ter-se-iam relacionado com uma “mãe espelho de distorção”.
A questão da posse do corpo, do sentir-se “em casa” no próprio corpo, é o tema do capítulo 5 – “Occupied territories and foreign parts”. Nele, a autora propõe a existência de uma outra fantasia (a “reclaiming phantasy”), em que as modificações corporais têm como função salvar o self de uma presença alienígena experienciada como vinda de dentro do corpo. É neste capítulo, e a partir de material de sessões com um dos seus pacientes, que Lemma aborda o cinema de David Cronenberg, do ponto de vista da representação do corpo como local do agir dos conflitos inconscientes.
Uma outra fantasia inconsciente (a “self made phantasy”) é-nos apresentada no capítulo 6 (“Copies without originals”). Trata-se da fantasia omnipotente (e minada de inveja) de que é possível contornar a mãe (e o outro) na formação do próprio self. Neste capítulo são abordados os trabalhos de dois importantes artistas contemporâneos: Orlan e Stelarc. Se na “arte carnal” da francesa Orlan é salientada a tentativa de alcançar uma identidade através de processos de transformação e criação do corpo, nas obras do australiano Stelarc o que está em jogo são as fronteiras (nomeadamente a pele, claro) e as suas rupturas.
Nos capítulos 7 e 8 (“The botoxing experience” e “Ink, holes and scars”, respectivamente) é aprofundada a noção da utilização da cirurgia estética (e não plástica, uma vez que utilizada em corpos sãos) como alimento da fantasia da reinvenção do self, por um lado, e como poderosa e violenta forma de comunicação, por outro. Não omitindo que a cirurgia estética não é, em si mesma, um indicador da existência de psicopatologia, Lemma indica possíveis funções do uso de tatuagens, de piercings e da escarificação: a negação da separação ou da perda; a tentativa de separar-se; a tentativa de tapar um “corpo vergonhoso”; a tentativa de restaurar sentimentos de fragmentação interna; a expressão de queixa acusatória contra o objecto (que visa, ao mesmo tempo, puni-lo).
Ademais dos seus contributos originais, a revisão bibliográfica efectuada
(filosófica e psicanalítica) é de uma extensão significativa. Uma lacuna (metodológica?) nos intriga, porém: nesta obra, e no âmbito do tema em análise, são referenciados e citados Deleuze e Sartre, sendo esquecido, contudo, o mais importante contributo da filosofia para a teorização da unidade somatopsíquica e da corporalidade – o pensamento de Merleau-Ponty. Mais ainda porque, não raramente, expressões da autora nos remetem, de imediato, para o pensamento do fenomenologista francês.
Tal não invalida, em todo o caso, que a riqueza das contribuições teóricas, numa área ainda não muito explorada (a da corporalidade, no pensamento psicanalítico), as profundas implicações clínicas dessas teorizações e a análise de trabalhos artísticos de áreas tão diversas como o cinema (David Cronenberg), a literatura (David Ely, Pirandello, Marcel Proust, Mary Shelley, Paul Verlaine, W. B. Yeats) e as artes plásticas/performativas (Orlan e Stelarc) tornem este livro num imprescindível instrumento de trabalho para todos os psicanalistas e psicoterapeutas em actividade.
Orlando von Doellinger
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Nota: Este livro encontra-se disponível na biblioteca da Sociedade Portuguesa de Psicanálise