No início do século XXI suspeitou-se que um primeiro-ministro português mentira no parlamento. Foi gravíssimo!
Ninguém mentia em Portugal há mais de quinhentos anos (desde o tempo dos descobrimentos…)
…muito menos naquele local sagrado, onde os valores da Pátria tanto se dignificam e onde os representantes do povo sempre tão honrados se mostram!
Enquanto vivos, os seres humanos irremediavelmente se relacionam e comunicam. Nem poderiam deixar de o fazer, sob pena de não sobrevivência. As dotações características da espécie, as forças de ligação e afastamento que geneticamente transportam, dinamizam-nos nesse sentido desde o primeiro dia, cada um lhe modelando a forma e qualidade na interacção que realiza com as suas figuras significativas: com as representações psicológicas, reais ou fantasmáticas, que delas vai fazendo. Relacionar, comunicar, projectar, constitui uma tão absoluta necessidade no ser humano que, mesmo numa hipotética ilha deserta, o seu imperativo se manifestaria. Só a vivência emocional e a rede organizativa podem variar na sua construção e exercício.
Presidente da Comissão Organizadora dos VII Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura. Psiquiatra. Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental, do Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e do Instituto de Formação e Terapêutica Psicanalítica do Porto.
Conferência proferida nos VII Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura – “Psicanálise e Cidadania (Liberdade externa… Liberdade interna)”; Porto, 5 e 6 de Novembro de 2010.
Passada a infância, na verificação de que o equilíbrio dessa comunicação pode ser demasiado instável e que as zonas agressivas podem assumir demasiado protagonismo, esses mesmos humanos apelam à racionalidade com que entretanto também se foram apetrechando. Convocam assembleias, discutem teoremas, tentam dissuadir. Buscam regras, esquemas, leis, posturas contra os lobos maus que dentro de si observam, na intenção de os pacificar. Sucessivamente propõem melhorias, divulgações e catequeses, mas de boas intenções o Inferno continua cheio pelo que a magreza de resultados eternamente os condena a recomeçar.
Tão longa prática significa que esses mesmos humanos, por norma, se mostram interessados na regulamentação apenas até ao dia seguinte. E que acabam por dosear os conceitos de liberdade e de cidadania nas suas próprias conveniências. Significa também que estes distintos elementos da criação vivem determinados por duas grandes razões: ter ou não ter armaria para se impor, ter ou não ter capacidade para creditar aquilo a que chamam as suas próprias benfeitorias. Parece difícil ultrapassar tal situação, considerando os crónicos conflitos entre as celestiais virtudes e os diabólicos defeitos com que superiormente foram dotados, conflitos que nunca tiveram competência para acalmar, muito menos para dissolver.
Recentemente, nessa necessidade de comunicação um novo instrumento surgiu: apareceu a chamada comunicação social, enroupada de elevados motivos. De faceta pioneira e técnica enriquecida, tudo avassalou em pródigo cabimento. Perscrutando os jardins da vizinhança, cultivando a irreprimível curiosidade que os seres humanos jamais conseguem dispensar, nenhuma tempestade nem nenhuma bonança passou a dispor de suficiente defesa para lhe resistir. Não há buraco, não há fechadura, não há verticalidade, não há horizontalidade que se feche aos seus intrépidos agentes. Empenhadíssimos, elevadíssimos, isentíssimos, esses mesmos agentes sempre se auto-qualificam de indefectíveis mensageiros da verdade, apesar de as más-línguas lhes atribuírem ilusionismos e mistificações difíceis de contrariar. Encarecendo estados de espírito, fomentando estimulantes certezas, a maior parte dos cidadãos tratam de colher proveito do seu iluminante fascínio, muitos precipícios demasiadas vezes descuidando.
Não queria deixar de acentuar que, efectivamente, falácias não fazem parte dessa comunicação: nem do seu motivo, nem do seu olhar. Muito menos negócios ou encomendas. O problema dos rumores, dos boatos e das conspirações, o problema das mentiras que hoje tanto preocupam
os portugueses, não provirá dessa matriz. Virá da história: da pequena história. Virá do povo, do nosso povo, desse recorrente manipulador de ocultismos e atávico ampliador de acontecimentos, a quem a comunicação social apenas revela o que ele avidamente anseia. Só invejosos e perdedores poderão assacar aleivosias à sua imaculada função, como sabiamente repetem os seus proprietários na televisão quando pelos seus pares interrogados. Resta-nos aceitar e compreender a sua tão caridosa benesse.
Ler não basta, será preciso decifrarMas decifrar torna tudo tão sofridoTão próximo dum rumor maledicenteQue quem respira só mentindo sobreviveSe a todos garantir que nunca mente.
Ao longo da História sempre existiram duvidosos compromissos. Talvez até se possa garantir que na face oculta sempre se conspirou. Relativamente a castelhanos, sarracenos e outros inimigos da pátria e da fé, sempre se congeminaram limpezas em excursões punitivas. Dignamente assim fomos educados, nada temos para retorquir. Do estranho ao diferente era um pequeno passo, do diferente ao perigoso outro pequenino passo se seguia, do perigoso ao inimigo era só mais um saltinho de pavão.
Conspirava-se contra tudo que fosse estranho e diferente, em fronteiras estabelecidas. Contra quem estivesse do outro lado da barricada, contra quem dispusesse de poderes menos divinos do que os nossos, contra quem só torturado pensasse como deve ser, contra quem boas dízimas não pagasse… pelo que se compreenderá que as suas indulgências se tenham fortemente enraizado nas nossas tradições e costumes. Intolerâncias, unicidades, ditaduras, inquisições, fizeram de tal modo escola que inconscientemente sempre subjazem, mesmo que, entretanto, assinaláveis melhorias também tenham aparecido: grandes humanismos aconteceram e as mortandades muito se reduziram, mesmo que as mentalidades pouco se tenham modificado.
No trajecto, muitas rudezas se disfarçaram. Armarias de nova geração sofisticaram tarefas, diplomacias doutros alcances salvaguardaram atitudes. Textos, canetas, dizeres, em boas mãos recrutados e por competentes
gargantas desferidos, substituíram os morticínios. Hoje, na praça pública, já não morre ninguém. Contra os usurpadores, contra os inimigos da fé, contra os propriamente ditos, não se costumam ver duelos nem tiroteios a céu aberto, salvo nas destruições maciças onde mudam de nome e passam a chamar-se terrorismo. As conspirações transformaram-se em teorias. Plenas de sofreguidão e da pressa, apenas emitem intrigas e aludem cadáveres, em cemitérios de alta romaria. Novidades perfumadas, seguranças taurinas, sacralizações temporais, entranharam-se na relação das pessoas e nos seus violentos modos de comunicar, mas todos continuam vivos. Mesmo os vizinhos mal comportados que nobremente lhes acrescentam os últimos condimentos.
Nesta nova condição, usurpadores e contra-usurpadores obrigam-se, na mesmíssima moeda e na mesmíssima reciprocidade, às mais altissonantes vozearias e às mais abundantes concorrências. Não matam ninguém (a vida está cara, pode haver juízes mal dispostos), mas assertivas crepitações por toda a parte vociferam. Avançam palpites, montam esquemas, inventam culpados, convocam imprensas, agregam sondagens, manipulam fraseados, dramatizam apresentações, num frenesi de profundas certezas, à noite confirmadas pelos amigos na televisão. Orgias de palavras, às vezes de afirmações e negações em simultâneo, resplandecem com tal propriedade que ao cidadão comum só resta agradecer. As mãos não estarão muito limpas, por vezes até muito se escondem (não por medo, obviamente, que as fortes dotações hormonais continuam a borbulhar), mas isso pouca importa.
Nesta mentalidade, poderá lamentar-se que grande parte da cidadania se haja perdido. Que aquele pendor intimista que a distinguia e aquelas elegâncias e discrições que a caracterizavam, tenham emigrado para parte incerta. Mas isso também pouco significa. Falar alto e mostrar inquietantes sinais de obesidade no relato das viagens às Caraíbas talvez não seja muito de aplaudir, mas criticar não se deve, considerando a felicidade exposta.
Foi também neste clima que alguns antigos oráculos se refizeram e novos actores surgiram. Apelidados de fazedores de opinião, insinuando, farpeando, sussurrando, em glorificações da corporação ou de si mesmos, passaram a modelos de inteligência. Às vezes a modelos de toupeirice, na insinuação dos mal-agradecidos. Nunca inventando, nunca mentindo, nunca vendendo, candidamente seguidos pelos que não dispõem da sua dotação e que apenas se lhes identificam no formato, transformaram-se em capacíssimas pitonisas, especialistas na decifração dos enigmas
por si próprios criados. Todos sabem de tudo, todos conhecem de tudo, numa abundância de povo superiormente dotado. E todos dizem mal de tudo, embora os ouvintes mais atentos possam exactamente prever o que dirão muito antes de os ouvir.
Em certa medida, tais fazedores de opinião ressuscitaram outro clássico dos portugueses. Ressuscitaram o conto do vigário, figura de grande sucesso desde o tempo dos descobrimentos e que aparentemente se havia perdido, em dois pontos o modificando: no ganho significativo das palavras e na perda significativa de sentido de humor. São eminentes, são eloquentes, são inteligentes, mas paradoxalmente regressam-nos ao pequenino: avolumam-nos, mas contaminam-nos. Muitos dos seus pregões acabam por fossilizar valores e memórias, num deplorável esquecimento da função pedagógica que poderiam assumir num país há séculos carenciado. País que recentemente viveu duas libertações explosivas, a do 25 de Abril e a dos dinheiros europeus, mas que ainda não encontrou o ponto certo na instrução e na mentalidade.
A parca consciência da maioria desses comentadores nem nisso pensa. Em pseudologias completamente despidas de autoridade moral prejudicam a cidadania mesmo quando afirmam pretender preservá-la. Muitos, numa correcta aferição de pesos e medidas não passariam de trapaceiros, embora pôr-se em guarda não seja fácil, como nos obrigamos a reconhecer.
Vários pontos de reflexão a seu propósito terão de levantar-se:
Quando agentes de opinião, em privilegiados tempos de antena, torcem, distorcem, inventam, confabulam e mesmo assim predominam na chamada comunicação social, que deverá um cidadão supor?
Quando impunemente espalham manhosas atoardas, que deverá um cidadão pensar da Justiça a quem nunca prestam contas?
Se a mentir são exemplos de sucesso, porque não hão-de os restantes dez milhões empreender no mesmo sentido?
Será possível criar cidadania, responsabilidade democrática e vontade de participar, numa cultura em que partes substanciais da pública tramitação vive alimentada de suspeitas, meias verdades e mentiras?
Há uma indesmentível relação entre liberdade interior, verdade e cidadania.
Há uma indesmentível relação entre liberdade interior, elaboração do tempo pessoal e satisfação de viver.
A qualidade da comunicação define a Saúde Mental dos humanos: revela a Saúde Mental duma República. A carreira da má-língua
engrandece mas desconsidera esta indesmentível contrapartida: a relação entre liberdade interior, verdade e cidadania. Esta tríade completamente se intrica no espaço e no tempo interno de cada um, conforme os psicanalistas diariamente observam.
Nunca será possível criar sentimentos basilares de cidadania numa criança que não confie nas pessoas com quem se relaciona, ou que não confie na estrutura de que carece. A Saúde Mental organiza-se nesses caminhos. Aí se bonifica ou se perde, posteriormente lhes associando as questões de Poder que, para o bem e para o mal, sempre acabam por se imiscuir. Por outro lado, estímulos repetidos, sem tempo íntimo de elaboração, podem promover eufóricas plenitudes num determinado momento, mas, ao contrário do que demasiado se anuncia, no fundo apenas geram insatisfações.
A informação, em qualquer estádio de desenvolvimento, deveria cimentar clima e condição para que essa interioridade se cumprisse. Nenhum cidadão lhe foge, porque a cidadania é muito mais do que uma aquisição política ou social e não depende apenas de direitos e regalias, ainda que da importância desses dados ninguém duvide. São as regras interiores, não as regras judiciais ou externas, que basicamente a determinam. O processo psicanalítico constantemente o sinaliza. E sinaliza do mesmo modo a necessidade de tempo interno para elaborar e de verdade para crescer. Mas isso pouco conta na debulha dos nossos dias, onde imediatismos, fantasias e invernias não se cansam de procriar.
A Net e as novas tecnologias propiciaram óptimos acrescentos. Inúmeras comunicações, afectos e territórios da sua imensa potencialidade dependem e absolutamente dela virão a depender num próximo futuro. A realidade virtual, muito para além dum inelutável processo, tomará conta dos destinos do mundo num desafio sem limites. Ao alcance de todos, no esconderijo de todos, nos interstícios dos seus assinaláveis benefícios os diálogos passarão a monólogos, transformando-a no maior preservativo do planeta. Todos correm o risco de ser enviados para um convento de grandeza nunca vista, donde a cidadania fugiu e onde todas as proximidades estarão sem estar julgando que estão. É cedo para prever, mas sem usurpadores pela frente e sem consciência por trás, batendo forte num anónimo teclado, todos os fugitivos valentes se tornam enquanto alcançam maravilhosas felicidades.
Cultivar, relacionar, conhecer, será sempre intrinsecamente diferente de percutir. Paraísos solitários, desfocagens da realidade, podem enovelar falsos aconchegos que não elaboram conflitos. Sem toques, sem
palpações, sem contágios, facilmente libertam erotismos de caixa barata e susceptibilizam festividades que tudo o resto refutam, transformando a comunicação numa agência de boatos e recalcamentos que todos os dias se fertiliza.
Nessa eventualidade, a Net pode constituir um forte reverso para a humanização que os seres humanos sempre historicamente desejaram e sobre cujo conceito evoluíram. Dificilmente trará acrescentos, nessa linha. Poluindo terrenos e fontes, pode de tal forma esconder desequilíbrios que há riscos de sufocar identidades, sem o mínimo contraponto.
Nada houve de tal importância na História, em minha opinião. Até as revelações religiosas, que tantas graças e tantas conspirações nos trouxeram, mais limitadas foram. Insinuavam o “outro mundo” mas jamais o mostraram. Na Net esse “outro” desponta, mesmo que os seus horizontes sem moldura pouca coesão transportem.
Será urgente consciencializar. Mesmo sabendo que os princípios de auto-regulação e capacidade adaptativa caracterizam a funcionalidade do seres humanos, será necessário perceber que as mobilizações só flúem quando não bloqueiam adquiridos. E que as avaliações se evaporam, nos deslumbramentos envenenados. Nesta matéria, a educação não poderá resumir-se a formatos escolares, nem a beatíficas exposições. Autenticidades terão de construir-se, uma vez que esses mesmos seres humanos sempre precisaram de saber a quantas andam, sob pena de agravarem ansiedades e temores do desconhecido. Esgotadas as ditaduras ancestrais, relativizados os antigos usurpadores, necessitam de certificações para em saúde evoluir. Necessitam de pai e de mãe como objectos de empatia, mesmo que porventura os venham a substituir, remetendo minas e armadilhas para programas de entretenimento. Desde que abandonaram as cavernas e se abrigaram em tendas por si próprios construídas, eles criaram molduras de espaço e de tempo que não podem dissolver sob pena de despersonalização. Deram forma ao chamado “sentimento de si” por entre as verdades e mentiras que aprenderam a distinguir. Indiferenciar será regredir.
Será necessário pensar. Investigações e ciências envelhecem brevemente, tempos externos e tempos internos dificilmente coincidem. O botão pode temporariamente desligar-se mas há cada vez mais gente que só na Net se forma: que só na Net se informa; que só na Net faz amor.
Suprindo as incombustíveis exigênciasDas minhas íntimas e grandiosas motivaçõesPor entre amuos, trocas e diligênciasRetiro as mais justas conclusões…
Às vezes… apetece fugir.
Estou a falar de essencialidades. A comunicação social terá de seguir os condimentos destas mesmas essencialidades, sob pena de convidativamente se enquadrar num artefacto destrutivo. Nada vingará se não operar desse modo, mesmo sabendo que os animais e plantas constantemente reorganizam ecossistemas dentro de si. A íntima “animalidade” que nos humanos produziu a chamada civilização, através dum acumular de experiências, conhecimentos e utopias, muita destrutividade inconsciente pode coligir, pondo-a em marcha chegada a ocasião.
Os primatas foram construindo sucessivos padrões. Não sabiam ler nem escrever, mas empiricamente fizeram escolhas e recolhas que, entre contradições e pronúncias, transmitiram na pradaria. Usaram a força, por isso lhe chamamos selvagens, mas na conjuntura cresceram. Hoje parecem desconhecer-se essas históricas serventias. Ciências, técnicas e maquinarias constantemente se arrogam no acabado de descobrir, como se estivessem no início do mundo. Todos os dias falham e todos os dias fomentam novas selvas (apesar dos telejornais), onde as devoradoras lianas do individualismo e do isolacionismo utilizam os mesmíssimos arremessos de antigamente, sem sequer nisso pensar.
Todos os seres vivos sofrem de vulnerabilidades biológicas e mentais. Antes e depois da nossa época. Todos convivem, todos se relacionam, todos se encaminham na direcção do Sol, mas instintivamente todos também têm medo e procuram fortalecer-se, mesmo sem pensamento organizado nem consciência da morte. Aprendem no caminho, fogem dos precipícios, evitam desmoronar-se… numa condição que se refinou nos primatas quando evolutivamente construíram o seu aparelho de pensar. Bem, mal, assim-assim, esse aparelho permite-lhes reconhecer forças e limitações na sexualidade e na agressividade; permite-lhes ponderação; permite-lhes ajuizar esforços, sacrifícios e violências, desde que o não espartilhem ou avassalem. Entre os princípios do prazer e da realidade se regula, dessa forma se organizando.
Mas, nesta altura, tal regulação parece não funcionar. Nada se cuida nem nada se avalia. São banais ausências de leitura e falsidades mascarando insuportáveis narcisismos. Verdades universais merecem muito menos destaque do que ridículos atrasos de vida, fervorosamente propagando negações e absurdos sustentados em sub-reptícios poderes e usufrutos.
Se dentro das pessoas tal narcisismo não pode assumir absolutismos sob pena de psicose, nos grupos será diferente. Autênticas clivagens podem sobressair, no maior desprezo por dúvidas, dívidas e pagamentos. Exaltam-se figuras, ocupam-se territórios, embrulham-se multidões, com a maior das naturalidades. Cada boato galhardamente contribui para esquecer outras motivações. Os coros iludem-se sem semente nem grão, vingando, comendo, forjando, nada interessados em amortizar as inenarráveis ofensas à inteligência com que inúmeras vezes são ornamentados. Gozam do inefável mistério dos lobisomens que na infância nos assustaram, mas simultaneamente nos encantaram.
Quando o ser humano ganha consciência da sua própria dimensão deixa de confundir idealizações primárias com realidades. Deixa de mascarar-se a esse ponto. Amplia a sua liberdade interna de pensar, nela assentando os seus sentimentos de cidadania. Nesse estádio, os rumores serão empecilhos, não mentalidades. Ansiedades e medos podem regressar nos períodos de insegurança, mas tendencialmente não se confundem partes de cima com partes de baixo, nem as partes com o todo. Distingue-se, procura-se distinguir, há necessidade de distinguir. A criança tem necessidade de distinguir e de idealizar para que os seus fermentos naturais panifiquem correctamente, problematizando- se quando desidealiza cedo demais ou quando a mentira se converte na sua propensa idealização. Interrogando novamente:
Rumores, boatos e conspirações não traduzirão frustrações íntimas do portador?
Aqueles longínquos e ameaçadores poderes com que nos inundam, aquelas disponibilidades para emitir anúncios terríveis com terríveis consequências, não sinalizarão zonas “infantis” que conviria analisar?
Quem nos salva, como às garotas de Orléans?
“O Rumor de Orléans” dispõe de todos os ingredientes para uma boa conspiração: práticas ocultas, poderes misteriosos, sexo desbragado.
Desse rumor originário ao rumor político-social vai um pequeno passo…
No momento certo, surge o desejo de na festa participar.
Vale a pena referir “O Rumor de Orléans”, romance de Edgar Morin , como modelo comparativo e explicativo. Em Maio desse ano espalhou-se pela cidade que seis lojistas de roupas femininas estariam envolvidas em tráfico de mulheres. Jovens bonitas teriam sido sequestradas e em sítios esconsos injectadas com drogas e forçadas a práticas sexuais. Esperariam quem as salvasse. As mesmas lojistas, todas judias, teriam colaborado na construção duma passagem subterrânea para o rio Loire, onde nos seus sumptuosos barcos os mentores do negócio realizavam deslumbrantes orgias. Orléans entrou em pânico. Pais, namorados e similares terrivelmente se angustiaram, embora ninguém conhecesse nenhum canal, nenhuma rede de prostituição, nem nenhuma polícia registasse queixas de coisa nenhuma.
Será assim, no meu bairro? Não me parece.
Os rumores, boatos e conspirações em Portugal também normalmente começam por alusões sexuais, a que mais tarde se adicionam corrupções e mistérios. Mas há diferenças substantivas. Em Orléans criara-se uma situação aguda, criminosa, sentida como corpo estranho, num clima que supunha Saúde, Justiça e Cidadania em condições funcionantes. Entre nós, tudo se inscreve numa situação particular e diferente, secularmente instituída, onde crónicas mitologias e clássicas frustrações gozam dum clima especial para se propagar. Matar sarracenos era o máximo, na minha escola. Eticamente irrepreensível, constituía o maior heroísmo e o maior sinal de portugalidade. A sua tese e o seu serviço continuam, em batalhas que já não alvejam ideologias: alvejam mercadorias.
Há uma relação directa entre Cidadania, Política, Saúde, Educação e Justiça. Todas as teorias da conspiração, de grau caseiro ou universal, mesmo as mais susceptíveis de análise judicial, contêm algo de paranóide pessoal ou colectivo a inspirá-las. E supõem cursos, desvios e frequências que dependem dos caldos culturais e das oficinas de montagem. Desconfianças facilitam motivos e propagações. É muito fácil, numa sociedade
livre e aberta, atribuir eventos pouco explicáveis a mafiosas intenções. Mas isso resolve-se rapidamente. Entre nós, nem é a liberdade externa que se move ou se põe em causa: essa oscila mas mantém-se. É um estado de espírito ancestral que especificamente as desperta e cronifica. É uma liberdade interna mal construída, é uma imensa dificuldade de consciencialização que ao menor ruído se descompensa, num atropelo indecente, só justificável por um empobrecimento estrutural. Cada rumor, cada boato, cada conspiração encontra um receptor previamente preparado e aceitante, que o vai engrandecer e multiplicar no seu invejoso contentamento: que numa antecipada certeza “verdadeiramente” vai concluir.
Em casa, na escola, na rua, no clube, nos jornais, mais catastroficamente ainda nas televisões, todos distorcem e em simultâneo garantem que estão a prestar um grande serviço ao país: estarão a matar os malvados sarracenos do passado. E cada grupo se afadiga contra as conspirações dos outros, em plena consciência. Às vezes em oficiais compromissos.
No meu bairro, na minha República, no ano do seu Centenário, um sujeito matou a vizinha para a roubar e vingar-se dela não lhe ter vendido um terreno. Semanas de investigação conduziram até ele: tentara usar cheques da vítima, tentara utilizar o seu cartão de Multibanco, numa escuta telefónica até tudo revelara a um familiar. Confrontado, indicou o poço para onde tinha arremessado o cadáver, local que só ele podia conhecer. Alegado réu dum alegado crime, foi alegadamente preso e alegadamente julgado. Mas foi absolvido por falta de provas, uma vez que se remeteu ao silêncio e os dados obtidos na instrução do processo não fazem fé se não forem confirmados perante o juiz.
Sem perceber, a minha cidadania, alegadamente pouco civilizada, timidamente interroga se aplicações literais e mecanicistas dum código civil farão verdadeira justiça… se aplicações destas não traduzirão inconcebíveis fantasmas pessoais ou colectivos… se sentenças deste calibre não confirmarão temerosas limitações de quem julga… se jurisprudências deste teor não poderão acabar com qualquer tipo de cidadania… para resignadamente concluir: que perceberei eu de Justiça para estar aqui a teorizar?
Mesmo assim, como judicialidades sem justeza me parecem duma injustiça sem fim, pergunto por onde andará a capacidade de pensar?
Por onde andará a capacidade de julgar na minha República?
Toda a gente gosta de filmes onde os escravos se libertem. Mas numa rede de escravidão se podem deixar embrulhar, sem dar por isso.
Dependências judiciais, dependências educacionais, dependências comunicacionais, quando superlativamente irrazoáveis escravizam os intervenientes se não houver “ousadia” para resolver. Quem alegadamente pensa e quem alegadamente esconde, quem vive num país onde tudo pode acontecer “como se…”, onde verdades fundamentais e baratíssimas astrologias se valorizam do mesmo modo, onde existe um medo claro do exercício do Poder e onde as sapiências judiciais comunicam por subterfúgios, onde juridicamente se legitimam simulacros, onde os rumorejos são estruturalmente diferentes do “Rumor de Orléans”… timidamente terei de continuar a interrogar:
Será isto distúrbio passageiro?
Sinalizará desenvolvimento, uma vez que ainda há pouco tais alegações nem sequer se concebiam… ou será um processo destrutivo das humanidades essenciais?
Que pode esperar-se duma Republica onde a cidadania pode abandonar a responsabilização das pessoas e funcionar apenas externamente, através de direitos e tolerâncias?
Não haverá uma profunda carência de cidadania em Portugal?
Não traduzirá tudo isto uma íntima dificuldade de exercício de Poder… um exercício prejudicado pelo que costumo designar “O Édipo dos pobres?
A criança precisa de gostar da autoridade para se construir…
…atrofia os seus sentimentos de responsabilidade e cidadania se essa autoridade não for mais do que um fálico sistema…
…ou se não for mais do que uma sombra, de contornos indefinidos.
Todos interrogam o Poder e o processo de lá chegar: a maneira de o sentir e a competência para o realizar. Épocas entretidas na ruminação de dores por si próprias criadas interrogam mais ainda. Todos o desejam e para isso se agilizam, condicionados pelo formato em que o viveram e dentro de si construíram. À sua maneira, cada um envia mensagens e configura soluções melhores que as do vizinho, salientando as dificuldades no equilíbrio da função. Mas o seu exercício poderá intoxicar-se com elementos que o tentem anular ou torná-lo absoluto. Passará a ser,
neste último caso, um Poder pelo Poder, mesmo porventura exercido em nome da Democracia, da Justiça ou da República.
Quero com isto dizer que haverá sempre potenciais obliquidades na representação mental dos agentes quanto ao Poder e potenciais tortuosidades quanto à forma de o agir e avaliar. E que as relações com a autoridade nunca serão lineares nos indivíduos ou nas sociedades, dado poderem conter inconfessáveis desejos, em disparo automático. Mas quem se prejudica é o cidadão se a sociedade se aliena, convirá lembrar.
Salientaria a importância das arquitecturas mentais da infância e das respectivas projecções. Quem não teve ocasião de gostar da autoridade nem de com ela se identificar, facilmente se angustia e aterroriza. E à defesa procede, como a clínica psicanalítica diariamente certifica. Encenações, imediatismos, medos, narcisismos, constantemente lhe aprontam zonas de esconderijo. Será preciso gostar da autoridade para com alguma solidez organizar as instâncias psicológicas onde o Poder circula: os três Supereus: paternal (maternal), social e religioso. O primeiro (familiar) será sempre fundamental. Tentar desarticulá-lo será negar as humanas consistências do desejo, da crítica, da avaliação e do cumprimento.
Quando se confunde o pluralismo democrático do exercício do Poder com essa organização interna, falseiam-se aquisições e afogam-se essencialidades. Será útil lembrar que as patologias narcísicas e caracteriais que daí resultam espontaneamente nunca se curam. Apenas por momentos se recolhem, recomeçando a seguir. E saber que, quando as correntes de comunicação se convertem na sua negatividade, informar deixa de ser perceber: passa a ser suspeitar e temer.
Hoje, suspeitam-se corruptos e mercenários em todas as esquinas. O princípio da incerteza tudo justificará. Caricatura- se uma democracia que, apesar de superiormente escrutinada, se intoxica e atrofia, afastando-se do pensamento livre que a devia caracterizar. Nas infinitas capacidades de pensamento que a espécie humana transporta (evoluímos através da reflexão, não através de alongamento de braços para treparmos melhor) passam a sobressair narcisismos expansivos, transformados em globais armas de arremesso.
Sem a amplitude que uma verdadeira liberdade interna faria supor, limitados em espartilhos e confusões, às vezes penso que deveríamos interrogar as crianças e os analfabetos. Talvez eles nos possam ensinar um melhor funcionamento da autoridade, com maior naturalidade e saber.
De manhãzinha suspeitoDurante o dia resmungoÀ noite já tenho a certeza:Tramaram-me debaixo da mesa.Na cama pouco adormeçoMal acordo recomeço…
Tudo isto é extremamente difícil de corrigir. Depende muito, como desde início venho dizendo, da forma como se comunica e se prestam informações. Quem não conhece a tabuada psicológica está sempre próximo de se distrair. Facilmente permite que a estrutura lógica do boato e da conspiração ocupe os espaços destinados à estrutura lógica da multiplicação e da divisão. Passa directamente do jogo infantil para mentiras e desconfianças, onde sem curiosidade nem disputa impede a regra fundamental: impede a regra de três (eu, o meu pai e a minha mãe), estreitando todas as equações que daí resultam.
Quem analisa interiores observa que muitos elementos da identidade, tal como muitos elementos da cultura, não são visões epocais nem artifícios de economia. São de sempre, são de todos, embora hoje pareça necessário recordar as diferenças, as triangulações e os verdadeiros contraditórios. Há horizontes que todos desejariam afagar, na relação e na comunicação. Quando algo de mau acontece as especulações são inevitáveis, mas as fragilidades narcísicas e depressivas só tomam conta do guião conspirativo se as desconfianças predominarem.
A primeira conspiração da História foi a conspiração dos filhos contra o pai. Os filhos pouco pensavam, mas tinham um desejo: o desejo de vencer esse pai, que por ser “dono” do objecto sexual lhes bloqueava essa faceta instintiva. Diferentes dos quadrúpedes da savana, esses filhos já promoviam correrias em busca da identidade, já organizavam hordas primitivas, já caminhavam erectos e altivos, mas a mãe-mulher não lhes pertencia: pertencia ao pai que a não repartia. Tudo começou nesse conflito. Nesse Édipo normal, sem manual de instruções. Nas vicissitudes e desempenhos havia competição e morte contra um alvo comum, mas tudo era directo e significante: era o poder do outro, era o sexo do outro, era o desejo de lhe ocupar o lugar.
Foi esse também o primeiro boato da história: o boato de que o sexo do pai impedia o sexo do filho. Todos daí derivam. Derivam do pressuposto de que para usufruir será necessário liquidar quem usufrui. O mesmo hoje se verifica, com uma leve diferença: os primitivos sabiam o que queriam e sabiam quem era o pai, enquanto agora, mal definido e de duvidosa competência, esse pai é uma sombra. O desejo inicial transformou-se na inveja de cada um e na tendência a contornar.
Não dispomos da perspectiva directa desses primitivos. Acrescentamos poeiras, retiramos elementos, confundimos processos. Trivialidades perverteram curiosidades, infantilizações deturparam projectos, máscaras avalizaram buracos e fechaduras. Retirados símbolos e figurantes restam-nos Édipos enfraquecidos e artefactos em rede, onde os derrotados de antemão aceitam qualquer boato para se tranquilizar.
Boatos e conspirações emergem dum Édipo enfraquecidoAlimentam-se na raiva dos batidos de antemãoSão holofotes do medo nas trevas da informação.…Na terra onde tudo se inveja, queimar é florescer…Na terra onde tudo se mede, suspeitar é viver…Na terra onde tudo se teme, confrontar é perder…
Boatos são necessidades de quem ilusoriamente crê: de quem parte batido para as necessidades de confrontação. De quem chega ao conflito edipiano derrotado e subserviente, impedido de jogar na dimensão dos outros. Mistificando cidadanias, viajando em segunda, boatos são fraquezas em estado puro, passe o paradoxo. São coisa de súbditos, não de cidadãos. Traduzem falhas na liberdade interna e avalizam a dimensão medíocre que demasiadamente nos frequenta.
Avaliações nada contam no seu edifício, uma vez que funcionam como anti-depressivo genérico, de distribuição gratuita. Sem receita, sem farmácia, tranquilizam o imaginário de autores e consumidores. E quem não consumir não presta, porque só eles compensam. As pessoas só existirão porque os compram e mostram, ainda que completamente se vendam. Para impressionar, para exibir, para destruir, numa sociedade que prioritariamente conta números e objectos, os rumores deliciam. Quem vier atrás que resolva.
De entre os frequentadores do planeta, os seres humanos são os únicos capazes de viver na ficção, tanto quanto nos é possível saber. São os únicos capazes de ficcionar aparências e realidades a si próprios se ficcionando. Dessa maneira auto-justificam limites e frustrações, mesmo que se infantilizem. Nessa via fomentam a mais absoluta contradição entre as amplas liberdades externas que preconizam e as estreitas liberdades internas em que acabam por se fixar. Mas como veiculam ilusões sobre o desejo, não a verdade do desejo, dissolvem camadas significativas da consciência e no caminho vão arquitectando aliciantes omnipotências.
Freud dizia que os grupos nunca desejam a verdade: desejam ilusões que os exaltem, porque sem elas nem poderão viver. O espectáculo terá de continuar, as competições perdidas terão de ser esquecidas. Só uma alteração estrutural pode desacelerar tal movimento, sem que isso deva significar posicionamento angelical ou anulação da agressividade que se mantém como inerência. Apenas será utilizada doutro modo.
Será preciso Arte e Pedagogia para evoluir no actual descrédito. Não no sentido repressivo, obviamente. Antes abrindo-se ao novo tempo, ao novo desafio e às novas potencialidades, numa abertura que possa elaborar as actuais obliquidades e que as possa orientar para responsabilizações confiantes. Evoluir é preciso, numa atitude confiante.
Rumores, boatos e conspirações nascem, são aceites e propagam-se em terrenos de mentira, inveja e desconfiança. São “coisas mentais”, secundariamente transportadas para a sociedade civil e para a prática política.
A liberdade interna e os sentimentos de cidadania dependem muitíssimo do clima relacional em que o ser humano cresce e se movimenta.
A liberdade externa e os direitos político-sociais são elementos vitais na organização dos humanos mas, só por si, não formam cidadãos: quando excessivos até os prejudicam.
A arte de governar necessita de Poder para se cumprir: poder que lhe é fornecido pela cidade, pelos cidadãos e pelo clima que os envolve.
A arte de crescer necessita de poder doutro tipo. Necessita de poder-sentimento, organizado na infância, convertido em responsabilização e justeza. Cada pessoa lhe faz a gestão e nisso consigna muito do que para si e para a sua República pretende.
Na articulação das artes de crescer e de governar, assenta uma terceira: a arte de fazer política, que conjuga sonhos, poderes e desenvolvimentos. Quando as primeiras falham, nessa terceira instalam-se desconfianças: geram-se rumores, boatos e teorias da conspiração.
Só a conjugação dessas três artes pode propiciar uma lenta e progressiva mentalização da cidadania. Nessa obra, mais sentida do que propagandeada, será impróprio misturar características humanas com características de mercado, ou confundir economias psicológicas com economias sociais.
Entre nós existe um problema de fundo, que tudo agrava: foram séculos de carência dum povo fraco e emagrecido, artificialmente engordado em tempo curto pelas hormonas de crescimento europeias.
Três proposições os psicanalistas encontram na clínica:
Rumores, boatos e conspirações nascem, são aceites e propagam-se em terrenos de mentira, inveja e desconfiança. São “coisas mentais”, secundariamente transportadas para a sociedade civil e para a prática política.
A liberdade interna e os sentimentos de cidadania dependem muitíssimo do clima relacional em que o ser humano cresce e se movimenta.
A liberdade externa e os direitos político-sociais são elementos vitais na organização dos humanos mas, só por si, não formam cidadãos: quando excessivos até os prejudicam.