Uma primeira palavra para quem nos acolhe com tão habitual gentileza que existe o risco de a considerar um dado adquirido. Não é. Obrigado, portanto, à Fundação Engenheiro António de Almeida. Acontece que uma das características mais deprimentes do nosso quotidiano é ausência de rostos, vivemos numa selva de instituições anónimas, servidas por autómatos com sorrisos de plástico e o vício de nos considerarem números sujeitos à equação custo/benefício. Por isso, com alívio, honrado mas não surpreso, saúdo o Dr. Fernando Aguiar-Branco, homem de cultura vasta, educação esmerada e braços abertos a este tipo de Encontros há muitos, muitos anos. Peço-lhe que acredite: é um prazer e uma responsabilidade tê-lo na plateia.
À Organização agradeço o convite, pela confiança no meu trabalho que carrega, generosa. Se é verdade que reencontro sorrisos de outrora e boas amizades, infelizmente descuradas pelo ritmo frenético a que navegamos, não o é menos que esses laços não diminuem o grau de exigência indispensável ao nível científico a que uma audiência tem direito. Mesmo num país em que campeia o péssimo hábito de quase todos se acharem habilitados a falarem de quase tudo… Espero não vos desiludir.
Mas habita a Organização quem mereça um agradecimento mais antigo e profundo, que não morrerá com a cerimónia de encerramento ou o esmaecer da recordação deste dia. O Dr. Jaime Milheiro não se limitou a confiar em mim para comentar o belo naco de prosa com que nos brindou, a ele devo estar em condições de pelo menos tentar corresponder a este honroso convite. Vinte e dois anos depois, repito as palavras que lhe
Médico Psiquiatra. Professor Universitário.
Comunicação apresentada nos VII Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura – “Psicanálise e Cidadania (Liberdade externa… Liberdade interna)”; Porto, 5 e 6 de Novembro de 2010.
dirigi no meu Doutoramento: obrigado pelo que fez, se não cheguei mais longe e fundo no seu divã, a responsabilidade foi seguramente minha.
Debrucemo-nos então sobre conspiração e boato. Este possui todos os condimentos para aguçar o apetite de um regente de Antropologia Médica aposentado. Dunbar escreveu um dia que “é bom para nós. Talvez seja o desenvolvimento e o equivalente do mútuo afagar do pêlo de outras espécies de primatas, e a linguagem humana evoluiu precisamente com esse objectivo: olear, confirmar e reforçar os laços que existem numa comunidade. Assim como os chimpanzés passam horas a afagar o pêlo uns dos outros, os seres humanos sentam-se e conversam longamente – na realidade o boato preenche grande parte das nossas conversas quotidianas – e o resultado é o mesmo: um sentimento de bem-estar e pertença. Mais do que para tornar mais fácil a caça em grupo, ou para nos permitir a expressão de verdades metafísicas, a linguagem desenvolveu-se para nos permitir a bisbilhotice”.
Nas mesmas águas navega Gluckman, para ele “o boato é um jogo, utilizado pelos membros de um grupo social para manterem a coerência e unidade desse grupo. Quando as pessoas coscuvilham acerca de si próprias e de estranhos fazem julgamentos éticos sobre os comportamentos e mantêm os valores sociais do grupo. Ao mesmo tempo, o boato é um meio de controlo social: monitoriza os comportamentos aceitáveis e reforça os valores e exigências do grupo dominante. É como uma “arma social” que os membros do grupo podem usar uns contra os outros. Por isso não é inútil: trata-se de um mecanismo importante através do qual os conflitos são resolvidos ou exacerbados, os valores são mantidos e transmitidos e a unidade do grupo é reforçada. Tem funções e regras sociais, e o direito de coscuvilhar acerca dos outros não é automático: temos de verdadeiramente pertencer a um grupo antes de nos ser permitido fazê-lo”.
Na realidade, o boato é inerente à natureza humana. Da Peste Negra ao VIH/Sida cerziu as suas teias, com o resultado inevitável e desejado: o reforço da dicotomia entre bons e maus. Recordemos judeus, homossexuais, leprosos e bruxas; seropositivos “inocentes” e “culpados”; mulheres promíscuas a merecerem o diagnóstico de ninfomaníacas e homens muito machos, orgulhosamente exibindo escalpes à cintura. E nos palcos da pós-modernidade, mais as suas ameaçadoras flutuações dos mercados bolsistas, brilham spin doctors pagos a preço de ouro pelos políticos. Para nos convencerem que a imagem é mais verdadeira e merecedora do nosso voto do que a pessoa e a realidade por trás dela.
O boato é uma espécie de paranóia normal, defensiva e ameaçadora ao mesmo tempo, capaz de habitar as mesas de café ou sueca, espalhar-se à velocidade do vento e permanecer com a teimosia da mancha, um murmúrio a dois transformado em arma temível de muitos, que mata socialmente pelo ridículo exposto, as primeiras páginas a vermelho, os desmentidos a letra raquítica na página oito. O boato é, na maioria dos casos, a mentira doméstica ou globalizada por twitter ou youtube. E sabemos em que se transforma a mentira repetida sem cansaço, matraqueada, aprimorada por cada nova boca – numa verdade que cala todas as outras…
De mentira megalómana fala o Dr. Jaime Milheiro na sua reflexão sobre o estado da Cidade. Desencantada mas jamais vencida, ela não se deixa aprisionar pelo canto de sereia da auto-piedade e indica os passos a dar para lhe devolver o élan. Porque a referência aos Descobrimentos é certeira, um país inteiro mentiu a si mesmo. De forma tão exagerada e obscena que poderíamos decretar o Sebastianismo já abrigado no porão do primeiro navio a zarpar de Sagres!
Mais prosaicos e envoltos em politiquês são hoje os contorcionismos de alguns políticos, não menos perigosos para o comum dos mortais, embora escoltados pelos álibis da moda, como agências de rating, mercados, spreads ou caprichos da Senhora Merkel. Quando a ironia magoada ou a agressividade pura e dura lhes são dirigidas, entreabrimos a porta à dessacralização do Poder. E ao pensar da História, que, com o Tempo, para seguir a frase majestosa de Yourcenar, se assume como a grande escultora, que deveríamos revisitar para precaver o futuro.
A 20 de Junho de 1791 Luís XVI foi preso em Varennes, em fuga rumo à Bélgica. A patética tentativa de se fazer passar por um criado de nome Durand não resistiu meia-dúzia de minutos, ei-lo que admite a verdade: “Sim, sou o Rei; aqui estão a Rainha e os meus filhos”. Parece-me justo dizer que nesse momento de incredulidade geral começou a esboroar-se a aura do Poder, no sentido distanciador que Shils lhe atribui, em oposição ao conceito centrípeto e apelativo de carisma.
Um ano depois o povo invadiu as Tulherias e foi da boca do talhante Legendre que o Rei ouviu o impensável, um simples tratamento por “Senhor”. E perante a sua escandalizada surpresa o cidadão continuou: “Sim, Senhor, escutai-nos, fostes feito para nos escutar”. Extraordinária e assaz recente visão teleológica da Monarquia!… O desfecho é conhecido – apesar de a Constituição de 1791 decretar a inviolabilidade do Rei, ele seria morto. Dando razão ao dilema enunciado por Saint-Just: “Os
mesmos homens que vão julgar Luís, têm uma República para fundar… Não há meio-termo, este homem deve reinar ou morrer“.
Governar ou morrer… Haverá chaveta semelhante, concreta ou fantasmática, nos nossos dias? Ou teremos de nos adaptar a outras, bem mais comezinhas? Ao menos governar versus não governar? Não é o que os boatos afirmam acontecer em muitos casos. Sussurra-se por aí que, em rápida sucessão temporal e sem período de nojo, ou ainda se governa ou já se mergulhou num qualquer Conselho de Administração, para o qual a passagem pelo Poder e o crescimento obediente numa Juventude Partidária são dados curriculares suficientes.
Porque o Dr. Jaime Milheiro tem razão: sendo a vida relacional o nosso destino, a racionalidade deveria arvorar-se em freio severo e óbvio do egoísmo primário. Acontece que abastardada, namorando a psicopatia, ela serve também para manipular os outros e os factos no sentido das nossas conveniências. Oficialmente mantém-se ao serviço da Cidade; na prática persegue objectivos pessoais numa sociedade individualista e de consumo.
Grossa asneira seria reduzir a discussão à Política stricto sensu, pois não baptizámos de quarto poder esta comunicação social globalizada e omnipresente, que ora faz tremer de medo, ora se constitui em ferramenta imprescindível à venda de ilusões e compra de todo o tipo de mercadoria, incluindo o voto? A sua relação com o Poder Político vem de longe e não por acaso. Goffman fala de espaços de visibilidade (a cena), visibilidade restrita (os bastidores) e não visibilidade (secretos). Amiúde, o Poder aspira aos últimos para não ser escrutinado por olhares, dúvidas, exigência éticas. Mas outras vezes, não apenas se exibe como manipula a imagem e os teoricamente imutáveis “factos”. Seguindo Foucault, na esteira da sugestão de Bentham à Assembleia Nacional Francesa sobre a arquitectura do meio prisional, poderíamos falar de uma imprensa filha do Poder e panóptica, ou seja, derramando o olhar sobre todos nós com o objectivo de nos controlar.
Os exemplos históricos não faltam. Em 1631, Renaudot criava a Gazeta de França, sob a protecção de Richelieu, que lhe atribuiu o direito de exclusividade. E escrevia muitos dos artigos… Em 1945, o General De Gaulle apadrinhava o Le Monde. Estes tipos de instrumentos só na aparência perscrutam o Poder, na realidade fazem parte dele. Ou seja: não se arvoram em paladinos de um olhar sinóptico – dimensão esquecida por Foucault… – da periferia desfavorecida sobre o centro privilegiado, mas dão ao Poder os meios para uma verdadeira meditação sobre si mesmo, quem o rodeia e bajula ou ameaça.
Muitos dos média deixaram de ser “subsídio-dependentes” e ligados ao poder político, geram lucros para diversos pólos de poder económico. Daí a necessidade de um equilíbrio entre a cumplicidade e o “pão e circo” – essa extraordinária expressão de Juvenal… – que acarreta as audiências e os respectivos patrocinadores, indispensáveis à sobrevivência do “espectáculo informativo”, estranho conceito que vem ganhando terreno e espaço de antena. Consequência? Uma relação ambivalente com o Poder, e uma tensão permanente entre a ajuda a fontes de informação privilegiadas e a exposição das suas arbitrariedades aos que delas são vítimas.
E arbitrário é o “diagnóstico” de conspiração, outra palavra cara ao Dr. Jaime Milheiro, pois não se diz que varia segundo os caprichos dos vencedores? Ao longo da História sempre se conspirou contra Poderes desejados e diferenças temidas, a Psicanálise conheceu bem as garras afiadas da xenofobia. Mas afinal o que é uma conspiração nas páginas de um dicionário, avessas a angústias existenciais? Uma trama contra o Chefe de Estado ou membros do Governo; conluio, maquinação. E de novo a pergunta se impõe? Quem decide da sua legitimidade? Lembremos o exemplo do Julgamento de Nuremberga e a conspiração de silêncio entre os juízes para manter a Rússia fora da acusação sobre o massacre de Katyn. E cantaria a minha geração o Hino da Restauração na Escola Primária se o azarado Miguel de Vasconcelos escapasse à famosa defenestração?
E porque mencionei a Psicanálise – O Comité Secreto, instaurado em 1912 por iniciativa de Ernest Jones, verdadeira guarda pretoriana de Freud, conspirava ou definia conspiradores a anteriori e posteriori (Adler, Stekel, Jung, o príncipe-herdeiro ariano)? Quando o grupo alemão e parte do inglês se opuseram ao húngaro, Freud hesitava e cartas amargas se cruzavam em todas as direcções, quem conspirava contra quem?
Mas regressemos a este jardim à beira-mar plantado, será crível que o Poder eleito conspire num regime democrático? E um eventual núcleo duro do Poder? A troca de acusações bem pouco edificantes acerca das eleições na Distrital de Coimbra do PS dá que pensar. Quem afirma aos quatro ventos ter sido abordado para não concorrer a troco de lugares com remunerações tentadoras, acrescenta candidamente (?) que ganhando nada diria. Para não comprometer uma conspiração que salvaguardaria a imagem – e o poder… – do Partido, valores mais pragmáticos do que os éticos. E a propósito de terrorismo, também referido pelo Dr. Jaime Milheiro – o de Estado morreu com Robespierre? O que acontecera em
Munique ao pobre Chamberlain, orgulhosamente exibindo no regresso a palavra de Hitler em frágil papel, “paz no nosso tempo”? O que foi a conferência dos Açores, se não o encontro de quem alimentou a xenofobia para mentir? Mais – houve naquele encontro conspiradores de primeira e segunda, leia-se convidados mentirosos e crédulos anfitriões? Os números estão à vista – a mortandade não se reduziu no século XX, basta recordar duas Guerras Mundiais, o Vietname e agora o Iraque.
Não admira, mais uma vez o Dr. Jaime Milheiro tem razão, as mentalidades pouco se modificaram. Recordo o sorriso do meu Mestre Carlos Lima. Dizia ele que as nossas colunas vertebrais pagavam um preço exorbitante pela arrogância da bipedestação, já que não passavam de estruturas típicas de quadrúpedes sujeitas a um esforço inesperado. E psicologicamente? Estaremos preparados para a tecnologia que permite, por exemplo, matar à distância ou assassinar um carácter na Net? Talvez a racionalidade e a Ética abram fendas em determinadas situações que acicatam sombras acoitadas em todos nós, oferecendo-lhes a tentadora maçã do anonimato.
Anónimos não desejariam ser os “fazedores de opinião”, quando pensamos os oráculos como seus antepassados apetece perguntar quem iniciou o processo de triste degenerescência do Mistério. Porque os “oráculos” actuais perderam a dimensão ritual, o sentido colectivo, mesmo o significado ambíguo, já ninguém nos diz “refugiem-se em casas de madeira”. Os fazedores de opinião afirmam e não recuam perante o desmentido dos factos, limitam-se a afirmar o contrário na semana seguinte, sem recear a falta de credibilidade. Talvez por estarem mais preocupados com a tirania das audiências, veja-se as transferências milionárias de comentadores políticos e desportivos. E a Ética sofre em silêncio, um deles anunciou candidatura alheia à Presidência da República, ao arrepio das mais elementares regras de educação e solidariedade para com quem o indicou para o Conselho de Estado. Apenas por não resistir a um furo jornalístico, talvez escutado enquanto saboreava uma vichyssoise…
Tudo parece resumir-se a encenações e requebros tácticos, como se viu no Orçamento, dir-se-ia que as Legislativas já se disputam, ainda em contagem decrescente para as Presidenciais. Espectáculo e Poder, de resto, atravessaram os tempos lado a lado. Se durante a República Romana os Jogos eram actos privados, a partir do século I a.C. o Estado tomou-lhes as rédeas na mão e utilizou-os a seu bel-prazer. Em França, o Rei, durante o ritual de coroação, tocava os populares, a frase não engana sobre a intimidade com o Divino – “o Rei toca, Deus cura”. Com
Luís XIV a dimensão sinóptica reduziu-se, tudo acontecia em Versalhes, mas durante a Revolução Francesa surgiu a Festa da Federação a 14 de Julho de 1790, para celebrar a tomada da Bastilha e criar um sinoptismo colectivo e sincrónico que reforçava o sentimento nacional. Durkheim falaria de festa comunitária, Freud de transgressão e morte do Pai com a execução do Rei. Hoje, os cenários instalaram-se no quadrado mágico em nossas casas. Obama, apertado nas sondagens, aparece no Daily Show de Jon Stewart e diz a palavra proibida a quem fez do sonho da cidadania generalizada a matéria-prima da vitória – “but…”.
Mas o que é a Cidadania? A qualidade de cidadão. E este quem é, por sua vez? O Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado livre. Em que cruzamento se perderam os deveres para com a Cidade? Juntemos-lhe outros dois conceitos: liberdade interior e verdade. No seu texto, o Dr. Milheiro aborda o crescimento e as suas vicissitudes, afinal o nosso quotidiano de psis. E de imediato o nome de Winnicott levanta o dedo! Porque a confiança básica infantil liga a identidade à avaliação dos outros. O vai-vem que pressupõe é anterior à diferenciação do Eu, um espaço potencial que permite à criança suportar a ausência do cuidador e, com o recurso aos objectos transitivos, encaminhar-se para o teste da realidade no sentido freudiano e o fim da omnipotência infantil.
E depois de Winnicott reivindica Michael Balint a boca de cena. O discípulo de Ferenczi, analisado pelo fiel e prematuramente desaparecido Abraham, o pai espiritual de Malan e da Psicoterapia Breve, em pano de fundo ouve-se nome apetecido por tantos de nós – a Tavistock Clinic. O conceito de “falha básica” e dos seus três estádios – sem objecto exterior, dual e triangular –, implicava a necessidade de regredir ao segundo para abordar o terceiro, ou seja, pressupunha alterações técnicas da cura-tipo em personalidades como, por exemplo, as dos toxicodependentes.
Ouçamo-lo: “Uma espécie de “maternage psicológico” torna possível evitar a reprodução da situação traumática durante o tratamento; as relações de objecto, mais do que a interpretação, propiciam o equilíbrio (?) terapêutico. A regressão, que está em parte ligada às respostas do analista, pode ser terapêutica (“benigna”) se visar o reconhecimento de necessidades previamente desconhecidas e não satisfazê-las. Algumas formas atenuadas de satisfação (contacto físico e libidinal) ajudam a manter a relação terapêutica. O restabelecimento da relação de amor primário permite à falha básica, uma vez reconhecida, sarar. Diz-se que foi “neutralizada” quando o paciente consegue abrir mão das suas relações de objecto compulsivas”.
E falha básica é uma boa expressão para aplicar a esta Sociedade, que não suporta frustração, angústia ou tristeza e procura nos objectos externos o alívio imediato e não pensado. É o reino do Homo Faber de que falava Hannah Arendt, controlador através dos objectos e sendo controlado por eles, valemos pelo que temos e fazemos, não pelo que somos.
E por isso é bom dizer que a Net não inventou nada, apenas engrandeceu e acelerou. O amor é nela possível, a manipulação anónima torpe também. E não esqueçamos os mails, os telemóveis e as novas formas de cobardia relacional que permitem despedir o Outro e não despedirmo-nos dele. Se as drogas anestesiam o sofrimento próprio, a tecnologia evita-nos o alheio, como no Mandarim alguém desaparece por magia, longe da vista e do coração. Beauvoir tinha razão – é fácil pagar com o sangue dos outros.
Neste banho cultural, como não desaguaria o Dr. Jaime Milheiro na Educação? Mas no sentido primeiro do termo, que não pactua com depósitos de jovens ou artimanhas para esconder o insucesso e melhorar as estatísticas, a ela se deve pedir que forme cidadãos, um dia capazes de assumirem as rédeas do Poder na Cidade.
Mas que Poder? Miremo-lo – que imagem segrega? De acordo, a autoridade é sempre geradora de ambivalência, mas se vive em jogos de sombra ou é de uma arrogância invertebrada, que podemos esperar? Respeito? Não. Desilusão? Receio bem que sim. Mas a outra face da moeda nem sempre é mais animadora, o boato de que fala o Dr. Jaime Milheiro é muitas vezes alimentado por pessoas que não desejam defrontar, vencer ou substituir o Poder, mas apenas sentar-se com ele à mesa; estão prontas a aplaudir por um prato de lentilhas.
Daí a referência certeira a “Totem e Tabu”, não por acaso publicado em 1913 e explicitamente assumindo as divergências com Wundt e Jung. Demasiados filhos espirituais partiam e Freud, na minha opinião, escreveu também uma alegoria pessoal. Mas os “filhos” descritos pelo Dr. Milheiro não conspiram contra o Pai temido e amado, mais tarde morto e venerado. Limitam-se a rosnar contra irmãos que foram mais espertos, dentro da global mediocridade. No neurótico a acção encontra-se completamente inibida e totalmente substituída pela ideação, no primitivo tal não acontece, escreveu Freud. Por isso, na temática que abordamos, e ao contrário da frase que termina o livro, não poderemos nem dizer que “no princípio foi a acção”, nem que ela espreita no futuro próximo ou longínquo – o boato não a traz nos braços, é estéril e hóspede das esquinas antes de recolher a penates. O boato é o anti-depressivo, a droga legal, o útero revisitado com os amigalhaços pela mão.
Embalado pelo tema, arrisco um desacordo edipiano e atrevo-me a dizer que o Dr. Jaime Milheiro peca por excessiva bondade quando emprega a expressão Édipo dos Pobres. Porque esta gente não funciona nesse registo. Nele, é preciso encarar a figura parental e o sentimento que me parece constituir o núcleo do humano – a ambivalência. Significa isto que tal odisseia – e a palavra não é escolhida por acaso… – cabe apenas a quem olha para cima, literal ou simbolicamente? De modo algum, regressemos à História da Psicanálise:
Jung, o herdeiro não judaico e psiquiatra que asseguraria a respeitabilidade da Psicanálise, consciente do fosso intransponível que “Transformações e Simbolismos da Libido” cavaria entre si e o Mestre de Viena – em abono da verdade o fosso existira desde o início da relação… – não resistiu a uma ideação paranóide e acusou Freud de o ignorar durante a visita em fins de Maio de 1912 a Binswanger, que fora operado e sofria de cancro. Tinha nascido o famoso “gesto de Kreuzlingen”. Tudo se precipitou: a 3 de Dezembro de 1912 relacionou a réstia neurótica que Freud assumira numa das suas cartas com o facto de o Mestre subestimar o trabalho dele sobre a Libido. Acrescentou que tratar os discípulos como pacientes era um enorme disparate; que Adler e Stekel tinham sido enganados por esses truques, mas ele, com a sua franqueza suíça, continuaria a defendê-lo em público, enquanto lhe diria a verdade em privado.
Meia dúzia de cartas azedas depois, a 3 de Janeiro de 1913, Freud propunha o fim da relação pessoal entre ambos. Adler e Stekel tinham partido, Rank seguira para os Estados Unidos (esse crime de Colombo…) via Paris, Ferenczi recuou, como voltaria a recuar mais tarde, para não perder um amor paternal muito ambivalente, não esqueçamos como Freud o descrevera a Jung, aquando das férias de 1910, que tinham partilhado em Roma. Dizia o Pai da Psicanálise: “O meu companheiro de viagem é um homem estimável, mas sonhador de uma forma incomodativa, e a sua atitude para comigo é infantil. Nunca cessa de me admirar, o que me desagrada, e provavelmente critica-me com dureza no seu inconsciente quando estou relaxado. Tem sido demasiado passivo e receptivo, deixando que tudo seja feito por ele como uma mulher e eu não tenho suficiente homossexualidade em mim para o aceitar como tal. Estas viagens provocam grande nostalgia por uma mulher verdadeira.”
Não admira, de facto, que “Totem e Tabu” seja de 1913, a figura parental vislumbrava mais estilhaços no horizonte… Porque a angústia não existe apenas de um lado, a situação edipiana é ameaçadora para todos os envolvidos, o Pai receia ficar só, ver-se desautorizado ou substituído,
menos amado. Ferenczi não traiu, ao contrário do que Freud previra, nomeadamente na correspondência com Eitington. Também como resultado de uma carta hoje famosa, provocada pela sua complacência para com determinada paciente. Escreveu-lhe Freud em Dezembro de 1931: “Já que gosta de desempenhar o papel da terna mãe com os outros, talvez o faça consigo mesmo. Nesse caso deve escutar o aviso do brutal lado paterno, se bem me lembro a inclinação para os jogos sexuais com pacientes não lhe era estranha nos tempos pré-analíticos, pelo que se poderia ler a nova técnica à luz do antigo mau comportamento”. Crescer não é fácil…
E o mundo exterior parece tão atractivo!, daí as ficções reconfortantes. Os objectos internos e externos são substituídos por bens de consumo, incensados pela publicidade, que nos assegura sermos mais verdadeiros – e sedutores… – com eles na manga. As necessidades secundárias passam a primárias, diria Malinowski. Não é, assim, por acaso que o Dr. Jaime Milheiro se interroga sobre a “liberdade” externa. Sejamos claros: a busca incessante de novos estímulos e experiências é uma grilheta como qualquer outra. Mas seria um erro grosseiro reduzir-lhe a génese a processos internos, esta Sociedade alimenta-se de dependentes.
Regressemos então ao início e a outro nível da metáfora dos Descobrimentos: um país inteiro pensou que a salvação decorreria da acumulação – desigual… – de objectos externos, do ouro às especiarias. E não cresceu a partir de dentro. Os resultados estão aí. Porque com liberdade interior, verdade e cidadania, a Cidade estaria viva e o fosso entre ricos e pobres diminuiria em vez de aumentar. Mas olhando em volta, fica a triste sensação que meditar sobre de onde vimos e para onde vamos é cada vez mais tarefa de conspiradores olhados de soslaio, sobretudo se não aspiram a sentar-se à mesa do Poder ou pelo menos recolher-lhe os despojos. Que outro objectivo tenebroso perseguirão?
Neste sentido, foi um prazer conspirar convosco. Pensar, como escreveu Vergílio Ferreira. Porque quando o fazemos, o resto, como diz Hamlet e Jung atirou à cara de Freud na última carta pessoal que lhe enviou, o resto é silêncio. E os especialistas dividem-se, a palavra inglesa permite duas interpretações, falava Shakespeare das outras coisas (o resto) ou dizia que a pacificação (o sossego) resultava do fechar das bocas? Prefiro a segunda hipótese. Não por a Palavra se apagar, mas porque quando traduz o afecto e possibilita o diálogo interno e a relação com o Outro, desagua num silêncio cúmplice. E a cumplicidade, não a do boato impessoal, mas a de dois Sujeitos lúcidos e de corações abertos, incita-os ao amor e ao trabalho, por si mesmos e pela Cidade.
Amar e trabalhar… Não foi essa a resposta de Freud quando lhe perguntaram de que seria capaz o homem saudável ou bem analisado? Quem sabe? Talvez o grand seigneur vienense, escutando-nos hoje, rapasse, com bonomia, do seu decantado sentido de humor, e concluísse: “o resto? O resto é simples ruído de fundo, deixe-nos ir almoçar Machado Vaz. E você, meu caro Milheiro, estupenda conferência. Apareça Quarta à noite lá em casa”.