A autora, que tem outros escritos de índole psicanalítica sobre a mulher, publicados na Revista Portuguesa de Psicanálise desde 1994, retoma, neste artigo, o tema da emancipação feminina, numa perspectiva histórica e psicanalítica.
Começa por realçar a importância do papel de Freud, ao dar voz às suas pacientes histéricas (nomeadamente em “Estudos sobre a Histeria”, com Breuer, 1890) ouvindo-as atentamente e dando crédito às suas queixas. Assim se iniciou a “talking cure”, que veio a constituir o fundamento técnico da prática psicanalítica e a substituir o tratamento catártico e a hipnose pela rememoração e pela relação através da palavra. Embora o falocentrismo de Freud seja uma das principais críticas das feministas à psicanálise, a autora reconhece que ele traduz a prevalência do patriarcado na sociedade ocidental. A mulher teve de o denunciar para o superar.
A partir de aí, descreve as profundas mudanças que se operaram na sociedade (democracia, defesa dos Direitos Humanos, libertação da sexualidade com os avanços e expansão dos métodos anticoncepcionais e da medicina) que permitiram à mulher ficar cada vez mais autónoma em relação a sua sexualidade e à procriação. A biologia deixou de ser um destino e a maternidade passou a ser, cada vez mais, uma opção. Opção do casal para que o filho receba um apoio estruturante e complementar de ambos os pais.
Os movimentos feministas deixaram de ser radicais e são cada vez mais moderados e integrados, assim como a valorização dos pais e da família na educação dos filhos. Por fim, faz considerações sobre aspectos actuais da discriminação social que incide mais na cultura e na religião do que propriamente no sexo. Salienta a crise de valores na sociedade moderna que contrapõe o mundo ocidental ao mundo islâmico.
Pedopsiquiatra. Professora Jubilada do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, da Universidade do Porto. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, do Instituto de Formação e Terapêutica Psicanalítica do Porto e da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Conferência proferida nos VII Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura – “Psicanálise e Cidadania (Liberdade externa… Liberdade interna)”; Porto, 5 e 6 de Novembro de 2010.
A doença histérica é muito antiga, remontando a Hipócrates. A sua delimitação seguiu as vicissitudes da história da medicina e, de certo modo, com a expressão cultural que sempre teve, seguiu as vicissitudes da história da humanidade, focando na mulher e na relação homem/mulher, a expressividade simbólica que encerra.
“Histeria”, vem do grego hystera que significa útero e diz respeito a algo exclusivo da mulher, no corpo, no comportamento e na patologia.
Tudo se prestou, na dissociação da personalidade histérica da mulher, para fazer desse ícone cultural a bruxa maléfica a queimar ou a virgem imaculada a venerar. No polimorfismo da sua expressividade corporal tudo se prestou para exibir a florida psicopatologia dos “ataques”, da possessão demoníaca, dos êxtases, das aparatosas paralisias e afonias, das exuberantes mitomanias, etc. E, ao longo dos séculos, a cultura sempre os soube aproveitar ao serviço das necessidades mais profundas do Homem e da comunidade.
Desde muito cedo os amantes e os poetas intuíram, antes dos investigadores e dos médicos, o significado sexual-erótico, do comportamento histérico. Inegável o fascínio que a mulher sempre exerceu sobre o olhar masculino, mesmo escondido atrás da cortina, da máquina fotográfica, da pintura, da dissecção anatómica ou do ritual do hipnotismo. O homem sempre viu a mulher como objecto sexual. É provável que a mulher também sempre visse o homem como objecto sexual, mas a mulher traz em si essa apetência para ser olhada, para ser admirada, para se oferecer como objecto de desejo.
Nos finais do século XIX, as histéricas fascinaram os cientistas (Charcot, Breuer, Freud), que sobre elas se debruçaram para descobrir a sua misteriosa etiologia, na tentativa de encontrar nexo numa sintomatologia desordenada e imprevisível. Babinsky e P. Janet ainda se expurgaram da tentação de compreender o “incompreensível”, fazendo esquemas neurológicos a frio e empurrando para a “degenerescência” a explicação.
Não se pode negar a sedução e fascínio que tal patologia causou nesses espíritos que, embora movidos por curiosidade científica, não deixaram de ser arrastados pela corrente transferencial erotizada das suas pacientes. Charcot colocou a hipótese de haver um motivo sexual, um trauma sexual, no desencadear de tal patologia, mas não desenvolveu essa temática. Todos esses estudiosos fizeram enxame na Salpêtrière, em torno das histéricas de Charcot, atentos aos efeitos da hipnose. Charcot, o hipnotizador, também ele se exibia perante os seus discípulos. Talvez só Freud o observasse com sentido crítico! E regressou a Viena cheio
de interrogações que discutiu com Breuer seu próximo colaborador nos “Estudos sobre a Histeria” (1890-1895).
Regressado a Viena de Áustria, Freud prosseguiu o estudo das pacientes histéricas que acompanhara com Breuer, interrogou-se sobre a melhoria e as recaídas da célebre Anna O. Analisou o conteúdo do seu discurso sob hipnose, acompanhou outras pacientes e tornou-se para ele evidente a etiologia sexual de muitos dos seus sintomas. Insiste com Breuer para que investigue a causa das recaídas de Anna O. e depara-se com a resistência de Breuer e da comunidade científica em admitir o fenómeno da transferência e a etiologia sexual das psiconeuroses.
Freud prosseguiu a sua investigação contra todos os preconceitos que a burguesia vienense levantava; ficou isolado, foi alvo de ironia e escárnio. A procura da verdade norteava, todavia, o seu espírito científico. Assim, em aturadas entrevistas com as suas histéricas, seguindo-as sem preconceitos, foi sendo capaz de dispensar a hipnose e o tratamento catártico para simplesmente as ouvir e introduzir, a pedido de uma das suas pacientes, a simples rememoração dos factos – a “talking cure” que veio a dar origem à psicanálise. Aprendeu com elas, deu-lhes voz, aceitou e compreendeu o seu sofrimento, e cada vez foi mais capaz de prescindir da sugestão e estimular a reflexão consciente.
Freud deu a palavra à mulher e foi seu atento ouvinte. Deu-lhe estatuto de pessoa com história quando, até ali, a histérica não passava de manhosa simuladora, de vítima, de objecto sexual submetido ao comando do seu hipnotizador – ou para rememorar ou para recalcar o que lhe havia acontecido.
Freud acreditou no sofrimento da histérica e quis compreendê-lo para a poder curar.
Mas Freud não se libertou completamente dos preconceitos culturais da sociedade em que vivia e não deixou de ter uma visão parcial da mulher.
A histeria foi, poderíamos dizer, uma invenção do homem para classificar o seu objecto de estudo – a mulher.
Por muito objectivos e científicos que fossem os estudos não poderiam deixar de ser matizados pelo olhar masculino – a mulher foi muitas vezes apreciada por comparação com o homem, realçando as diferenças, as faltas ou seja, como uma vez escrevi, pelo negativo.
O próprio Freud, embora capaz de dar voz á histérica e atribuir-lhe dignidade de pessoa com história, só pôde interpretar a sexualidade feminina como forma menor, pela falta. Como ser castrado, movido pela inveja do pénis!
A mulher vai sendo empurrada para um lugar de subalternidade – imatura, dependente, frágil, vivendo um complexo de Édipo mal definido que não permite a organização de um Supereu bem integrado, e não terá, por isso, acesso a uma consciência moral consistente.
Tais sentimentos são a forma de dar colorido à relação amorosa da qual ambos os parceiros saem valorizados – os homens, como amantes ou condoídos, as mulheres, como objectos de prazer ou de pena. De acordo com Freud só o homem ama porque luta pela posse do seu objecto de amor; a mulher, acima de tudo, quer ser amada e protegida.
Ou seja, a mulher vista pelo homem ou é objecto de paixão ou é alvo de compaixão! Um ser passivo!
Porque estigmatizo, na histeria, a fixação da mulher nessa menoridade, nessa dependência prolongada da figura materna, nessa estagnação num autoerotismo e narcisismo que prejudica ou atrasa o acesso à maturidade sexual? Porque fica a sua genitalidade tantas vezes aquém de uma completa integração?
A histérica vive o paradoxo de uma aparência hipersexual, centrada narcisicamente na necessidade de seduzir e de ser amada, mas que nunca se satisfaz e salta de experiência em experiência, à procura do carinho maternal que não teve. Recordo a saga psicanalítica de Marilyn Monroe, que o seu psicanalista Ralph Greenson não conseguiu ajudar a resolver, porque também ele ficou preso numa teia contratransferencial emaranhada.
A histérica é incapaz de fazer uma verdadeira relação objectal. Marilyn dirá numa entrevista, como em tantas outros comentários inteligentes de auto-análise, que nos deixou: “Tive professores, pessoas que podia admirar, mas ninguém com quem pudesse identificar-me. Sempre me senti uma não-pessoa e a minha única maneira de ser alguém, provavelmente, foi mostrar-me noutra pessoa; foi por isso que quis representar e ser actriz.” Marilyn sofre um enorme vazio, uma profunda depressão que a arrasta para o suicídio.
Mas voltando à interpretação psicanalítica que, fora do contexto clínico, sôa sempre a racionalização: na histérica o pénis é o objecto parcial do seu desejo; muitas vezes sem clara diferenciação, se materno se paterno, é idealizado e invejado sem jamais poder ser integrado, tornando-se fonte de permanente avidez e insatisfação.
Esse traço dominante da personalidade é o motor principal do seu relacionamento com os homens; tanto os seduz e se expõe, tanto se submete de forma masoquista e exibicionista, como os rejeita
frigidamente movida por fortes impulsos invejosos e destrutivos. Disputa activamente um poder fálico, que umas vezes atribui ao imago materno, outras ao imago paterno, mal diferenciados.
Na relação com as mulheres, tanto as inveja por as sentir detentoras desse poder fálico, como se submete e anula numa relação de dependência infantil que a impede de ter acesso à maturidade.
Estará esta relação de objecto ao serviço do homem? Será de alguma forma mantida pelo poder patriarcal da nossa sociedade?
Esta foi e é o fundamento da argumentação feminista que acabou por utilizar uma leitura deturpada da psicanálise, como referimos numa reflexão que fizemos em 1991 e à qual chamámos de “mal-entendido histórico”.
Como dissemos, Freud foi o primeiro cientista e observador da mulher a dar voz à histérica, a acreditar e a atender ao seu sofrimento. Freud não repudiou a histérica por ser fingida e simuladora; tentou compreender porque utilizava a sua expressividade patoplástica e onírica na comunicação com o outro e, nomeadamente, com o homem. Percebeu que esse apelo vinha de uma relação infantil com a mãe, de uma relação pré-genital bloqueada. Nesta leitura, a nível transferencial, Freud foi substituindo o domínio masculino da sugestão hipnótica pela receptividade feminina da escuta.
Talvez pareça despropositado nesta conferência, em que falamos da emancipação da mulher, chamar a atenção para o papel relevante que, também aqui, Freud teve. Freud, que tem sido atacado pelos movimentos feministas pelo seu “falocentrismo”, contribuiu para a libertação da mulher?! Não será uma contradição? Parece-me que não!
Tentaremos explicar: em primeiro lugar, o feminismo “coisificou” o discurso freudiano, tomando o valor simbólico do phalus pelo pénis, e polarizou a luta reivindicativa no “ter”, descurando a essência do “ser”. Em segundo lugar, o “falocentrismo” existe e é a expressão do patriarcado, do domínio da mulher pelo homem na sociedade ocidental. Antes de se libertar desse domínio a mulher teve de tomar consciência dele. Em terceiro lugar, a psicanálise denunciou os tabus da sexualidade burguesa do século XIX e foi um agente da libertação sexual da mulher. Sabemos hoje que não foi o único factor, mas contribuiu de forma inequívoca.
Os movimentos feministas tiveram os seus excessos, como sempre acontece com os movimentos revolucionários, pelo menos na sua fase de arranque. Se fôssemos estudar ou psicanalisar algumas das feministas que entusiasticamente promoveram a libertação da mulher (Betty Friedan,
Kate Millet ou Simone de Beauvoir, entre outras), não teríamos dificuldade em encontrar, em muitas delas, reivindicações fálicas, ódio ao homem, inveja do pénis, rejeição da maternidade. Pugnar pela igualdade dos direitos teve, muitas vezes, no discurso feminista, o significado de negar a feminilidade ou de ter subjacente a ideia de que a mulher era um ser inferior e só poderia suprir essa inferioridade tornando-se igual ao homem.
O phalus-pénis é importante, mas simbolicamente só aprisiona a mulher se, na evolução da sua psicossexualidade, ela fica refém do poder arcaico que lhe atribui.
À medida que as sociedades se vão democratizando vão permitindo um mais amplo acesso do cidadão a direitos iguais e essa promoção incide sobre todos, independentemente do sexo, da etnia e da religião. Defendo que a emancipação da mulher ao longo da história, não resultou tanto da luta reivindicativa de uma minoria, mas da maturidade progressiva da organização social, ou seja da tomada de consciência, cada vez mais abrangente, dos direitos humanos. Os notáveis avanços da biologia e sua aplicação à medicina permitiram que, de modo cada vez mais eficaz, a mulher se libertasse na sua sexualidade e a maternidade passasse a ser não um destino mas uma opção. A mulher deixou de ser escrava da sua biologia, para se apropriar de forma consciente e responsável do seu corpo e das suas potencialidades. A conciliação da maternidade com a actividade profissional e sua participação na vida sociopolítica são hoje comuns, dando mais sentido ao exercício da plena cidadania.
Todavia, a liberdade que a evolução social permitiu à mulher e que foi uma conquista inestimável da nossa época, não chega. É necessário que uma liberdade interna a consolide.
A liberdade interna atinge-se pela consciência e compreensão elaborada e integrada através da palavra, dessa unidade interna, tolerante e amistosa dos pais internos, criativos e complementares. A complementaridade do casal parental tem-se vindo a harmonizar, é menos sexista; a luta dos sexos tem dado lugar a uma paridade que, mesmo no divórcio civil, permite a guarda conjunta dos filhos e realça a colaboração. Os papéis, dentro do casal, dependem mais da personalidade de cada um deles que da sua condição de homem ou de mulher. Os novos movimentos feministas tornaram-se mais moderados e capazes de valorizar a parentalidade, a maternidade, a criança e até a família, como núcleo fundamental da sociedade. O mais amplo acesso da mulher à cidadania alargou a sua participação sociopolítica, sem prejuízo da sua natural vocação maternal.
É neste sentido que tem oportunidade, neste colóquio, falar de cidadania evocando o centenário da implantação da República em Portugal, comemorado a 10 de Outubro de 2010.
A cidadania é a consciência cívica que permite a utilização de uma liberdade interna posta ao serviço de todos para que possamos usufruir de um bem-estar social, alicerçado nos valores republicanos da igualdade, da fraternidade e da solidariedade.
Em Portugal a conquista da democracia aconteceu com atraso em relação a outros países da Europa, em consequência da prolongada ditadura de Salazar. Só com a Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974) o país se abriu à democracia, à descolonização e à emancipação da mulher, que só adquiriu pleno direito a voto e cidadania em 1975!
Não podemos ignorar a importância da mensagem e intervenção política de Maria de Lourdes Pintasilgo que, mesmo antes do 25 de Abril, liderou o Grupo do Graal alertando para o papel da mulher no desenvolvimento social.
O activismo deste grupo vinha impregnado da doutrina social da Igreja e deu um cariz particular e valioso à emancipação da mulher, nunca a desligando da inclusão e do progresso social que promovia. Nunca deixou de atender ao apoio na maternidade, à criação de creches para os filhos das mulheres trabalhadoras, aos horários laborais compatíveis com as actividades domésticas, à partilha com o homem dos cuidados aos filhos, na protecção da mulher durante a gravidez e aleitamento, etc.
Maria de Lourdes Pintasilgo esteve na vanguarda da promoção social da mulher, com uma visão abrangente que ultrapassou as fronteiras de Portugal. Aliás, Maria de Lourdes Pintasilgo participou em muitos fóruns internacionais, onde a sua opinião era ouvida e valorizada, talvez mais do que em Portugal, e ainda hoje beneficiamos da sensatez e profundidade das suas mensagens. Chamou de “Novos Feminismos” a estes movimentos que se demarcam da reivindicação fálica, que sempre animou o “Feminismo Radical”, da primeira metade do século XX.
Embora pudéssemos ficar por aqui no desenvolvimento do nosso tema, fica-nos a sensação de que não abordamos questões da nossa actualidade, e que é indispensável fazê-lo. Acho que falei do século passado e, com efeito, o século XXI oferece-nos um panorama diferente, em consequência do fenómeno da globalização. Vivemos num mundo multicultural e as discriminações hoje não incidem tanto no sexo e na etnia e transferiram-se para a cultura e para a religião. Vivemos um choque de culturas e de valores, cultura ocidental versus cultura islâmica
chocam-se na sua visão do Mundo pois não deixam de ser animadas por fortes aspirações imperialistas que se disputam.
Hoje há tendência para discriminar culturas e religiões que não se revêem nos valores ocidentais; valores que prezam a democracia, a paz e tolerância. Também a este nível no mundo ocidental pensamos que não é a bandeira reivindicativa dos movimentos feministas que poderá resolver esta discriminação cultural mesmo quando eivada de preconceitos sexistas.
Recordemos, a título de informação, que a burqa quase só usada no Afeganistão, tapa o corpo da cabeça aos pés deixando apenas uma rede ao nível dos olhos; o hijab, o mais usado em todo o mundo muçulmano, cobre com um lenço o cabelo e o pescoço, e o niqab cobre toda a face deixando apenas os olhos a descoberto (usado no Iémen, na Arábia Saudita, no norte de África e no Sudoeste asiático).
Focar a luta nestas manifestações exteriores, no vestuário, por exemplo, pode até ser contraproducente. Como psicanalista tenho tendência a considerar tais atitudes semelhantes ao ataque ao sintoma histérico isolado em vez de promover, na cura, o acesso à liberdade interna.
A discriminação sexista resulta de valores culturais que hoje polarizam, por exemplo, controvérsias sobre o vestuário das mulheres, o uso da burqa ou do véu islâmico. Devemos entender que não vale a pena pugnar activamente pela renúncia a tais manifestações exteriores de natureza cultural ou religiosa. A emancipação da mulher faz-se sobretudo pelo acesso à instrução, pela melhoria dos cuidados de saúde, pela vigilância materno-infantil, pela participação sociopolítica. Todo o indivíduo tem necessidade de se afirmar pelo narcisismo das pequenas diferenças; é uma norma de tolerância a respeitar na sociedade multicultural em que vivemos
Sabemos todavia, e por experiência no mundo ocidental, que a emancipação da mulher e a equidade com os homens, na participação sociopolítica, leva muito mais tempo, exige uma mudança de mentalidades.
A cultura ocidental não tem que discriminar esses atributos, nem os movimentos feministas podem incidir a sua luta sobre a renúncia a tais hábitos, significativos mas, na realidade, bastante superficiais.
Os países ocidentais (França, Holanda, Reino Unido) têm proibido o uso da burqa, do hijab e do niqab nos lugares públicos, por uma questão de segurança e necessidade de identificação (mostrar o rosto) mas, de um modo geral, há relativa tolerância para opções individuais. Percebe-se que uma proibição mais coerciva pode ter efeito contraproducente.
A resistência que algumas mulheres islâmicas oferecem à eliminação da burqa e do véu islâmico, tem mais a ver com a identidade cultural, com a insegurança que sentem ao prescindir desses sinais (tabus sexistas evidentes), do que propriamente com o repúdio pelos hábitos ocidentais que promovem a sua emancipação. Em todo o mundo islâmico há indícios de que a mulher procura instruir-se, valorizar-se profissionalmente, ao mesmo tempo que tem uma intervenção política incipiente mas mais efectiva. Também elas podem cair no fundamentalismo político-religioso e vão aparecendo mais mulheres kamikaze, numa aliança militante com os companheiros.
Os valores ético-religiosos são uma força de oposição à ocidentalização identificada com a “ausência de valores”, à libertação sexual, à droga, à negação de Deus e da espiritualidade. A mulher adere fanaticamente a esta mensagem e esses factores podem atrasar a sua libertação em sociedades ainda dominadas por arreigado patriarcado.
De qualquer modo, no mundo globalizado em que vivemos, cada vez são mais activas as intervenções sociais, as movimentações internacionais contra formas ostensivas de injustiça contra as mulheres, desde a violência doméstica, à punição pública e selvagem do adultério, à mutilação sexual de meninas em certas etnias africanas, etc.
A pluralidade cultural, se exige maior tolerância à diferença, não pode colidir com a infracção da dignidade da pessoa e zela pelo respeito dos direitos humanos.
E para terminar, deixamos aqui a provocação que, em si mesma, encerra a pós-modernidade.
Já não parece ter sentido afincarmo-nos na “diferenciação entre identidade masculina e identidade feminina. Homens e mulheres são indivíduos com uma identidade proteica, flexível, capazes de se adaptarem às circunstâncias e às tarefas com que se deparam; ambos podem ser pais ou mães, podem ser profissionais polivalentes, podem improvisar um estilo de vida, podem deslocar-se no ciberespaço em função de um imaginário, de um desejo, sem se identificarem, ou seja, ocultando a raça, o sexo, a idade, a profissão, o estado civil, etc. Tudo o que se mostra são palavras/fotos capazes de produzir uma personificação flutuante, que os cibernautas não consideram falsa, mas antes um reportório de Eus, que lhes asseguram flexibilidade e rápida circulação.
Um homem ou uma mulher serão, deste modo, a montagem de peças que se montam e desmontam, tal como um Lego, apropriadas às circunstâncias e às necessidades do momento“.
Estou a citar Emily Martin, porque não sei movimentar-me nesse mundo ficcional. Sou muito antiga, não acho piada ao Facebook e temo perder-me!
ABSTRACT: In the present conference the author turns back to her previous work on the woman liberation movement under a psychoanalytical and historical perspective. The importance of Freud's work in giving voice to the hysterical women, by listening to them and giving credit to their complaints is underlined as the beginning of the “talking cure”, the true technical basis of the psychoanalytical praxis.
The Freudian phallocentrism, one of the major criticisms to psychoanalysis pointed out by feminist movements, is understood by the author as the result of occidental society patriarchal characteristics. Profound society changes along the XX century allowed women to become autonomous. Biology is no longer a destiny and maternity is an option and the feminist movements became less radical, giving value to the role of the father and the family in children education.
Some considerations on actual discrimination based, nowadays, on culture and religious status are made.
KEYWORDS: Psychoanalysis; Freud; Hysteria; Feminism.