A Prof.a Celeste Malpique acabou de fazer a história de como a psicanálise viu a mulher no seu funcionamento psíquico, desde Freud. A mulher foi vista pela psicanálise quase sempre na sua relação, e por comparação, com o homem. A não ser quando se tratava da mulher-mãe, e aí era observada sobretudo em função do bebé.
E assim aparece-nos já, muito claramente, a diferença em relação ao que se passa hoje: para a psicanálise, a mulher é hoje uma pessoa independente e completa, e é estudada – analisada – como tal, independentemente de ser, ou não, companheira do homem e mãe. O caminho para a equidade aconteceu também, como não podia deixar de ser, na psicanálise. E o modo como, de Freud até hoje, a mulher é descrita e, em certa medida, explicada, mudou – provavelmente tanto quanto mudou a situação da mulher, nos últimos cem ou, de modo mais marcado, nos últimos cinquenta/quarenta anos, na nossa sociedade.
Mesmo no tempo de Freud, algumas das hipóteses teóricas relativas à mulher poderiam ter sido mais discutidas e, eventualmente, mais rebatidas – não fôra a tendência à submissão e ao silêncio socialmente expectável e que, naturalmente, atingia também as analisandas e as próprias mulheres psicanalistas. Porque as houve desde sempre – e este é um facto que merece destaque: sempre as sociedades psicanalíticas estiveram abertas às mulheres e Freud ouvia-as, mas a sua palavra – de mestre e também de homem – predominou.
Como foi dito por Celeste Malpique, Freud “deu a palavra às mulheres”, e isso foi um contributo valioso para a sua emancipação. Diga-se, de passagem, que a primeira mulher de que reza a história da psicanálise – a célebre Anna O., mais tarde activista em movimentos feministas,
Psicanalista. Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association.
Anna O. tomou – ela – a palavra, pois consta que terá dito ao seu analista: “Não me interrompa! Deixe-me falar!” E ele obedeceu. Foi também Anna O. Que baptizou a psicanálise de “talking cure”, cura pela fala, e assim auxiliou Freud na criação do método psicanalítico, até hoje não substituído, e base de toda a investigação em psicanálise.
Freud deu, portanto, a palavra à mulher – e não eram poucas as mulheres na sua vida. Deu a palavra à cunhada, Minna Bernays, mulher sem homem, mais do que à sua própria mulher, e deu-a à filha Anna, sua sucessora, e às mulheres que dele se aproximaram, pelo interesse pela psicanálise e/ou por ele como homem de ciência – Loe Kann, Lou Andreas-Salomé, Joan Rivière, Marie Bonaparte – mulheres essas com quem teve diálogos longos e frutuosos; e deu a palavra às doentes.
Ouviu-as a todas, mas interpretou o que ouvia do seu ponto de vista, de homem. Tentou aplicar à mulher o conceito de Édipo, que encontrara no homem e na sua própria auto-análise, e que considerou como o complexo fulcral, determinante do desenvolvimento psíquico. Introduziu então um viés na escuta da mulher, e de algum modo forçou explicações simétricas – que nunca o satisfizeram completamente e que vieram a ser, lentamente, abandonadas. Inveja do pénis, passividade, masoquismo, ausência de agressividade, dependência, fraca capacidade de sublimação, consciência moral reduzida, necessidade de sermos amadas mais do que amar – existem, mas não são hoje aceites como características definidoras da feminilidade.
Chegada à psicanálise nos anos 70/80, encontrei alguma crítica daqueles pontos de vista – que aliás o próprio Freud admitira, quase preconizara que viessem a ser substituídos, nomeadamente pelo trabalho das colegas do também chamado (não por Freud) “segundo sexo”. Mas as colegas, fazendo jus às características que lhes eram prescritas, de submissão e timidez, pareciam acatar, em larga medida, aquelas descrições eivadas de faltas e falhas.
Durante os primeiros anos da minha formação como psicanalista, ouvi com estranheza interpretações relativas ao meu/nosso ser feminino, que em nada condiziam com o que pensava ou sentia na minha pessoa. Admitindo que fosse a minha “resistência” à psicanálise a vedar-me o reconhecimento daquelas características tão “castradas”, ou até que fossem precisamente graves anomalias da minha personalidade, a impedir-me a aceitação de tais verdades – deixei em “standby” aquelas hipóteses teóricas, na esperança de que o tempo, a minha análise, a observação da vida no mundo ou a minha prática clínica viessem a esclarecer-me.
O que aconteceu. A situação das mulheres e as relações homem-mulher evoluíram, forçando ao abandono daqueles modelos teóricos ou, pelo menos da sua centralidade e generalidade. Que aliás – parece-me útil relembrar – Freud não pretendeu impor.
Sabemos como o fundador da Psicanálise partiu da sua auto-análise, nomeadamente a análise aprofundada dos seus sonhos, para a construção da teoria psicanalítica. E Freud era um homem, e usou muito o conhecimento de si próprio, dos seus mecanismos. Sabemos também que afirmou repetidamente, e até aos textos de 1938, no fim da sua vida, que muito ficava por estudar e que muitas das conclusões a que chegara tinham já sido revistas e continuariam a sê-lo. E Freud disse até que as mulheres eram para ele o “continente negro”, em que quase tudo lhe era desconhecido e incompreensível.
Foram depois os seus sucessores e até as suas sucessoras que – por vezes, mais papistas que o papa – defenderam com vigor algumas das suas hipóteses de explicação da feminilidade, que tanto ofenderam os movimentos feministas.
Como sempre acontece, foi a realidade que fez mudar a teoria. A Segunda Guerra Mundial levou, como é sabido, as mulheres a sair de casa. Na ausência dos homens e para manter o mundo a funcionar, para além da guerra, as mulheres foram para as fábricas, para as empresas, para o mundo do trabalho, não para fazerem trabalhos menores, mas para gerir, decidir, responsabilizar-se, criar. As escolas abriram-se de igual modo às crianças de ambos os sexos. Muitos trabalhos, mais complexos e intelectualizados e menos exigentes do ponto de vista da robustez física – passaram a poder ser realizados por homens e mulheres, com igual eficiência. Esta deixou de ser apanágio dos homens, e a doçura e a sensibilidade deixaram de ser exclusivas das mulheres, todos puderam revelar mais e mais, todas essas capacidades.
E a psicanálise – que é ciência da vida – acompanhou aquela evolução bem patente na nossa clínica. As mulheres que nos procuram não são submissas ou frágeis, os homens não são autoritários e fortes, umas são, outras não e os homens também. Há uma muito maior liberdade de cada um ser como é, um peso muito menor de estereótipos sociais, e é no caminho daquela liberdade e autenticidade que a psicanálise se situa, agora também livre de expectativas que a certa altura tomou como suas e que eram afinal socialmente determinadas.
Uma conclusão que emerge destas observações e desta história que a Prof.a Celeste Malpique nos trouxe, é que a psicanálise está sujeita
à influência da cultura da época, porque o inconsciente, o dos analisandos que estudamos, e o nosso, que os estudamos, contêm em si essa cultura. A nossa observação não é neutra, a nossa objectividade é falível. Daí que a psicanálise não é, não pode ser normativa. “O que querem as mulheres?” interrogava-se Freud, próximo do fim da vida. Muito do que então queriam já têm, querem mais, querem diferente? Não haverá resposta definitiva a tal questão, da parte da psicanálise. O feminino de ontem não é o feminino de hoje, e a História avança mais depressa do que nós.
Aliás, não foram só as mulheres – e os homens, que mudaram. Mudaram os bebés, as crianças e os jovens. E as nossas definições e classificações devem ser susceptíveis de revisão. Resta-nos como investigadores, observar e estabelecer ligações, e como terapeutas, ajudar a ser e a pensar-se.
Abandonada a tentativa de explicar o funcionamento psíquico da mulher por extrapolação e comparação com o do homem, a psicanálise vê hoje a mulher como um ser humano independente (tanto quanto algum ser humano pode ser independente) e completo, sem prejuízo da complementaridade que tende a buscar na relação com o outro. A experiência clínica de mais de cem anos de psicanálise conduziu a algum deslocamento do seu interesse pela sexualidade, para o afecto, sendo a relação afectiva hoje vista como o nosso principal objectivo de estudo.
O aprofundamento da observação tornou possível investigar as relações mais precoces do ser humano, e actualmente, sem que se retire carácter decisivo à situação edipiana, são aquelas relações precoces que são consideradas como primeiras determinantes do desenvolvimento afectivo. Freud dissera (, Female Sexuality SE 21:225-243): “O nosso insight sobre esta fase precoce, pré-edipiana nas raparigas aparece-nos como uma surpresa, como a descoberta (noutra área) da civilização micénica por trás da civilização grega.” E também (, Femininity SE 22:112-135): “não podemos compreender as mulheres se não apreciarmos esta fase da sua ligação pré-edipiana às suas mães”.
Fazemos hoje uma escuta da mulher mais aberta e mais empática; e o desenvolvimento da psicanálise conduziu ao estudo aprofundado da relação mãe-filha, relação essa que aparece como fundamental na construção da feminilidade – que mulher ser, como ser mulher.
As mulheres são também hoje estudadas na sua relação com o próprio corpo – corpo de mulher – num ciclo de vida específico, em que etapas como a puberdade, a vida sexual, a gravidez, os partos, a fertilidade ou
a infertilidade, a menopausa, correspondem a alterações e vivências psíquicas ricas e variadas, ocasiões de desejo, de lutos e de realizações, e também de exigência e de intensa afectividade.
As mulheres são estudadas na sua vivência da maternidade – não apenas do ponto de vista do desenvolvimento do bebé, mas da sua experiência psíquica. Não são sempre mulheres de homens, mães de filhos, são também mulheres apenas.
Gostaria de dizer ainda algumas palavras sobre a conjugalidade, a complementaridade na relação homem-mulher – embora a Prof. Celeste já tenha dito muito. Mas o assunto é fascinante, e vou ser muito breve.
Leonard Cohen, músico e poeta, dizia nos anos 70 “There is a war between the man and the woman” (trad. “Existe uma guerra entre o homem e a mulher”). E continuava: “entre o rico e o pobre, entre esquerda e direita, entre brancos e negros”. Vou ser optimista, creio que a guerra que existiu entre homem e mulher está a ser ganha por ambas as partes. Quando vejo as crianças nos colégios mistos, nas brincadeiras e no desporto, e os jovens adultos nos seus trabalhos, nas suas casas, e com os seus filhos, parece-me que são herdeiros e beneficiários daquela luta, que já foi ganha. As relações são mais equalitárias, mais frontais, mais recíprocas, mais dignas. Penso que a família não acabou, a família mudou e está até mais valorizada. Como disse Celeste Malpique, os papéis dependem mais da personalidade de cada um, homem ou mulher, do que da sua condição de homem ou mulher. E há muitas características psicológicas que foram permitidas a ambos; há homens ternos e mulheres corajosas, homens sensíveis e mulheres autoritárias, homens sedutores e mulheres que conquistam, mulheres mais activas que alguns homens, mais passivos.
Não temos que negar tais mudanças ou censurá-las. Importa, como sempre na nossa profissão, ouvir os seus protagonistas e fazer o confronto e a síntese possível entre o que as teorias nos dizem ou disseram e aquilo que agora observamos.
Não nos compete, como psicanalistas, ter posição valorativa em relação a esta evolução. As relações homem/mulher melhoraram? Pioraram? Diferentes, estão com certeza: a organização da complementaridade é agora mais livre: pode ser a mulher a trabalhar, o homem a cuidar da casa ou dos filhos, ou o contrário. Nos nossos divãs, as queixas passam menos pela competição e pela inveja. Há mais igualdade e mais simetria. As dificuldades são outras. Se olharmos e ouvirmos as gerações mais novas, vemos que a sua prática vai à frente das nossas teorias.
Daí que, como analistas, devemos ouvir com interesse e curiosidade, e falar com cuidado e rigor. A História vai mais depressa do que nós e, se queremos ser úteis, temos que acompanhá-la.
Agradeço à Prof.a Celeste Malpique a oportunidade e a matéria que me forneceu, para voltar a pensar sobre esta evolução.