O autor parte da sua experiência de trabalho com adopção e do conhecimento que tem da evolução que se verificou em muitas situações após a entrega da criança. As dificuldades encontradas e as consequências negativas de algumas práticas que têm sido utilizadas, levam-no a reflectir sobre a dinâmica profunda das relações familiares primárias, a partir do desejo do filho e do seu percurso no mundo interno de cada um dos pais. São analisados os processos que na tríada (pai, mãe, filho) levam à experiência partilhada de uma boa relação, bem como as consequências mais ou menos graves das frustrações e rupturas que eventualmente podem surgir. São feitas algumas observações sobre erros a evitar, quer no acolhimento de casais candidatos à adopção, quer no modo de organizar os primeiros contactos com a criança que deve ser adoptada.
A verdadeira compreensão de uma pessoa, ou seja, a sua compreensão psicológica profunda, exige a compreensão da sua própria história, o que quer dizer a compreensão dos caminhos que percorreu até chegar ao ponto em que se encontra. Este trajecto, que se vai elaborando como uma experiência intensamente pessoal, depende dos “encontros” que se vão fazendo ao sabor das vicissitudes da realidade. Alguns deles tornam-se acontecimentos fundamentais e decisivos para a estruturação da dinâmica individual. Na base de tudo está a relação inaugural vivida com as figuras primárias, com as quais a pessoa se confronta desde que começou a existir, e em relação com quem começou a organizar a continuidade da sua experiência no tempo.
Psicanalista. Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Comunicação apresentada nos VII Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura – “Psicanálise e Cidadania (Liberdade externa… Liberdade interna)”; Porto, 5 e 6 de Novembro de 2010.
São estas relações que permitem ao ser humano tomar consciência de si próprio, situar-se e compreender-se no seio de uma relação onde se vai descobrindo como semelhante ao outro e diferente dele, e cuja complexidade vai crescendo numa diferenciação cada vez maior.
Estas experiências dos primeiros tempos de vida são a base da futura organização da personalidade e, portanto, decisivas para a vivência que indivíduo terá de si próprio e do mundo.
A compreensão das experiências familiares precoces tem, assim, uma importância decisiva para a compreensão do homem e das sociedades por ele formadas e organizadas.
Pai, mãe e filho são palavras que formam um conceito global, em que cada uma não pode compreender-se sem as outras duas. Referem-se aos três elementos de base do processo de humanização. Perceber o que cada um deles é, como os três se relacionam e interagem é um desafio fascinante que se coloca a todo o ser humano que quiser compreender-se a si próprio e à história da cultura.
Gostaria de começar por uma nota prévia. O que vou dizer parte do conhecimento directo de vários casos de diferentes pontos do país. Mas não tenho uma estatística geral da situação. Estes são, no entanto, suficientemente numerosos e expressivos para, pelo facto de existirem, justificarem a necessidade de uma reflexão atenta, da parte de todos os que têm a peito o bem das famílias e das crianças.
Para falar de adopção, e por estranho que pareça, sinto necessidade de esclarecer do que tenciono falar. E o sentir esta necessidade é já a primeira das minhas reflexões, porque considero que há alguma confusão na maneira como se usa este conceito.
Vou falar de adopção no seu sentido “forte”, que é o único em que se deve empregar esta palavra. Porquê esta observação? Porque na prática, se quisermos ser honestos, temos que reconhecer que hoje, em grande número de casos, se emprega o termo adopção num sentido a que eu chamaria “fraco”, e que corresponde à intenção de entregar uma criança, por vezes institucionalizada há vários anos, aos cuidados de alguém que dela se possa ocupar.
Muitas vezes, a ideia de procurar alguém com esta finalidade só é verdadeiramente encarada quando essa criança começa a pôr problemas para os quais não se vê outra solução. Ou seja, não é uma hipótese estudada logo à partida como uma das boas possibilidades de defender os interesses da criança, como seria obrigação dos que por ela são responsáveis. E a boa maneira de defender os interesses da criança seria
garantir-lhe a possibilidade de estabelecer vínculos familiares estáveis e de boa qualidade.
O que acontece com frequência é que, enquanto a criança é pequena e não levanta problemas complicados à instituição que a acolheu, se vai deixando passar o tempo, à espera não se sabe bem de quê, quando, afinal, já existiam as condições que mais tarde se irá reconhecer que permitiam o encaminhamento para a adopção logo desde o início.
É preciso que as dificuldades comportamentais ou outras forneçam motivação para procurar tal encaminhamento, isto é, na prática, procurar alguém que resolva um problema prático, o que é muito diferente de considerar logo de início a possibilidade de adopção, por ser a melhor solução para uma determinada criança.
Como é óbvio, se a adopção acaba por ser realizada, os anos de atraso que foram sendo permitidos tornam o seu sucesso mais problemático do que se realizada precocemente e representam um grave prejuízo para a criança.
Aqui há claramente uma insuficiente distinção entre o adoptar e o prestar cuidados, ou encarregar-se de, o que na prática pode ter consequências graves, porque há uma grande diferença entre uma pessoa capaz de prestar cuidados de boa qualidade e uma pessoa com boas condições para adoptar, tal como também as duas situações resultantes são muito diferentes entre si. De uma coisa à outra dá-se uma mudança de referências que tem efeitos dramáticos.
O facto de estar prevista na Lei a adopção restrita e a adopção por pessoas singulares, destina-se a poder enquadrar situações especiais que justificam este tipo de medida. Não é para que sejam usadas como solução de facilidade. Infelizmente também aqui, como se costuma dizer da moeda, a moeda fraca expulsa a moeda forte. Quer dizer que a banalização destas adopções que eu considerei “em sentido fraco”, torna mais raro o caso das adopções “em sentido forte”.
Em meu entender é preciso acentuar fortemente a vantagem de uma adopção realizada em boas condições, e portanto a necessidade de a promover sempre que possível e logo que possível. Não apenas para que alguém se ocupe de uma criança em dificuldade ou em estado de desamparo, mas para que se consiga, para o adoptando e para os adoptantes uma relação de parentalidade e filiação no seu sentido pleno.
O que hoje se faz com a adopção e o que será feito no futuro, depende essencialmente da concepção que se tiver da complexidade, da profundidade
e da intensidade das relações familiares em geral e, em especial, do desejo de ter filhos. Só tendo tudo isso em conta se pode compreender o que é a adopção psicológica. E só compreendendo o que é a adopção psicológica se podem criar as condições para que ela seja conseguida.
As decisões que se tomam e as intervenções práticas que se fazem dependem das concepções teóricas que se têm. E isso faz toda a diferença. Por isso, acho que o problema se põe, antes de mais, ao nível da teoria. Quando as posições teóricas são confusas, as decisões não podem ser consistentes. A clarificação da teoria com que se trabalha e a definição dos conceitos que se usam tem necessariamente uma influência decisiva na qualidade do trabalho que se produz.
A esta luz, pensando na maneira como vários casos que conheço têm sido tratados e nos resultados obtidos, não posso deixar de sentir que se partiu de uma enorme simplificação. Isto tem conduzido à generalização de uma opinião negativa sobre a adopção, como sendo um recurso difícil e que gera muitos problemas, o que leva a que não seja considerado com a devida oportunidade. Muitas instituições procuram evitá-lo e só a ele recorrem quando lhes aparece como sendo a saída para um caso complicado que de outra maneira não sabem resolver.
Em minha opinião, é necessário repensar a maneira como se está a fazer o trabalho com a problemática das adopções, nas suas várias fases, para que este recurso possa reconquistar o prestígio de que já gozou no nosso ambiente social, prestígio sustentado pelos bons resultados a que de facto pode conduzir.
A opinião generalizada que agora me parece existir a partir das dificuldades práticas com que muitos se têm deparado, faz pensar que não se têm adoptado os procedimentos mais adequados. Isto leva a pensar que a teoria com que se trabalha não será provavelmente aquela que deveria ser.
Para confirmar esta impressão seria importante fazer o estudo estatístico do tempo decorrido entre a entrada de uma criança numa instituição de acolhimento e a concretização da adopção. Nos casos em que esse tempo é importante, parece-me necessário perceber se houve razões para isso e quais, e apurar desde quando estavam reunidas as condições necessárias para ser possível propor uma adopção. Depois, seria indispensável estudar bem os casos de insucesso, cujo número parece ser muito significativo.
Chamo a atenção para uma coisa que, apesar de óbvia, tende a ser sistematicamente esquecida. É que, sendo os adoptantes o elemento
decisivo para que uma adopção seja bem sucedida, os profissionais que trabalham nesta área devem ter uma consistente competência no trabalho com adultos, para além de uma sólida competência quanto à problemática das crianças. Tal competência é indispensável para que a selecção dos adoptantes e a sua preparação e acompanhamento possa oferecer um mínimo de garantias.
Além disso, é indispensável um conhecimento rigoroso da problemática específica da adopção, sem o qual não é possível ter referências que permitam tomar acertadamente as decisões práticas a que se não pode fugir e que podem condicionar o desenvolvimento do processo subsequente.
É por esta razão que irei, embora muito esquematicamente, apresentar algumas ideias fundamentais referentes ao amor humano e ao nascimento das crianças. Uma vez que pela adopção se trata de integrar uma criança na dinâmica afectiva de uma família já constituída, sem isso estaremos a falar sem base e perde-se todo o rigor da intervenção. Considero que esta tentativa de clarificação será útil também para ajudar as famílias com filhos em que a separação dos pais acaba por acontecer.
Continuo a pensar que a adopção não é uma panaceia universal indicada em todos os casos. Continuo a pensar que muitas vezes se exagera na prática de separar as crianças das suas famílias, colocando-as em instituição pensando protegê-las. Mas continuo também a pensar que a adopção, quando o diagnóstico da situação é feito precocemente e de maneira correcta, representa um excelente recurso que deverá continuar a ser usada no futuro. Mas usado de forma competente.
Vejamos pois. Tomo como modelo de referência o que poderíamos considerar uma família em que as coisas correm bem. As dificuldades que muitas vezes se encontram só podem compreender-se em referência àquilo a que podemos chamar o paradigma normal. E é tendo em vista esta referência que se devem elaborar critérios que permitam programar e realizar as eventuais intervenções com alguma segurança. Pensemos, portanto, numa família a que chamarei “suficientemente boa”, usando uma expressão que Winnicott aplicou à mãe. Não é a família perfeita, que na realidade não existe, mas a família “good enough”.
A vida acontece-nos sem darmos por isso, e só a pouco e pouco nos vamos confrontando com a experiência de existir. Esta experiência de
existir faz-se na íntima relação com os dois seres que tomaram a decisão, e podemos dizer a responsabilidade enorme, de nos trazer a este mundo, que serão, evidentemente, os pais.
Os pais são um dado de facto a que o filho não pode fugir, porque deles precisa essencialmente e, sem eles, ele próprio não se explica. Precisa deles para existir e precisa deles para se compreender a si próprio. Não os escolheu e não tomou qualquer decisão quanto ao facto de nascer. Eles é que tomaram a decisão de o fazer existir, e são, portanto, os detentores da intencionalidade e dos significados com que devem encher a vida a que o chamaram. E fizeram-no, por sua vez, a partir da sua experiência infantil “de filhos de alguém”, no desejo de a prolongar e repetir, ou então, porque isso também acontece, no desejo de a emendar. Coisa que os seus próprios pais também fizeram, melhor ou pior, e assim foi sempre acontecendo nas gerações antecedentes. Deste modo nos inserimos na cadeia das histórias familiares.
Piores são os casos em que o filho acontece por que ninguém pensou que poderia acontecer.
Como disse Winnicott o bebé sozinho não existe. Existe porque os pais existem e sem eles não se explica.
Quer dizer que o ser humano, na mais importante de todas as decisões que lhe dizem respeito, e que é a decisão de existir, nunca poderá ser ouvido. Os pais impõem-se-lhe como se lhe impõe a vida, no desenrolar das gerações.
Daí o absurdo que é perguntar a uma criança institucionalizada se quer que lhe arranjem uns pais, como agora, por vezes, se julga judicioso fazer. Que poderá ela responder que faça sentido? Em minha opinião, essa pergunta não só não faz sentido como pode ser altamente perturbadora. Vou procurar explicar porquê.
Para um casal em boa saúde física e psíquica, o filho deve representar uma expressão viva e original da fecundidade do seu amor, um desejo comum e um projecto comum para toda a vida. É uma mais-valia de humanidade que cada um proporciona ao outro.
Sendo a criança, apesar da sua dependência, um ser autónomo e original, o filho representa para os pais a surpresa e a descoberta que os confronta todos os dias com a riqueza, a exigência e o inesperado da obra que realizaram. A realidade sempre surpreendente de uma pessoa que se constrói proporciona-lhes o deslumbramento perante esse ser tão frágil e
dependente que se manifesta dia a dia cheio de inesperadas capacidades. Ele é um misto, por vezes desconcertante nos seus contrastes, de total dependência e de individualidade teimosamente afirmada.
O facto decisivo é que este percurso de vida tem que se fazer sempre a três. No encontro de três intencionalidades, de três expectativas, de três afectividades, que se vão tornando indissociáveis umas das outras, porque evoluem cada uma em função das outras. A história individual de cada um dos pais, depois a história em comum dos dois, é o ecossistema de afectos em que a criança desenvolve a sua afectividade e a sua inteligência, trazendo ao conjunto, à tríade, a sua própria contribuição insubstituível.
Só na dinâmica deste sistema complexo se podem perceber a criança e as várias reacções dos seus pais. Nenhum ser humano é compreensível senão a partir da compreensão desta história.
Como disse, o desejo do filho brota da história dos pais e é enriquecido com todas as criações imaginativas que vão sendo feitas até ao momento em que a sua presença física impõe limites precisos ao trabalho da imaginação pura. Brota da história infantil dos pais e brota da história dos seus sonhos e realizações amorosas, quando já é possível, partilhando-os com um outro da mesma geração, dar-lhes a dimensão realista de um projecto comum.
Quando este projecto comum, isto é, o nascimento do filho, chegado o momento de o realizar, não pode concretizar-se, toda esta dimensão de afecto e de pensamento fica em suspenso, à procura de alguém que possa ser o seu suporte adequado, o seu destinatário.
Esta suspensão do projecto imposta pelas vicissitudes da vida, que na maior parte das vezes é a esterilidade, traz um sofrimento importante, que atinge o próprio sentimento de identidade e coloca as pessoas numa situação que pode ser grave. Surgem sentimentos contraditórios, positivos e negativos, cuja elaboração pode ser difícil e de resultado problemático. E o facto de que a posição e a situação de cada um dos elementos do casal, quanto a esta situação de ausência do filho, muitas vezes não é a mesma, vem trazer uma complicação acrescida.
Ora é em geral a partir de uma situação deste género que surge a decisão de adoptar. É uma decisão que parte de um sofrimento e do desejo de o ultrapassar. Por isso, os profissionais que nos Serviços têm a função de acolher e seleccionar os candidatos a adoptantes têm que ter consciência de que as pessoas que os procuram estão, em princípio, numa situação difícil, que é preciso saber entender e trabalhar. Por isso
eu disse atrás que estes técnicos necessitam de uma real disponibilidade e competência para saber lidar com os problemas dos adultos. Num processo de adopção o problema mais complexo é representado pelos candidatos a adoptantes.
Mais do que uma preocupação de selecção e antes dela, deverá tomar-se uma atitude de acolhimento e ajuda dessas pessoas, que se encontram, em princípio, numa situação emocional difícil. E é tanto mais difícil quanto se vêem forçadas a sujeitar-se a algo a que mais ninguém é obrigado. Refiro-me ao facto de terem que depender do juízo de alguém quanto à sua capacidade de serem pais, a partir de critérios que não conhecem.
Normalmente sentem-se desvalorizados e humilhados por terem que abrir a estranhos a sua intimidade como condição indispensável para satisfazer um desejo que os outros realizam quando querem, ou mesmo sem o quererem directamente, sem terem que se preocupar com o juízo de ninguém. É preciso ter isto presente para não transformar o processo de selecção numa violência.
O caso torna-se ainda mais melindroso quando se organizam “cursos” de preparação para adoptantes, que acentuam o sentimento de discriminação em relação aos outros pais, os “normais”, e leva a confundir “esterilidade” com “incompetência”, já que com os pais naturais ninguém se preocupa com saber se são ou não “competentes”.
Estes sentimentos penosos podem levar os candidatos a uma atitude artificial e defensiva, tentando dizer aquilo que imaginam que o seu interlocutor espera que lhe digam. Por isso, conquistar um sentimento de abertura e de confiança deve ser a primeira preocupação de quem escuta. Mas é preciso saber escutar. Se a acentuação se faz na selecção e não na atitude de ajuda, a capacidade de escuta fica distorcida.
A atitude de ajuda deve dirigir-se a esclarecer o casal quanto às questões que se lhe põem, sendo uma das mais importantes saber se poderá ficar feliz ao realizar uma adopção. Se o entrevistador puder ficar convencido de que irão ficar felizes com um filho adoptado, poderá ter a convicção de que também o filho ficará feliz com aqueles pais.
Não ignoro, evidentemente, que a adopção exige um esclarecimento específico, tal como em certas alturas do percurso dessa família pode tornar oportuno um apoio especializado para enfrentar alguns problemas. Mas é no decorrer de uma relação de ajuda que tal deve fazer-se, como com qualquer família que tem problemas com os filhos, e não como parte de um processo de selecção, que acentua a sensação de serem uma família
diferente. Por esta mesma razão sempre discordei da ideia da criação de uma associação de pais adoptivos, que iria tornar publicamente visível a percepção destas famílias como diferentes.
Bem vistas as coisas, um bom trabalho de selecção de adoptantes deve ter, lucidamente, como objectivo principal defender os interesses dos candidatos. Porque sabemos que para qualquer criança é importante sentir que os seus pais estão felizes com o facto de o serem. E quando é preciso dar um parecer negativo, deve fazer-se sentir que isso é assim porque há razões para pensar que para eles seria arriscado assumir esse compromisso com uma criança. Por isso, é do seu interesse não o fazer.
O sucesso de uma adopção, como o de qualquer relação pais filhos, depende sobretudo das capacidades e atitudes dos pais. Por isso, este momento primeiro do processo de uma adopção é decisivo para a sua boa evolução. Qualquer confusão com um processo de selecção profissional para o desempenho de um cargo seria gravemente inconveniente.
O futuro da adopção no nosso país dependerá, assim, da qualidade humana e da competência como profissionais das pessoas encarregadas da tarefa de acolher os candidatos a adoptantes. Como disse no início, depende da capacidade de corresponder à complexidade e subtileza dos processos envolvidos.
Continuemos com mais um pouco de teoria. Porque não tenho qualquer dúvida quanto ao facto de que, para a solução dos problemas práticos que se nos deparam, é muito prático ter ideias teóricas claras.
A adopção psicológica realiza-se quando os complexos conteúdos de pensamento e de afecto, profundamente íntimos e pessoais de que falei atrás, se projectam numa criança nascida de outros pais, que passa então a ser vista através deles. Se a criança está em boas condições para os receber, isto é, para ocupar o espaço que lhe é oferecido na vida intelectual e afectiva dos adultos em causa, em pouco tempo será sentida como estando na continuidade dessa história afectiva dos adoptantes, que passam a olhá-la como o filho correspondente à sua história afectiva e ao seu desejo, portanto, o filho deles. A partir desse momento, a história afectiva de cada um passa a servir de nova grelha de leitura dos factos vividos na realidade externa, dando-lhes a sua cor própria e o seu significado profundamente pessoal.
Por seu lado, a criança sentir-se-á integrada na dinâmica deste contexto afectivo, que corresponde a um seu desejo fundamental porque corresponde ao ecossistema afectivo de que precisa para se desenvolver bem. Deste modo, também ela irá sentir aqueles adultos como os seus pais. Porque correspondem à expectativa central da sua vida de criança, que não se pode compreender senão em relação a uns pais que a desejaram, acolhem e protegem.
Da concordância destes sentimentos recíprocos resultará a livre circulação dos afectos que proporcionará à família a sensação de que tudo está no seu lugar, permitindo a vivência do bem-estar familiar.
E é porque tudo isto se aplica às famílias naturais que também se aplica às famílias adoptivas, quando a adopção psicológica se realiza verdadeiramente.
Dito assim, parece de uma simplicidade transparente. Parece um conto de fadas. Infelizmente a realidade com que nos deparamos raramente corresponde aos nossos desejos simplistas. A vida de todas as famílias passa por momentos difíceis.
É perigoso se, levados por esta idealização da vida familiar, os profissionais encarregados do processo de adopção, acabam por se sentir no lugar da fada que irá fazer acontecer aquele conto. Tenho, pois, que abordar um problema complicado.
Ao falar da projecção da história afectiva dos pais sobre o filho adoptado, disse que este devia estar em boas para receber esta projecção. De que é que se trata? Então a criança que passa de uma instituição para uma família de boa qualidade afectiva não tem tudo para ser feliz? De que mais precisa ela?
As coisas não são assim tão simples.
A criança entregue em adopção tem já uma história. E tudo depende de como foi essa história. Por isso, quanto mais nova é a criança que se entrega, tanto mais fácil será a sua evolução, sempre que os adoptantes tenham boa qualidade. A história comum começará mais cedo e a contaminação de situações negativas anteriores será muito menor.
E aqui estamos perante uma situação que tanto quanto me parece se tem vindo a agravar. Refiro-me à tendência a entregar crianças cada vez mais velhas, porque, por várias razões, se hesita durante vários anos antes de decidir o encaminhamento para a adopção.
Tenho conhecimento directo de muitos casos em que nada justificava esta hesitação no encaminhamento para adopção. Apenas a falta de esclarecimento, os preconceitos ou a insegurança dos profissionais levaram a isso.
Assim, o que devia ser uma excepção tem vindo quase a tornar-se a regra. Os casos de adopção mal sucedidos têm-se multiplicado e têm aumentado os casos de crianças “devolvidas”, o que deve considerar-se uma situação gravíssima. Por outro lado, estes insucessos, à medida que vão sendo conhecidos, têm contribuído para uma visão negativa da adopção, que aumenta a insegurança de quem tem que tomar a decisão.
Ora quando esta demora não se justifica, com ela está a causar-se à criança e aos seus eventuais futuros adoptantes um grave prejuízo. Porque o princípio é que, quanto mais cedo se processa uma adopção tanto maiores são as possibilidades de sucesso.
Temos pois que dizer que no presente tem havido a tendência para se cair numa situação defeituosa. E que se queremos ter no futuro adopções bem sucedidas temos que esclarecer este equívoco. Para isso indispensável, através de um estudo cuidadoso, identificar os problemas existentes e auscultar o que deles pensam as pessoas com responsabilidades no processo. Depois, deverá promover-se um aprofundado debate entre os intervenientes sobre as alterações que se consideram necessárias e as bases teóricas das mesmas.
Para continuar a minha reflexão teórica, importa agora debruçar-nos sobre a história da criança antes da adopção.
A descoberta de estar vivo faz-se no âmbito da descoberta dos cuidados que são proporcionados ao recém-nascido, e esta descoberta muito rapidamente conduz à descoberta das pessoas que prestam esses cuidados.
Ora os cuidados parentais não são simples cuidados materiais. São sobretudo a vivência do prazer que o contacto com a criança proporciona aos pais, no deslumbramento do sonho finalmente acontecido, segundo o que foi dito atrás da história individual e depois comum dos dois pais.
Os pais são descobertos como objectos de amor. Os seus cuidados têm essa luz misteriosa e indecifrável, que o bebé sente com progressiva nitidez.
É claro que há os momentos maus, as ausências, as insuficiências. Mas há os regressos e a partilha de prazer que esses reencontros proporcionam. E esses reencontros ajudam a construir uma representação interna desse objecto de amor, que começa a ser visto como generoso,
eficaz, fiável, porque vem sempre, com verdade afectiva e generosidade, resolver o desprazer dos maus estados do bebé antes que se tornem demasiadamente penosos.
Como dizemos em teoria, essas repetidas experiências permitem à criança construir interiormente a representação mental de um bom objecto de amor, que ela pode evocar na sua ausência, para se confortar durante algum tempo. Mas é preciso que esse objecto não esteja ausente tempo demais. Que quando reaparece saiba tornar presentes, de novo, esses estados de bem-estar e prazer partilhados, que se tornaram intensamente desejados e necessários à continuidade de uma experiência positiva. Portanto, necessários à felicidade do bebé ou da criança mais velha.
Quando as coisas se passam deste modo, a criança vai construindo uma visão da vida e das pessoas a partir de uma confiança básica e do sentimento de que lhe é relativamente fácil reencontrar estes bons estados que lhe são necessários para se sentir bem. Quer dizer, a criança, a partir da sua experiência e da “elaboração imaginativa” que sobre ela vai fazendo, organiza uma maneira de ver o mundo em que os bons objectos de amor existem, são dignos de confiança e facilmente acessíveis. E os pais, devido ao investimento afectivo incondicional que fazem do filho, vão confirmando dia a dia esta maneira de sentir.
Falar dos adultos como “prestadores de cuidados” que proporcionam uma “vinculação” é, quanto a mim, uma maneira inadequada de conceber as coisas, porque gravemente reducionista. Mas sei que há a tendência, em certa literatura especializada sobretudo de língua inglesa, a substituir a noção de “objecto de amor” – “love object” – pela de “caregiver”. Em meu entender há uma enorme diferença entre as duas.
Na relação com os pais trata-se essencialmente de uma relação de amor que, por o ser, dá aos cuidados efectivamente prestados uma qualidade essencial de troca de afectos e partilha de prazer que aquela relação proporciona. Tudo isto marcado de forma indelével, como já disse, pela história de cada um dos pais, e depois dos dois em conjunto, o que lhe dá uma valência extremamente pessoal. Além do que é transmitido pelos genes, há também esta transmissão da hereditariedade afectiva, de geração em geração, que é um verdadeiro património familiar.
A prestação material dos cuidados, mesmo de muito boa qualidade, não proporciona essa experiência essencial que é a vivência de uma relação de parentalidade – filiação.
No caso da adopção, a realidade desta transmissão de conteúdos familiares muito pessoais e íntimos, é um elemento fundamental para que o processo seja bem sucedido. Deverá poder acontecer isso a que poderíamos chamar a “transmissão dos genes afectivos”, que é real e intensa, numa boa relação entre pais e filhos.
Mas o que acontece quando este sistema de relações com os pais se interrompe e a experiência real deixa de confirmar as expectativas positivas que a criança foi construindo? Quando em seu lugar se instala a frustração e depois o desespero, em face da ausência que se mantém?
Antes de mais é importante dizer que a perda de contacto com os pais representa um grave sofrimento para a criança. É urgente minorá-lo e a única maneira de o fazer é proporcionar-lhe uma relação substitutiva de suficiente qualidade, através de alguém que esteja afectivamente disponível para viver essa relação com autêntico empenho e afecto, com generosidade, estabilidade e regularidade. Sobre essa pessoa, reconhecendo a função que ela desempenha de facto como substituto materno, a criança irá projectar pelo menos uma parte importante dos conteúdos afectivos que “animavam” a sua relação com a mãe, de que esta nova pessoa, pela qualidade do seu afecto, se tornou um “suporte” adequado.
Este adulto passa a ser o adulto de referência, afectivamente significativo porque aceitou envolver-se nessa relação com autenticidade e sinceridade. Para ele, aquela criança passou a ser, também, afectivamente significativa. Isso permite à criança conservar o sentimento de que os bons objectos de amor não ficaram perdidos e continuam acessíveis, através deste “bom intermediário”, que não pode ser apenas um bom “caregiver”. Terá que ser um bom “objecto de amor”.
Se tal acontecer, esta criança estará em boas condições de ser adoptada, porque conserva a representação de um objecto de amor interno suficientemente bom, que os adoptantes irão assumir, ou melhor, com que se irão identificar, apoiando-se no seu desejo do filho e em toda a sua história afectiva. Dito de outro modo, conserva a fé na existência desse bom objecto de amor e sabe reconhecê-lo através da resposta que dele recebe.
Este processo de troca de projecções irá permitir a continuidade de uma boa experiência relacional. Quando as coisas se passam deste modo, a criança poderá, sem graves dificuldades, reencontrar na pessoa
dos adoptantes os bons pais perdidos. Porque a dinâmica afectiva que se estabelece proporciona essa forma de reencontro, corresponde a um desejo que traduz o sentimento de uma necessidade.
Não será de mais dizer, sem qualquer ambiguidade, que nenhuma criança institucionalizada deve ser deixada privada da relação quotidiana com um adulto que para ela possa tornar-se significativo – diferente dos outros – porque desempenha junto dela uma função especial. Esta relação é indispensável para que a criança possa conservar a memória boa daqueles que no passado lhe davam afecto e, a partir dessa referência de base, continuar a confiar nos adultos que dela se aproximam.
Se não lhe é proporcionada uma relação substitutiva com suficiente qualidade os resultados podem ser dramáticos.
Suponhamos agora o caso de uma criança após separação dos pais, ou mais frequentemente da mãe, com quem tinha uma relação suficientemente boa. Suponhamos ainda que está colocada num ambiente material de boa qualidade, onde as condições materiais são até superiores àquelas em que vivia, mas onde não encontra um adulto que pela qualidade afectiva e regularidade da sua presença junto dela, lhe permita sentir-se suficientemente protegida, identificada e confortada nos seus momentos de desintegração. Quer dizer, que não encontra o adulto cuja presença ela espontaneamente deseja e pede quando se sente mal e perdida no mundo, o que corresponde ao que sente uma criança em situação normal quando perante uma situação para ela mais difícil, diz choramingando: “quero a mãe”.
Quando assim é, falta-lhe o enquadramento essencial, que é de ordem relacional. Não basta a presença de um adulto competente, é-lhe indispensável a presença de um adulto afectivamente significativo para ela.
Quando esta situação de carência afectiva se prolonga, e com ela o sofrimento, vai-se dando uma verdadeira catástrofe interior. A realidade externa desmente a realidade interna, onde havia a representação de um bom objecto de amor, que sabia regressar a tempo, antes que o sofrimento causado pela sua ausência se tornasse insuportável. E forma-se uma representação de alguém que afinal não vem, que deixa que o
sofrimento e o estado de desamparo se mantenham. Alguém que afinal é mau, indiferente, para quem se dirigem raivas e desesperos.
A ideia de que uma criança mantida nessas condições cria dentro de si um espaço psíquico disponível que seria facilmente ocupado por um eventual adoptante é um equívoco grave. Porque a necessidade do objecto de amor é permanente, e por isso na ausência não se cria um vazio, mas a representação de um objecto ausente, mau porque abandona, cuja ausência é sentida como um ataque. O sentimento da necessidade insatisfeita transforma-se num sentimento de perseguição.
Donald Meltzer não hesita em afirmar que “a needed object is always tantalizing”.
É esta a razão por que os casos de crianças que viveram períodos de grave frustração afectiva põem muitas dificuldades aos adoptantes. A relação com eles irá ser fortemente perturbada pela desconfiança e agressividade que tais crianças guardam dentro de si em relação aos seus objectos de amor. De facto, elas ficam com especiais dificuldades para estabelecer boas relações com os adultos. Não tenho aqui possibilidade de falar das patologias relacionadas. Basta dizer que podem ser graves e variadas,
No caso de se tratar de adoptantes a coisa pode ser dramática porque, sentindo-se tratados como “maus”, eles que procuraram a criança com tantas ideias cor-de-rosa de que iriam ser sentidos como bons, que tanto imaginaram que iam dar-lhe a felicidade, sentem-se vítimas de uma grave injustiça. Esperavam as alegrias de uma relação fácil e gratificante e confrontam-se com uma situação que pode ser muito grave.
Se não são bem preparados e bem acompanhados ficarão traumaticamente desiludidos. Irão atribuir esta reacção negativa que os atinge nos seus sentimentos mais íntimos aos “maus sentimentos” da criança, ou à hereditariedade, e sentem-se enganados. Facilmente desenvolvem em relação à criança, e mesmo em relação à Instituição por quem esta lhes foi confiada, sentimentos de agressividade, que nem por serem inconscientes se tornam menos activos.
O número inquietantemente elevado de adopções falhadas, e de crianças “devolvidas” antes de proferida a sentença de adopção, poderá explicar-se por razões desta ordem.
Estes maus resultados e a má opinião que discreta mas progressivamente se foi formando a propósito da adopção, deveriam levar-nos, segundo me parece, a interrogar o modo como são acolhidos e preparados os candidatos a adoptantes, a maneira como são estudados os casos
das crianças, a maneira como se faz a entrega da criança ao casal e o acompanhamento que lhes é proporcionado. Quer dizer que considero que muitas práticas que têm sido adoptadas deveriam ser reexaminadas à luz deste ponto de vista teórico, o que inclui a interrogação sobre a preparação que deveriam ter as pessoas que se ocupam desta tarefa tão complexa.
Como disse atrás, parto do conhecimento de casos concretos. Mas só um estudo estatístico global da situação no nosso país permitirá ter uma ideia segura do que se passa. Seria bom que tal estudo se fizesse para bem de adoptantes e adoptados.
ABSTRACT: The author takes as his starting point his experience with adoptions and the study of the problems that developed in many cases after the child has been received in his new family. The difficulties encountered and the negative consequences of certain practices that have been put into practice, led him to reflect on the dynamics of primary family relationships, beginning with the desire of a son and on the dynamic evolution of this desire in the internal world of each parent. The processes in the triad (mother, father, son) that lead to the shared experience of a good relationship, and the more or less serious consequences brought by frustrations and ruptures that may occasionally arise, are analyzed at some length. Some suggestions are made in order to avoid frequent mistakes, either in the selection of couples applying for adoption, and in the first contacts between them and the child to be adopted.
KEYWORDS: Adoption; Primary relationships; Good and bad internal object.