A cidadania, como o exercício dos direitos de cidadão, mas também das suas responsabilidades, e como base para a vivência democrática, implica dois conceitos fundamentais que são a identidade e a pertença.
Aborda-se o conceito de identidade na teoria psicanalítica a partir do estudo das identificações, descrevendo um processo evolutivo através de vários níveis identitários, que vai das identificações primárias, que constituem o núcleo primordial do self, até ao estabelecimento daquilo que a autora define como sendo o 4.° nível identitário, a partir do qual o indivíduo está em condições de maturidade psicológica para abandonar os seus interesses imediatos e egoístas em prol dos interesses da sociedade. São apresentados e discutidos estudos recentes sobre a comunicação precoce mãe-bebé que mostram a sua importância para a construção das identificações e para o desenvolvimento da empatia.
É na Grécia antiga que surge o conceito de cidadão e, consequentemente, de cidadania. Reconhece aos habitantes da cidade, os cidadãos, a capacidade e o poder, mas também o dever de participar nas decisões políticas. Da categoria de cidadãos só faziam parte os homens livres e dela estavam excluídos os servos, as mulheres, os escravos e os metecos.
Desde a antiguidade clássica que o conceito de cidadania tem vindo a evoluir, passando de um conceito político para um conceito societário, de um conceito inicial de exclusão para um conceito de inclusão, de um conceito que incluía os deveres do cidadão para com o estado e a
Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Presidente do Instituto de Psicanálise (Lisboa).
Comunicação apresentada nos VII Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura – “Psicanálise e Cidadania (Liberdade externa… Liberdade interna)”; Porto, 5 e 6 de Novembro de 2010.
comunidade, para um conceito que inclui os seus direitos e a igualdade perante a lei.
Tem actualmente uma vertente política, social, legal e ética e constitui-se como um dos pilares da democracia.
Ser cidadão é ser considerado um membro pleno e igual na sociedade, mais concretamente numa nação e, nos nossos dias, mesmo num grupo de nações (incluídas na União Europeia), não só com o direito de participar na vida activa dessa sociedade, mas também com responsabilidades em relação ao progresso e bem-estar dessa mesma comunidade.
A vivência da cidadania por cada um dos cidadãos tem como base a identidade, não só individual mas também uma identidade partilhada, e exprime a nossa pertença a uma comunidade.
Em termos psicológicos, identidade e pertença são as metas de um percurso que percorremos desde o nascimento, até atingirmos a vida adulta.
Cria-se uma dialéctica entre a identidade individual e a identidade de grupo ou social, mas só a partir da aquisição de uma identidade pessoal bem estruturada é possível desenvolver uma identidade de grupo, sem correr o risco de que a identidade própria se dissolva na amálgama identitária do grupo social.
A identidade, em sentido lato, inclui o sentimento de si próprio, enquanto ser humano, a identidade de género e a função social e familiar que cada um desempenha. E também o sentimento de pertença: pertença a uma família, a uma escola, a um grupo, a uma sociedade, a uma nação, a uma etnia, na medida em que se partilham elementos comuns de experiência e de cultura.
O conceito de identidade não é originalmente um conceito psicanalítico, mas o que a psicanálise acrescenta para além das perspectivas filosóficas, sociológicos ou antropológicas, é a compreensão de quais são as suas raízes, no contexto da história de cada pessoa.
Como todos sabemos, a psicanálise é uma teoria que se funda nas descobertas clínicas de Freud e postula que existe uma continuidade na vida psíquica desde os primeiros tempos de vida e que as experiências infantis, sujeitas ao recalcamento, são determinantes no aparecimento dos sintomas.
A primeira descoberta de Freud, graças à análise de doentes que sofriam de histeria, foi que os sintomas nos contam a história dessas experiências.
Progressivamente, e o próprio Freud contribuiu para esses desenvolvimentos, descobriu-se que as primeiras experiências relacionais, determinam não só o aparecimento de sintomas, mas determinam o modo relacional de cada um de nós, as nossas escolhas objectais, na família e na sociedade. E que essas primeiras experiências “contam” para a organização da vida psíquica e das relações futuras.
E no fim da sua vida em “Outline of Psycho-analysis”, texto publicado postumamente em 1940, Freud volta a afirmar que “a experiência analítica convenceu-nos plenamente da afirmação (…) que os acontecimentos dos [seus] primeiros anos de vida são de uma importância crucial para toda a sua vida futura”.
A identidade, que não é um conceito freudiano, pode definir-se, de acordo com o “Vocabulário de Psicanálise”, como uma soma das representações de si, que tem por base as identificações, sendo a identificação um processo psíquico inconsciente, pelo qual o sujeito integra na sua personalidade uma parte mais ou menos importante de outra pessoa, que lhe serve de modelo.
Podemos dizer que a identidade psíquica integra o Eu, instância psíquica descrita por Freud, no contexto da sua teoria estrutural, a chamada segunda tópica, que estabelece a mediação/negociação entre as necessidades pulsionais do Id, a exigência do Supereu e a realidade externa, que se organiza no contacto com o outro, graças a processos psicológicos inconscientes complexos, que não são livres de conflito, que envolvem o estabelecimento das relações de objecto e da organização narcísica, a formação do Ideal do Eu e do Supereu.
A identidade integra também o self, conceito que tem sido utilizado em várias acepções mas, que neste caso eu restringiria à parte consciente do psiquismo que permite ao indivíduo reconhecer-se como agente e como sujeito dotado de consciência reflexiva, “o sentimento de si próprio”.
Tratar-se-ia de uma identidade explícita, declarativa, que seria a que se constrói através da narrativa, da história contada de cada um de nós, das memórias conscientes: dos encontros que tivemos, das sensações que sentimos, dos projectos que imaginámos, das aprendizagens que fizemos, das perdas que sofremos. Corresponderia àquilo que eu penso que sou, donde venho, àquilo que penso que os outros sabem que eu sou.
Esta identidade psíquica, assim definida, adquire-se à medida que se vai estruturando o aparelho psíquico e implica, nomeadamente no que respeita ao desenvolvimento do self, que os processos de individuação e de separação sujeito/objecto estejam bem estabelecidos.
E. Erikson considera que a identidade do Eu é um estádio do desenvolvimento psicológico, ao qual se acede na adolescência, que se define “pela identidade individual, pela busca inconsciente da continuidade pessoal e pela solidariedade com um grupo e que resulta das sínteses sucessivas das diferentes experiências e conflitos dos estádios anteriores”.
Poderíamos dizer que a vivência dos cidadãos, enquanto tal, ou seja, a cidadania, que tem por base o conceito de identidade pessoal e de grupo, se vive melhor ou pior consoante se atingiu de forma plena ou não, ao longo do desenvolvimento psíquico, o sentimento de si próprio e a identidade pessoal.
Um dos mecanismos fundamentais para a construção da identidade própria quer no que se refere ao Eu, quer no que se refere ao self, são as identificações.
O estudo das identificações é complexo, pelos diferentes enfoques que foram dados, quer por Freud, ao longo da sua obra, quer, também, pelos psicanalistas que se lhe seguiram, mas podemos dizer que a identificação é o mecanismo fundador do sujeito enquanto ser humano e ser subjectivo. Tem origem nos primeiros tempos de vida com o estabelecimento da ligação emocional com o outro, com os primeiros objectos relacionais, os pais ou quem os substitui.
Desde as primeiras identificações, as identificações primárias, que se estabelecem muito antes de haver uma diferenciação sujeito/objecto, até às identificações secundárias, na base das quais se estrutura o aparelho psíquico, percorre-se um longo caminho, em que são muitos os desafios colocados à criança: a diferenciação do objecto, a sua internalização, o conflito edipiano com a sua quota-parte de amor e de ódio, o equilíbrio entre o amor de si e o amor pelo outro. Chega-se então às identificações, digamos terciárias que permitem a compreensão dos estados subjectivos dos outros e em última análise são uma das ferramentas principais do psicanalista.
A questão que se poderia pôr em relação à cidadania seria como e porquê os cidadãos se sentem envolvidos, responsabilizados, pelo bem-estar comum, se mobilizariam em prol de benefícios do grupo a mais longo prazo, abdicando dos seus benefícios imediatos e individuais?
Ou seja, qual o percurso psicológico do individuo que faz prevalecer o amor sobre o ódio, o altruísmo sobre o egoísmo, ou, dito de outro modo, a relação de objecto sobre a relação narcísica.
Em 1921, e na sequência da I Guerra Mundial, Freud sente a necessidade de compreender o que “determina os fenómenos de coesão social”, mas também os fenómenos que levam os grupos à intolerância e ao ódio. Publica “Psicologia de Massas e Análise do Eu”, em que responde ou tenta responder a estas questões. Para Freud, o laço que une os membros de um grupo é da mesma natureza dos laços que nascem no seio da família. O que provoca a coesão dos grupos são os laços afectivos, por um lado, o amor, e, por outro lado, a identificação, mecanismo susceptível de criar um laço afectivo entre os membros do grupo.
A propósito do amor, Freud diz-nos: “tal como nos indivíduos, só o amor actua como factor civilizacional, na medida em que permite a passagem do egoísmo ao altruísmo”. Freud não nega os sentimentos de ambivalência e hostilidade no interior dos grupos, mas considera que eles se dissipam, na medida em que os laços afectivos positivos entre os membros do grupo persistem e predominam.
A identificação que “resultaria da percepção, de uma qualidade comum partilhada com outra pessoa, que não é objecto do investimento sexual” seria o outro factor que contribuiria para a coesão do grupo (sendo que esta qualidade comum, diz Freud, é a natureza da ligação emocional ao líder). Seria este tipo de identificação que constituiria o “laço” (“tie”) que liga os membros de um grupo.
Bion, um psicanalista que dedicou uma parte do seu trabalho ao estudo dos grupos, vai mais além e, ao contrário de Freud, que estudou os grupos na base do psiquismo individual, considerou o grupo como uma entidade única, com uma dinâmica própria, a que ele chamou mentalidade e cultura de grupo.
As formulações de Bion estão longe do tema que me foi proposto tratar, mas são muito interessantes porque analisam as ansiedades e as emoções intensas que a vivência de grupo desencadeia nos seus membros e Bion considera que os funcionamentos regressivos dentro dos grupos aparecem como mecanismos defensivos contra essas ansiedades, impedindo a concretização das tarefas que se propõem. Muito do que Bion comprovou no seu trabalho terapêutico com grupos e que depois generalizou a grupos específicos, como a Igreja e as Forças Armadas são aplicáveis à nossa sociedade e às suas disfunções, impedindo o exercício pleno da cidadania, por parte dos cidadãos.
A empatia foi definida por Freud, como o “conhecimento intuitivo do que se passa com o outro, essencial à comunicação psicanalítica e na base do qual estariam os processos de identificação”. E diz ainda na frase de abertura do capítulo “Identificação” em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”: “A identificação é a expressão mais precoce da ligação emocional com outra pessoa”, como já referi.
O que eu defendo nesta comunicação é que sem empatia, não há cidadania, ou seja sem a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, neste caso dos outros concidadãos, sem a capacidade de nos identificarmos e de identificarmos o bem comum, nosso e das gerações futuras, o progresso, o bem-estar social, não temos sensibilidade para, como diz Freud, renunciar ao nosso egoísmo pessoal e, dessa forma, ficamos no território do narcisismo.
Nos dias de hoje, a empatia e a sua origem tem sido um dos objectos de estudo dos neurocientistas e dos investigadores do desenvolvimento, nomeadamente no âmbito da comunicação mãe-criança e das interacções precoces.
É essa incursão, necessariamente resumida, no domínio da comunicação precoce, que me proponho fazer agora.
Tal como Freud e os primeiros analistas, entre as quais S. Ferenczi e M. Klein, tinham intuído, a partir da sua experiência psicanalítica, os desenvolvimentos posteriores da psicanálise e os dados da investigação científica empírica e experimental sobre o desenvolvimento das relações precoces mostram-nos que os processos de identificação, e nomeadamente a empatia, têm a sua origem na comunicação primeira entre a mãe e o bebé.
Digamos que a identificação primária encontrou de forma incontornável, e através da comprovação biológica, a confirmação da sua existência.
A comunicação ao nível das interacções precoces situa-se em vários planos. Ainda na vida intra-uterina e no plano biológico, a comunicação estabelece-se ao nível perceptivo-sensorial, ao nível dos ritmos nictemerais, do regime hemodinâmico, hormonal, imunológico. Estas interacções precocíssimas, sabemos hoje, são determinantes para o estabelecimento do vínculo mãe-criança.
Depois do nascimento, e antes do aparecimento da linguagem, a comunicação estabelece-se num segundo plano, no plano dos comportamentos, que são fortemente influenciados pelas interacções afectivas e pelo significado que os pais atribuem às manifestações dos filhos. Esse significado é determinado pelas representações mentais conscientes e
inconscientes parentais e reflectem-se na qualidade das suas respostas interactivas, transmitindo à criança, através do dito e do não-dito, a natureza dos laços afectivos que os unem e contribuindo para a organização do self infantil.
S. Lebovici fala de um “mandato transgeracional” do bebé, em que este é o depositário da cultura familiar e está encarregado de cumprir o destino da família. Podemos dizer que este seria o primeiro nível identitário da criança.
Ainda neste plano, e associado aos comportamentos, temos que incluir a comunicação ao nível dos afectos, e este é um dos campos em que o conhecimento mais tem avançado. É a área das interacções afectivas, ou seja da capacidade de comunicação e regulação afectiva no interior da díade mãe/pai-criança.
B. Beebe, a partir da micro-análise das sequencias interactivas, considera que desde o início da vida extra-uterina, as capacidades de representação do bebé incluiriam as representações das experiências diádicas. O que é representado e memorizado desde o início da vida, diz esta e outros autores, é a experiência do bebé com o outro e não a sua representação individual, e é no interior destas estruturas interactivas que se organiza a experiência precoce. Estas representações diádicas vão sofrendo processos de transformação, de interpretação, de complexificação e de reorganização e vão, mais tarde, contribuir para a estruturação de uma identidade própria.
Há autores, como Bratten (citado por L. Murray), que propõe a existência de circuitos cerebrais no recém-nascido que especificam a existência imediata de um “outro virtual”, ou seja, que no cérebro do recém-nascido haveria lugar virtual para um outro, com funções de complementaridade, lugar esse que seria ocupado pelo outro elemento da díade. O que significa que o funcionamento diádico seria prévio à constituição da díade.
A regulação dos estados afectivos no interior da díade mãe-bebé, do lado do bebé, deve-se à sua capacidade inata para apreender e reproduzir os estados emocionais da mãe e origina estados de mutualidade e ressonância afectiva entre a mãe e o bebé e que estão na origem da empatia e da intersubjectividade, qualquer destes conceitos remetendo-nos para o reconhecimento da subjectividade do outro, como entidade diferente de si próprio.
Na literatura encontram-se muitos estudos sobre regulação afectiva na díade mãe-criança que demonstram que o próprio funcionamento cerebral do bebé está envolvido nesta regulação afectiva mãe-crianca e que o bebé reage e reflecte muito precocemente os estados afectivos
maternos. Verificou-se, graças a registos electroencefalográficos, que a percepção do estado emocional materno, reflectida na sua própria face, provoca na criança modificações cerebrais, o que provaria que o cérebro do bebé como que reflecte a emoção da mãe.
Outro contributo mais recente para a origem da empatia foi dada por V. Gallese que acredita que os neurónios-espelho, que são activados pela observação das acções executadas por outros, não só em relação à mão, mas também à boca, nomeadamente durante a “observação de actos faciais comunicativos”, estão na origem da empatia. Inicialmente descobertos em macacos, estes neurónios foram também identificados no cérebro humano e, segundo este autor, o seu funcionamento permitiria, graças a um estado neuronal partilhado, uma percepção experiencial do estado de espírito dos outros, que, cito, “produz esta qualidade particular de familiaridade que nós mantemos com outros indivíduos. É o que significa estar em empatia”.
A verdade destes dados científicos leva-nos a pensar que podemos ter encontrado as bases neuro-fisiológicas das identificações ditas primárias e que mostram a importância dos modos primeiros da comunicação humana, constituindo-se como um segundo nível identitário, sendo o primeiro, como disse, o mandato transgeracional atribuído pelos pais.
Mais tarde, com aparecimento da comunicação verbal e a triangulação da relação, as identificações primárias vão tornando-se mais complexas, e contribuindo para a construção do sentimento de si próprio com um ser separado e diferenciado do outro, e estaríamos perante o terceiro nível identitário.
Das identificações primárias passamos às identificações secundárias da fase edipiana, que integram, naturalmente, as identificações primárias e são transpostas, mais tarde, para os diferentes encontros (escola, amigos, família alargada) até atingirmos o estádio de identidade do Eu, descrito por Erickson.
No diálogo interno entre estas diferentes identificações constrói-se a identidade individual, ou seja o quarto nível identitário.
Só então o indivíduo está em condições de maturidade psicológica, para abandonar os seus interesses imediatos e egoístas em prol dos interesses da sociedade.
A cidadania, como valor ético da sociedade, é uma meta atingir em que a liberdade e os interesses individuais, a livre escolha, são valores respeitados, mas estão subordinados ao interesse da sociedade em que cada
um está inserido, sendo que esse interesse refere-se ao bem-estar, segurança e progresso comum, não só para as gerações actuais, mas também para as vindouras.
Parafraseando Freud, no exercício da cidadania prevalece o amor sobre o ódio, o egoísmo sobre o altruísmo.
O cimento que liga os cidadãos entre si, conferindo-lhes uma unidade grupal é a identificação, que por sua vez contribui para o desenvolvimento da empatia no interior do grupo.
À laia de conclusão e pondo em equação cidadania e comunicação podemos dizer que a comunicação é a matriz do desenvolvimento psíquico individual, sendo a cidadania a matriz do desenvolvimento do sujeito como ser social.
ABSTRACT: Citizenship includes not only the rights of citizens but also their responsibilities. It implies two fundamental concepts: identity and sense of belonging. The psychoanalytical concept of identity is discussed based on the identification process along the development. The primary identifications' level, constituting the nuclear self, are progressively transforming into other more complex levels of identification, achieving the enough psychological maturity to give up egoism and embrace altruism. The studies on early communication between mother and baby are presented in order to highlight its importance on the identification process and empathy development.
KEYWORDS: Communication; Identification; Empathy.