Considerando que a capacidade de viver a incerteza condiciona as reacções de cada um de nós ao que se apresenta como estranho, foi tomado, como ponto de partida, o conceito de conflito estético e a sua importância para o desenvolvimento emocional e do pensamento e, de acordo com Meltzer, como paradigma do conflito da condição humana.
Aborda-se em seguida a experiência de estranheza vivida na situação analítica, perspectivada em função da sua ligação ao inconsciente e à suportabilidade da dor mental. Finalmente uma breve referência à experiência pessoal de Freud, que ele descreve em “Uma Perturbação da Memória na Acrópole”, e que tem como base a ambivalência e a culpabilidade inconsciente.
Considerando que a capacidade de viver a incerteza condiciona as reacções de cada um de nós ao que se apresenta como estranho, tomámos como ponto de partida o conceito de conflito estético e a sua importância para o desenvolvimento emocional que é, de acordo com Meltzer, o paradigma do conflito da condição humana.
No seu livro “The Apprehension of Beauty” (A Apreensão da Beleza), D. Meltzer escreve um trecho belíssimo em que considera que a experiência emocional da incerteza é o motor do pensamento e da capacidade criativa.
A conjectura meltzeriana propõe-nos que o nascimento é, para o bebé, mais do que uma experiência traumática, como habitualmente se considera, uma experiência emocional. Esta experiência emocional do
Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Presidente do Instituto de Psicanálise (Lisboa).
Comunicação apresentada no XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
bebé resulta do encontro com um mundo novo cheio de sons, cheio de cores, cheio de toques, cheio de afectos, que contrasta com o mundo intra-uterino donde, e Meltzer interroga-se, o bebé terá escapado ou terá sido expulso. Assim, o bebé “sabe, sente, intui?”, a partir da sua experiência intra-uterina que a mãe tem um interior.
O encantamento que este novo mundo desperta no bebé é personificado pela face materna, pelo olhar maravilhado da mãe. A mãe é para o bebé um objecto de interesse avassalador que o bombardeia com experiências emocionais de uma qualidade intensíssima e apaixonante e que a tornam maravilhosa aos seus olhos. Mas o significado do comportamento da mãe, do seu aparecimento e desaparecimento, das mudanças do fácies, da variação do brilho dos olhos são desconhecidos para ele que “chegou a um país de que ainda não conhece nem a linguagem nem os códigos”. A mãe maravilhosa torna-se enigmática aos seus olhos, já que a perfeição da sua beleza contrasta com a imperfeição do contacto do bebé com o mundo materno. A beleza materna tem falhas, a presença desse objecto/pessoa nem sempre lhe traz alívio, nem sempre o conforta. A experiência emocional do recém-nascido seria assim composta de elementos de sinal contrário: o impacto estético da beleza da face materna, e a dor da incerteza sobre o seu interior, sobre a sua mente, sobre o que esconde essa beleza.
Estamos então, está o bebé, confrontado com o chamado conflito estético, que resulta do impacto entre o exterior da mãe que é acessível aos sentidos e o seu interior enigmático, inacessível. Um mundo incompreensível, a menos que o bebé ponha a sua capacidade de pensar e de imaginar, ao serviço da solução desse enigma. Em vez de soçobrar psiquicamente perante um contacto íntimo com esta mãe “estranha e não familiar”, (“Unheimlich”) usa a sua “imaginação criativa”, para a tornar familiar (“heimliche”). É, em última análise, um conflito entre o amor, o ódio e o conhecimento, diz Meltzer que considera este conflito próprio da condição humana, na medida em que nunca teremos acesso nem poderemos ter a certeza dos verdadeiros sentimentos dos nossos semelhantes por mais próximos e familiares que sejam.
A incerteza é o elemento central do conflito e o “elemento trágico” desta experiência (estética) é “qualidade enigmática do objecto”.
A capacidade dum bebé aceitar/tolerar a incerteza e de a transformar em pensamento depende da frequência e da intensidade das des-sintonias na comunicação mãe-bebé, mas também do grau de tolerância da mãe face às incertezas/ angústias que o contacto com o bebé desperta nela.
A tolerância da mãe e a contenção do desconforto do bebé, que se manifesta na sua capacidade de pensar o bebé e os seus estados de espírito ajuda-o a integrar e internalizar as boas experiências. Neste caso, a beleza da mãe coincide com o estabelecimento duma relação íntima segura e satisfatória. A incerteza reduz-se, a confiança instala-se.
Um bebé saudável seria aquele capaz de lidar com uma dose razoável de incerteza, capaz de suportar um certo nível de desconforto e usar a sua própria capacidade criativa para lidar com as ansiedades persecutórias que resultam dos ataques maternos, ou seja da insuficiência da resposta, da insuficiência da empatia, ou para lidar com as ansiedades depressiva que resultam da ausência do objecto. Neste caso, desenvolve a sua capacidade de pensar e de “aprender com a experiência”, desenvolve a sua tolerância ao que é incerto, ameaçador, ao que lhe é estranho.
Há bebés que não desenvolvem essa capacidade e existem múltiplas situações em que isso pode acontecer e vamos tipificar duas:
Os bebés que vivem relações de tipo fusional, excessivamente longas em que a satisfação das necessidades é imediata ou quase. São bebé cujas mães, omnipresentes são “mães totalmente boas”, para usar um conceito de Winnicott, e nestas condições podemos assistir a reacções de angústia catastrófica face à ausência do objecto materno, como é, por exemplo, a situação do estranho, ou ainda antes disso, o desaparecimento do seio.
Uma certa dose de conflito e ansiedade é necessária para o crescimento psíquico ou, caso contrário, entra-se numa estagnação da vida psíquica. Podemos comparar com o desenvolvimento da imunidade biológica, que também se adquire através dum contacto controlado com os agentes patológicos.
Vejamos o caso dos bebés de Spitz. Criados exclusivamente pelas mães em situação de encarceramento, que em exclusivo acodem a todas as suas necessidades, um mundo sem conflito e sem escapatória, um enorme útero que abarca a díade, desenvolvem reacções catastróficas de angústia do estranho, quando, aos 6 meses são retirados às mães de forma definitiva e brutal, e que nalguns casos provocam a morte psíquica e mesmo física.
Se comparamos com os bebés de hoje que, pelo estilo de vida actual e urbano, muito precocemente estão em contacto com várias figuras maternas e que assim vão lidando com doses maiores ou
menores de incerteza, dúvida ou frustração, observamos reacções ao estranho de cada vez menor intensidade associadas a estratégias de apreensão da realidade cada vez mais precoces. Os bebés de hoje são levados a pensar mais, mais cedo e mais depressa.
Os bebés que vivem situações extremas de privação ou cuja tolerância à frustração é muito reduzida.
Também estes bebés não adquirem os mecanismos que lhe permitem lidar com o desconforto da frustração, do desconhecido, do incerto.
O que é que acontece?
Acontece o recurso a mecanismos que põem em risco a sua saúde mental: clivagem e projecção do mau objecto, (ansiedades paranóides), negação da realidade interna com empobrecimento duma parte da experiência psíquica.
A fuga do conflito traz um afastamento da relação de intimidade com o outro, um não – pensamento e uma tendência para a desconfiança e para a rejeição.
Estão criadas as condições para o desenvolvimento da intolerância. Um exemplo as anorexias precoces.
Podemos dizer que a tolerância e a intolerância estão ligadas pela qualidade da experiência emocional da incerteza face aos acontecimentos/pessoas/objectos que nos são estranhos.
Numa situação estranha, a incerteza é uma certeza. Trata-se duma incerteza que pode chegar ao temor e nalguns casos ao terror. Deste ponto de vista, podemos dizer que o grau de tolerância ao que nos é estranho depende do desenvolvimento, desde a infância, daquilo a que Bion chama a capacidade negativa e outros chamam criatividade.
É no gabinete do analista que mais se faz ouvir a evocação do estranho: “ao vir para aqui aconteceu uma coisa estranha”; “agora que disse isso tive um pensamento estranho”; “esta noite tive um sonho estranho”; “acordei com uma sensação estranha”; é estranho, nunca mais me tinha lembrado deste episódio de quando era criança!“. Estranho, estranho, estranho!
1a Questão: O que é o estranho? Ou que tipo de estranho é este?
2a Questão: O que é que há de estranho na situação analítica, para tudo ser assim tão estranho?
Freud diz no seu texto de 1936 “Uma Perturbação da Memória na Acrópole”, a propósito dum episódio de desrealização, que lhe aconteceu em 1904, durante uma viagem a Atenas com o seu irmão mais novo, Alexandre, que a experiência de estranheza resulta da ambivalência e da culpabilidade.
Diz ainda no texto de 1919 sobre a “Inquietante Estranheza” (“The Uncanny”), que se trata de algum modo da emergência na consciência, graças à diminuição do recalcamento, de material do passado infantil e reprimido, dos conflitos inconscientes. Eu acrescento: e não transformados pelo processo de elaboração simbólica.
Ora ambivalência, culpabilidade, conflito e recalcamento são palavras-chave da teoria psicanalítica e são os temas que mais frequentemente emergem no cenário da sessão analítica e no jogo da transferência/contra-transferência.
Na realidade, a situação analítica está delineada, quer nos seus aspectos formais, quer no modo como se organiza a relação analista-analisando, para dar voz ao discurso do inconsciente. No processo de associação livre, o discurso manifesto do paciente vai seguindo um percurso que esconde, mais do que mostra, os conteúdos inconscientes dos conflitos que provocam dor mental. Assim, o inconsciente, quando aparece, manifesta-se como um estranho no discurso manifesto do paciente.
Podemos dizer que tal como o bebé quando nasce tem um desejo de escapar ao sufocamento do útero materno, que se torna intolerável para a sua própria sobrevivência, também para escapar à intolerabilidade da dor mental, a nossa mente provoca a expulsão dos conteúdos que lhe dão origem, para uma área do aparelho psíquico que é o inconsciente, libertando-nos assim desse fardo. Há de facto várias maneiras de lidar com a dor mental e uma delas é mantê-la afastada da nossa consciência. Trata-se uma forma particularmente eficaz de não entrar em contacto com a realidade interna, mas que tem como contrapartida, pelo menos em parte, a paralisia do pensamento e um empobrecimento psíquico.
Mantendo afastados da nossa consciência os conteúdos dolorosos, evitamos a dor mental, não temos que a tolerar, não somos forçados a pensá-la, a transformá-la.
Não só a dor mental, mas também os conteúdos que deram origem a essa dor não podem ser pensados, mantêm-se inalterados no inconsciente, tal com foram vividos como uma rocha ou um castelo inviolável, clivados e encapsulados.
O trabalho psicanalítico tem como objectivo aumentar a tolerância do aparelho psíquico, ou seja aceitar na sua camada consciente a emergência dos conteúdos inconscientes para que estes possam ser reconhecidos, elaborados e transformados.
É de facto uma questão de tolerância ou de intolerância do aparelho psíquico à dor mental.
É por isso que o aparecimento do estranho na sessão de análise é uma janela que se abre, é um indicador de que houve transformação psíquica. Eu diria que o estranho aparece no gabinete do analista quando a dor mental (intolerável) dá lugar ao sofrimento (tolerável) e os pensamentos se tornam pensáveis (Fleming, 2003).
No texto “Das Unheimlich”, de 1919, traduzido por Strachey para “The Uncanny” (sobrenatural, misterioso) e cuja tradução em português corresponde “Estranha Inquietação” (= inquietante étrangeté), Freud começa por definir o estranho ou o sentimento de estranheza como estando relacionado com o que causa horror e terror.
Avança para a análise linguística da palavra heimlich, que significa simultaneamente o que é familiar e o que é secreto, o que é conhecido e o que está escondido ou é inacessível, dissimulado. O seu contrário unheimlich, corresponde ao que não é familiar. Conclui Freud que o significado de “heimlich” desenvolve-se em dois sentidos, um dos quais (secreto, dissimulado) acaba por coincidir exactamente com seu oposto “unheimlich”. Traduzindo para português, o que não resulta muito bem, valha a verdade, o estranho (“unheimlich”) seria, como diz Freud, uma subcategoria do familiar e pertence àquela categoria de medos que nos conduzem a coisas familiares e muito antigas. O que é estranho já foi familiar. “Unheimlich” é o que não é familiar, mas na realidade contém em si o familiar.
Podemos ainda dizer que sendo o “Unheimlich” o familiar que se tornou não familiar, encontraríamos nesse termo uma boa definição para o inconsciente recalcado.
Diz Freud: a “experiência” de estranheza ocorre quando “complexos infantis que foram reprimidos são mais uma vez revividos através de alguma impressão ou quando crenças primitivas (referindo-se ao pensamento mágico dos povos primitivos ou da infância) que parecem ter sido ultrapassadas, são mais uma vez confirmadas” e se apresentam como estranhos ao Eu. Max Schur refere-se à obsessão de Freud com os algarismos (o 62), particularmente activa na altura da sua viagem a Atenas, e que o próprio descreve numa carta de 1909 a Jung.
Na sua “Perturbação da Memória da Acrópole” (1936) Freud volta a fazer referência à ambivalência como estando na base do sentimento de estranheza e de irrealidade que viveu por breves momentos quando se encontrava face à Acrópole. Descreve com algum pormenor a sua atribulada viagem a Atenas, recheada de obstáculos premonitórios, e indiciadores, segundo ele, da sua ambivalência. Max Schur no seu livro “A Morte na Vida de Freud” faz referência a esse período da vida de Freud como sendo particularmente difícil, em que a ruptura e o conflito com Fliess se mantinham acesos e tinham sido antecedidos de alguns anos da morte do seu pai. O próprio Freud fala da sua depressão nos dias que passou em Trieste, antes de viajar para Atenas.
Freud recorda o seu interesse pela Grécia e o seu desejo de viajar e de conhecer esse país quando era criança, o que na altura não julgava possível. O sentimento de estranheza e de irrealidade (estamos mesmo na Acrópole? perguntou ao irmão) correspondeu à emergência súbita duma vivência familiar infantil, há muito esquecida. De acordo com a sua realidade interna, agora actualizada, ele não poderia estar na Acrópole. E não podia lá estar por duas razões: porque essa era a sua convicção infantil e também porque o seu próprio pai, comerciante, nunca realizou essa viagem e não tinha interesse nela. Este pensamento tinha como contraponto um sentimento de superioridade de ambos os irmãos sobre o seu pai e a constatação de que ele, Freud, tinha chegado mais longe na vida e isso era um pensamento claramente proibido.
A estranha inquietação que Freud sentiu na Acrópole estava indubitavelmente ligada, de acordo com as suas próprias associações, com a emergência de conteúdos inconscientes, nomeadamente o conflito edipiano, a ambivalência e a culpabilidade.
Para terminar poderíamos dizer que o que sentimos como estranho são as situações que evocam em nós experiências de sinais contrários, experiências que associam o que já conhecemos, o que é familiar, o que é belo, o que nos atrai com o que é desconhecido, inquietante. O carácter inquietante da experiência é projectado na realidade externa provocando sentimentos que vão da dúvida, da incerteza ao medo e ao temor.
A elaboração simbólica deste conflito permite a tolerância, a capacidade de suportar a inquietante estranheza; a fuga ao conflito cria as bases da intolerância, a incapacidade de tolerar o que não é familiar.
Meltzer diz-nos ainda, e isto pode ser relevante para compreender a perturbação da memória de Freud em Atenas, que todos os conflitos
com que os analistas se defrontam nos seus gabinetes de análise, seja a dor causada pelas separações, pelas carências, pelo conflito edipiano, etc., têm como base a fuga à dor causada pelo conflito estético, ou seja têm como base um processo fundamental de fuga ao impacto da beleza do mundo e à ligação íntima a outro ser humano.
A beleza da Acrópole e do Parténon, templo dedicado a Ateneia, deusa da guerra, da pureza e da sabedoria, mas também em tempos mais antigos da fertilidade, é evocadora da imagem materna, simultaneamente bela e enigmática, tornando a experiência irreal.
Tornando a experiência irreal, Freud afasta-se dessa representação inquietante, foge à ligação com o objecto materno.
Penso que este episódio vivido e descrito por Freud pode ser considerado o paradigma do conflito estético.
Michael Cunningham, no seu livro “Ao Cair da Noite” descreve a profunda inquietação e transformação do protagonista face à enigmática beleza dum jovem adulto.
Termino com uma frase de Rainer Maria Rilke em epígrafe nesse mesmo livro: “A beleza não é mais que o início do terror”.
ABSTRACT: The author believes that the capacity to experience uncertainty influences our reactions to stranger situations. So, the concept of aesthetic conflict as conceptualized by D. Meltzer, and its importance for emotional and thinking development is the theme of departure to the discussion. The experience of strangeness in the analytic situation is linked to the emergence of the unconscious and the supportability of mental suffering. Finally the author refers briefly to the Freud's personal experience described in his “A Disturbance of Memory on the Acropolis”, that is based on ambivalence and unconscious guilt.
KEYWORDS: Aesthetic conflict; Unconscious; Ambivalence.