A partir da investigação, no campo psicanalítico, demonstraremos como este conceito se estende do narcisismo saudável ao narcisismo destrutivo ou patológico, passando pelo narcisismo das pequenas diferenças. Falaremos do narcisismo de vida, ou narcisismo saudável, marcado pela prevalência dos aspectos libidinais que tendem a reforçar a unidade do Eu, a regulação normal da auto-estima e a estabilidade psíquica que resulta de uma integração do seu mundo interno. Também abordaremos o narcisismo de morte, ou destrutivo, que representa certas formas de regressão da regulação da auto-estima infantil, com consequências na escolha de situações ou de relações objectais que espelham o sentimento insatisfatório ou destrutivo da mente. Analisaremos os efeitos destas qualidades de narcisismo na dinâmica da vida relacional do quotidiano e as suas consequências no contacto com a tolerância ou intolerância à diferença.
O narcisismo, que procurou na mitologia grega a sua inspiração como fonte, ganhou ao longo dos tempos um espaço importante na literatura e na pintura, assim como no campo da investigação clínica onde adquiriu neste último século um papel de relevo, ganhando o estatuto de conceito. Mas qual é a origem deste termo? Podemos encontrar na lenda da personagem de Narciso, descrita nas Metamorfoses de Ovídio, a fonte da origem do termo narcisismo. O conflito do narcisismo reside no sentimento profundo de se sentir prisioneiro de si próprio por impossibilidade de aceitar o olhar do outro, tornando-se assim escravo do mundo
Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association. Presidente da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Comunicação apresentada no XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
das suas próprias sombras. Narciso, que se sentia apaixonado por si próprio mas, como todos os narcísicos, estava cego em relação ao amor dos outros e não conseguia contemplar as ninfas nem Eco que, em seu redor, o cortejavam. Fascinado exclusivamente por si, ao ver o seu reflexo nas águas límpidas, como podemos constatar numa tela de Caravaggio, tenta abraçá-lo, mas quanto mais se aproximava mais a imagem se afastava e se esquivava. Assim, percebeu que o objecto do seu amor era ele próprio e torturado por este desejo intenso e impossível inicia a experiência da perda, da dor e da solidão.
Podemos interrogar-nos sobre o que entendemos por narcisismo e quais são as qualidades dessa experiência de amor narcísico.
Quando falamos do termo narcisismo referimo-nos, num primeiro momento, à capacidade que o ser humano tem de se autocentrar, ou seja, de se admirar excessivamente, com a consequente insuportabilidade de pensar no outro como um ser diferente e separado dele. A propósito deste amor, com características narcísicas, não podemos deixar de pensar em Freud (1914) que, através do seu trabalho de investigação clínica, descreve as diferentes formas psíquicas para a escolha do objecto de amor narcísico. Preferencialmente, segundo ele, a escolha do objecto de amor narcísico pode ser feita em conformidade com aquilo que a própria pessoa é, com o que ela própria foi, com o que ela própria gostaria de ser, ou com alguém que foi outrora uma parte dela mesma. Estas diferentes variedades de escolhas de amor narcísico estão claramente demonstradas, de uma forma fina e brilhante, nas páginas do livro de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray. Cada uma das personagens representa uma das facetas do narcisismo negando o amor objectal e refugiando-se num tempo estático que se alimenta do retraimento narcísico sobre si próprio, onde passado e futuro se confundem. Também encontramos nas memórias de Maximilien Aue, descritas por Jonathan Littell no seu livro As Benevolentes, onde este ex-oficial nazi descreve as atrocidades em que participou durante os momentos sombrios da última guerra, sem arrependimento, sem culpa e sem piedade pelas vítimas, mostrando como o seu narcisismo é patológico e completamente centrado sobre si próprio, esquecendo-se do outro como um ser humano.
Quando olhamos para estas páginas, de uma profunda riqueza literária e humana, podemos interrogar-nos sobre o papel do narcisismo na dinâmica psíquica do ser humano e o seu contributo para o desenvolvimento da tolerância perante as diferenças que nem sempre encontramos ao longo da história da humanidade.
Todos os trabalhos de investigação clínica, no campo psicanalítico, mostram-nos que o narcisismo seria “uma forma da pessoa se centrar sobre si própria e fazer de si o ponto de referência à volta do qual organiza toda a sua experiência emocional e relacional de vida” (Alexandre, 2007). Contudo, é importante assinalar que o termo narcisismo sofreu, tanto ao longo da obra de Freud como na actual literatura analítica, um profundo desenvolvimento conceptual. Assim, este termo que adquiriu com Freud (1914) um valor de conceito, passou a desempenhar um lugar de destaque na teoria do desenvolvimento e na dinâmica psíquica do ser humano. Esta investigação clínica, no campo psicanalítico (Grunberger, 1983; Green, 1988; Rosenfelt, 1971; Kohut, 1984 e Kernberg, 1989), trouxe um aprofundamento deste conceito e mostrou como Eros, figura metafórica das pulsões de vida, se interliga com Tânatos, donde surgem as pulsões de morte e de destruição, emergindo desta dinâmica diversas qualidades de narcisismo com distintos níveis de importância, de dificuldades e de consequências evidentes no desenvolvimento psíquico do ser humano e na clínica analítica. A investigação no campo psicanalítico é unânime em demonstrar que existe uma paleta de diferentes formas deste conceito, que se estende do narcisismo saudável (Britton, 1998) ao narcisismo destrutivo ou patológico, passando pelo narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1930, ).
Tentaremos abordar algumas configurações do narcisismo que são de especial relevância para o desenvolvimento psíquico do ser humano. Assim, falaremos do narcisismo de vida ou narcisismo saudável, marcado pela prevalência dos aspectos libidinais, que tendem a reforçar a unidade do Eu, a regulação normal da auto-estima e a estabilidade psíquica que resulta de uma integração do seu mundo interno. Também abordaremos o narcisismo de morte ou destrutivo, que representa certas formas de regressão da regulação da auto-estima infantil, com consequências na escolha de situações ou de relações objectais que espelham o sentimento insatisfatório ou destrutivo da mente.
Tentaremos também analisar as consequências destas qualidades de narcisismo na dinâmica da vida relacional do quotidiano e as suas consequências no contacto com a tolerância ou intolerância da diferença.
Quando nos referimos ao narcisismo de vida queremos sublinhar o sentimento profundo que alguém tem a seu próprio respeito e que é alimentado por um afecto de amor, ou seja, pelas pulsões de vida ou libidinais,
reconhecendo-se na coesão do seu self, na sua identidade e no sentimento que tem de si próprio enquanto diferente ou separado do outro. Este “narcisismo saudável” (Britton, 1998) acompanha o ser humano desde os seus primórdios até ao final da sua vida. Esse afecto de encontro consigo próprio, por identificação primária aos objectos narcisantes, torna-se no conteúdo que alimenta o narcisismo saudável de todo o ser humano. Desse narcisismo ou amor por si próprio constrói-se uma base que fortalece as ramificações para a construção de uma segurança interna e uma maior compreensão dos outros. Desde precocemente, a criança revê-se no olhar dos pais, aprendendo a reconhecer-se no outro, como se de um espelho se tratasse, e, desta forma, vai construindo um narcisismo de vida necessário ao seu desenvolvimento psíquico. Parece-nos, contudo, não ser possível falar de narcisismo sem ter em conta a relação com o outro, ou seja, a relação objectal. É o desejo de procura do objecto, como encontro com a experiência de satisfação, que faz com que se descentralize de si próprio. A criança nos primeiros tempos de vida vai construir, através das percepções visuais, das percepções auditivas, das percepções olfactivas, um continente que funciona como objectos parciais rudimentares donde nasceria o narcisismo primário. Estes objectos parciais ainda não estariam interligados mas formariam uma unidade que poderíamos chamar do Eu corporal. Este narcisismo, com o total apoio dos pais, vai evoluindo para o narcisismo secundário onde predominam os objectos totais e onde o investimento libidinal do ego coexiste com os investimentos objectais, surgindo um equilíbrio entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. Freud (1905) mostrou como este narcisismo infantil desencadeia, por parte dos pais, uma particular admiração por “sua majestade o bebé”. O amor dos pais é tão tocante mas também tão infantil porque evoca e faz renascer o seu próprio narcisismo e omnipotência que expressa, inequivocamente, os aspectos da criança que outrora foram.
Esta dinâmica relacional entre os pais e a criança vai ser regulada entre provas de amor, de admiração e de confiança, mas também por certas restrições ou punições que são causadoras de receios e angústias. As proibições exteriores começam a ser interiorizadas e é nesta altura que o Supereu, como instância psíquica, vai substituir, a partir das identificações, a exigência parental. Assim, o narcisismo vai ser regulado por esta instância psíquica através da qual será, de acordo com a qualidade superegóica, transformado num atributo de maior ou menor tolerância ou intolerância em relação ao diferente e ao igual.
O narcisismo saudável, indispensável à vida, representa, metaforicamente, a trave mestra do reconhecimento da identidade como ser individualizado com as suas características próprias e únicas enquanto pessoa separada do outro. Este narcisismo adulto, específico de todo o ser humano, caracteriza-se por uma regulação normal da sua auto-estima. Relaciona-se com os objectos totalmente internalizados e estáveis, tem um superego integrado e individualizado e as relações tendem a ser estáveis e confiantes.
Deste narcisismo normal, que se caracteriza pelo reconhecimento das suas verdadeiras qualidades, desabrocha a capacidade de criatividade, brotam as aspirações mais profundas de todo o ser humano onde assentam e se desenvolvem a construção dos ideais e dos sonhos (Abraham, 1919). A capacidade de criar necessita de um narcisismo saudável que se alimenta da tolerância que nasce de um superego sadio e confiante.
Também deste narcisismo de vida assenta a construção mais positiva e mais tolerante das inter-relações mais satisfatórias e criativas.
O narcisismo saudável ou de vida suporta com mais facilidade as diferenças entre as pessoas e sustenta uma maior capacidade para aceitar ou admitir as ideias ou comportamentos divergentes. Apresenta, também, maior capacidade de se colocar no lugar do outro por compreensão dos seus próprios limites e assim também tolera os limites dos outros.
Podemos interrogar-nos sobre o papel que este narcisismo de vida tem no processo clínico. Este narcisismo de vida representa o sentimento que alguém tem a seu próprio respeito, alimentado pelas pulsões de vida, reconhecendo-se na sua própria identidade e com as características próprias enquanto separada do objecto. Na clínica, este estado mental está por detrás do desejo de realizar as mudanças psíquicas a partir da elaboração das diferentes perdas e lutos que ocorrem no processo analítico. Representa também a capacidade de contactar com os aspectos mais adultos da personalidade e justamente sentir-se mais capaz de olhar para o seu narcisismo infantil e poder elaborá-lo e fazer o luto.
As pessoas com perturbações narcísicas graves, à semelhança de Narciso que nega a presença de Eco, apresentam distúrbios nas inter-relações próximas. Na verdade, o olhar das pessoas com uma patologia narcísica é ofuscado por uma excessiva centralização sobre si próprios, despre-zando
a presença ou as ideias das pessoas mais próximas. Neste sentido, a experiência clínica mostra-nos como o narcisismo destrutivo não reconhece nem valoriza as qualidades psíquicas daqueles com quem vive ou trabalha. As pessoas com narcisismo destrutivo tratam os mais próximos, numa primeira fase, com admiração e excessiva idealização porque imaginam que eles representam e espelham os seus ideais de grandiosidade e porque, também, acreditam que eles podem preencher as lacunas ou falhas psíquicas. Com o desenvolvimento dessas relações de proximidade, estas pessoas transformam muito rapidamente essas ligações em campos de batalha de rivalidades intolerantes e destrutivas. Assim, a relação amorosa com as pessoas mais próximas é ensombrada por sentimentos permanentes de insatisfação, de retraimento ou de ataques invejosos de desvalorização. Desta forma, oscilam entre sentimentos de valorização e de grandiosidade que alternam com sentimentos de insegurança ou inferioridade.
Abraham (1919), ao estudar o narcisismo negativo, sublinha a paradoxalidade que estes pacientes manifestam entre sentirem-se bem consigo próprios e a presença de um estado de ansiedade permanente que se faz acompanhar por uma insatisfação constante. A excessiva exigência que têm consigo próprios e com as pessoas que os rodeiam alimenta-se de um Supereu tirânico que põe em evidência uma intolerância às diferenças e uma insuportabilidade das relações de reciprocidade. Nestas circunstâncias a alternidade não reconhecida mostra como se sentem em permanente decepção ou insatisfação em relação às pessoas mais próximas.
As pessoas com narcisismo negativo, como anteriormente sublinhámos, constroem um mundo em seu redor, acalentando a esperança de que todos estarão ao seu serviço e que, assim, podem curar ou redimir as feridas da insatisfação. Constatamos, na investigação clínica, paradigmas desta situação sobretudo em pacientes com fortes dependências que mobilizam todos em seu redor para possuir o que desejam ou que imaginam que vai suprir a falta. Este desejo de criar um mundo feito à sua medida, levantando obstáculos a tudo o que é diferente, mostra como estas pessoas escondem um desespero e uma ferida viva de constante decepção.
Como acabámos de constatar, estas pessoas que tem perturbações narcísicas sentem-se feridas e atacadas na sua omnipotência infantil e, por impossibilidade de a restabelecer ou de a elaborar, tornam-se intolerantes em relação a todas as situações diferentes ou desconhecidas.
Na investigação clínica encontramos um leque de diferentes formas de narcisismo que têm diferentes vias de resolução. Encontramos simples regressões ao nível do narcisismo infantil, onde a regulação da auto-estima parece oscilar entre as defesas e as gratificações infantis (Kernberg 1989), que têm resolução ao nível do processo analítico. O segundo tipo de narcisismo patológico, que não é muito frequente encontrar-se, diz respeito à escolha do objecto de amor narcísico, como anteriormente assinalámos ao citar Freud. Nestas circunstâncias, o self infantil projecta-se no objecto de amor criando uma relação libidinal em que a função de um e outro se invertem como se estivessem numa relação especular. Finalmente, temos as perturbações narcísicas da personalidade que têm sido muito estudadas com resultados muito encorajadores.
No processo analítico destes pacientes pode aparecer uma excessiva intolerância à mudança psíquica, que se pode transformar num obstáculo ou numa reacção terapêutica negativa. O vislumbre do diferente é sentido como uma ameaça intolerável e assim prefere regredir ou não mudar. Prefere manter-se em sofrimento a mudar.
Podemos pensar que o sentimento de intolerância às ideias ou pontos de vista dos outros parece alicerçar-se numa dificuldade de elaboração da omnipotência infantil por receio de perda, da separação e da diferença.
Tentámos abordar as diferentes qualidades do narcisismo que existem na natureza humana e que sustentam as diferentes dinâmicas relacionais quer individuais quer dos grupos. Mostrámos como o narcisismo de vida se apresenta de diferentes formas, funcionando como uma paleta de afectos como a reciprocidade, simpatia, tolerância, aceitação das diferenças, e como pode estar na origem da qualidade da formação de relações ou de grupos sintónicos e criativos. Sublinhámos a importância, sobretudo no campo da clínica, do narcisismo de morte que se caracteriza por afectos de destruição, de insuportabilidade da diferença, de uma crua intolerância ao que é divergente e como, frequentemente, vem de mão dada com a inveja destruidora. Desta forma, como constatámos, existe na natureza humana uma paleta com diversas formas e tonalidades de narcisismo que vai do normal ao patológico passando pelo narcisismo intermédio das pequenas diferenças. As diversas tolerâncias ou intolerâncias às diferenças, metaforicamente, parecem ser irmãs gémeas das diferentes qualidades do narcisismo.
O narcisismo saudável, que está na origem das relações amorosas e na configuração de relacionamentos à volta da construção de ideais, de movimentos de coesão e de construção interna, pode andar de braço dado com o narcisismo destrutivo que se caracteriza pela insuportabilidade de aceitar as pequenas diferenças que acompanham o ser humano na sua estruturação psíquica interna e na sua inter-relação com os grupos. Freud (1930) dizia que é sempre possível unir um considerável número de pessoas à volta do amor desde que sobrem outras pessoas para receberem as manifestações de agressividade. A natureza humana está inevitavelmente presa às pequenas diferenças entre as pessoas, entre as comunidades, entre regiões, entre países, acabando por não suportar ou ridicularizar o que se apresenta como divergente das suas ideias, dos seus costumes ou da sua cultura. Os conflitos de intolerância às diferenças, às ideias ou comportamentos entre países, famílias, grupos de trabalho ou grupos políticos, estão sempre presentes na natureza humana. A presença do narcisismo na natureza humana é inevitável e funciona como integrador e protector do psiquismo tão necessário ao seu desenvolvimento. Desta forma podemos dizer, utilizando as palavras de Green (1988), que o narcisismo funciona como o coração do nosso próprio Eu. Sem ele não podemos passar mas, como em todas as situações, quando é excessivo pode ser mortífero.
ABSTRACT: From the investigation in the psychoanalytical field we will show how this concept expands from the healthy narcissism to the destructive and pathologic narcissism, passing in between through the narcissism of small differences. We shall talk about life narcissism or healthy narcissism, noticeable by the incidence of the libidinal aspects, which tend to reinforce the unity of the self, the normal regulation of the self-esteem and the psychic stability which result from the integration of the inner world.
We will also approach death narcissism or destructive narcissism which represent some expressions of regression in the regulation of the early life/infancy self-esteem with consequences in the choice of situations or of object relations that translate the unsatisfactory or destructive feelings of the mind.
We shall examine the effects of both kinds of narcissism in the dynamics of the daily relational life and their consequences in dealing with differences in a tolerant or intolerant manner.
KEYWORDS: Life narcissism; Death narcissism; Narcissism of small differences; Tolerance or intolerance to difference.