1. Quando se critica, em geral, a maneira como a psicanálise encara o corpo, é habitual reduzirem-se as múltiplas perspectivas psicanalíticas a um só gesto: o de transformar o corpo real em representação ou fantasma. A psicanálise pecaria por não tomar em consideração o corpo físico, a realidade corporal que, pelas suas propriedades próprias e segundo a sua lógica específica, contribuiria para a formação dos sintomas quando não da doença. No máximo, o corpo apareceria como suporte da representação investida pela libido – na teoria das pulsões, na conversão somática, na teoria das perversões ou na imagem do corpo erógeno.
É verdade que uma tal ideia é ao mesmo tempo redutora e verdadeira. Redutora, porque em muitos casos – como o de Winnicott e o de Dolto – o corpo surge com a sua autonomia específica. Mas também verdadeira, porque a psicanálise não pensou sistematicamente o corpo, de forma a poder tirar do seu funcionamento próprio mais inteligibilidade para os fenómenos psíquicos que constituem o seu objecto. Sabemos bem que Freud, depois do Esboço de uma psicologia científica, de 1895, deixou de dar a primazia ao aspecto económico dos processos psíquicos em benefício de uma semiótica da representação, ou melhor, de uma hermenêutica dos sintomas.
2. É esse o sentido da crítica que afirma que a psicanálise “reduz o corpo a uma imagem no fantasma”: ou seja, não tem em conta a sua realidade concreta, a sua autonomia, no papel que lhe é atribuído no psiquismo individual. Por exemplo, o que é o corpo erógeno? É o corpo erotizado segundo zonas de excitabilidade libidinal. A “boca” pode ser uma dessas
Filósofo. Ensaísta. Professor Universitário.
Conferência apresentada no XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
zonas. Ora a psicanálise raramente se interessará pela boca real, órgão que possui uma fisiologia e uma anatomia particulares, com funções em que se investem forças específicas, com sensações específicas. Pelo contrário, é a função da imagem da boca em tal contexto de uma história singular das representações das pulsões que interessa o psicanalista – cuja leitura-interpretação dessa imagem se apoia já, previamente, na metapsicologia freudiana.
3. No entanto, a psicanálise, como toda a terapia “psi”, têm necessidade de considerar o corpo concreto, dito “físico”, para dar maior inteligibilidade ao psíquico e mais eficácia aos procedimentos terapêuticos. O nosso objectivo, aqui, consistirá apenas em mostrar como a análise de certas “funções” corporais pode contribuir para um enriquecimento da noção de “inconsciente”.
Começarei por examinar uma teoria psicanalítica – a de Françoise Dolto – que, pela atenção que dá ao corpo, parece contrariar aquela tendência geral, que acabámos de referir, em reduzir o corpo concreto a puras representações.
Como se sabe, um conceito nuclear condiciona todo o pensamento e a prática analítica de Fançoise Dolto: o de “imagem inconsciente do corpo”, que deu o título ao seu livro teórico mais importante. O que é a imagem inconsciente do corpo? Para o saber, convém distingui-la do “esquema corporal”. Este é um dado material ou, como diz Dolto, “uma realidade de facto”. Cito: “é o nosso viver carnal no contacto com o mundo físico. As experiências da nossa realidade dependem da integridade do organismo, ou das suas tensões transitórias ou indeléveis, neurológicas, musculares, ósseas e também das nossas sensações fisiológicas viscerais, circulatórias – chama-se-lhes com outro nome, cinestésicas”2. Fazem assim parte do esquema corporal o esqueleto que condiciona a nossa posição no espaço ou o sistema proprioceptivo que regula a orientação espacial do corpo.
Para marcar a diferença entre esquema corporal e imagem inconsciente do corpo, Dolto refere casos em que as lesões do esquema corporal não afectam a vida do desejo do indivíduo e a sua sanidade mental. Por exemplo, “uma criança focómela nascida sem membros inferiores ou superiores, possui um esquema corporal enfermo. Contudo, a sua imagem do corpo pode ser inteiramente sã e permite uma linguagem e uma
, L'image inconsciente du corps, Ed. Seuil, Paris, 1984 (doravante IIC), p. 18.
comunicação inter-humanas tão completas e tão satisfatórias para ela como as de um indivíduo não enfermo”3. Como se pode construir uma imagem do corpo sã num corpo cujo esquema corporal está mutilado? “Quando uma criança é atingida por uma enfermidade, é indispensável que o seu défice físico lhe seja explicado, referenciado ao seu passado não enfermo ou, se é o caso, à diferença congénita entre ela e as outras crianças. É preciso também que ela possa, pela linguagem mímica e pela fala, exprimir e fantasmar os seus desejos, que eles sejam realizáveis ou não segundo o seu esquema corporal”4.
Porque é que é necessário que se explique à criança a sua enfermidade e a sua diferença com as crianças normais? Porque só assim ela poderá adquirir uma imagem inconsciente do corpo sã. Se se esconder à criança enferma as causas e as diferenças que formam a sua patologia, a relação de comunicação com os pais (ou as personagens tutelares) não poderá ser uma relação de verdade. E isso afectará inelutavelmente a relação afectiva da criança com os outros e com o mundo. Porque a expressão do afecto ficará truncada e distorcida. O que, por sua vez, impedirá a palavra livre através da qual ela se exprimirá e fantasmará os seus desejos. E esta é uma actividade essencial para que forme uma imagem do corpo sã, a partir da qual se construirá um corpo normal desejante, erógeno, apesar de todas as lesões do esquema corporal. “Assim, uma criança paraplégica tem necessidade de brincar verbalmente com a sua mãe, falando de correr, de saltar, coisas que a mãe sabe como ele que ele não poderá jamais fazer. Desse modo, ele projecta uma imagem do corpo sã, simbolizada pela fala e pelas representações gráficas, nos fantasmas de satisfações eróticas, nas trocas de sujeito a sujeito. Que os seus desejos sejam assim falados com alguém que aceite jogar com ele esse jogo projectivo permite ao sujeito integrar na linguagem esses desejos, apesar da realidade da enfermidade relativa ao seu corpo. E a linguagem traz-lhe a descoberta de meios pessoais de comunicação”5.
Três noções fundamentais alicerçam a ideia de construção de uma relação sã da criança com os outros: a “humanização”, a “narcisização” e a “comunicação afectiva”. São esses três processos que suportam a edificação de uma imagem inconsciente do corpo não enferma, mesmo num corpo com lesões no esquema corporal. A humanização supõe
IIC, pp. 19-20.
IIC, p. 19.
IIC, p. 19.
uma certa ideia do ser da criança, “sujeito dos seus desejos” mesmo no começo da vida – o bebé, o recém-nascido tem de ser reconhecido como sujeito desejante. O que implica uma ética do desejo (que se reflecte numa ética da psicanálise) e do modo de lidar com a criança. A humanização implica um certo olhar do corpo infantil – não como corpo-objecto, corpo-de-necessidades orgânicas apenas, mas corpo de desejo e assim, de certo modo, “corpo espiritual”. A relação humanizante entre a mãe e o bebé estabelece-se “de psiquismo a psiquismo”, como insiste Dolto, e a relação desumanizante pode ser aquela em que a mãe se preocupa apenas em satisfazer as necessidades materiais do filho. “Estas trocas humanizantes – ou, pelo contrário, desumanizantes pela sua ausência – provêm do facto dos pais terem – ou não – aceite a enfermidade do corpo do seu filho. Sentem-se culpabilizados na sua genitalidade? Sentem-se angustiados? Esta criança está narcisizada por ser amada tal como é, ou, pelo contrário, desnarcisizada no seu valor de interlocutor que, enquanto enfermo, não é amado, cuja enfermidade não é reconhecida nem falada? Enquanto enferma, é rejeitada pelos seus pais [ou] […] considerada como um humano de pleno direito com a sua enfermidade? Se é reconhecido como sujeito dos seus desejos, símbolo da fala conjuntamente acordada de dois humanos tutelares, responsáveis pelo seu nascimento e que o amam na realidade que é a sua e que não procuram fazer-lhe esquecer, os seus pais (depois os seus educadores) poderão dar às suas perguntas, pela mediação da linguagem e, para eles, de modo inconsciente, a estrutura de uma imagem do corpo sã. ‘Se tu fosses um pássaro, poderias voar…’ ‘Se tivesses pés, mãos, poderias fazer como este rapazinho…és tão esperto como ele’.”6
Esta longa citação mostra-nos ao mesmo tempo o substrato ontológico da terapia elaborada por Françoise Dolto, e, parcialmente, o modo como se pode construir uma imagem do corpo sã num corpo enfermo. Nas breves considerações que fizemos sobre o processo ontológico de humanização, faltou-nos referir a narcisização e a comunicação afectiva. Digamos apenas que estas últimas fazem parte da humanização. E as duas reenviam para a imagem inconsciente do corpo.
O que é, pois, a imagem inconsciente do corpo? Segundo o exemplo da criança paraplégica, a imagem do corpo exprime a história do desejo de um sujeito na comunicação interpessoal. É no estado presente que se condensa essa história. Enquanto que o esquema corporal é o mesmo para todos os
IIC, pp. 20-21.
humanos, a imagem inconsciente do corpo difere segundo os indivíduos. É própria de cada um, porque cada indivíduo tem a sua história singular. Em segundo lugar, a imagem do corpo é “eminentemente inconsciente”, enquanto o esquema corporal é parcialmente inconsciente, pré-consciente e consciente. Como veremos mais adiante, a imagem do corpo é inconsciente porque condensa em si o desejo sempre simbolizado em imagens ou palavras – e o processo de simbolização desloca a representação directa. Mas as razões que a tornam inconsciente são mais complexas.
Em terceiro lugar, pode-se definir a imagem inconsciente do corpo como “a síntese viva das nossas experiências emocionais: inter-humanas, repetitivamente vividas através das sensações erógenas electivas, arcaicas ou actuais. Pode ser considerada como a encarnação simbólica inconsciente do sujeito desejante e isto, mesmo antes que o indivíduo em questão seja capaz de se designar pelo pronome pessoal “Eu” [Je], saiba dizer “Eu”.”7 É preciso lembrar que o desejo, para Dolto, se exprime já no recém-nascido através de uma linguagem (sucção, choro). A imagem do corpo é “memória inconsciente de todo o vivido relacional”, mas é uma imagem “viva”, “dinâmica” exprimindo-a e exprimindo-se na nossa vida actual inter-relacional.
Enfim, é evidente que toda a comunicação com outrem implica também o esquema corporal. Comunicação que se fez através do cruzamento da imagem do corpo com o esquema corporal.
Um exemplo tornará mais claro este tipo de conexão entre as duas instâncias. Uma criança de cinco ou seis anos é tratada por Françoise Dolto. Há dois anos que não come nada com as mãos. Quando se lhe apresenta um objecto, fecha os dedos na mão, a mão no antebraço e este no tórax, recusando tocar no objecto. Come com a boca no prato. Dolto estende-lhe plasticina, dizendo-lhe: “Podes pegar nela com a tua boca-mão”. A expressão francesa é quase intraduzível: “…avec ta bouche de main”, literalmente “a tua boca de mão” ou a “tua boca feita mão”, ou ainda “a tua espécie de boca mão”. A reacção da criança é imediata: “rapta” a plasticina com a mão e leva-a à boca. Dolto explica assim o que aconteceu: “De certo modo, forneci-lhe a mediação fantasmada da boca, zona erógena guardada para engolir e sobreviver, o que lhe permitiu o uso do braço. Ao passo que ela só tinha mãos na boca, eu pus-lhe, graças à fala, uma boca na mão, voltando a dar-lhe um braço que ligava a sua mão de braço-boca à sua boca-mão de cara, também perdido. O seu
IIC, p. 22.
esquema corporal e a sua imagem do corpo tinham regredido quanto a “agarrar” […] numa época em que não se tinham ainda cruzado ao nível do agir, do fazer, que pertencem à erótica anal“8.
“Cruzar” o esquema corporal com a imagem inconsciente do corpo significa adequar, fazer corresponder uma ao outro para que o esquema corporal permita realizar concretamente, com o corpo, com as mãos e o tronco, o desejo que se exprime numa imagem relacional inconsciente. O que Dolto permitiu à rapariga foi fantasmar uma boca na mão, e assim restituir-lhe realmente o uso do braço. Para tanto, foi necessário introduzir a linguagem, um terceiro termo simbólico (do braço real, ao fazer da mão uma boca) que, por um lado, libertou o esquema corporal perdido e, por outro, libertou e fez corresponder adequadamente a imagem inconsciente do corpo ao esquema corporal. O que se passou foi, de facto, o seguinte: 1. Françoise Dolto compreende que a menina fala uma linguagem em que diz que perdeu os braços, ou seja que a sua imagem do corpo não pode exprimir o desejo através dos braços. 2. Ao estender-lhe a plasticina com as palavras: “podes agarrá-la com essa espécie de boca que faz de mão”, Dolto emprega a mesma linguagem (mas ao nível verbal) que a rapariga emprega ao nível puramente corporal (fazendo da boca uma mão). 3. Mas assim fazendo, a psicanalista desemaranha, separa com as palavras, o que se encontrava emaranhado, confundido (por ausência dos braços) na linguagem corporal (a boca e as mãos). E, ao desemaranhar, permite uma outra relação, desta vez funcional e livre, entre o esquema corporal e a imagem inconsciente do corpo. Devolve à menina os seus braços.
O “cruzamento” entre esquema corporal e imagem é, pois, muito complexo. Mas compreendemos que é “graças à nossa imagem do corpo levada pelo – e cruzada com – o nosso esquema corporal que podemos entrar em comunicação com o outro. Todo o contacto com o outro, seja de comunicação ou de recusa de comunicação, é subentendido pela imagem do corpo; porque é na imagem do corpo, suporte do narcisismo, que o tempo se cruza com o espaço, que o passado inconsciente ressoa na relação presente.” 9
4. Várias questões se levantam agora: 1. Porquê uma imagem do corpo, para explicar a comunicação inter-individual e a estruturação da psique do sujeito? 2. Qual a articulação – fundamental, para Françoise Dolto – entre a imagem inconsciente do corpo e a linguagem?
IIC, p. 37.
IIC, p. 23.
Deixemos a primeira questão para o fim, porque depende da resposta à segunda. Esta implica a exposição de muitas ideias (como a teoria das castrações e da sublimação) que não podemos abordar aqui. Procurarei resumir alguns pontos essenciais da concepção doltiana da linguagem.
Os sujeitos comunicam através da imagem inconsciente do corpo. Esta é “mediatizada” pela linguagem. Cito: “A imagem do corpo refere o sujeito ao desejo, ao seu gozar [jouir], mediatizado pela linguagem memorizada da comunicação entre sujeitos.”10
Lembremos várias ideias-base da doutrina de Dolto: “tudo é linguagem”, e a linguagem é comunicação entre dois sujeitos, de “psiquismo a psiquismo”, como dissemos já. Por outro lado, a imagem inconsciente do corpo é uma linguagem e forma-se e constrói-se também através da linguagem verbal, desde o nascimento (e mesmo, desde a vida intra-uterina).
Devemos, pois, distinguir e articular estes dois aspectos da linguagem: como expressão da imagem inconsciente do corpo e como produto de uma construção progressiva que deriva, em parte, da própria linguagem verbal.
Como é que a criança constrói a imagem inconsciente do corpo a partir da linguagem verbal? Desde sempre, mas sobretudo desde o nascimento, a criança está mergulhada numa relação inter-subjectiva e inter-corporal através da linguagem da mãe e dos adultos. Dessa linguagem, ela retém e compreende um sentido que desconhecemos, mas de que a experiência clínica dá testemunho. “As crianças, bebés, recém-nascidos, compreendem as palavras, é espantoso, não sabemos como, quando elas são ditas para lhes comunicar uma verdade que lhes diz respeito; palavras que relatam o que se sabe dos factos, sem juízo de valor.”11
Mas o que se conhece bem é que a criança estabelece uma relação entre os fonemas, os sons – sem sentido para o adulto – das palavras e o seu próprio corpo, dando-lhes pois uma significação, em relação com o seu desejo. “Desde o nascimento, são as palavras e os fonemas que acompanharam os contactos percepcionados pelo corpo da criança. As palavras, com as quais pensamos, estiveram na origem das palavras e grupos de palavras que acompanharam as imagens do corpo em contacto com o corpo de outrem. Estas palavras serão entendidas e compreendidas pela criança diferentemente segundo o estado ao qual chegou […].
IIC, p. 23.
IIC, p. 213.
A criança cuja imagem do corpo é a do estado oral não compreende senão as palavras de prazer de boca e de corpo transportado […].”12 Assim, por exemplo, a imagem inconsciente do corpo no estado oral está ligada ao prazer das zonas da boca macro ou microscópicas, ao engolir ao prazer da fricção do ar pela paredes da boca quando o bebé palreia, ao cavum, às sensações barestésicas e cenestésicas. Os fonemas das palavras da mãe de que a criança tira prazer investem-se nessas zonas através das percepções subtis que a criança dela tem13. E a maneira como o bebé chalreia ou se exprime com sons e olhares manifesta um desejo ligado ao prazer do seu corpo erógeno, desejo ligado também à comunicação com a mãe que lhe traz pré-simbolicamente ou simbolicamente este prazer. Assim se forma a “linguagem” do bebé.
Para Dolto, a linguagem não significa apenas linguagem verbal, nem sequer apenas um “significante”. Porque um movimento corporal não tem “significado” proposicional, mas um sentido que para a criança é completo e auto-suficiente. Por isso há diversos estados de complexidade na formação da linguagem das crianças – até à linguagem verbal do estado genital.
Um signo pode ser uma “linguagem” que exprime uma certa relação da criança à mãe, relação sempre afectiva (quando ausente, a situação pode tornar-se psicogenética). Eis uma bela descrição do modo como uma sensação do corpo (e portanto a imagem inconsciente do corpo) se transforma em linguagem: “[…] por exemplo, se há um pássaro que passa [no jardim aonde está o berço do bebé], e que faz um pio particular ao mesmo tempo que o véu do berço oscila, e que ele tem nesse momento uma cólica, um borborigmo, o encontro destas três percepções, isso quer dizer que o pássaro e a cortina em conjunto, é a fala da sua barriga. Então, a dor de barriga, uma pequena cólica que passa, é o significante do encontro do grito do pássaro com o véu agitado pelo vento… e montes de encontros sincrónicos externos e internos tomam valor de sinais de linguagem que para ela tem apenas sentido de fala”14. Sentido de fala porque referido à comunicação com a mãe.
IIC, p. 36.
“percepção subtil” opõe-se a “percepção substancial”, na terminologia de Dolto: as primeiras são microscópicas e as segundas macro, na nossa leitura desta oposição conceptual, leitura que não se distingue muito da ideia da psicanalista, como o mostra esta nota de Au jeu du désir: “Por substancial, entendo a materialidade dos alimentos e dos excrementos, objectos parciais de troca. Por subtil, entendo a olfacção, o ouvido e a vista, graças aos quais o objecto é percepcionado a distância.” (p. 64n)
, Tout est langage, Ergo, 1988, p. 18.
A linguagem mediatiza a expressão do desejo, libertando a criança de uma relação corpo-a-corpo com a mãe. Linguagem que pode ser mímica, gestual, sonora, olfactiva, visual, que se pode manifestar (e agora é a imagem inconsciente do corpo que se exprime e se actualiza) num desenho, num boneco de plasticina, numa posição do corpo. O que essa linguagem permite ao sujeito é exprimir o desejo, fantasmando-o. “Fantasma significa aqui memorização olfactiva, auditiva, gustativa, visual, táctil, barestésica e cenestésica de percepções subtis, fracas ou intensas, sentidas como linguagem do desejo do sujeito em relação a um outro, percepções que acompanharam as variações de tensões substanciais sentidas no corpo”15. Assim, a criança sem braços que fantasma que voa através da linguagem gestual ou verbal pode construir uma imagem inconsciente do corpo sã.
Por outro lado, o exemplo da dor de barriga associada ao grito do pássaro e à agitação do véu do berço mostra como o movimento das coisas ou do corpo (gestos, sons, fonemas) toma valor de linguagem de comunicação e expressão de sensações e afectos inscritos em zonas internas ou externas do corpo da criança. A cada estado da evolução do seu corpo erógeno corresponde uma espécie de mapa de zonas e focos de prazer aonde, graças às percepções subtis, a libido da criança investiu o desejo e o prazer que lhe advém da sua comunicação com a mãe.
O que é então a imagem inconsciente do corpo? É o resultado desse mapeamento do corpo infantil na história das suas experiências libidinais de comunicação com os adultos, com a mãe e com as outras crianças. Porque se pode “actualizar” uma linguagem corporal ou verbal em desenhos ou moldagens, a imagem inconsciente exprime-se visivelmente e toma forma com um sentido. O sentido é o de uma experiência de desejo inscrita no corpo – sentido manifesto ou inconsciente, presente em toda a relação do sujeito com o mundo e os outros humanos. A imagem inconsciente do corpo é uma espécie de “corpo psíquico”, como lhe chama um comentador da teoria psicanalítica de Françoise Dolto16.
A imagem inconsciente do corpo transporta com ela as experiências afectivas que a linguagem pré-verbal ou verbal simboliza ou “metaforiza”. A simbolização ou metaforização de experiências emocionais torna-as comunicáveis e, portanto, também experienciáveis para o sujeito (sem o
IIC, p. 49.
, Le corps psychique – Essai sur l'image du corps selon Françoise Dolto, Ed. Universitaires Begédis, Belgique, 1989.
que, este, confinado ao laço simbiótico do corpo-a-corpo, teria apenas sensações inefáveis). A metaforização do corpo cria a imagem inconsciente do corpo, que não é mais do que uma maneira de dizer as experiências corporais que resultam da comunicação com o outro.
A teoria da linguagem de Dolto supõe uma história da formação da linguagem verbal: esta guarda traços e vestígios das outras linguagens dos períodos mais arcaicos da evolução da criança. E, com esses traços, ligações às experiências afectivas desses tempos. Por isso, é possível a psicanálise de adultos e crianças através da linguagem verbal.
Para Dolto, há também uma história da formação da linguagem individual que se enraíza no corpo. O “corpo, como imagem do corpo, é a matriz da palavra. Porque as palavras ouvidas, primeiro corporalmente, se reflectem e se refractam nele. Não há acesso neutro, generalizável, à linguagem e à fala”17. Esta história da linguagem, que Dolto não analisou nas suas dificuldades maiores, implica também a aprendizagem do sentido da palavra. Aprendizagem que depende da imagem inconsciente do corpo, numa complexa construção do sentido da palavra para o sujeito: “De maneira geral, a compreensão de uma palavra depende ao mesmo tempo do esquema corporal de cada um e da constituição da sua imagem do corpo, ligada às trocas vivas que acompanharam [para o sujeito] a integração, a aquisição dessa mesma palavra. A palavra tem, claro, um sentido simbólico nela mesma […]. Mas quem não tem quer a imagem do corpo, quer o esquema corporal correspondente à palavra emitida, ouve a palavra sem a compreender, por não possuir a relação corporal (imagem sobre esquema) que permite dar-lhe um sentido […]. Cada um de nós tem assim uma relação narcisizada (atravessada por narcisismo) com os elementos sensoriais em ressonância com as palavras do vocabulário”18. “Ressonância”, “simbolização”, “integração” dos sentidos arcaicos não verbais na palavra – são conceitos dessa teoria da linguagem em articulação com a imagem inconsciente do corpo que Françoise Dolto deixou por acabar, abrindo múltiplos campos a explorar.
5. Resta-nos tratar uma questão, voltando à interrogação do início: será que a teoria psicanalítica de Dolto “reduz o corpo a uma representação, sobretudo fantasmática”, abolindo a especificidade da corporeidade? Tudo nos leva a negar essa redução. Não é o corpo real, a boca concreta, os
, Le corps psychique – Essai sur l'image du corps selon Françoise Dolto, Ed. Universitaires Begédis, Belgique, 1989, p. 62.
IIC, p. 44.
ritmos da respiração do recém-nascido, as vibrações do cavum, que são objecto das percepções subtis quando no seu corpo se investe o desejo comunicado pelas palavras da mãe? Desejo incorporado e transmitido pela imitação dos sons dos fonemas dessas palavras? Não é do corpo concreto, orgânico, que se trata aqui? A imagem inconsciente do corpo não se constrói a partir de experiências emocionais vividas no corpo e metaforizadas pela linguagem (olfactiva, visual, táctil, etc.)? A matriz da linguagem verbal não é o corpo sensível?
Mas como compreender então que Dolto se apoie no freudismo e nos seus princípios hermenêuticos, quer dizer, na sua metapsicologia? As suas curas e interpretações de desenhos e moldagens segundo conflitos entre instâncias metapsicológicas misturar-se-iam com outro tipo de intervenção que daria a primazia às forças do corpo não previamente codificadas. Eis como Dolto descreve os pressupostos das suas interpretações: “É através de volumes representados no espaço, volumes que são os suportes de uma intencionalidade, que a criança se exprime. Ao princípio, parece desenhar uma cena; mas na realidade, pela maneira como ela própria interpreta, como ela fala do seu desenho, prova que, graças a essa encenação gráfica, mediatiza pulsões parciais do seu desejo, em luta contra pulsões parciais do seu desejo a um outro nível. Estes níveis da psique são o que Freud descreve como: Eu, Eu Ideal e Supereu. E a energia que é posta em jogo nos cenários imaginários que são esses desenhos e essas moldagens, não é senão a libido que se exprime pelo seu corpo, quer passivamente, quer activamente, passivamente no seu equilíbrio psicossomático, activamente na sua relação com os outros.”19
O texto mostra claramente as duas dimensões do método terapêutico de Dolto: por um lado interpretam-se os desenhos como encenações de figuras da metapsicologia freudiana. Por outro, dá-se uma atenção às forças do corpo autónomas cujos conflitos são compreendidos segundo a teoria doltiana da imagem inconsciente do corpo. Ora esta teoria não reduz o corpo a uma representação e deixa uma grande margem à inovação, à improvisação e à experimentação na leitura dos sintomas. De tal modo que impede, no melhor dos casos, a metapsicologia de absorver o sentido da linguagem não-verbal do corpo. De facto, uma equação do tipo “Freud + corpo = Dolto” não é possível ou só o é porque é impura. Se Dolto mistura a metapsicologia com as forças autónomas e não codificadas do corpo (de tal maneira que teríamos antes a fórmula:
IIC, p. 12.
metapsicologia + corpo = imagem inconsciente do corpo), é porque a sua teoria e sobretudo a sua prática trabalham o material clínico independentemente, muitas vezes, de Freud, e atribuindo ao corpo uma auto-suficiência espontânea que foge à grelha freudo-lacaniana.
A metapsicologia puxa para um teatro para o qual é preciso um código de interpretação. O corpo puxa para uma autonomia das suas forças – pedindo, pois, uma terapia que ponha o corpo em acção, dentro de certas condições. Isto equivale a desposar a própria realidade da linguagem das crianças que não forma um conjunto de signos discretos, mas de signos-acções ou signos-forças. “…desenhos e moldagens não são propostas [à criança] para a fazer falar do seu pai, da sua mãe… São como os sonhos e fantasmas dos adultos, testemunhos do inconsciente. Todo o desenho, toda a representação do mundo é já uma expressão, uma comunicação muda, um dizer para si ou um dizer ao outro. [Quando, em análise, a criança fala do seu pai e da sua mãe ou dos seus irmãos] não fala destas pessoas na sua realidade, mas daquele pai nele, daquela mãe nela, daqueles irmãos nele”. Como escreve Gérard Guillerault: “A palavra não foi, pois, sempre esse elemento intemporal, impessoal – universal – da troca. É corporalmente, emocionalmente, sobredeterminada e marcada. O que significaria, neste aspecto, a imagem do corpo, é que antes da palavra-palavra, há a palavra-oralidade, a palavra-analidade, etc…; há assim pré-formas corporais de palavra, que lhe dão a sua materialidade. E haverá também um grau de compreensão das palavras correspondente a cada nível pulsional”20. Ou ainda esta observação de Dolto: “as palavras são os testemunhos de emoções não ultrapassadas, consecutivas a experiências vividas.”21
Para uma criança, uma palavra tem a força da emoção que a contamina; ela é, antes de mais, essa força e toma o seu sentido. É uma palavra-força. Por isso ela transmite o inconsciente do corpo (no adulto, já que, na criança, o inconsciente está à flor da pele). Não é, pois, necessária uma hermenêutica ou um sistema de códigos para interpretar signos-representações: o que é necessário é desposar a força que a palavra ou a linguagem mímica, olfactiva, táctil transportam com elas.
Este é, para nós, o aspecto mais saliente e original do trabalho de Françoise Dolto: considerar a força inconsciente que acompanha a fala ou a linguagem não-verbal, assim como todo e qualquer movimento da
, Le corps psychique – Essai sur l'image du corps selon Françoise Dolto, Ed. Universitaires Begédis, Belgique, 1989, pp. 61-62.
Au jeu du désir: “Por substancial, entendo a materialidade dos alimentos e dos excrementos, objectos parciais de troca. Por subtil, entendo a olfacção, o ouvido e a vista, graças aos quais o objecto é percepcionado a distância.”, p. 61.
criança. Os desenhos traduzem conflitos de forças que a criança neles projecta – porque o seu desenho resulta de um gesto-força condensando toda a energia inconsciente da acção necessária para o fazer. Não há diferença entre signo e coisa ou significante e significado: deve-se admitir que os movimentos dos jogos de força são traduzidos graficamente (“projectados”) porque possuem uma espécie de ritmo: traduzem-se os movimentos de sensações por ritmos de figuras ou de moldagens.
Por exemplo, como é que Dolto aconselha a cruzar o esquema corporal de uma criança sem braços nem pernas com uma imagem inconsciente do corpo sã, de modo a “compensar” a enfermidade? Dando à criança a possibilidade de “fantasmar” dizendo-lhe, como vimos: “Se tu fosses um pássaro poderias voar…” “Se tivesses pés, mãos poderias fazer como aquele rapazinho…” Se as palavras, para a criança, são palavras-força ou palavras-acção, a criança ouve a mãe de um modo particular: não comunicando-lhe mensagens, mas transmitindo-lhe uma fala a que ela adere totalmente como se ela vivesse aquele “se pudesses voar”. A mãe faz-lhe assim nascer as sensações e forças reais no seu corpo que lhe permitem imaginar-viver com o seu corpo a acção de voar. Como se a criança normal pudesse imaginar voar porque filogeneticamente ela tem a possibilidade virtual de o fazer (porque tem braços e um esquema corporal que lhe permitem um devir-pássaro, quer dizer um devir intensivo molecular do seu corpo inteiro.) Os dois requisitos para que se construa desta maneira a imagem inconsciente do corpo em que “voar” corresponde (se cruza) com o esquema corporal enfermo mas agora “compensado”, são: 1. Que a criança adira às palavras da mãe de tal maneira que elas não comuniquem apenas uma mensagem mas façam nascer movimentos de forças corporais anímicas que permitam o início de um processo de devir-pássaro. A criança sem braços sente nascerem-lhe braços, asas, forças de elevação no ar e de voo. 2. O segundo requisito é o próprio processo em que a “imagem” se torna o movimento real do desejo, o movimento de transformação das intensidades do corpo tais que novos órgãos brotam na superfície corporal (as asas, quer dizer, as forças necessárias para ter asas e voar), isto é, na superfície real do seu corpo focómelo tornado corpo-intensivo ou plano de imanência.
Significa isto que não se trata de simbolizar ou metaforizar, a menos que se defina de um modo inteiramente diferente o símbolo e a metáfora (assim como o fantasma). Resumindo, é afinal à economia de toda a metapsicologia freudiana que Françoise Dolto nos conduz.
Tudo isto aponta para uma ontologia em que a diferença corpo/psique desaparece. Como bem viu Gérard Guillerault no texto que citamos a seguir, se bem que todo o seu comentário recaia logo a seguir no dualismo que se esforça por reduzir: “Isto leva-nos até onde a língua encontra a sua fonte no corpo e se enraíza inextrincavelmente em experiências também corporais. Esta imbricação do corpo e da simbolicidade da língua pode descrever-se nos dois sentidos. Ao mesmo tempo para dizer que a língua vem dar valor simbólico às experiências de corpo desde que sejam emotivamente relacionais, quer dizer que a emoção seja sempre comunicante. Mas também para dizer que a língua tira a sua simbolicidade, o seu poder metafísico do facto de ela se extrair do corpo, e que ela vale como metáfora corporal. O corpo revelando-se aí como ele próprio encarregado dessa potencialidade metafórica ou representativa”22. O corpo revela-se como carregado de poder metaforizante (“porteur de metaphoricité”).
Olhar assim o corpo é recusar ver nela um corpo-sujeito ou um Cogito corporal, à maneira de Merleau-Ponty, ou um corpo físico ou corpo-objecto como o faz uma certa medicina. Mas é verdade que Françoise Dolto, apesar da leitura pessoal que ela faz de Freud, não se desprende totalmente da metapsicologia que subjaz à sua prática e que, em grande parte, a condiciona.
A clara orientação ontológica dos seus conceitos fazem com que, curiosamente nós pudéssemos fazer a economia do estatuto que a sua doutrina atribui às “imagens” e à linguagem: o “simbólico, por exemplo, é, para nós, o real das forças; e se a criança desenha, o resultado não é para interpretar como sentido de um signo, mas como um signo-acção. Se, como diz Guillerault, o próprio sentido da linguagem é uma metaforização do corpo, é o “corpo”, o “símbolo”, a “imagem”, a “representação” que pedem outras definições. Há uma “literalidade” do símbolo que se deve pôr na conta do sentido próprio do corpo – o que implicaria um entendimento muito diferente daquele que se dá à metapsicologia psicanalítica, “essa nossa mitologia”, como disse Freud.
5. Esta leitura da imagem inconsciente do corpo de Françoise Dolto exige naturalmente a elucidação de dois conceitos: o de “inconsciente” e o de “corpo”; e exige também que se mostra a operatividade da noção de “inconsciente do corpo” – noção difícil, que decorre das duas primeiras mas que ultrapassa o quadro da psicanálise de Dolto. Lamentavelmente, é deixando estas lacunas por preencher que devo agora terminar.
, Le corps psychique – Essai sur l'image du corps selon Françoise Dolto, Ed. Universitaires Begédis, Belgique, 1989, p. 58.