Partindo de algumas generalidades e interrogações sobre a tolerância como atitude mental, tentamos seguidamente, através dum exercício de auto-análise, observar e descrever como exercemos a tolerância na prática psicanalítica.
Tolerância/intolerância, limites da tolerância não são conceitos psicanalíticos. Não são também assuntos sobre os quais os grandes Autores da psicanálise se tenham debruçado, directa e especìficamente.
Trata-se, no entanto, de um tema que surge na literatura, nomeadamente a propósito do narcisismo. Narcisismo e intolerância, aliás narcisismo patológico e intolerância, é essa a equação, pois o narcisismo saudável ajuda-nos à tolerância. Gostamos de nós com tolerância – para as nossas falhas, para as nossas limitações, para as nossas fraquezas. E assim estimados, podemos olhar para os outros do mesmo modo, benevolente.
A tolerância aprende-se na infância no contacto com a realidade, que muitas vezes é frustrante, e por identificação aos adultos que foram tolerantes connosco. E desenvolve-se – nos bons casos – ao longo da vida. E ao longo duma psicanálise, quando as vicissitudes da vida tornaram esta necessária. A capacidade de tolerância é incluída por alguns analistas na lista de critérios de fim de análise. É sinal da maturidade que foi conseguida, com a segurança e tranquilidade desejáveis numa idade adulta. E a tolerância continua – mais uma vez se tudo corre bem
Comunicação ao XXIII Colóquio da sociedade Portuguesa de Psicanálsie subordinado ao tema “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
Psicanalista, Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Associação Internacional de Psicanálise.
ou normalmente – a crescer ao longo do envelhecimento, que também traz consigo conquistas, a maior sabedoria, a capacidade de relativizar, a aceitação dum percurso de vida que teve falhas.
A tolerância é, portanto, uma qualidade que existe nos humanos em doses variáveis. Conforme as suas capacidades, as suas experiências de vida, mas também conforme as circunstâncias, actuais, e os conteúdos que a solicitam.
Tolerância à frustração, tolerância à espera, tolerância ao tempo realidade externa, tolerância á imperfeição, nossa e do outro, tolerância à separação, que nos deixa sós e nos exige auto-suficiência, tolerância à dependência, quando precisamos do outro, tolerância à falta, à ausência, ao abandono, tolerância à tristeza. Tolerância até ao prazer, que pode culpabilizar-nos, ao prazer intenso, que pode assustar-nos. Tolerância a tantos, alguns duros, factos da vida. Tolerância necessária e, regra geral, enriquecedora.
Mas há outra: tolerância à agressão, ao abuso, à prepotência, à corrupção, à mentira, à incompetência – nossa e alheia. E esta, deverá existir? Até onde? Até quando? Em quem? Quem tolera quem? Tolerância 0? Ou tolerância 100? Os limites, quem os define? Individuais, colectivos? Institucionais? Estatais? Circunstanciais ou permanentes? Obrigatórios ou opcionais? Fixos ou revogáveis?
Tolerância zero será sinónimo de justiça implacável, excessiva? Será intolerância? Tolerância cem … será verdade? Ou será falso – hipocrisia, comodismo, passividade, negação, indiferença?
Quando falamos de tolerância, falamos de comportamento, prática, acção/inacção?
Como psicanalista, interessa-me a atitude, interna, é dessas que sabemos/tentamos falar, é esse o nosso material de estudo.
A realidade obriga-nos, por vezes, a tolerar o que não quereríamos tolerar, temos então uma atitude de tolerância externa que não corresponde á nossa tolerância interna. No nosso crer e sentir mais pessoal íntimo, verdadeiro, não toleramos aquilo. A realidade externa, ou a nossa avaliação da realidade externa, impõe-nos tolerar. É uma situação de conflito interno, que é normal e aceitável se não fôr demasiado intenso ou demasiado prolongado. Não é saudável tolerar, durante longos períodos, o que sentimos como intolerável.
Há assim medidas na tolerância. Há variações individuais, tantas quantas as diferentes formas de sentir, pensar e ajuizar. Cabem aqui diferenças culturais que, em larga medida, determinam diferenças no
grau de tolerância. Há também diferenças circunstanciais – uma situação leva-nos a tolerar o que, noutra situação, não toleraríamos.
E há variações conforme a duração, o tempo – toleramos durante minutos, horas ou dias, o que não podemos nem queremos tolerar durante anos.
É fácil pregar tolerância – e é útil – mas só a análise e o pensamento sobre dados nos permite decidir – conscientemente – o que tolerar. Não importa apenas dizer mais tolerância, a tolerância é uma atitude que pode ou não ser adequada. É fácil acusar de intolerância, mas é gratuito e ineficaz se não compreendermos as razões da intolerância, não para aceitá-la, mas para entendê-la, avaliá-la e depois criticar e tentar transformá-la.
O contrário da tolerância será a intolerância, mas será também a exigência. Será que, em nome da tolerância, deverá desaparecer a exigência? Podemos relacionar-nos sem exigir – na educação, na amizade, na delegação de poderes, no trabalho, no amor? Somos naturalmente exigentes.
Somos seres de desejo, só depois de razão. Freud ensinou-nos a psicanálise como acesso á verdade do nosso ser psíquico, para a partir daí melhorarmos, o comando e o funcionamento do nosso “aparelho psíquico” – mas não para exigirmos de nós nem dos outros atitudes 100% generosas, 100% tolerantes, quem saber quanto % falsas. Tolerância certamente, mas com limites. Como tudo.
Este assunto, esta dicotomia tolerância/intolerância desencadeia em quem a discute mecanismos psíquicos que não contribuem para o entendimento – clivagem e projecção.
Porque – sejamos verdadeiros – quando falamos de intolerância, intolerante é o outro, quando falamos de tolerância, falamos de nós, os bons. E a verdade é que – demos o seu a seu dono – somos todos tolerantes e intolerantes dependendo das nossas limitadas capacidades individuais de amor, aceitação, de estudo e de compreensão, mas também da vida em que nos encontramos, nós e os outros, e do material factual e/ou afectivo com que nos defrontamos.
A tão maldita intolerância pode, evidentemente, ser positiva. Quando a tolerância se esgota, torna-se necessária a transformação: ou em falsa tolerância nas suas diversas formas – hipocrisia, passividade, indiferença, negação e outras alienações, ou em intolerância. Esta pode ser passiva, da ordem da indiferença – por alguém considerada o verdadeiro contrário do amor – ou pode ser activa. Pode ser agressiva, destrutiva, mas pode
também ser combativa, inovadora, transformadora. O que não é sinó-nimo de agressiva, ainda menos de destruidora. A intolerância pode ser esclarecedora, mobilizadora, produtiva, construtiva, fonte de mudança e de desenvolvimento.
Quanto à – mais simpática – tolerância também pode não ser totalmente boa. A tolerância é amor, desejo de paz, respeito pelo outro, capacidade de contenção, de espera, de escuta, aproximação, encontro. Masoquismo, submissão, cobardia podem travestir-se de tolerância, mas não servem de base de diálogo, não resultam em aceitação, e pervertem a relação.
A tolerância é selectiva. Não toleramos tudo.
Tolero:
o mau tempo (clima)
o tempo que passa, quer eu queira quer não
o tempo que não chega para tudo o que quero
o tempo do tédio, se não souber como enchê-lo
o tempo dos outros, que é diferente do meu
o mau-humor dos outros, que sinto como rejeição de mim
as falhas e faltas dos outros, em relação á minha pessoa
a culpa, pelas minhas faltas
os sentimentos negativos dos outros, em relação a mim, e/ou aos meus
o trânsito, excessivo e desordenado
muito do que me incomoda
tanto do que me desagrada.
Tolero tudo isto. A minha tolerância é imensa e será, para tudo o que, sendo sentido e avaliado como negativo – escapa à minha influência.
Mas deverei tolerar o que posso influenciar e, por aí, transformar? Aí irei pôr limites á minha tolerância, e transmutá-la em acção transformadora.
Abordo estas dificuldades e pensamentos com o desejo de partilhá-los com quem também procure uma atitude clara e tranquila sobre este tema tão intenso.
Passarei agora para um terreno para mim mais fácil e conhecido, o de como faço, na minha prática diária, para ser tolerante, e até onde.
Considero que a actividade psicanalítica requer uma considerável capacidade de tolerância. Ilimitada? Certamente que não.
Existente à partida em cada um de nós, psicanalistas? Creio também que não. O que me parece é que a própria actividade ensina, por um lado, permite, por outro, a prática da tolerância. Tentei assim observar a minha/nossa actividade no sentido de tentar entender como praticamos a tolerância.
A relação analista – analisando evoluíu duma relação médico – doente em que a assimetria era grande e o médico/analista era um pólo distante, neutro, observador e dispensador de interpretações, que escondia do doente e, se possível, de si próprio, os sentimentos que vivia naquela relação – especial – com o outro.
O analisando cumpria uma regra – a de tudo dizer. Os seus sentimentos eram, regra geral, atribuíveis a relações do passado – transferenciais, no nosso léxico. Os avanços da teoria e da técnica tornaram inescapável o que se passa – também – no interior, afectivo, do analista. E a menor “distância”, os conhecimentos de psicanálise ao alcance do analisando, a maior proximidade e informalidade das relações em geral, e também com o psicanalista, tornaram mais difícil manter aquilo a que chegou a chamar-se a “toilette contratransferencial”. O analista mostra-se mais, e admite que sente. Só lhe resta um caminho – trabalhar com o que sente. E assim a análise da chamada contratransferência tomou um desenvolvimento paralelo ao da transferência.
Por outro lado, o alargamento de indicações da psicanálise trouxe à nossa clínica analisandos com menor capacidade de controle de emoções, eventualmente de comportamentos que, por sua vez, desencadeiam no analista afectos mais intensos, exigindo uma tolerância muitas vezes difícil de manter.
O aprofundamento crescente da investigação psicanalítica conduziu a uma dificuldade também acrescida na condução da relação analítica, mais profunda, mais regressiva, mais intensa.
Estas constatações levaram-me a tentar entender onde situamos, no exercício da nossa profissão, os limites da tolerância, e de como os utilizamos.
Desde sempre, desde Freud, a tarefa é difícil. Como tolerava Freud os seus doentes?
Freud apercebeu-se, desde a sua colaboração com Joseph Breuer, com quem partilhou o estudo do primeiro caso de psicanálise – de que os afectos do analista eram mobilizados na relação com os doentes, nomeadamente, à época, por eventual atracção sexual suscitada pelas
analisandas, de sexo oposto. Considerou que estes e outros sentimentos não deveriam interferir com o processo psicanalítico. E como tal se comportou.
Freud instituíu o chamado “setting” psicanalítico, “cadre” em francês. Como diz a palavra francesa, o “cadre” enquadra o espaço, e os limites, da situação psicanalítica. O setting estabelece regras – objecto do chamado “contrato psicanalítico”. Essas regras são condições para que a nossa tolerância possa existir, protegem-nos, e à relação, e ao tratamento. Vemos o analisando x vezes por semana, 45 a 50 m por sessão, em horário pré-estabelecido, a cumprir. Assim toleramos, num tempo limitado e previsto, o que não toleraríamos 24 horas por dia ou a qualquer hora imprevista. A nossa tolerância tem limites – alguns estabelecidos pelo setting.
A regra fundamental também nos protege. O analisando é suposto, e é convidado a dizer tudo o que lhe vier à cabeça – não a fazê-lo. Não poderíamos tolerar isso.
Outra regra que nos ajuda é o anonimato do analista. A relação é assimétrica, e assim terá que ser. A nossa tolerância tem limites – não seria tolerável ouvir tudo o que o analisando, convidado a sentir e exprimir os seus afectos, mesmo os mais intensos – tudo o que o analisando nos dissesse sobre a nossa vida pessoal e íntima, que lhe tivéssemos dado a conhecer. Assim, e nas palavras de Horácio Etchegoyen, “tudo o que o paciente diz são suas opiniões e não os factos”. O “anonimato” possibilita a nossa tolerância, ao sabermos que eventuais sentimentos negativos que o analisando nos dirija advêm, regra geral, da sua realidade interna, e não da nossa realidade – que desconhece. A nossa intimidade está preservada, os nossos afectos existem mas não serão explicitamente comunicados, e essa menor exposição torna-nos mais fácil ser tolerantes.
Uma conclusão que gostava de extrapolar destas condições do setting para a realidade social é que – parece-me – não poderemos ser tolerantes se não tivermos, ou não cumprirmos, regras de convivência. Essas regras protegem-nos de ter que tolerar o intolerável.
Voltando ao passado: não foi preciso muito tempo para que os psicanalistas percebessem que as suas capacidades de tolerância aos afectos, seus e dos analisandos – eram duramente postas à prova. Ao sugerir no seu célebre artigo “Análise Terminável e Interminável” que o trabalho do psicanalista poderia ter efeitos negativos sobre o próprio, comparáveis aos dos raios X, sobre os técnicos que os manejam, seria provàvelmente aquele um dos aspectos que Freud tinha em mente. Os afectos do analista
são fortemente solicitados e, para que seja possível tolerá-los, o analista utiliza técnicas: em vez de os reprimir ou negar, como de certo modo, a técnica primitiva preconizava – o caminho será agora dar-lhes liberdade, senti-los e conhecê-los – naturalmente, no seu íntimo, sem os dar a conhecer ao analisando: outra técnica será interpretá-los, como fazendo parte do processo psicanalítico e, nessa medida, usá-los como forma de conhecimento do que o analisando, consciente ou inconscientemente, provoca no interior do analista. Assim se desenvolveu o uso da contratransferência.
E é esta uma das estratégias usadas pelo psicanalista para tolerar o analisando – em vez de reagir, tentar entender, no outro e em si, o comportamento, a comunicação, o afecto, que lhe são dirigidos e que é mister tolerar.
Os limites da tolerância seriam então em nós, os limites da compreensão. Toleramos o que compreendemos.
E quando não compreendemos, a que poderemos recorrer, para alargar a nossa tolerância, e continuar assim a poder ajudar o nosso cliente? Todos sabemos como nos incomoda, culpabiliza, inferioriza, angustia – o não compreendermos o que se passa com um doente que precisa de nós. Sabemos também que é a tolerância a essa dor que nos permite: em primeiro lugar, esperar que a compreensão se torne possível, em segundo lugar, e igualmente importante, mostrar á pessoa a quem acompanhamos, que é possível tolerar o incompreensível, o estranho, o indizível, e a dor.
E assim alargamos, mais uma vez, os limites da nossa tolerância.
Outra ajuda de que dispomos é a experiência da nossa própria análise, didáctica. Esta parte basilar da nossa formação ajuda-nos à tolerância de duas maneiras: uma é do conhecimento que teremos aumentado das nossas próprias dificuldades, falhas, medos, defeitos, avidez, inveja e tantas coisas comuns que na vida social tentamos – educadamente – esconder, dos outros e de nós próprios. Este conhecimento das nossas próprias, chamemos-lhes tolerantemente, fraquezas, prepara-nos para a compreensão de como são e o que sentem os nossos analisandos. Podemos assim identificar-nos a eles, “stand on their shoes”, regra de ouro para a tolerância.
Outra vantagem que a passagem pelo divã nos traz é a da memória – a maior parte do tempo inconsciente – da tolerância que tiveram para connosco os nosso analistas, comparável – salvas as devidas proporções – à dos nossos pais e educadores para connosco. Porque os analisandos, como as crianças, são muitas vezes difíceis de tolerar. A identificação aos nossos analistas torna-nos tolerantes.
Ao fim de muitos anos de experiência, creio hoje – não sei se certa ou errada – que aquilo que melhor me serve na ajuda aos meus clientes, é a tolerância, cujos limites a prática e a vida me levaram a alargar. Aceitar, saber esperar, não julgar, não acusar, não rejeitar – são atitudes que permitem que se faça luz, que haja espaço para pensar, tempo para sentir. Essa atitude quando conseguida, é interna, é autêntica, não é “toilette”, é expectante, não é desistente.
É possível aplicar isto na vida, fora da análise? Creio que sim. Em todas as áreas da nossa actividade, das nossas relações, ouvir, esperar, tentar entender, transformar os nossos impulsos, intolerantes, em atitudes igualmente sentidas mas construtivas – aumenta a nossa capacidade de tolerância, amplia os limites.
Não confundir com conter, suportar, negar – esforços meritórios mas de limites estreitos, por irem contra a nossa sensibilidade, o nosso desejo.
Tentei, através da minha experiência de psicanalista, pensar – como me foi pedido – nos limites da (minha) tolerância. Espero ter contribuído para adiantar algo mais na compreensão dum assunto que requer a nossa análise e a nossa acção. Talvez uma abordagem multidisciplinar possa integrar esta experiência que se passa a dois num gabinete. É evidente, no que tentei transmitir, a minha fé na compreensão. É ela, com o auxílio das regras do “setting”, que torna a nossa tolerância possível, e autêntica.
SUMMARY: Starting with general considerations and quests about tolerance as a mental attitude, we then try to observe and describe, by an exercise of self-analysis, how we exert tolerance in psychoanalytical practice.
KEYWORDS: Tolerance; intolerance; transformation; countertransference; limits of tolerance.