Meu caro Pedro
Conhecemo-nos em 1967, numa das entrevistas iniciais para a minha admissão como “aplicante” na Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Foste um dos três Didactas portugueses com quem para o efeito tive de me confrontar (os outros eram Francisco Alvim e João dos Santos), num processo a que se adicionaram os “internacionais” da Associação Psicanalítica Internacional (API) que regularmente nos visitavam nessa altura e que, com olhos de lince, em francês nos avaliavam.
Regressado duma longa bolsa de estudos em Paris, para onde fora estudar psicofarmacologia mas onde gostosamente me deixara inundar pela Psicanálise que nessas paragens se impunha, conhecer-me melhor, iniciar uma análise pessoal e didáctica, transformara-se num dos meus objectivos vitais. Tentar descobrir as motivações inconscientes correspondia ao que de forma pouco clara havia procurado na Psiquiatria como especialidade médica, numa prática que a breve trecho me decepcionara porque nada propunha a esse respeito e até premiava justamente o contrário: a recusa assanhada duma tal perspectiva.
Dados lançados, nesses trâmites te conheci e instintivamente te passei a respeitar, num conhecimento e numa cumplicidade que o tempo se encarregou de aproximar, de forma cada vez mais rica e pessoal. Rapidamente percebi que por detrás do teu ar de menino bem-educado e aparentemente altivo, residia uma personalidade séria e determinada, aliada a uma profunda capacidade de pensar e de organizar.
Anos depois, foste um dos meus supervisores curriculares para um caso que terminou de forma demasiado apressada, logo a seguir ao 25 de
Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association.
Abril, porque a minha analisanda aderiu a um partido político e resolveu “libertar-se” de forma muito mais gritada, deixando nas tuas mãos um problema de validação. Nesse embaraço foste meu amigo, tal como continuaste a sê-lo em 1983 na altura em passei a fazer parte da Comissão de Ensino da nossa Sociedade e me iniciei nas conversações inter-pares com Francisco Alvim, João dos Santos e contigo próprio, além de Eduardo Cortesão, José Flores, Coimbra de Matos e Mário Casimiro. Sempre pensei que me apoiaste nas elevações de caminho, o que jamais deixarei de te agradecer.
Nessa Comissão pude compreender de forma mais consistente a tua relevância e a tua dimensão no empenho e desempenho da SPP. Quando Alvim, Santos, Cortesão e Flores, na década de oitenta, por razões de ordem final se retiraram, ocupaste naturalmente o lugar cimeiro e aconteceu, em minha opinião, o período de ouro da Psicanálise em Portugal. Consolidada nas suas bases orgânicas e estruturais, ajustada nos seus propósitos e dimensões, a nossa Sociedade já dispunha de condições para que uma solidez funcional se instituísse, mas foi o teu passo elegante e sereno que soube desenhar-lhe os indispensáveis formatos e caminhos. Foste fundamental em tudo isso.
A Comissão de Ensino assumiu, nessa época, uma vincada preponderância sobre tudo quanto dissesse respeito à nossa instituição e aos seus destinos. Constituída durante toda a década de noventa pelos mesmos cinco elementos, personalidades diferentes mas que bastante bem se completavam, activamente fomentou e decidiu. A excepcional competência do Coimbra de Matos, o brilho inesgotável do Amaral Dias, o criticismo perdulário do Mário Casimiro, o meu constante sentido de realidade, sob a tua liderança funcionaram como uma espécie de bem comum. Os cinco colaborávamos discutindo em parceria, apesar das eventuais controvérsias. Desígnios comuns, motivos comuns, a todos comprometiam, consolidando um quinteto suficientemente descontraído para sorrir e brincar, mas também suficientemente tenso para discordar e percutir.
Era a Psicanálise, era o aprofundamento da sua prática, era a divulgação do seu conhecimento, era o cuidado da sua expansão, que nos preocupavam. Todos dispúnhamos doutros interesses, mas ninguém para ali transportava desmesuras competitivas nem desfocagens malparadas, como recentemente tivemos ocasião de verificar. Nada se sobrepunha
à nossa motivação primordial, querelas apenas se alimentavam com o exterior quando este nos provocava ou nos ofendia desmentindo-nos. Ligeiramente mais velho, todos te respeitávamos sem alardes nem alarmes, por razões históricas, científicas e pessoais, em textos e texturas assentes numa fiabilidade primordial.
Sem esforço e sem dependências, quase sem darmos por isso, a Psicanálise tornava-se cada vez mais visível em Portugal. Discreta nas suas afirmações, ponderada nas conclusões clínicas, científicas e culturais, veiculava conhecimentos e fertilizava raízes. Sabíamos afastá-la de racionalismos balofos e academismos de estampa, sabíamos separar as carreiras académicas e outras da sua área funcional, sabíamos manter o movimento psicanalítico no local credível e recolhido em que as pessoas que nos procuram sempre desejam estar. Recusando ruídos, excluindo invasões, evitando presunções, ninguém perfilava aquele espírito de “brasileiro de torna viagem” que mais tarde alguns universitários para ela canalizaram e que acabaria por nos flagelar sem remédio. Ninguém supunha, menos ainda aceitava, as coisas pequeninas que esse mesmo espírito demasiadas vezes transporta e frequentemente exibe nas rotundas onde circula.
Em velocidade de cruzeiro a SPP navegava, valorizada e segura. Membros Titulares e Associados surgiam em número crescente, Candidatos entrevistavam-se em aparecimento contínuo, contactos com portugueses e estrangeiros multiplicavam-se sobretudo com espanhóis e franceses. A API apreciava o nosso desenvolvimento estabilizado, ninguém avalizava terramotos que a pudessem derruir. A Comissão de Ensino, topo da sua organização, até das necessidades protocolares se ocupava. Todos os seus elementos foram Presidentes nesses anos noventa, salvo o Mário Casimiro que nunca tal quis assumir. Com os colegas do Porto, sobretudo com a Celeste Malpique, fui gizando um segundo Instituto de Psicanálise para a minha cidade, cimentado nos desígnios que a todos percorria.
Eram outros tempos, de facto. Ainda nos considerávamos pioneiros, ainda lutávamos contra quem deliberadamente nos omitia, ainda nos conhecíamos uns aos outros e nos estimávamos como grupo, mesmo quando discutíamos. Acreditávamos no que fazíamos, sabíamos que pertencíamos a um nicho que apenas se engrandece se souber compatibilizar-se nas diferenças, frequentávamos a banda larga das actualizações científicas sem correrias nem temores.
O contacto entre nós muito se aproximou entretanto. Paulatinamente nos tornámos amigos. Durante anos tivemos encontro marcado nos verões
algarvios e nos restaurantes da zona da Balaia, com a Maria Amélia e a Marina, encontros mais tarde deslocados para a “praia dos tomates” por influência do António Guterres e da Luísa. Passei pela tua casa em Lisboa, passaste pela minha casa em Gaia, colaboramos em inúmeros eventos científicos, artísticos e coloquiais. Discutindo teoremas, ponderando estratégias, alinhavando futuros, naquele registo afável que sabes propiciar e que neste fim de carreira muito me apraz redigir, sempre nos alongamos sobre os temas que preocupam.
No século XXI, renovações de pessoas e de processos seriam de prever. Mas, estranhamente, algumas mentalizações entretanto surgidas na atmosfera portuguesa também invadiram a nossa SPP, de maneira muito mais vincada na segunda metade desta sua primeira década.
Turbulências e impropriedades invadiram-nos sem medida. Muito para além duma crise de crescimento, insólitas crispações se descomandaram e enfureceram, vociferadas por alguns desses universitários de torna-viagem que acima referia e que entre nós haviam ganho estatuto. Na área da ambição narcísica e da tramitação conflitual, eles muito se haviam treinado nos corredores da faculdade. Atitudes absolutamente mesquinhas, considerações absolutamente destrutivas alcançaram inauditos volumes, espalhando atoardas em terrenos nacionais e internacionais. Simulando virtude, escondendo as suas verdadeiras razões em despropósitos facílimos de exagerar e de conspurcar, ditos e escritos totalmente incompatíveis com a dignidade da nossa história por eles foram desferidos. Gravemente nos ofenderam. Vimo-los crescer, tivemos de os suportar.
Houve quem entrasse em jogos de poder absolutamente inconcebíveis entre psicanalistas, houve quem desembrulhasse traquibérnias e as propagandeasse como verdades inenarráveis, houve quem confundisse a nossa organização com as querelâncias da sua própria interioridade. Houve até quem persistentemente tentasse arrebanhar acólitos para o seu glorioso festim, implantando-lhes silicones de bravura e mobilizando-os por identificação e deslocamento. Muitos utilitários se deixaram na escalada apimentar e conduzir, supondo que o seu momento havia chegado e que finalmente iriam pendurar-se nos ganchos que há muito ambicionavam e doutra forma tardariam ou jamais viriam. Maravilhados, até espingardas contavam na mira do assalto final.
Lembras-te de um dia te ter mostrado, há anos, que no Roster da API só os portugueses se apresentam como professores-doutores? E que os nossos colegas franceses, suíços, ingleses, americanos, espanhóis, brasileiros, argentinos, etc., a tal prosápia nunca se dão, só uns poucos de romenos nos acompanhando nessa pseudo-hierarquização?
Relembro-to agora porque significa muito mais do que no conteúdo manifesto parece. Grande parte do que nos aconteceu nessa mesma postura subsola, em minha opinião. Muito à portuguesa, séculos de condição periférica e de ansiosa submissão em tal simbolismo se gratificam. Foram as omnipotências e as frontarias compensatórias dalguns desses professores-doutores que nos sacrificaram, foram as suas matanças e guerras que nos incandesceram. No seu oriente, só eles contam, nada mais interessa. A liberdade interna e a autenticidade pela Psicanálise preconizada esfuma-se-lhe em grotescas imitações: não entra no filme. Foram os seus deslumbramentos afirmativos, foram as suas cavalgadas sobre os inimigos na pradaria, foram as suas farsantes ambições que nos colocaram na crise que tanto nos abalou. Em plena consciência o fizeram, manchando e denegrindo quanta dedicação e quanta consistência outros se haviam encarregado de erigir e de fazer prosseguir.
Do teu lado, mantiveste a coerência que desde sempre te reconhecemos. Do meu, atingida a idade que há muito considerara limite (em 2004), muito antes do tumulto havia solicitado a resignação de todas as funções administrativas e directivas que na SPP exercia. Mas não pude ausentar-me das grosserias à vista, como tu não pudeste, perante o avanço da espécie de filoxera destrutiva. Ambos sofremos, ambos lutamos, ambos tentamos refertilizar os terrenos danificados e manter-nos leais, intrinsecamente leais, à nossa história e ao desígnio que “eternamente” transportamos e nos transporta.
Sabes, meu caro Pedro: antibióticos e mondas são muitas vezes necessários nas humanas organizações. Quando na sequência de patologias essas mesmas organizações se descompensam, torna-se necessário impedir-lhes o deslisamento para os “mortórios” que no Douro persistem, cem anos depois da filoxera. Como nessa terra abençoada ninguém completamente os removeu, alguns fixaram-se e deletérios continuam. Não podemos permitir que tal nos aconteça.
Nesta hora em que o nosso viço esmorece, novos e combativos elementos relançam créditos e projectos na nossa SPP. Felizmente. Robustecidos pela crise, asseguram caminhos que julgo notáveis para a Psicanálise em Portugal, activamente mobilizados em desempenhos e qualidades. Tenho enorme gosto nisso, tal como certamente contigo se passa.
Venho propor-te que celebremos esse facto, enquanto rememoramos as nossas histórias, as nossas memórias, as nossas vicissitudes. E que, num cantinho especial, acompanhemos o gesto com um Porto dos anos sessenta, provavelmente o período mais ilusório das nossas vidas (make love, not war… lembras-te), por isso necessariamente o melhor.
Lembro-te que 63, 66, 67 e 70 foram anos de excepcional colheita: dos melhores Vintages do século XX. Prometo encontrá-los na minha reserva e partilhá-los contigo, tão breve quanto possível.
Foi um gosto ser teu amigo… é um gosto continuar a ser teu amigo…
Até sempre meu caro Pedro, neste abraço do
Jaime Milheiro
Balaia, Agosto de 2011