Conheci Pedro Luzes em Janeiro de 1963 em Genève quando iniciei, como bolseira da OMS um estágio no Service Médico-Pédagogique (SMP) de Genève, ultimamente prestigiado com a orientação do Professor J. Ajuriaguerra vindo de Paris. Foi um estágio de Psiquiatria Infantil, pois tive oportunidade de seguir o seu Curso dado no Hospital de Bel-Air (Policlínica Universitária de Psiquiatria).
Nessa altura tinha já terminado a minha formação em Psiquiatria e trabalhado com o Dr. João dos Santos e Dra. Margarida Mendo em Lisboa no Hospital Júlio de Matos (IAP).
Fui com a colega M. Mendo, e tivemos oportunidade de ser integradas numa das equipas médico-pedagógicas do SMP, instalada na Clínica Infantil do Hospital Cantonal de Genève. A essa equipa, dirigida pelo Dr. J. D. Stucky, pertencia também o Dr. Pedro Luzes.
De regresso a Portugal muitas vezes troquei impressões com Pedro Luzes que, tal como eu, se queixava do atraso e falta de formação técnica complementar para o diagnóstico e tratamento da criança e na dificuldade em incrementar esta acção em Lisboa. No Porto, em 1964, o panorama era ainda mais desanimador; criei uma Consulta Infantil e, depois, um Serviço de Psiquiatria Infantil, graças ao espírito empreendedor e aberto do Dr. Pimentel das Neves, então Delegado, na zona Norte, do IAP.
Devo dizer, em abono da verdade, que este meu estágio em Genève, embora curto (6 meses), foi proveitoso na medida em que já ia iniciada por João dos Santos (1958-1959), pioneiro nesta área em Portugal. Também ele me sensibilizou para a Psicanálise e me fascinou pela sua forma de entender a criança.
Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association.
Pareceu-me de algum interesse, nesta homenagem a Pedro Luzes, transcrever extractos do Relatório que então apresentei no IAP e que foi publicado em “O Médico” (n.° 686, ). Penso que com este meu escrito, darei ideia do clima e do rigor dessa formação que o próprio Pedro Luzes realizou e que admirava, enquanto permaneceu em Genève, onde fez longa análise pessoal. Pedro Luzes referia-me, com alguma nostalgia, esse tempo e esse Serviço exemplar, onde completou a sua formação em psicanálise de crianças e adolescentes. Esse funcionamento exaustivo, controlado, perfeccionista e quase obsessionalizante parecia dizer bem com alguns traços da sua personalidade. Eu também fiquei fascinada com essa organização suíça, talvez pelo contraste com a desorganização e o amadorismo português nesse campo, que se abria à minha curiosidade. O “desenrascanço português” era alvo de riso e humor nas minhas conversas com a colega Margarida (“onde estão os doentes?”… “a gritaria das salas de espera apinhadas de doentes?”… “Nós somos muito inteligentes… como fazemos diagnósticos ‘certos’ ao fim de 10 minutos, e estes tipos levam semanas para, numa longa reunião de síntese, com tantos exames e tantos técnicos chegarem a uma hipótese!”). Aumentávamos a nossa auto-estima, tínhamos a esperança de que alguma coisa iríamos conseguir! Pareceu-nos que a falta de equipa tão completa como a suíça, desmotivou Pedro Luzes para a Psiquiatria Infantil.
Chegado a Lisboa, Pedro Luzes dedicar-se-á sobretudo à sua carreira de psicanalista, empenhado, com Francisco Alvim, na criação da Sociedade Portuguesa de Psicanálise , da qual será reconhecido e prestigiado fundador.
O SMP pertencia ao Departamento de Instrução Pública de Genebra e era dirigido por Mme. M. Fert, Professora Metodóloga, e pelo Dr. Garrone, Psiquiatra e Director Clínico. Mantinha estreitas relações com a Universidade, por intermédio do Prof. J. Ajuriaguerra, catedrático de Psiquiatria, que ali superintendia na formação dos futuros pedopsiquiatras e psicólogos. Aliás, desde há muito o Instituto Jean-Jacques Rousseau era prestigiado na Europa pela presença do Prof. J. Piaget, na formação de psicólogos e de psicopedagogos. Genebra estava inundada de estudantes de Psicologia e de logopedistas (terapeutas da fala). Escasseavam, todavia, os Pedopsiquiatras.
As atribuições do SMP foram assim definidas :
Assegurar a saúde mental da infância e adolescência;
Readaptação escolar dos alunos e aprendizes;
Aconselhamento médico, psicológico e pedagógico aos Serviços Sociais que se ocupam de crianças e de adolescentes
Formação pós-graduada dos especialistas em Psiquiatria Infantil em colaboração com a Policlínica Universitária de Psiquiatria;
Formação pós-graduada em psicopatologia e psicoterapia infantil dos psicólogos diplomados pelo Instituto das Ciências da Educação (antigo Instituto J.-J. Rousseau);
Formação especializada dos pedagogos de crianças perturbadas;
Investigação científica nos domínios da psiquiatria, psicologia e pedagogia;
Estudo e criação de novas classes especiais.
Quanto às equipas do SMP (5; uma para adolescentes) tinham as seguintes atribuições:
Rastreio e diagnóstico da criança com dificuldades de aprendizagem, feito na consulta externa;
Tratamento psicopedagógico, assegurado por uma rede de Instituições destinadas à reeducação de crianças desadaptadas;
Ensino e investigação.
A cidade de Genebra, então com pouco mais de 250.000 habitantes, estava dividida em 4 sectores e cada criança poderia beneficiar ali de consulta e reeducação.
A equipa em que ficámos inseridas foi justamente aquela em que estava Pedro Luzes, e funcionava na Clínica Pediátrica do Hospital Cantonal de Genebra. Cada uma das equipas era dirigida por um médico pedopsiquiatra (a nossa pelo Dr. Stucky) e constituída por dois psicólogos, uma logopedista, uma assistente social e uma secretária; o pedopsiquiatra devia orientar a reunião de síntese, que se fazia semanalmente, para avaliação esmiuçada da anamnese, dos exames psicológicos, da psicomotricidade e das indicações terapêuticas.
As crianças eram sujeitas a testes de inteligência, de nível escolar, testes projectivos, de organização temporo-espacial e perceptiva, testes da linguagem, testes psicomotores e outros que os psicólogos achassem
necessários. Os psicólogos tinham um papel preponderante na avaliação do caso. O aspecto psicodinâmico era bastante valorizado. Aliás, a maior parte dos técnicos ou tinham uma psicanálise ou estavam a fazê-la.
Pareceu-nos um tanto excessiva a bateria de testes (6 a 10) aplicada em duas sessões, mas é certo que também tinham em vista a investigação. Impressionou-nos sobremaneira o estudo da linguagem pelas logopedistas. Só em Genebra havia quatro sectores de logopedia. Era próxima e assídua a relação com os pais e professores.
A assistente social tinha uma tarefa bastante semelhante àquela que se exercia em Portugal, embora fosse dominante o problema da inserção dos emigrantes, sobretudo espanhóis, italianos, gregos e alguns portugueses.
Dos casos estudados e seguidos em cada equipa era seleccionado um, por ser interessante ou levantar dúvidas, e apresentado ao Prof. Ajuriaguerra, sendo discutido em grupo. Estas apresentações eram muito concorridas pelos técnicos do SMP e estudantes do 3.° ano do Curso de Psicologia do Instituto das Ciências da Educação. A grande atracção era o Prof. Ajuriaguerra, brilhante no seu saber e sui generis no seu sotaque espanhol.
Enfim, poderemos dizer que este estágio foi muito proveitoso e rico em novas experiências, pois visitei com demora muitas instituições especializadas e enriqueci com meios de diagnóstico e reeducação, que desconhecia.
Terá, talvez, interesse falar de Genebra embora, pelo pouco tempo que ali vivi, esteja muito aquém do que o próprio Pedro Luzes viveu e poderia dizer. Aliás, Pedro Luzes sempre falou pouco, e na equipa era tímido e reservado. Foi sempre muito gentil connosco, mas parecia suíço.
Genebra, a cidade menos suíça da Suíça, era uma grande cidade com pouco mais de 250.000 habitantes! Pelo seu movimento, pelo seu internacionalismo, pela sua situação geográfica, Genebra tem as características duma grande urbe. Sede de Organizações Internacionais (ONU, OMS, OIT, etc.), centro de emigração de espanhóis, italianos e gregos, que ali asseguram grande parte da mão-de-obra; caracterizada pela modernidade e luxo das suas lojas, pela rapidez dos seus transportes, pela profusão de espectáculos culturais e pelo prestígio da sua Universidade, chama muitos estudantes estrangeiros e faz lembrar uma capital europeia. Para além da língua, é grande a influência francesa.
Por isso quem só conhece Genebra não fica conhecendo a Suíça, e quase tem a impressão de passar a um país estrangeiro ao visitar as
cidades de língua germânica. E o genebrino não esconde esse capricho de ser diferente – ele é, em primeiro lugar, cidadão da République de Genève e, só depois, confederado helvético. Genebra foi o último cantão a entrar na Confederação Helvética e, ainda agora, o genebrino mantém tradicionais características de fria altivez, polido distanciamento e arreigada fixação a um passado nobre.
Não é com bons olhos que o genebrino vê o aumento assustador da população estrangeira da sua cidade. Ainda que acessível, e de certo modo orgulhoso desse internacionalismo, teme-lhe as consequências: aumento do custo de vida, a degradação da língua, a competição ao nível profissional, os problemas sociais decorrentes da emigração. Os pais não raro atribuem ao multiculturalismo a à heterogeneidade nas escolas as dificuldades de aproveitamento escolar dos filhos. Com efeito, no meio de chineses, africanos, indianos, espanhóis, gregos e italianos, os suíços quase nos passavam despercebidos. É certo que o francês era o meio de comunicação dominante, mas tolera-se o mau francês, a impropriedade dos termos, a introdução de palavras estrangeiras e o sotaque, na certeza de que a língua, instrumento vivo na posse de cada um, é meio de convívio, de transmissão de ideias e de cultura.
Nada nos espanta que o genebrino viva com apreensão esse convívio internacional dos seus filhos, essa deterioração da língua materna, esse choque de culturas. Se juntarmos a esse, o facto de a Suíça ser um país plurilingue, compreendemos como o problema da língua é central em todas as fases do ensino, e é grande a atenção que se lhe dá, pela sua grande repercussão nos campos pedagógico, social e até psiquiátrico. Era esse o motivo dominante da consulta – o atraso escolar dos emigrantes, provocado pela aprendizagem de uma terceira língua (quando não de uma quarta) quando os pais eram de nacionalidade diferente. A este facto juntava-se a desadaptação familiar que a emigração origina.
No que respeita aos profissionais estrangeiros o problema já se põe mais ao nível da comunicação mais diferenciada, como seja fazer psicanálise numa língua que não era geralmente a materna e compreender os pacientes que, ou não falavam francês, ou tinham dificuldade em se exprimir.
Nessa altura estagiavam em Genebra vários psiquiatras portugueses e espanhóis, entre os quais Mário Casimiro e Moreira da Silva, mas Francisco Alvim e Pedro Luzes já lá residiam há mais anos fazendo a sua formação psicanalítica. Em Genebra só tive ocasião de conhecer Pedro Luzes.
Em 1968 decorre em Lisboa o XIX Congresso de Psicanálise de Países de Línguas Românicas, e Pedro Luzes é convidado como seu principal relator, reconhecido pelo seu valor nessa área.
Apresenta então o seu Rapport sobre “Perturbações do Pensamento na Clínica Psicanalítica” e foi aí que teve o seu maior êxito e impacto, pelo desenvolvimento e divulgação que deu à teoria psicanalítica do pensamento de W. R. Bion, psicanalista britânico que, recentemente , havia expresso ideias inovadoras que começavam a ser comentadas nos meios psicanalíticos.
Em Portugal, eram praticamente desconhecidas. Aliás, a Pedro luzes se deve a maior divulgação deste original psicanalista, pois fez diversos Seminários nos Cursos de Formação ao longo dos anos.
Ouvi-o com atenção e orgulho, e neste singelo testemunho quero apenas deixar um breve resumo. Teriam de passar alguns anos para me aperceber da complexidade do tema e de quanto esse resumo o simplifica. O facto de vir a ser publicado permite que o possam comprovar.
O trabalho de Pedro Luzes é exaustivo na descrição das perturbações do pensamento nos quadros neuróticos clássicos e recorre à teoria freudiana das neuroses apresentando um perfil do Eu que se organiza para se defender da angústia pulsional do Id, ou seja da frustração e dor mental. O Eu (e o seu funcionamento) surge com o perfil das suas defesas inconscientes, que em cada um dos quadros neuróticos deixa perturbações do pensamento, sob a forma de lacunas mnésicas ocasionadas por recalcamento, incoerências e irracionalidades resultantes de projecções e de deslocamentos, omnipotência do pensamento, originadas pelo isolamento do afecto das representações e predomínio do pensamento primitivo, mágico e animista. Descreve e foca sobretudo um funcionamento que tenta conter e reprimir a força pulsional do Id enfatizando o Processo Primário.
Classifica as perturbações do pensamento em função de 3 parâmetros: Sentido, Determinismo Psíquico e Insight. Isto significa que em certas neuroses ou psicoses, os elementos necessários à compreensão dos comportamentos ou sintomas a) perderam a sua importância e o seu simbolismo (alteração do sentido), b) foram interrompidos na sua continuidade (quebra do determinismo psíquico) ou c) não podem ser percebidos de forma global (falência do insight). Os mecanismos que conduzem às perturbações do pensamento são numerosos, mas destaca: a clivagem, o recalcamento, a negação e a identificação projectiva.
A génese das perturbações do pensamento depende de condições evolutivas especiais, dificuldades das primeiras relações objectais, impossibilidade de tolerar a frustração ou depressão; excesso de agressividade, de avidez, de sentimentos paranóides. Analisando tais condições genéticas, permitir-se-á ao paciente aceitar melhor a sua realidade psíquica. Diminuirá a tendência para percepções internas erróneas e formação de sintomas (apresenta dois casos clínicos).
O pensamento, segundo Freud, surge para fugir ou contornar a frustração através da realização alucinatória do desejo. Hoje as perturbações do pensamento são mais identificadas como falhas na capacidade de simbolização, como uma pobreza do Eu por excesso de mecanismos de defesa arcaicos (clivagem, identificação projectiva, negação), e essa leitura foi contributo importante de Melanie Klein, Bion, H. Segal, e Rosenfeld, que seguiram na sua prática clínica, casos de psicoses.
A teoria psicanalítica do pensamento de Bion, tal como a de Freud, tem como ponto de partida a frustração. Freud valoriza a realização alucinatória do desejo como forma de superar a frustração, mas o conceito de Bion vai mais longe e considera que o pensamento se origina a partir da ausência do objecto. O não-objecto, a não-coisa, provoca transformações que surgem sob a forma de protopensamentos, pensamentos oníricos, sonhos, que vêm substituir essas não-coisas, pelo “aparelho de pensar os pensamentos”.
Na teoria de Bion há, portanto, transformação do não-objecto em novas formas de pensar, como sejam os pensamentos oníricos, os sonhos, os mitos, as fantasias, que substituem o objecto ausente sem negar a sua ausência. Todavia, a angústia perante a ausência, se é excessiva, é insuportável e o aparelho de pensar os pensamentos fracassa.
Há uma incapacidade de transformar os elementos beta (não representáveis) em elementos alfa (pensamento).
Surge uma realidade nova, um sentimento de omnipotência ou de magia, associada a essa forma primitiva de pensar, que se traduz por perturbações do pensamento (falhas na simbolização, pensamento concreto, equação simbólica, vazio, etc.). Na grelha de Bion regista-se um escalonamento cada vez mais elaborado e abstracto (dos protopensamentos, aos sonhos, mitos, pré-concepções, concepções, conceito, sistemas científico-dedutivo, cálculo algébrico).
A capacidade de pensar (função alfa) resulta, na teoria de Bion, na relação precoce e pela rêverie da mãe ou seja da intuição que lhe permite transformar a angústia caótica do bebé (não representável) numa angústia mais tolerável, por lhe dar algum sentido e representabilidade.
A separação entre Inconsciente e Consciente (Pré-Consciente de Freud) é concebida por uma Barreira de Contacto, activa e dinâmica que permite a permanente transformação dos elementos beta em elementos alfa, ou seja ao estabelecimento da função alfa do bebé, confere-lhe a sua capacidade de pensar.
A qualidade emocional, afectiva, intersubjectiva, mãe-bebé é fundamental na origem da capacidade de pensar. Assim, como a oscilação Ps↔D (posição esquizoparanóide/depressiva) traz um acréscimo de integração e consequente abstracção, no modelo relacional de Continente/Conteúdo.
As perturbações do pensamento dependem, segundo Bion, dos seguintes factores:
Falta de elementos de pensamento (alfa);
Deficiências na evolução do aparelho de pensar os pensamentos, em consequência da impossibilidade de tolerar a frustração ou depressão (Ps↔D);
Impossibilidade de tornar o processo Ps↔D e Continente/Conteúdo reversíveis ou de ocasionar realizações;
Confusão do pensamento com as coisas-em-si (pensamento com abundância de elementos beta). O pensamento perde o seu carácter alusivo e deixa de ter valor de comunicação. As regras do pensamento tornam-se arbitrárias. Os modelos, os conceitos, os nomes são tratados como realidades (esquizofrenia). A génese de um tal estado de coisas é explicável pelas teorias de fracasso da função alfa e pela teoria da clivagem e da identificação projectiva.
As emoções intervêm no pensamento a todos os níveis mas sobretudo em 2) em relação à posição depressiva.
Como vemos as perturbações do pensamento são mais identificadas à psicose, a ponto de Bion considerar uma parte psicótica da personalidade, mais primitiva, e uma parte neurótica da personalidade, cujo funcionamento se aproxima mais das descrições de Freud.
Assim terminamos o nosso resumo, que naturalmente empobrece o texto original (com 116 páginas) mas que aconselhamos a ler.
Porto, Novembro de 2011