A vida é uma doença do espírito.
A nossa vida não decorre livremente na esfera do racional, mas cede à incessante pressão do inconsciente; todo o instante do nosso dia vivo é submergido pelas vagas de um passado aparentemente esquecido.
A homenagem que me cabe fazer, a convite da Dr.a Manuela Ferraz da Costa, à pessoa delicada e gentil do psicanalista Pedro Luzes, autor de textos de Psicanálise Aplicada à Literatura, pressupõe naturalmente o reconhecimento da valiosa contribuição que ele deu aos estudos queirozianos. Esses estudos foram motivados pela enorme admiração por Eça de Queiroz que sempre lhe conheci. Recordo o dia remoto em que me mostrou em sua casa, embevecido, entre outras peças valiosas, o excelente bronze de Gonçalves da Rocha, uma cabeça de Eça que não conhecia e que admirei. Contou-me então que quando jovem liceal visitara com a mãe uma exposição do SNI, no Palácio Foz, onde essa peça estava exposta, logo lhe pedindo que lha comprasse. (3)
Arquitecto e queirozianista.
Recordo ainda o desgosto que lhe dei, e que foi meu também, ao comunicar-lhe que o volume precioso e raro com a colecção da Revista Moderna, que ele adquirira pouco antes num alfarrabista, e que me emprestara, não estava completo. Esta revista ilustrada, de grande qualidade gráfica, com 30 números, foi publicada em Paris entre 1897 e 1899, nela se encontrando colaboração de Eça de grande importância: o texto de apresentação da revista, e ainda, crónicas, contos (entre estes a obra-prima “José Matias”) e parte d'A Ilustre Casa de Ramires.
A leitura que faço dos textos queirozianos de P. L. não pode todavia limitar-se a uma exposição laudatória. Há que incluir nela uma tonalidade crítica, pois nem sempre podemos inteiramente aceitar as conclusões de uma teoria que é eminentemente interpretativa. Esta realidade é confirmada pelo próprio P. L. que claramente a formula, quando nos propõe “uma grande interrogação sobre esta matéria dizendo respeito à impossibilidade de se analisar a transferência do criador ou do autor. Sendo a psicanálise um diálogo entre duas pessoas, em que uma delas conta os pensamentos ou emoções que lhe ocorrem e a outra pessoa interpreta o significado do que lhe está sendo dito, faltaria na leitura uma parte fundamental do diálogo” (4). Com esta transcrição pretendo legitimar uma exposição crítica, naturalmente limitada pelo facto de ser um leigo na matéria.
Quando a Editorial Caminho publicou em 1988, faz agora um quarto de século, o 1.° dicionário de autor em Portugal, dedicado a Eça de Queiroz (5), fui dizendo no prefácio que haveria decerto várias lacunas “resultantes, além do mais, de se não ter encontrado o necessário e providencial especialista” para a variedade enorme de matérias que cabe a uma dicionarização. Tal não foi o caso com Pedro Luzes, convocado para tratar importantes temas, em verbetes estabelecidos por mútuo acordo: Adopção, Incesto fraternal, Morte e Sonhos.
Na Adopção, com perfeito domínio da ficção queiroziana e do essencial da vasta bibliografia que lhe diz respeito, P. L. parte da noção de cessão, que caracteriza sob diversos matizes, como uma “variante de adopção”. Exemplifica então com o caso do padre Amaro, órfão de pai e mãe aos 6 anos, a viver entre as saias das criadas, depois da adopção da marquesa de Alegros, cujo falecimento, pelos 13 anos de Amaro, vai atirar o rapaz para o domínio rude de um tio paterno merceeiro em Lisboa. Dois anos depois entra no seminário, começando assim nova adopção e novo domínio. Desnecessário é comentar as consequências nefastas de um tal percurso na formação do carácter e no comportamento futuro de
Amaro, bem conhecido dos leitores do romance, percurso que acaba na afirmação cínica e desaforada, feita ao cónego Dias no Chiado, aos pés da estátua de Camões, ao ver passar uma jovem: “já as não confesso senão casadas!”…
Façamos aqui uma pausa, para destacar uma observação que P. L. nos proporciona acerca da acuidade da visão queiroziana pois, como diz: “bastantes anos antes de Freud, [Eça] atribui à infância, às relações primitivas com os pais ou pessoas que os substituem, uma influência determinante na formação da personalidade”, e não só no Crime, mas em muitas outras obras, d' O Primo Basílio à Cidade e as Serras, como constata (6). Devo acrescentar a esta reflexão um excerto de suma importância que Eça escreveu, com 27 anos, nos primórdios da sua carreira literária, n'As Farpas de Março de 1872, e que nunca vi comentado: “Na criança, como num mármore branco, a mãe grava: mais tarde os livros, os costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem apagar-se, não se alteram as palavras gravadas”. Poderei completar esta afirmação, dizendo que Eça sabia bem do que falava, e que a ausência de mãe, no seu caso, mais profundamente grava.
Mas é obviamente o próprio Eça, neste verbete, o principal objectivo da análise psicobiográfica de P. L., ao referir que este autor foi por três vezes adoptado, isto é “cedido”, para usar um termo mais ortodoxo: primeiro à ama, em Vila do Conde; depois aos avós, em Verdemilho; finalmente ao internato do Colégio da Lapa, no Porto, e, nessa mesma cidade, aos tios (o casal Albuquerque, cuja figura feminina é Carlota, irmã da mãe). Só após a formatura em Coimbra viverá com pais e irmãos, em Lisboa, no 4.° andar do n.°26, ao Rossio, por cerca de seis anos, com intermitências, até à partida para Cuba onde vai ocupar o 1.° posto consular.
P. L. analisa a repercussão da “cessão” na ficção queiroziana, que percorre e expõe com minúcia, sem no entanto se debruçar sobre um dos aspectos mais peculiares do psiquismo do autor d'A Relíquia, aflorando-o apenas. Tenho frequentemente referido esse aspecto, na esteira do convívio assíduo com a sua obra e com a confirmação obtida através de breves alusões que encontrei em Casais Monteiro, Gaspar Simões e Lúcia Miguel-Pereira (biógrafa brasileira de Machado de Assis) (7). Tal aspecto diz respeito aos mistérios, enigmas e complexidade difícil desse psiquismo, em que avultam ocultações e dissimulações. Para melhor clarificar este tópico vem a ponto dizer, uma vez mais, que a divisa que Fradique atribui a Descartes, Bene vixit qui bene latuit, isto é, vive bem quem bem se esconde, poderia ser, com enormíssima propriedade, a
própria divisa de Eça de Queiroz (8)… E também observo que Fradique é a personagem principal de uma obra póstuma literariamente riquíssima, intitulada Correspondência de Fradique Mendes, espécie de súmula do queirozianismo.
Sonhos é o verbete mais extenso de P. L., que chama a nossa atenção para um tema “pré-freudiano, visto que Freud só irá publicar o seu livro sobre A Interpretação dos Sonhos em 1900”. E justifica-se o desenvolvimento do texto pois os episódios oníricos adquirem uma presença de enorme importância na ficção queiroziana, que vários autores analisaram. Registei 31 sonhos no Suplemento do Dicionário de Eça de Queiroz (Caminho , p. 588), que ora se estendem, na ficção queiroziana, por várias páginas, ora ocupam meia dúzia de linhas, sem que por isso percam em expressividade e inventiva. E é grande a sua diversidade porque são agrupados, no verbete de P. L., sob variada tipologia: sonhos de castigo; sonhos de repetição, sonhos traumáticos e sonhos de salvamento (da água) ou de afogamento. Mais tarde, P. L. viria a mencionar ainda aquilo que George Steiner chamou de sonhos históricos (9) e que se aplica por inteiro ao sonho (ou visão) que Teodorico Raposo teve, em Jerusalém, da Crucificação.
No 2° volume do Dicionário de Eça de Queiroz, na continuidade da sua colaboração, ou seja no referido Suplemento (2000), P. L. irá estudar
o caso das “Americanas” (este o título principal do verbete), ou seja, a relação amorosa do nosso cônsul em Havana com duas jovens que ele conhecera em Cuba e com quem irá namorar nos Estados Unidos. A esta experiência amorosa, P. L. chama de “primeira educação sentimental”. De facto nenhuma delas nos deixou “um retrato fidedigno de Eça”, na sua correspondência, como sugere este analista, apenas acrescentarei que Anna (cujas missivas revelam uma personalidade e um caso psicológico invulgares), deve ter surpreendido o nosso cônsul mergulhado no trabalho criativo, porque em dada carta lhe recomenda: “Take good care of yourself my dear. I think you work too much, for let me advise you one thing. That to live long it is necessary to live slowly” (10).
Um segundo verbete tem como título “A Crise de 1878 e a carreira sentimental de E. de Q.”, entre todos, possivelmente, o de maior alcance especulativo, onde melhor desenvolve a “arte interpretativa”, como Freud pretendia que a psicanálise essencialmente fosse. O 3.° verbete, “A Relíquia e o seu sonho” é, além do mais, uma revisitação muito útil de um romance que a tradição crítica nacional e brasileira desvalorizou, mas que os comentadores estrangeiros continuam a melhor entender e exaltar como obra de excepcional significado.
Em 2001, um ano depois de publicados estes artigos, P. L. edita um trabalho de fôlego: Sob o Manto Diáfano do Realismo, Psicanálise de Eça
de Queiroz (11), onde retoma e desenvolve muitos dos temas anteriormente tratados, trabalho que podemos pôr a par de títulos destacados da bibliografia queiroziana. Interrogo-me agora, uma vez mais, se será completa a sondagem que P. L. nos oferece do psiquismo tão específico de Eça, cujas circunstâncias determinantes chega a caracterizar, mas sem ter explorado, ao que se me afigura, a totalidade da idiossincrasia deste paciente, em função das circunstâncias e condicionalismos determinantes da formação do seu carácter, que como psicanalista bem conhece. De facto, no Capítulo I, “Nascimento, infância, cessões”, P. L. alude a “cedências da criança que é puxada ora para um lado ora para outro, e esta encontra-se muitas vezes colocada entre dois fogos, no centro de rivalidades, de problemas familiares graves, que acabam por se repercutir desfavoravelmente na formação da sua personalidade” (12). Este excerto é deveras importante e certíssimo, mas que efeitos foram o dessa circunstância e dessa repercussão em Eça de Queiroz, efeitos que se nos apresentam de maneira muito evidente, na comunicação epistolar com amigos e contestatários, nas polémicas que travou, na prosa crítica e cronística? Isto leva a questionar: de que modo fez ele a adaptação às circunstâncias, naturalmente adversas e muito duras, do Colégio da Lapa? Que características expressa o seu, à primeira vista, «falso self» (para usar um termo psicanalítico) (13), ou seja, uma personalidade moldada pela realidade que viveu entre a infância e os fins da formatura em Coimbra? Será conveniente anotar que esta designação do self, como modelação específica da personalidade, será negativa (pejorativa até numa acepção mais rigorosa), na medida em que tira, muitas vezes, autenticidade e sinceridade ao seu comportamento. É na escrita que essa personalidade se sublima, como é na escrita que melhor se exprime a sua voz pessoal mais íntima, sendo esta realidade, ao que se nos afigura, ao fim e ao cabo, o que mais importa. E todavia parece-nos fascinante sondar tal personalidade na riqueza múltipla das suas manifestações, que faziam exclamar a Maria Amália Vaz de Carvalho, “Quando se encontrarão de novo, num momento do tempo e num ponto do espaço as misteriosas energias que produziram umas individualidade tão singular!…”
A propósito da conhecida carta que Eça escreve a Ramalho de Montréal (20.7.1873), por ocasião da sua viagem pelos Estados Unidos, onde patenteia alusões, meias confissões, e obscuros vislumbres, acerca da sua vida sentimental muito agitada pelo encontro com as jovens americanas, P. L. comenta: “Fora estas explicações que são típicas das ocultações queirozianas (sublinhado meu), o mais importante é a descrição
que fez, da viagem e dos seus estados de alma“. Ora estas ”ocultações“ que me parecem constituir o cerne da caracterização psíquica de Eça, dos seus vezos dissimulatórios, não figuram na definição de ”psicastenia“ que, mais por diante, P. L. lhe atribui, identificando a sua personalidade (essencialmente nos anos juvenis de Lisboa) com retraimento, timidez, comportamento inibido (superstições), e dúvida, isto é, segundo este analista, ”sinais de neurose que Pierre Janet chamou psicastenia, e que Freud descreve com o nome de neurose obsessiva“ (14). Observe-se, a propósito do termo «neurose», que nós leigos podemos avaliar como sinal de doença retumbante, o facto de ela ser considerada na escala das patologias mentais, porventura a menos grave. O facto de P. L. não ter aprofundado os efeitos desta neurose deve-se talvez a uma atitude de prudência por parte do analista da Psicanálise Aplicada que, obviamente, não poderia colocar no divã o objecto da sua investigação.
É de facto incontroverso que o temperamento supersticioso acompanhou sempre o autor d'Os Maias, que a si próprio no final da vida se caracterizava, como um tímido em carta para sua mulher. Dúvida é igualmente uma constante do seu psiquismo ao pôr invariavelmente em causa, junto dos amigos letrados as obras que ia publicando, o que fez dizer a Lúcia Miguel-Pereira: “Essas incertezas, essas dúvidas sobre a
sua vocação, que patenteiam a profunda sensibilidade desse homem de aparência brilhante e afirmativa, provêm de uma qualidade dificilmente encontrada nos escritores: a humildade de espírito. E esse é um dos traços mais atraentes em Eça de Queiroz (…)“ (15). Acrescente-se a esta abordagem da ”dúvida“, ou, se quisermos, de insegurança, uma observação peremptória e esclarecedora de P. L.: ”A dúvida desempenha um papel tão considerável na doença, que a psicastenia foi designada pelos autores franceses como folie du doute“ (16). Mas não seria completa a análise da ”dúvida“ em Eça, se não lembrássemos que ela corresponde a uma enorme ânsia de perfeição que o leva a reescrever inúmeras vezes um texto e a demorar anos até consentir a sua publicação! Assim foi, nomeadamente, com as sucessivas edições revistas d'O Crime do Padre Amaro; com o enorme labor de reescrita d'A Relíquia; com a gestação de 8 anos d' Os Maias (último romance que publicou em vida, em 1888); com o texto primoroso que dedicou a Antero de Quental, no In Memoriam deste seu amigo (vd. Notas contemporâneas), que reteve durante 5 anos; com as três obras póstumas, que não teve tempo de rever completamente: A Cidade e as Serras, A Correspondência de Fradique Mendes e A Ilustre Casa de Ramires.
Poderíamos aqui dizer que Eça, como Fradique, era “possuído da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas, por meio de formas absolutamente belas” (17).
Em abono da caracterização psicasténica do romancista, P. L. assinala, entre as personagens eivadas de psicastenia, como o “mais perfeito”, José Matias. E já no final da sua obra acrescenta: “A criança enjeitada tem tendência para megalomania, para o sonho e para as fábulas biográficas, recusando sempre a acomodação com o real, de um modo pacífico” (18). Facilmente se pode demonstrar esta caracterização na evolução literária de Eça de Queiroz, na sua passagem do realismo de escola para um paradigma mais fantasista. Mas não será, apesar de tudo, esta noção freudiana de psicastenia um pouco redutora perante a complexidade da alma infantil e perante a esquiva, e tantas vezes paradoxal, diversidade do carácter de Eça?
Talvez conviesse aqui avaliar, dentro dos parâmetros psicanalíticos, as consequências, dos esforços de sobre-adaptação, nas crianças “cedidas”, como Eça, para que se possa mais fundamentadamente sondar, e deduzir por analogia, o interior desta personalidade tão singular, cuja presença fascinava os íntimos com quem convivia. E já mesmo o modo como ele realizava o acto criativo, testemunhado por quem com ele conviveu
de perto, deveria ser objecto de análise psicológica. Com efeito, Ramalho Ortigão, n'As Farpas de Outubro de 1881, diz-nos que o seu amigo Queiroz escrevia “no meio de verdadeiras crises de todo o seu sistema nervoso, numa agitação sibilina, gesticulando, bracejando, passeando no quarto, falando só, chupando cigarros que não acende e acendendo cigarros que não fuma”. Por seu turno Mariano Pina vê-o num hotel de Paris, em 1887, às voltas com A Relíquia, nestes termos: com “nevroses até no estômago” e “torturado por nevralgias horrorosas que lhe corriam todo o corpo fazendo-lhe ranger e estalar os ossos, julguei-o perdido” (…) “a única coisa que o calmou, que lhe fez esquecer a doença, foi passar toda a noite falando, falando, falando literatura”.
As observações deste jornalista parecem espelhar com perfeição o modo de pensar anterior a Freud, supondo as crises criativas de Eça como uma simples doença dos nervos. Estas crises talvez pudessem ser avaliadas como um supremo esforço típico dos sobre-adaptados, ou, melhor dizendo, como um esforço daquilo que me ocorre chamar de esforço de “sobre-valorização”, atitude estrénua para se distinguir e destacar como criador excepcional que viria a ser. Seria esta uma ânsia íntima de compensar o complexo e o trauma da criança cedida, dolorosamente consciente da rebaixa íntima que lhe causou a ausência dos pais na sua educação e talvez até a ilegitimidade.
Logo na “Introdução” do livro que vimos comentando, onde procura psicanalisar Eça, P. L. interroga “sobre o ponto de partida da investigação: a obra ou o artista? Quase sempre o artista é insincero quando fala dele próprio”. Quanto à obra como examiná-la? Pela procura dos “motivos que parecem típicos e recorrentes”, através dos “motivos dominantes”, conceito que, segundo P. L. mereceu a concordância de Freud.
Ao ler pela primeira vez este singrar pormenorizado pela psicologia queiroziana, uma interrogação geral se me levantou que, uma década passada, melhor não poderia reformular senão reproduzindo o que então exprimi no prefácio para que P. L. me convocou: “Nesta avaliação há que distinguir o que de subjectivo poderá nortear a agudeza crítica de um especialista da psicanálise, ao navegar entre o mar de escolhos e baixios de dissimulação, transfiguração e fantasia de um grande artista. Ora é precisamente esta transfiguração pela arte que pode, eventualmente, refractar a visão do analista e dificultar a precisão científica das suas incursões” (19). Mas esta dúvida já não se me depara perante o capítulo IV intitulado “A crise de 1878 e a carreira sentimental de E. de Q.”, no qual P. L. desenvolve uma tese simples e plausível: a de que há um
Eça, até ao seu encontro com a “bela desconhecida de Angers”, com a qual convive, ainda solteiro, entre 1879 e 1884, ou seja, a partir dos 34 anos, e um outro Eça posterior, mais liberto dos cânones do realismo de escola. Este será um Eça mais brando, mais ponderado, talvez mais apaziguado em relação aos seus traumas de infância e à caracterização das personagens femininas, que reflectem problemas provocados pelo seu nascimento ilegítimo e pelo abandono a que o sujeitaram os pais. Deve acrescentar-se que esta inflexão pacificadora não implica de modo algum a revisão das suas posições ideológicas nem do seu criticismo social.
A “bela desconhecida”, segundo P. L. “vai desencadear um movimento sentimental que vai modificar a sua revolta, desespero, solidão, em emoções muito mais positivas e solares que, transformarão a sua personalidade e a sua obra” (20). A concepção d' “A Batalha do Caia”, que não chegou a realizar mas cujo tema claramente expôs, ou seja a invasão de Portugal pela Espanha e as tragédias e violências daí decorrentes: a anarquia generalizada em Lisboa; mulheres violadas por catalões (os dragões de Pavia); a falência dos bancos; o desemprego maciço; insurreições, etc. Este foi, segundo P. L., “o último abalo da luta travada entre impulsos sádicos e cruéis e emoções ternas”. Por fim, ainda segundo este analista, a “bela desconhecida de Angers” reaparecerá na sua ficção como Calipso e Clara. Calipso, no conto “A perfeição”, Clara, n'A Correspondência de Fradique Mendes. P. L. dá por findo este bem construído capítulo ao concluir: “Os pares de amantes são Ulisses-Calipso e Fradique-Clara. Também esses amantes (tal como aconteceu talvez em relação à ”bela anónima de Angers“) devem renunciar, despedindo-se, porque partem (…) para uma viagem muito longa e remota que será como um desaparecimento” (21).
Até à descoberta de Beatriz Berrini, publicada no álbum Eça de Queiroz, Palavra e imagem, em 1988, da que é hoje, por via de regra, chamada a “bela desconhecida de Angers”, de quem tudo se ignora (nome, idade, e até a nacionalidade), considerava-se o encontro e casamento de Eça com Emília de Castro em 1886, o motivo pacificador da sua existência. O aparecimento da bela desconhecida, que segundo P. L. o faz viver uma “experiência emocional correctiva” (22), foi, parece-me, um primeiro degrau que antecipou de alguns anos essa pacificação, e teve talvez o condão de suprimir em Eça o longo sentimento de rejeição do casamento, que veio a verificar-se, de facto, tardiamente, aos 40 anos.
Os trabalhos de P. L. vieram, em última análise, contrariar a tese irreflectida de João Gaspar Simões de um Eça atormentado por conflitos
interiores que o tornariam incapaz de amar, muito embora a apreciação que este psicanalista faz do grande biógrafo de Eça (e de Fernando Pessoa), me pareça, neste particular, de uma indulgência controversa. De facto, logo na “Introdução” da sua obra maior sobre Eça, P. L. sustenta que a biografia de Gaspar Simões “apresenta uma compreensão psicanalítica da vida e da obra de E. de Q. que nos parece ainda hoje intuitiva e válida” (23). Cumpre-me dizer que faço uma leitura desta interpretação bastante diversa.
Este e outros casos poderiam ter sido objecto de fecundas conversas entre nós, e muitas oportunidades se me ofereceram nos nossos encontros. Mas um óbice me pareceu sempre prejudicar esse diálogo, nos termos fluentes, demorados e particularizados em que eu o desejava: a natureza marcadamente silenciosa do meu interlocutor. E cabe aqui interrogar se será este o seu natural modo de ser (dado que há psicanalistas loquazes fora dos seus gabinetes), ou se ele foi moldado pelo uso profissional do silêncio, como técnica porventura eficaz da clínica psicanalítica. Este uso do silêncio, que, mesmo quando praticado pelo paciente, pode ser extremamente significativo e útil para o analista, leva-me a pensar que tal “mudez” se impregnou, se interiorizou, acompanhando o terapeuta após o divã, na sua comunicabilidade do dia-a-dia. O diálogo pessoal com P. L. pareceu-me, deste modo, com frequência, atrevo-me a dizer, uma espécie, quase, de prolongamento do setting analítico.
Mas isto são recordações judicativas conjecturais que me levam a concluir com dizer que P. L., personalidade de trato discreto e amável, senhor de vasta bibliografia na sua especialização, é como queirozianista um muito respeitável e particular exegeta. A sua obra fecunda, neste domínio, aí está como desafio para novas aproximações a essa delicada e difícil matéria que é a alma humana, neste caso uma alma eminente, que é a do excelso autor d' A Relíquia.
A oportunidade que me deu a Dr.a Manuela Ferraz da Costa de poder aflorar os problemas do psiquismo peculiar de Eça de Queiroz numa revista de Psicanálise, suscita-me a esperança de que um especialista possa vir a retomar e desenvolver este tema numa vertente crucial, a da criança “cedida”. A privação dos progenitores na evolução desta criança, portadora de especial sensibilidade e vivacidade, tornam este um caso identificável, de caracterização precisa, que se exprime claramente ao longo da vida e da obra do autor d'Os Maias. Agradeço àquela minha Amiga as sugestões e correcções científicas preciosas com que enriqueceu o meu texto. As imagens desenhadas que acompanham o texto são do arquitecto Rui Campos Matos. A que diz respeito ao sonho de João da Ega encontra-se em Os Maias, Uma Antologia Ilustrada, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, , pp. 12, 123.